GRADA KILOMBA: feridas do colonialismo e desobediências poéticas


Esra Rotthoff/Cortesia do Gorki Theatre e do artista Moses Leo/Divulgação

Esra Rotthoff/Cortesia do Gorki Theatre e do artista Moses Leo/Divulgação

Quando Grada Kilomba se pronuncia, barreiras e fronteiras se rompem onde variações de ritmos, cores, sons, pesos, medidas, palavras vão se criando em espaços híbridos entre linguagens que se cruzam, se interpelam, se separam em formas múltiplas e dinâmicas. Palavras nos cortam, nos causam nós, fissuras densas e até mesmo insolúveis em suas encenações, vídeo-performance, palestras, relato, escrita….

Qual conhecimento é reconhecido como tal?

E qual conhecimento não o é?

 

Qual conhecimento tem feito parte das agendas e currículos oficiais?

E qual conhecimento não faz parte de tais currículos?

A quem pertence este conhecimento?

Quem é reconhecido/a como alguém que tem conhecimento?

 

E quem não é?

Quem pode ensinar conhecimento?

Quem pode produzir conhecimento?

Quem pode performá-lo?

E quem não pode?

 

Grada nasceu em Lisboa em 1968, atua enquanto escritora, teórica, psicóloga e artista interdisciplinar. É descendente de angolanos, portugueses e são-tomenses, e hoje vive em Berlim. Possui formação em Psicologia e Psicanálise também em Lisboa. Seu trabalho se desenvolve a partir de dimensões hibridas que unem texto, performance, encenação e vídeo como forma de crítica ao próprio sistema artístico-acadêmico e questões étnico raciais. A artista também leciona em várias universidades internacionais e pesquisa questões de gênero e pós-colonialidade na Universidade Humboldt em Berlim.

 

“Artista interdisciplinar, Grada Kilomba desafia as formas dominantes da produção de conhecimento, ao afirmar que este simplesmente espelha as relações de poder sociais, raciais e de gênero, e propõe a retomada do lugar de fala, da voz negra, que fora silenciada ao longo da história. Que histórias são contadas? Como são contadas? E quem as conta?” (Grada Kilomba: desobediências poéticas – catálogo Pinacoteca de São Paulo).

Fonte: https://www.bozar.be/nl/activities/108633-decolonizing-knowledge

Fonte: https://www.bozar.be/nl/activities/108633-decolonizing-knowledge

São relações íntimas, cotidianas que vão se construindo entre as raízes das memórias e afetações que Kilomba nos transfere,  ‘fertilizando sementes para criação de novos mundos’. Há na produção de Grada esse procurar por tensões para que possamos questionar o que se encontra entre as experiências e zonas subjetivas dos corpos, vozes, gestos, por entre as violências e apagamentos de corporalidades negras. É entre os meandros capitalísticos coloniais onde possivelmente se encontram as feridas, os traumas e dores de estruturas coloniais expostas em peles negras e corpos marginalizados, assim como questiona a artista sobre ‘’Quem pode falar?’’ ‘’Sobre o que se pode falar?’’.

Grada expõe estruturas hierárquicas estéticas e normativas em que corporalidades negras estão constante e institucionalmente submetidas. Os silêncios que Kilomba incita estão presentes no cotidiano de mulheres, homens e crianças negras, assim como as feridas coloniais descortinadas pela artista em várias de suas obras.

Fonte: https://casavogue.globo.com/MostrasExpos/noticia/2019/07/grada-kilomba-tem-1-exposicao-individual-no-brasil.html

Fonte: https://casavogue.globo.com/MostrasExpos/noticia/2019/07/grada-kilomba-tem-1-exposicao-individual-no-brasil.html

A artista adentra as camadas e as entranhas de estruturas patriarcais e coloniais, para se posicionar enquanto força ativa em eclosão, para se comunicar sobre a necessidade de não normalizar a violência e os lugares de exclusão. Como na obra ‘’Plantation Memories’’ onde dirige uma peça-performance em que os atores, todos negros, contam histórias de violências e silenciamentos a que essas corporalidades estão submetidas.  

A performance é baseada no seu livro “Plantation Memories”, recentemente lançado no Brasil, pela Editora Cobogó (Grada KILOMBA, 2019). O livro, fruto de sua tese de doutorado, é originalmente escrito em inglês e foi publicado pela primeira vez em 2008. A obra retrata os meandros do racismo cotidiano relatado por mulheres negras e nos convoca a pensar e repensar sobre colonialismo, sobre alteridade, sobre racismos, sobre conhecimento e linguagem:

“Parece-me que não há nada mais urgente do que começarmos a criar uma nova linguagem. Um vocabulário no qual nos possamos todas/xs/os encontrar, na condição humana” (Grada KILOMBA, 2019, Prefácio).

