Coletivo ADENTRO: pontes e pinguelas da arte entre a cidade e as comunidades do interior


 

Tiveram que campiar mais pra adentro, viram que não tem lugar muito exato se a gente se move.

Foram perguntando, se perguntando, parando de casa em casa, demorando de pessoa em pessoa.

Ao procurar alguém que conheça, talvez a gente se conheça…

Será que estamos muito longe dela, longe de encontrá-la, longe uns dos outros?

Tem vez que é difícil o acesso. Mas é que nem copo d´água, não se nega a ninguém.

A gente tem que propor uns desvios, cortar caminho, pegar uns atalhos, abrir umas porteiras.

Qualquer coisa, se cair na valeta, a gente chama todo mundo pra ajudar a empurrar. Estamos nuns quantos!

Sempre-reto, pede informação, o caminho: segue todavida, como essa toda vida aqui vivida… até encontrar, e se for preciso, inventar, uma arte que seja repleta de vidas.

 

 

Lavoro & Prosa, 2019. Fotografia do artista Cezar Zanin

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De quantos pés se faz um caminho de Guavirova?, 2019. Intervenção com espelhos. Fotografia da artista Sonia Loren

Sem título, 2019, Fotografia da artista Cristina Luviza Battiston

 

A Adentro – Associação de Artistas Visuais do Oeste de SC é um coletivo de artistas autogestionado, criado em 2010 em Chapecó, cidade localizada no extremo-oeste de Santa Catarina. A iniciativa de trabalhar com arte contemporânea coletivamente partiu da inquietação inicial que muitos artistas locais partilhavam, de que suas práticas haviam se tornado individualistas e competitivas entre si, o que enfraquecia a classe porque causava uma disputa pelos escassos espaços de arte existentes, ao invés de reunir uma luta pela ampliação e democratização deles.

O desejo de que as artes visuais em Chapecó não ficassem restritas à meras apresentações de obras nas exposições em galerias, locais de acesso quase exclusivo de públicos especializados da área, com baixa interação do restante da população, foram outras motivações responsivas ao contexto e que advinham de uma autocrítica feita pelos artistas ao seu papel social, às pontes ou cerceamentos que estavam criando entre a arte e o público. Era premente a necessidade de inventar seus próprios espaços, de estar juntos como estratégia de ação e de compartilhamento.

Desde as adesões de artistas que vem caminhando juntos nos quase dez anos desde a fundação da Adentro, até outros que participaram apenas por algum período, entre desistências e muita insistência, o grupo foi se modificando ao longo desse tempo, sempre em atividade.

Atualmente resiste como coletivo do qual participam Sonia Loren, Cristina Luviza Battiston, Cezar Zanin, Leonice Araldi, Luisela Cansian Pelizza, Nathalia Vieira, Tania Stempkowski. Artistas estes com formações multidisciplinares e em diferentes estágios de suas produções. Esse diálogo entre diferenças existe também nas linguagens que cada um explora e se estende aos intercâmbios feitos com colaboradores externos como instituições, professores, curadores, pesquisadores, outros artistas e pessoas dos círculos afetivos dos participantes que, ao acompanhar os esforços do grupo, foram se tornando parceiros.

Coletivo Adentro

Coletivo ADENTRO em 2019, em uma das visitas às comunidades do interior. Luisela Cansian Pelizza, Nathalia Vieira, Sonia Loren, Leonice Araldi, Cezar Zanin, Tania Stempkowski, e Cristina Luviza Battiston.

 

Depois de exposições coletivas nos principais espaços de arte de Chapecó, a Adentro passou alguns anos focada em expor seus trabalhos “fora” de sua cidade, para mostrar e submeter a produção local ao crivo dos nichos considerados “dentro” do grande circuito do estado (como Museu de Arte de Blumenau/MAB (2012), Museu de Arte de Joinville/MAJ (2014), Galerias do SESC em São Bento do Sul/SC e Jaraguá do Sul/SC (2015) e até em intercâmbios internacionais) além de participações individuais dos integrantes com incentivo e auxílio do grupo. Aos poucos, os artistas da Adentro foram percebendo que o espaço conquistado no sistema formal de exposições e editais os tornara expoentes da arte “conhecidos”, os legitimara “artistas”.

No entanto, ao invés de seguirem a mesma lógica de exibir suas produções cada vez mais ao olhar externo, o grupo sentiu necessidade de voltar-se para o micro, mirar seu próprio sítio. Desterritorializar as “divisas” borrando fronteiras territoriais centro-interior que tantas vezes se colocavam como limites para sua arte. Foi este um deslocamento inicial quanto ao fluxo normal de servir às hierarquias de um sistema das artes hegemônico, ao qual a maioria dos artistas direciona seu foco, ou de se conformarem em serem incluídos sob um rótulo de excentricidade. Através da Adentro, esses artistas de Chapecó situados “fora” do circuito, haviam feito participações que os incluíram nele e era hora de fazer uma inversão, voltar-se para aquilo que, em si mesmos, podia estar sendo deixado de fora.

