Ainda sobre o futuro: fazer outro mundo neste mundo


O ‘futuro’ a que se refere o título deste texto, retoma e dá continuidade ao texto anterior sobre o projeto Postais para o Futuro.

 

 

Falar em futuro, no contexto que estamos vivenciando, é certamente um desafio. A sensação de viver em regime de isolamento social/quarentena em função do estado de pandemia provocado pelo novo Coronavírus, é a de que o tempo entrou em suspensão – a maior parte dos planejamentos para o ano foram cancelados ou adiados, não podemos encontrar nossos amigos e familiares e não temos a mais remota ideia de quando poderemos retomar nossas atividades e transitar com tranquilidade pelos espaços públicos. Vendo as infinitas projeções dos ‘especialistas’ sobre os próximos meses mudarem a cada dia, a única coisa que sabemos é que nada voltará ao ‘normal’ tão cedo. Ou melhor, que devemos abrir mão o quanto antes de qualquer expectativa por uma ‘normalidade’, pois talvez seja esse falso senso de estabilidade que tem nos levado, enquanto sociedade, à beira do abismo.

É certo que nunca soubemos verdadeiramente o que esperar do amanhã, mas os inúmeros compromissos e demandas a serem cumpridos nos mantinha ocupados o suficiente para não pensarmos demasiado nisso – ou em uma escala tão global. Agora, no meio de uma crise sanitária de dimensões jamais vistas, um grande ponto de interrogação se instaura:

Trata-se somente de uma completa incerteza ou de uma ausência de futuro?

Olhando para os alertas de alguns pesquisadores do campo dos estudos ambientais, percebemos que essa crise faz parte de um cenário muito maior de alterações climáticas e mutações ecológicas em curso há séculos. Como aponta Latour[1], temos boa probabilidade de ‘sair’ da crise do Coronavírus, mas não do contexto que a sustenta. Estamos diante de um acontecimento limite: ou mudamos drasticamente o modo como nos relacionamos com o mundo, ou não duraremos muito nele.

 

Se há muito tempo já havíamos abandonado um ideal de futuro redentor e utópico, ainda não tínhamos enfrentado as possibilidades de um futuro tão distópico quanto o que se abre no agora de modo tão difundido. O que significa, portanto, deixarmos concepções de docência, formação, arte e ensino para um porvir tão incerto? Se tudo o que se pode fazer a respeito de acontecimentos como esse parece sempre tão pouco e tarde demais, como fazer do presente a afirmação de um futuro outro?

 

Viver uma pandemia tem nos lembrado que não é necessariamente a fragilidade da Terra ou do meio ambiente que está em jogo, mas sim nossa fragilidade[2], a nossa chance de existência neste mundo. É preciso, portanto, inventar outras estratégias para nele permanecer, multiplicar as formas de ser no mundo, imaginar outras práticas que reformulem as dinâmicas de destruição enraizadas nos mínimos aspectos do nosso cotidiano. Como aprendemos com Deleuze, pelas palavras de Peter Pál Pelbart[3], a única resistência digna ao presente é a criação.

 

Se o futuro se faz hoje, que germens de amanhã estamos criando neste exato momento?

 

Como vimos no texto anterior, o projeto Postais para o Futuro não se dirige a um futuro único e/ou distante, mas possibilita que a cada postal, novas linhas de contingência se desenrolem no presente de quem o cria e de quem o recebe.

Inspirados por essa experiência, como podemos – no presente – ocupar o futuro com outros rearranjos, em consonância com a perspectiva da arte como ensaio de outros modos de existir e de uma formação docente de-formativa, diante de um presente tão alarmante?

 

 

Notas:

[1] Disponível aqui: <https://n-1edicoes.org/008-1>

[2] Para saber mais: <https://www.tramadora.net/2020/03/22/coronavirus-como-a-intrusao-de-gaia/>

[3] Disponível aqui: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/12/03/mais!/22.html>

 

Cristian Poletti Mossi (cristianmossi@gmail.com) é professor do Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando também como docente no Programa de Pós-Graduação em Educação dessa universidade (linha de pesquisa Arte, Linguagem e Currículo). Investiga possíveis articulações entre processos de criação, docência e pesquisa em Arte e Educação. É vice-líder do Arteversa.
Carolina Kneipp (carolinagkneipp@gmail.com) é estudante de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, integra a equipe educativa da Fundação Iberê Camargo, e é bolsista de Iniciação Científica orientada pelo Prof. Cristian Poletti Mossi. Interessa-se pela produção de fricções entre arte-educação-mediação-antropologia-filosofia-etc. É membro do Arteversa.

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