A artista evoca memórias familiares, onde busca e observa os detalhes, códigos, cenários e símbolos das vivências que teve junto de sua família e as marcas cotidianas do projeto colonial europeu de mais de 300 anos. Grada nos conta sobre o significado da máscara colocada nos rostos de corporalidades negras escravizadas para que não ‘’comessem plantações dos senhores colonizadores’’, onde abre as memórias vivas na psique de sua avó, e entra em camadas bem mais profundas dos significados silenciadores, anuladores relatados em histórias longe de serem meras histórias do passado, histórias que ao longo do tempo continuam silenciadas, mas que ainda permanecem vivas:

A máscara, portanto, levanta muitas questões: por que deve a boca do sujeito Negro ser amarrada? Por que ela ou ele tem que ficar calado(a)? O que poderia o sujeito Negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca selada? E o que o sujeito branco teria que ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o(a) colonizado(a) falar, o(a) colonizador(a) terá que ouvir e seria forçado(a) a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades do ‘Outro’. Verdades que têm sido negadas, reprimidas e mantidas guardadas, como segredos. Eu realmente gosto desta frase “quieto como é mantido” . Esta é uma expressão oriunda da diáspora africana que anuncia o momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravidão. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo.

Grada explora as dimensões de um corpo imerso em um regime capitalístico branco colonial, com diferentes forças ativas e reativas em disputa, onde diferentes composições, concepções e desalinhamentos são criados para dar o lugar do ‘outro’. São mecanismos inconscientes e associações estruturais que dão ao corpo normativo o desejo de aniquilamento de corpos que não correspondem a uma normatividade, para que esse mesmo corpo-norma se mantenha em acesso e direito a vida. As dimensões das problemáticas da palavra ‘’inclusão’’ são atravessadas por um não reconhecimento dos privilégios e lugares de fala-acesso-criação do segmento branco colonial que se vê centrado no seu próprio narcisismo embranquecido normatizante, como reflete a artista em uma de suas obras ‘’ilusões’’ em que evoca o mito de Narciso.

A vídeoinstalação “Ilusões Vol. I, Narciso e Eco”  está presente na primeira exposição individual da artista no Brasil, “Grada Kilomba: desobediências poéticas”, que acontece na Pinacoteca do Estado de São Paulo, de 06 de julho a 30 de setembro de 2019. Nas instalações presentes na exposição, Kilomba:

“recria um cenário de tradição africana de contação de histórias, para revisitar e iluminar aspectos suprimidos do (pós) colonialismo. As histórias universais de Narciso e Eco em Illusions Vol. I e de Édipo em Illusions Vol. II são contadas de modo que os conflitos humanos e políticos que fazem parte da mitologia grega sejam, de fato, interpretados de uma forma descolonizada. Kilomba demonstra como o sistema dominante da produção de conhecimento determina quais perguntas merecem ser feitas; como analisá-las; sob qual perspectiva e como explicá-las. Quem define não só o que é a verdade absoluta, mas também em quem acreditar e em quem confiar?” (Jochen Volz, apresentação catálogo Desobediências poéticas).

 

As perguntas cortantes de Grada Kilomba ressoam fortemente no trabalho que temos feito em nossas escolas e salas de aula. Preste atenção nos livros, nas leituras propostas, nas imagens mostradas, nas verdades reforçadas: “De quem é esse conhecimento? Quem é reconhecida/o com alguém que possui conhecimento? E quem não o é? Quem pode ensinar conhecimento? E quem não pode? Quem está no centro? E quem permanece fora, nas margens?”

 

 

Referências:

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogá, 2019.

Pinacoteca de São Paulo. Grada Kilomba: desobediências poéticas. São Paulo: Pinacoteca de São Paulo, 2019.

 

Saiba mais:

https://ponte.org/grada-kilomba-o-racismo-e-o-deposito-de-algo-que-a-sociedade-branca-nao-quer-ser/

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/04/01/flip-2019-anuncia-grada-kilomba-autora-de-memorias-da-plantacao-episodios-do-racismo-cotidiano.ghtml

https://www.geledes.org.br/autora-e-autoridade-da-propria-historia/

“O Brasil ainda é extremamente colonial” : https://www.geledes.org.br/o-brasil-ainda-e-extremamente-colonial/

“O colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada. Dói sempre, por vezes infecta, e outras vezes sangra” : https://www.geledes.org.br/o-colonialismo-e-uma-ferida-que-nunca-foi-tratada-doi-sempre-por-vezes-infeta-e-outras-vezes-sangra/

”Quem pode falar?” : http://www.pretaenerd.com.br/2016/01/traducao-quem-pode-falar-grada-kilomba.html

Texto e pesquisa por Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão por Maria Céu Rocha e Luciana Gruppelli Loponte

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>