Os desvios que o coletivo fez quanto às estradas já delimitadas dos espaços físicos tradicionais de visibilidade, mostram o que a artista e pesquisadora Claudia Paim identifica, em sua pesquisa sobre iniciativas artísticas em grupos na América Latina[1], como “desobediência e resistência em relação a apropriações fáceis e sem reflexão”. Para ela, é característico dos coletivos que eles “provoquem e levem a pensar sobre as paisagens conhecidas ou então a tomar delas uma consciência renovada e alterada”. Operando “desterritorializações”, promovem questionamentos do lugar comum através da “saída de um lugar demarcado pela transposição de suas fronteiras” para então interessar-se em investigar “ o que está dentro e o que é mantido fora.” (PAIM, p. 57, 2012).

Desse pensamento voltado para o “micro”, surgiu a proposição de trabalhar com as comunidades que os grandes “centros” costumam chamar de “lá fora”, mas que, da perspectiva urbana de Chapecó é demarcada como pertencente ao “interior” do município. Um olhar para a própria região através de “micro residências” foi priorizado nas ações poéticas do grupo.

A primeira experiência nesse sentido foi possível através do Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas do município de Chapecó, em 2015, com o projeto “Entre pontes e pinguelas – Micro residências em comunidades do interior de Chapecó”, executado de julho de 2016 a abril de 2017. Nela o grupo promoveu interações fora do núcleo urbano, com as comunidades de Sede Figueira, Linha Caravaggio e Distrito Bormann, produzindo obras e registros poéticos em imersões a critério de cada artista, documentando experiências, promovendo oficinas e palestras sobre os resultados, com intuito de resgatar fazeres e saberes locais, incentivar a formação de público, a produção e a difusão das artes em Chapecó. Pode-se ver um pouco do projeto realizado na publicação disponível aqui.

No ano de 2019, com as sementes em mãos, o grupo preparou novos terrenos e foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Artes Visuais – Periferias e Interiores com o projeto “Entre pontes e pinguelas: estrada adentro, mundo afora.” O resultado das micro residências artísticas inter-rurais, em busca de saberes, fazeres, personagens, curiosidades, paisagens e arquitetura das comunidades periféricas de Chapecó, foi reunido em uma publicação disponível aqui.

Trata-se de obras visuais, registros das ações e escritos de artistas como relatos de experiências advindas de uma imersão conjunta realizada de dezembro de 2018 a junho de 2019 nas comunidades de Rodeio Bonito, Linha Tafona, Faxinal dos Rosas e Linha Cachoeira.

Um trabalho de campo que contou com visitas, conversas com os moradores, passeios entre as paisagens, participação em eventos locais, oficinas com os grupos e a devolução dos resultados sob forma de uma exposição realmente coletiva itinerante nas quatro localidades, de expografia não convencional adaptada aos espaços da comunidade (salões comunitários e ao ar livre) da maneira que pudesse ser mais convidativa ao público local.

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Um senhor observa a exposição realizada no salão da comunidade.

Uma talagaça de quinze metros advinda de proposições da artista Leonice Araldi, acompanhou todos os momentos como objeto coletivo onde todos os participantes interagem e se tornam autores deixando suas marcas.

A comunidade pode se relacionar com os trabalhos da exposição itinerante

O livro, entregue em todas as comunidades participantes, compôs-se como um instrumento poético e político de afirmação da importância da atuação coletiva em arte, ainda repleta de desafios no porvir, e também constituiu uma pequena mostra da riqueza cultural do ambiente rural, onde os moradores também aparecem. Uma exposição “mundo afora” de infinitos mundos do interior.

Uma visível transformação na prática artística desses sete artistas a partir dessa experiência se apresenta como processo formativo desse projeto e da existência do grupo. Também, de grande impacto sobre noções de arte, tanto para as comunidades do interior de Chapecó, quanto para o núcleo urbano dessa cidade foi percebido.

No livro cada artista escreve sobre suas vivências.

