﻿{"id":1685,"date":"2018-11-04T12:52:13","date_gmt":"2018-11-04T12:52:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=1685"},"modified":"2019-12-19T12:07:15","modified_gmt":"2019-12-19T12:07:15","slug":"que-tipo-de-aula-de-arte-produzimos-quando-saimos-da-sala-de-aula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/que-tipo-de-aula-de-arte-produzimos-quando-saimos-da-sala-de-aula\/","title":{"rendered":"QUE TIPO DE AULA DE ARTE PRODUZIMOS QUANDO SA\u00cdMOS DA SALA DE AULA?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/thumbnail_image-1.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-1686 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/thumbnail_image-1.png\" alt=\"thumbnail_image (1)\" width=\"559\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/thumbnail_image-1.png 760w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/thumbnail_image-1-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Paulo Nazareth &#8211; Projeto Not\u00edcias da Am\u00e9rica ( )<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Imagem cedida pelo artista*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sala de aula e sua disposi\u00e7\u00e3o nos diz muito sobre as concep\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e os processos de ensino e aprendizagem. Manter os alunos alinhados com professor em frente \u00e9 mais que uma forma de organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma forma efetiva de produzir corpos d\u00f3ceis, muitas vezes corpos-pedras, silenciados. Uma aula de arte que sempre se faz a partir desta espacialidade fixa possivelmente n\u00e3o ser\u00e1 uma aula que vai at\u00e9 as entranhas: extirpar\u00e1 o resto do corpo para se contentar com os olhos e ouvidos. Provavelmente ser\u00e1 a aula do professor explicador, na qual a arte n\u00e3o \u00e9 vivida, sentida ou experienciada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proponho uma r\u00e1pida conversa acerca do sair da sala de aula e do caminhar como processo art\u00edstico e educativo. Que tipo de escola podemos produzir se sa\u00edmos da sala de aula? Se caminhamos pela escola? Pela cidade? Se vazamos um territ\u00f3rio, escapamos, criamos pequenas fendas nas fronteiras para escapulir? O que uma caminhada do tipo art\u00edstica\/est\u00e9tica pode produzir nos alunos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sair de um ambiente fechado e caminhar ao ar livre pode mudar muita coisa. A arte se torna potente no encontro: outras pessoas, outros lugares, outras paisagens. Podemos lembrar dos artistas realistas e o que se produziu quando sa\u00edram dos ateli\u00eas \u2013 dos encontros com a vida dos trabalhadores e dos camponeses; ou dos artistas impressionistas e do encontro com a luz. Mais tarde, na passagem do Dada\u00edsmo para o Surrealismo, podemos pensar nas visitas propostas pelo grupo dad\u00e1 a lugares sem qualquer raz\u00e3o de existir ou ainda nas deambula\u00e7\u00f5es dos surrealistas que propunham caminhar e conversar transformando o caminho percorrido em um espa\u00e7o de afetos e rela\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhar, andar sem qualquer prop\u00f3sito. Tonar-se n\u00f4made, ser errante. Se a escola \u00e9 o lugar do aprender e a sala de aula o espa\u00e7o do conhecimento, qual o prop\u00f3sito de sair?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa escola \u00e9 voltada aos projetos de forma\u00e7\u00e3o, enquanto um vir a ser que nunca se finda e nem cessa de inten\u00e7\u00f5es. Olhamos para o futuro: futuros profissionais, futuros cidad\u00e3os e principalmente futuros consumidores e, enquanto olhamos para a frente, nunca damos import\u00e2ncia para a <strong>educa\u00e7\u00e3o do presente e da presen\u00e7a.<\/strong> O fil\u00f3sofo da educa\u00e7\u00e3o, Jean Masschelein<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, nos recorda que, para al\u00e9m da ideia de educa\u00e7\u00e3o enquanto cultivo, ou seja, enquanto algo que plantamos aqui e esperamos dar frutos no futuro, existe uma outra variante etimol\u00f3gica da palavra que associa ex (fora) + ducere (levar). Neste sentido, educar, ao inv\u00e9s de indicar um movimento de colocar conhecimento para dentro das cabe\u00e7as, passa a ter o sentido de conduzir ao exterior, levar para fora. Expor-se ao mundo e lidar com as for\u00e7as que o pr\u00f3prio caminhar imp\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sair, estar exposto, provoca em n\u00f3s um deslocamento de si que julgo ser pr\u00f3ximo ao que nos acontece diante da arte, principalmente da arte mais contempor\u00e2nea. Somos inseridos num jogo sem regras pr\u00e9-estabelecidas e, por n\u00e3o sabermos o que se apresentar\u00e1, nos resta jogar com <strong>menos inten\u00e7\u00e3o e mais aten\u00e7\u00e3o<\/strong>. Aten\u00e7\u00e3o esta que n\u00e3o tem a ver com premeditar a\u00e7\u00f5es para prever jogadas: n\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gia! Aten\u00e7\u00e3o \u00e9, como coloca Masschelein, abrir-se para o mundo e expor-se de tal forma que possa ser por ele atravessado, afetado, tocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este caminhar atento e err\u00e1tico \u00e9 do tipo vivenciado por <strong><a href=\"http:\/\/latinamericanotice.