﻿{"id":1603,"date":"2018-09-21T13:52:10","date_gmt":"2018-09-21T13:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=1603"},"modified":"2019-12-19T12:07:16","modified_gmt":"2019-12-19T12:07:16","slug":"por-que-falar-das-formas-expressivas-indigenas-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/por-que-falar-das-formas-expressivas-indigenas-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Por que falar das formas expressivas ind\u00edgenas nas escolas?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/2_1_rodadetetowayanaII.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1608\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/2_1_rodadetetowayanaII.jpg\" alt=\"2_1_rodadetetowayanaII\" width=\"757\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/2_1_rodadetetowayanaII.jpg 757w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/2_1_rodadetetowayanaII-300x190.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 757px) 100vw, 757px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Roda de teto wayana.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fonte: VAN VELTHEM (org.). <em>Livro da arte gr\u00e1fica wayana e apara\u00ed. <\/em>Museu do \u00cdndio\/Iep\u00e9, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o acima me foi proposta como mote pelo interessant\u00edssimo grupo Arteversa, que tem, como um de seus m\u00e9ritos, propor discuss\u00f5es p\u00fablicas e interdisciplinares sobre arte e educa\u00e7\u00e3o. Ela permitiria v\u00e1rias respostas. Vou compartilhar tr\u00eas delas com voc\u00eas, na esperan\u00e7a de que deem in\u00edcio a boas conversas. Pediram-me que produzisse um texto curto e espont\u00e2neo. Pois bem, vou \u201cpensar em voz alta\u201d por meio do teclado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, falar de formas expressivas ind\u00edgenas nas escolas me parece premente porque, embora a diversidade \u00e9tnico-cultural seja imensa em nosso pa\u00eds, a maioria das pessoas sabe pouco sobre ela. N\u00e3o sabe, por exemplo, que temos cerca de 300 povos ind\u00edgenas vivendo hoje no Brasil, ou seja, que \u00edndios <em>n\u00e3o<\/em> s\u00e3o seres do passado, mas nossos contempor\u00e2neos. Muitos n\u00e3o conhecem a sofistica\u00e7\u00e3o de seus saberes e pr\u00e1ticas, suas t\u00e9cnicas de cultivo, suas formas de curar doen\u00e7as, suas maneiras de classificar a natureza e suas ricas cosmologias. Crian\u00e7as, jovens e adultos brasileiros tampouco t\u00eam clareza do sofrimento que a sociedade nacional continua a infligir aos povos ind\u00edgenas, ao permitir que fazendeiros, madeireiros e garimpeiros invadam suas terras, ao n\u00e3o punir os respons\u00e1veis por verdadeiros massacres e ao autorizar a constru\u00e7\u00e3o de empreendimentos como a usina de Belo Monte, que, antes mesmo de funcionar a pleno vapor, j\u00e1 gerou a morte de toneladas de peixes e a baixa de vaz\u00e3o no Rio Xingu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocar o aluno em contato com formas expressivas ind\u00edgenas tradicionais como m\u00fasica, dan\u00e7a, grafismos corporais e m\u00e1scaras rituais, e tamb\u00e9m com produ\u00e7\u00f5es de surgimento mais recente, como o cinema e a literatura ind\u00edgenas, \u00e9 um caminho promissor para despertar seu interesse pelos povos amer\u00edndios. A experi\u00eancia est\u00e9tica e a emo\u00e7\u00e3o podem ser t\u00e3o ou mais mobilizadoras que textos did\u00e1ticos, mapas e gr\u00e1ficos. Trabalhar com artes ind\u00edgenas em sala de aula ou em projetos extracurriculares \u00e9 um modo de convidar o aluno a penetrar no pensamento, na imagina\u00e7\u00e3o e na corporalidade amer\u00edndios, de estimul\u00e1-lo a pensar a partir da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo argumento para trabalhar com formas expressivas ind\u00edgenas nas escolas reside na urg\u00eancia de se alargar os contornos do que entendemos por arte. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a hist\u00f3ria da arte tem recebido cr\u00edticas de dentro e de fora da disciplina, pelo seu car\u00e1ter excludente. Na d\u00e9cada de 1970, passou-se a questionar o baix\u00edssimo n\u00famero de mulheres artistas nos livros, nos ateli\u00eas e nos sal\u00f5es. O interesse por criadores autodidatas\/populares tamb\u00e9m se fortaleceu na segunda metade do s\u00e9culo XX. A aus\u00eancia de negros nas cole\u00e7\u00f5es de museus e nas publica\u00e7\u00f5es sobre artes visuais come\u00e7ou a ser discutida mais recentemente \u2013 resultando, ali\u00e1s, em exposi\u00e7\u00f5es de f\u00f4lego como \u201c<a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/historias-afro-atlanticas-entrevista-com-curadora-lilia-schwarcz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Hist\u00f3rias Afro-Atl\u00e2nticas<\/strong><\/a>\u201d, em cartaz no MASP e no <a href=\"https:\/\/www.institutotomieohtake.org.br\/exposicoes\/interna\/historias-afro-atlanticas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Instituto Tomie Ohtake<\/strong><\/a>, no momento em que estas linhas est\u00e3o sendo digitadas. Quanto aos artistas ind\u00edgenas, eles conseguiram algum espa\u00e7o no sistema das artes Ocidental apenas na Austr\u00e1lia, no Canad\u00e1 e nos Estados Unidos, a partir da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1614\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1-1024x576.png\" alt=\"1\" width=\"871\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1.png 1366w\" sizes=\"(max-width: 871px) 100vw, 