“Senti, pelas histórias e causos, que as raízes fincadas aí hão de tecer com os fios coloridos da arte, histórias para a vida. Me senti pertencida a este lugar.Pela ponte da arte e relacionamentos construídos, as vivências nas quatro comunidades foram de aprendizado, contemplação e um estado particular de devaneio. ”  Leonice Araldi

 

 

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Oficinas com participação de mulheres e crianças da comunidade

 

“Quando fazem trocas de chás entre as pessoas da comunidade, isso é feito passando uma energia de amor ao próximo. Essa troca eles fazem com sementes, alimentos, saberes e fazeres.”  Tania Stempkowski

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Filó e Colheita de Ervas, 2019. Pinturas em acrílica sobre telas da artista Tania Stempkowki

 

 

“As vivências afetaram, afetam e afetarão minha vida e meu trabalho com arte. Este andar por entre pontes e pinguelas me levou a colocar indivíduos, diferentes etnias, pensamentos mestiços como personagens no meu trabalho artístico. Constituem-se, portanto, na representação mental de um objeto concreto ou virtual, (sem efeito real), uma relação intrínseca entre novos e velhos hábitos de vida e que se fazem presentes em meu fazer artístico. Ouso dizer que essas vivências possibilitam um interessante diálogo entre o tradicional e o contemporâneo.” Cezar Zanin

 

Momentos de lida no campo na obra Lavoro& Prosa, 2019. Fotografia e intervenção digital do artista Cezar Zanin

Momentos de lida no campo na obra Lavoro & Prosa, 2019. Fotografia e intervenção digital do artista Cezar Zanin

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Tempo de lazer no jogo de baralho na obra Lavoro & Prosa, 2019. Fotografia e intervenção digital do artista Cezar Zanin

 

 “Eu sou e sempre fui da “cidade grande”. Ter a oportunidade de viver outras culturas, outros trejeitos, outros pensamentos, outros julgamentos, outros olhares, outras paisagens, enriqueceu meu repertório artístico e minha alma foi tocada por histórias de simplicidade e amor: pela família, pela comunidade, pela história de seus antepassados, por uma carga de solidão e abandono.” Nathalia Vieira

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“Liberdade”, “O que te cerca?”, “Entre, por favor”, 2019. Pinturas de Nathalia Vieira

 

“Tem um banco de madeira que coube todo mundo para uma foto. E cuca sovada, quentinha… uma delícia! Tem moradora que fez questão de bordar a talagarça no dia em que o nosso grupo a ajudou com um problema no carro. Histórias ensinadas…”  Luisela Cansian

 

 

 

“Levar as pessoas à interagir com as escadas umas das outras, estimulando uma interferência e fazendo-as ver além do real, uma possibilidade de ser de outro lugar, mesmo estando em seu habitat.”

Cristina Luviza Battiston

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Intervenção de fotografia da escada na própria escada, 2019, da artista Cristina Luviza Battiston

 

“Seguimos entre caminhos, silêncios e poesia. Pra que lado agora? Entre…” Sonia Loren

 

Coletivo Adentro     Coletivo ADENTRO refletido no trabalho da artista e presidente do grupo, Sonia Loren.

Coletivo ADENTRO refletido no trabalho da artista e presidente do grupo, Sonia Loren.

 

A experiência desses sete artistas, desse coletivo, da ADENTRO, nas micro residências em comunidades do interior de Chapecó é de inclusão e identificação com o espaço em que “residiram”. Ver e mostrar “o mesmo ao mesmo” para que se possa enxergar diferente, e enxergar as diferenças, abriu muitas frestas na complexidade que é olhar para aquilo está muito perto, enredar-se no que significa ser “o outro” e em todas as problemáticas e aprendizados dessas trocas.

Modos de vida e sensorialidades de suas infâncias reconhecidos, o susto de sentir a distância dos hábitos citadinos, as múltiplas concepções de arte e do que é e pode ser um artista, a necessidade do trabalho coletivo em muitas instâncias foram alguns dos encontros e colisões dessa micro residência.

Sem dúvida, os artistas ampliaram seus campos ao “sair a campo” esparramando definições de artístico, sendo afetados, coletando novos modos de fazer e perceber a arte – as artes – os quais os acompanharão daqui para frente ou pro lado que forem. Aprendendo com as comunidades interioranas a ser coletivo, a cultivar relações, essas obras e práticas que nasceram juntas, por caminhos convividos, certamente ainda pegarão muita estrada.

 

[1] PAIM, Cláudia. Táticas de artistas na América Latina: coletivos, iniciativas coletivas e espaços autogestionados. Porto Alegre: Panorama Crítico Ed., 2012.

 

 

Que modos coletivos de ser artistas podem ser aprendidos com as comunidades do interior?

Como aprender a trabalhar coletivamente em arte e em educação?

 

Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto

Edição e revisão: Luciana Gruppelli Loponte

Mais links sobre o grupo:

https://www.instagram.com/coletivoadentro/?hl=pt-br

https://www.facebook.com/adentroarte/

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