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paulo Nazareth<\/a><\/strong> quando sai de Minas Gerais e anda a p\u00e9 at\u00e9 os Estados Unidos. Paulo, um artista errante, caminha procurando responder a cada situa\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 no percurso e, muitas vezes, o instante de resposta imp\u00f5e um novo ritmo \u00e0 caminhada: \u00e9 como se o virtual fosse a todo instante sendo atualizado por ele. Exposto ao mundo, ele lida com as for\u00e7as que o pr\u00f3prio caminhar imp\u00f5e, sem antecip\u00e1-las ou prev\u00ea-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma educa\u00e7\u00e3o do caminhar nada tem a ver com a chegada, mas com o trajeto e a experi\u00eancia.Ela s\u00f3 pode ser poss\u00edvel dentro de uma ideia de escola que seja <em>skhol\u00e8<\/em>:\u00a0 afastada dos modos de produ\u00e7\u00e3o fabril, seria uma escola do tempo livre, do \u00f3cio, de processos como os art\u00edsticos nos quais nem sempre \u00e9 poss\u00edvel prever os resultados, mas que se abrem para as for\u00e7as do fazer.Uma experi\u00eancia muito diferente daquela que muitas vezes se d\u00e1 em sala de aula, posto que atravessa o corpo todo e n\u00e3o somente olhos e ouvidos. Andando com o corpo todo, vagarosamente e com aten\u00e7\u00e3o, como fazia diariamente Nietzsche que chegou a escrever: \u201cN\u00e3o escrevo somente com a m\u00e3o: o p\u00e9 tamb\u00e9m d\u00e1 sua contribui\u00e7\u00e3o. Firme, livre e valente ele vai, pelos campos e pela p\u00e1gina\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, quando sa\u00edmos da sala, quando caminhamos com aten\u00e7\u00e3o, estamos produzindo uma aula de arte que n\u00e3o se volta para a forma\u00e7\u00e3o futura de um sujeito, mas que permite uma experi\u00eancia com o agora, uma experi\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o, de expor-se \u00e0quilo que nos aparece. Nos faz atravessar sem saber de antem\u00e3o que tipo de paisagem encontraremos. Nos faz sair dos lugares c\u00f4modos e confort\u00e1veis, produzindo em n\u00f3s uma experi\u00eancia que \u2013 n\u00e3o sendo poss\u00edvel classificar, tamb\u00e9m n\u00e3o me impede de dizer \u2013 \u00e9 educativa e art\u00edstica porque \u00e9 a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por\u00a0Christiane Tragante<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(chrisarte@gmail.com)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o na Universidade Estadual \u201cJ\u00falio de Mesquita Filho\u201d \u2013 UNESP, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos \u2013 UFSCar e graduada em Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica com habilita\u00e7\u00e3o em Artes Pl\u00e1sticas tamb\u00e9m pela UNESP. \u00c9 professora de Arte no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia \u2013 IFSP em Mat\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como pratica est\u00e9tica. 1\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Editora Gustavo Gili, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>MASSCHELEIN, Jean. E-ducando o olhar: a necessidade de uma pedagogia pobre. In: Revista Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade, v. 33, no. 1, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a>NIETZSCHE, F. W.A Gaia ci\u00eancia. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: Agradecemos o artista Paulo Nazareth que cedeu os direitos de uso da imagem utilizada nessa publica\u00e7\u00e3o. Mais informa\u00e7\u00f5es no <a href=\"http:\/\/latinamericanotice.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">site:\u00a0http:\/\/latinamericanotice.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Paulo Nazareth &#8211; Projeto Not\u00edcias da Am\u00e9rica ( ) Imagem cedida pelo artista* A sala de aula e sua disposi\u00e7\u00e3o nos diz muito sobre as concep\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o e os processos de ensino e aprendizagem. 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