Pandemia e Arte: resistência frente ao novo coronavírus


Há mais de 380 dias vivemos em um mundo paralelo. Diante de novos padrões, protocolos e condutas tão duramente impostos por essa incontrolável realidade da pandemia, muitos de nós isolados e saudosos, procuramos maneiras de amortecer a queda até essa realidade sombria e, assim como em tantos momentos onde a humanidade precisou de alento, a arte produz um lugar de acolhimento e sobretudo, percepção desse novo universo, das suas complexidades e da sua poética.

Em paralelo, essa grande pausa do mundo antigo, chamado de normalidade, afetou enormemente o circuito cultural. Talvez os mais afetados, sejam os artistas, com meios escassos de expor ou apresentar seu trabalho em uma conjuntura que já sucateava o financiamento de iniciativas voltadas para a cultura no Brasil. Em meio a pandemia, surgiram  iniciativas como o Covid Art Museum (@covidartmuseum) e o Museu do Isolamento (@museudoisolamento), na rede social Instagram, a fim de dar espaço a arte que “emergia do isolamento.”

Criado logo no início do isolamento pelos catalães Emma Calvo, Irene Llorca e José Guerrero, o perfil Covid Art Museum ressignifica o sentido de arte como mera válvula de escape e revela múltiplos sentidos para a produção artística em momentos críticos. 

Desde então, vem se constituindo como um espaço expositivo virtual com potencial artístico de ler os nossos tempos, por vezes reler obras clássicas com olhares contemporâneos, propondo críticas e reflexões sobre a Covid. 

Há critérios de curadoria levando em consideração a temática da obra de arte e uma breve descrição, na qual geralmente o artista revela a motivação e  angústias que levaram à produção da obra. O museu recebe inscrições de participantes de todo o mundo.

Uma rápida passada pelo perfil sitiado na conta do Instagram @covidartmuseum, é possível perceber essa necessidade de decodificar esses novos signos surgidos com esse mundo pandêmico: máscaras, luvas, álcool em gel, uma assepsia que até então se restringia a ambientes hospitalares e se tornou um novo adorno para o cotidiano. 

A urgência do toque, da saudade, e da interação tão inerente a todos nós, animais sociais, tem grande apelo nas imagens enviadas pelos artistas que refletem os desdobramentos do contato. 


“Socially distanced runway shows” de Jacquemus (@jacquemus)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CJT4WKxjobn/

Pensando nessa carência de contato, houve também a transferência da realidade para as telas. O trabalho, o lazer e a vida social voltaram-se à realidade virtual. Em meio a essa realidade tão distorcida das redes sociais, o CAM traz a essa realidade sintética o espaço expositivo com todo o seu potencial poético para conduzir a identificação com outrem, tão necessária nesse momento em que nos encontramos tão cansados e isolados.

Em paralelo, demandas e outras urgências transpassam a realidade de todos os lares. O negacionismo governamental, a desigualdade e a economia em colapso ainda orbitam sobre nós brasileiros que vivemos um isolamento em tantas facetas: Isolados entre nós, em nossos lares: isolados do mundo que avança na vacinação e vislumbram um fim a essa realidade tão dramática.

“Will they lead us to a new Reinassance” de TV Boy (@tvboy)
Disponível em: http://www.instagram.com/p/CKjPdLAj7Pp/

Sem título, Maria Scarabello (@marilia_scarabello)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CPScf9aDE4i/

Envolto dessa realidade tão única que vivemos como país, tivemos o surgimento do perfil Museu do Isolamento (@museudoisolamento) na rede Instagram, que tensiona com pautas e sentimentos que transpassam todas essas esferas borbulhantes e caóticas de ser brasileiro.

Arte feita por Keila Okubo (@keilaokubo)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/COJQ8lNnz7U/
Arte de Julia Mendes (@artecolei).
Disponível em: https://www.instagram.com/p/COTbYKGHAJz/
Alexis Mckeown (@alexismckeown)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CKY_Nw2jV-T/

Com o objetivo de democratizar o consumo de arte em território nacional, a idealizadora Luiza Adas idealizou o Museu do Isolamento a fim de abrir portas e projeções para artistas brasileiros. Foi na falta da estrutura tradicional de museus, fechados na pandemia, que Luiza resolveu abrir um espaço não só para temáticas pandêmicas, mas para os desdobramentos e visões de mundo que surgem dia após dia enquanto vivemos essa realidade. 