871px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Trailer de v\u00eddeo que integra o projeto &#8220;<strong>Kukradj\u00e1 Nyp\u00eanh: Guardando a cultura Mebeng\u00f4kre Kayap\u00f3<\/strong>&#8220;. Realizado em\u00a02014, pelos Meb\u00eang\u00f4kre-Kayap\u00f3 do sul do Par\u00e1, com apoio da FUNAI, do Museu do \u00cdndio e da UNESCO (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=heX8IvyqWrk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=heX8IvyqWrk<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, costuma-se chamar o que \u00e9 feito por ind\u00edgenas de <em>artesanato<\/em>, termo que assume conota\u00e7\u00e3o inferiorizante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suposta grande arte \u2013 esta sim, \u00fanica, feita supostamente para a pura contempla\u00e7\u00e3o, assinada por um artista reconhecido pelas inst\u00e2ncias de legitima\u00e7\u00e3o. Os museus brasileiros, p\u00fablicos e privados, n\u00e3o costumam expor nem comprar trabalhos de artistas ind\u00edgenas. Sim, ocorrem exce\u00e7\u00f5es. Como no caso da mostra de arte abor\u00edgene da Austr\u00e1lia com a qual estou envolvida, que vem itinerando desde 2016 nas unidades da Caixa Cultural. Mas seu or\u00e7amento foi baixo, n\u00e3o se investiu em a\u00e7\u00f5es educativas e houve pouca repercuss\u00e3o na cr\u00edtica especializada, ainda que a resposta do p\u00fablico tenha sido muito positiva. O fato \u00e9 que inserir as artes ind\u00edgenas nas escolas brasileiras significa levar a s\u00e9rio um movimento mais amplo de problematiza\u00e7\u00e3o do vi\u00e9s elitista e restritivo que predomina no sistema das artes e nos estudos acad\u00eamicos sobre arte. \u00c9 uma maneira de contribuir para romper com os sil\u00eancios perpetuados por c\u00e2nones euroc\u00eantricos e empobrecedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, uma terceira resposta poss\u00edvel diz respeito ao deleite est\u00e9tico e intelectual que as artes ind\u00edgenas podem proporcionar. Elas conjugam forma e efic\u00e1cia, associam a dimens\u00e3o art\u00edstica a outras que, em nosso mundo, designamos como religi\u00e3o, medicina, \u00a0organiza\u00e7\u00e3o social e assim por diante. As m\u00e1scaras gigantes e decoradas do povo xinguano Wauja, por exemplo, t\u00eam a capacidade de curar, seduzindo os esp\u00edritos <em>apapaatai<\/em> que roubaram a alma do doente. De acordo com as pesquisas de Arist\u00f3teles Barcelos Neto, a impon\u00eancia, a criatividade e a perfei\u00e7\u00e3o formal das m\u00e1scaras fazem com que os <em>apapaatai<\/em> entrem na festa e deixem a alma do doente voltar para seu corpo. J\u00e1 os grafismos Kayap\u00f3-Xikrin, aplicados sobre a pele com tintura de jenipapo, comunicam o <em>status <\/em>de cada pessoa, como mostram Lux Vidal e Clarice Cohn: se \u00e9 rec\u00e9m-nascida, se foi iniciada, se \u00e9 pai ou m\u00e3e recente, se vai para uma luta, se perdeu um parente querido e assim por diante. As rodas de teto dos Wayana do Amap\u00e1, por sua vez, s\u00e3o afrescos de madeira colocados no centro das casas, que ajudam a conhecer e controlar entidades \u00a0perigosas. Segundo L\u00facia Van Velthem, os Wayana pintam na roda de teto seres sobrenaturais serpentiformes que temem e, assim, eles ficam sempre ao alcance dos olhos. Arte e vida definitivamente n\u00e3o se separam no reino das formas expressivas ind\u00edgenas. Da\u00ed vem grande parte de seu fasc\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1_mascaras-apapaatai.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1604\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1_mascaras-apapaatai-1024x683.jpg\" alt=\"1_mascaras apapaatai\" width=\"795\" height=\"530\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1_mascaras-apapaatai.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/1_mascaras-apapaatai-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>M\u00e1scaras\u00a0apapaatai\u00a0em ritual de cura Wauja.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Foto de Arist\u00f3teles Barcelos Neto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por\u00a0Ilana Seltzer Goldstein<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"o365button\"><span class=\"ms-font-s ms-font-color-themePrimary\" title=\"ilagolds@yahoo.com\">ilagolds@yahoo.com<\/span><\/a><\/p>\n<p>Mestre em Antropologia Social pela Universidade de S\u00e3o Paulo e Doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. Docente no Departamento de Hist\u00f3ria da Arte da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo &#8211; Unifesp, sendo respons\u00e1vel pelas disciplinas Hist\u00f3ria da Arte Amer\u00edndia e Antropologia e Arte. Membro do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Arte e integrante do grupo do CNPq Todas as Artes Todos os Nomes: Pesquisas sobre Arte na Contemporaneidade. Desde 2016, \u00e9 co-coordenadora da C\u00e1tedra Kaapora, voltada \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o de conhecimentos e formas expressivas tradicionais e n\u00e3o-hegem\u00f4nicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roda de teto wayana.\u00a0 Fonte: VAN VELTHEM (org.). Livro da arte gr\u00e1fica wayana e apara\u00ed. Museu do \u00cdndio\/Iep\u00e9, 2010. A quest\u00e3o acima me foi proposta como mote pelo interessant\u00edssimo grupo Arteversa, que tem, como um de seus m\u00e9ritos, propor discuss\u00f5es p\u00fablicas e interdisciplinares sobre arte e educa\u00e7\u00e3o. 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