ALGUMAS COISAS QUE (DES)APRENDI COM A ARTE


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(Imagem do acervo)

Algumas coisas que (des)aprendi com a arte

  1. que ela está onde aparentemente não está, e que isso provoca deslocamentos importantes na educação;
  2. que ela é um campo em eterno campo, portanto toda e qualquer definição sempre será um erro;
  3. que organizar-se é uma forma de aprender e que ela tem muito a ver com isso;
  4. que ela sempre será política, do contrário não será arte;
  5. que ela poderia ser chamada filosofia, mas isso a filosofia nunca permitiria;
  6. que ainda que seja considerada uma disciplina pelo sistema educacional, disciplina é tudo o que ela não tem, ainda bem;
  7. que ela é uma resposta, mas também uma maneira de perguntar, e que isso pode virar completamente o jogo;
  8. que a pedagogia é transitória ou nunca poderá ser pedagogia, e que isso tem muito mais a ver com arte do que com educação;
  9. que a curiosidade é muito mais interessante que a criatividade; assim como a inquietude vale muito mais a pena que os tranquilizantes;
  10. que é tarefa da educação ensinar um conhecimento capaz de por em cheque o próprio conhecimento, e que a arte pode ajudar nesta tarefa;
  11. que arte e educação são dois campos e não um, e está bem que seja assim, pois é justamente a fricção entre eles que faz com que um e outro sejam ainda mais potentes, não a sua soma;
  12. que os modelos só servem a quem os fabrica, portanto mais do que reproduzir teorias distantes precisamos construir exercícios críticos experimentais, e isso é um outro nome para a arte;
  13. que habitar o desconforto nada tem a ver com as teorias; se o que nos atravessa o corpo é o que de fato nos move no mundo então é preciso por abaixo as teorias iluministas que ainda alimentam nossas escolas e academias.
  14. que não há despatriarcalização sem descolonização; e que se a escola que ser “outro” lugar, precisa ir além do “precisamos pensar e falar sobre isso”.
  15. que não há escola sem rua; conhecimento sem corpo; ação sem calor; educação sem polis; polis sem arte; arte sem educação.
  16. que se habla lo que se siente, não o que se pensa, e que dar-se conta disso pode mudar completamente a nossa noção de educação.
  17. que menosprezar a intuição é um erro brutal em se tratando de educação: aprendizagem é curiosidade e curiosidade é intuição.
  18. que as enfermidades são ocorrências estrategicamente geradas por um mundo perverso empenhado em patologizar o que não conhece, e que a arte é uma das ferramentas mais potentes que temos para desobedecer a tais normas.
  19. que a arte contém os demais campos de uma maneira que nenhum pode contê-la;
  20. e que, portanto, mais que um campo que nos permite aprender, trata-se de um potente estado, lugar, forma e ferramenta que nos possibilita desaprender. Desaprender o que está posto. E isso em 2019 não é pouca coisa.

Por essas e outras é que precisamos de arte na escola, porque ela possibilita à escola coisas que a escola não saberia fazer sem ela.

 

Por Mônica Hoff

(monicahoff@gmail.com)

Artista, educadora e pesquisadora, Mestra em Artes Visuais pela UFRGS e Doutoranda em Artes Visuais pela UDESC. De 2006 a 2014, foi responsável pela coordenação geral do Projeto Pedagógico da Bienal do Mercosul (POA/BR), atuando também como curadora de base na nona edição do evento, realizada em 2013.


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