E quanto à solidão docente? A profissão que nasce tanto do contato e da troca se viu envolta de privações e exigências. Descrito como um “Diário poético de profs da ed. Básica que queiram refletir artisticamente sobre esse momento de incertezas” o projeto Arte em tempos de pandemia (@arteemtemposdepandemia) é um espaço para professores partilharem objetos e ações artísticas que ajudem a refletir sobre a situação dos professores nesse momento. A ideia do projeto é de Janaina Russef e busca constituir um arquivo desde as perspectivas de educadores que podem enviar suas criações e manifestos para publicação na rede Instagram. 

Alguns trabalhos mostram ações que remetem ao universo escolar, usando-se de símbolos da prática docente muitas vezes transpostos para o ambiente da casa e apresentados dentro de subjetividades de cada professor. 

Profissão docente. (@janarusseff)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CD2HejgpaRR/

Série: Impressões de um(a) professor(a) na pandemia – Na esteira do projeto de educação pós pandêmico. (Alice Stuart)

A multiplicidade de sentidos e lugares que a arte pode tocar é revelada nesses projetos de curadoria: um condutor para aliviar a saudade, um mecanismo de denúncia e registro e principalmente uma maneira de decodificar esse indizível que compõe esse momento.

Assim, pouco a pouco, aterrissamos nesta nova realidade tentando assimilar esse sentimento coletivo de luto e de saudade. Além de suas enormes potências poéticas, o agrupamento dessas imagens tão potentes tornam-se uma janela dentro de um ambiente tão artificial como as redes sociais: a consciência coletiva que, mesmo em um país que insiste em políticas genocidas, constitui uma parcela de nós, calejada, cansada e saudosa, mas ainda juntos, mesmo que separados.

Série: Qual o lugar da Arte na escola?⁣ (@renata_sicilianoesposito)
Disponível em: https://www.instagram.com/p/CCUFr24pY_n/

Que outras iniciativas artísticas surgidas na pandemia podem servir de exemplos potentes para pensarmos as transformações da arte no momento atual?

De que maneira o espaço virtual se torna um espaço expositivo possível?

Quais potencialidades e problemas da arte disponíveis nas redes sociais podem ser debatidos em sala de aula?

Texto e pesquisa: Estela Böckmann

Edição e revisão: Diane Sbardelotto e Luciana Gruppelli Loponte

Referências

VÍDEO- Art made in adversity: www.youtube.com/watch?v=mo JtX5kZQig&ab_channel=TheArtAssignment

O LUGAR DA ARTE EM TEMPOS DA COVID-19 : http://repositorio.unesc.net/bitstream/1/7818/1/O%20lugar%20da%20arte%20em%20tempos%20da%20COVID-19.pdf

Reportagem do Correio Braziliense: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2020/06/24/interna_diversao_arte,866445/projetos-abrem-espacos-on-line-para-trabalhos-surgidos-na-quarentena.shtml

A ARTE E A CULTURA EM TEMPOS DE PANDEMIA: OS VÁRIOS VÍRUS QUE NOS ASSOLAM: https://www.revistas.usp.br/extraprensa/article/view/170903

Museu do isolamento: https://www.instagram.com/museudoisolamento/

Covid Art Museum: https://www.instagram.com/covidartmuseum/

https://interactivadigital.com/empresas-y-negocios-marketing-digital/covid-art-museum-estrena-web-y-exposicion/

https://revistaglamour.globo.com/Lifestyle/Cultura/noticia/2021/05/museu-do-isolamento-quero-falar-sobre-arte-de-uma-forma-mais-democratica-e-acessivel-diz-luiza-adas.html

OUTRAS INICIATIVAS:

Cartas pandêmicas: https://www.cartaspandemicas.com/

Performance Quase-Oração: https://www.instagram.com/quaseoracao/