﻿{"id":216,"date":"2015-05-05T14:48:06","date_gmt":"2015-05-05T14:48:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/?p=216"},"modified":"2019-12-19T12:10:33","modified_gmt":"2019-12-19T12:10:33","slug":"arte-e-metaforas-contemporaneas-para-pensar-infancia-e-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/arte-e-metaforas-contemporaneas-para-pensar-infancia-e-educacao\/","title":{"rendered":"Arte e met\u00e1foras contempor\u00e2neas para pensar inf\u00e2ncia e educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\">Por\u00a0Luciana Gruppelli Loponte<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma frase de Deleuze, no livro Cr\u00edtica e cl\u00ednica (1997), \u00e9 como uma p\u00e9rola perdida entre tantos outros discursos circulares que tentam falar de arte e inf\u00e2ncia, de arte e educa\u00e7\u00e3o: \u201cA arte [&#8230;] atinge esse estado celestial que j\u00e1 nada guarda de pessoal nem de racional. \u00c0 sua maneira, a arte diz o que dizem as crian\u00e7as\u201d (p. 78). <strong>Que estado celestial \u00e9 esse que a arte e as crian\u00e7as compartilham? De que modo a arte diz o que as crian\u00e7as dizem?<\/strong> Talvez fosse mesmo esse o mote que eu procurava para iniciar o debate aqui sobre arte, educa\u00e7\u00e3o e inf\u00e2ncia. \u00c9 isso: de algum modo, de alguma forma, a arte diz, pinta, canta, dan\u00e7a, imagina, fantasia o que dizem as crian\u00e7as. Ou melhor, poder\u00edamos dizer que <strong>o modo com o qual a arte diz coisas sobre a vida e o mundo tem a ver com o modo com o qual as crian\u00e7as dizem, com que interpretam esse mesmo mundo. Talvez seja por isso que n\u00e3o entendemos, na maioria das vezes, o que a arte diz? Ou, tampouco, o que a crian\u00e7a diz?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, afinal, h\u00e1 algo para entender? Por que sempre nos acompanha essa insistente \u201cvontade de verdade\u201d sobre as coisas? Deixemos, apenas por enquanto, a frase de Deleuze como pano de fundo. Neste trabalho, procuro discutir a rela\u00e7\u00e3o entre arte, educa\u00e7\u00e3o e inf\u00e2ncia a partir das seguintes quest\u00f5es: <strong>de que forma podemos saber mais sobre a inf\u00e2ncia a partir de met\u00e1foras da arte contempor\u00e2nea? O que a arte contempor\u00e2nea pode dizer para a doc\u00eancia da inf\u00e2ncia? De que modo a doc\u00eancia v\u00ea a inf\u00e2ncia e sua arte? Podemos pensar em uma dimens\u00e3o est\u00e9tica da forma\u00e7\u00e3o docente para a inf\u00e2ncia?<\/strong> Na esteira dessas quest\u00f5es, debato tamb\u00e9m sobre o lugar da arte nas pol\u00edticas p\u00fablicas para educa\u00e7\u00e3o infantil, especialmente no que diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o docente e \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o do ensino fundamental para nove anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arte contempor\u00e2nea e inf\u00e2ncia <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que sabemos sobre artes visuais?<\/strong> A maioria das pessoas ainda v\u00ea as artes visuais com um olhar renascentista, buscando nas imagens a verdade reconhec\u00edvel de paisagens, naturezas-mortas, flores, retratos, cenas diversas. O que reconhecemos, de algum modo, nos reconforta, apazigua. \u00c9 assim que a arte contempor\u00e2nea e a pr\u00f3pria arte moderna ainda causam certo estranhamento a olhos pouco acostumados com imagens desconcertantes, que n\u00e3o remetem a nenhuma refer\u00eancia do nosso \u201carquivo de verdades\u201d j\u00e1 t\u00e3o conhecido. As abstra\u00e7\u00f5es de Mir\u00f3 e as distor\u00e7\u00f5es de Picasso, por exemplo, muitas vezes inquietam: mas, afinal, o que isso quer dizer? <strong>E a arte contempor\u00e2nea?<\/strong> Rompendo com as fronteiras de materiais, t\u00e9cnicas e temas, a arte chamada contempor\u00e2nea coloca em d\u00favida todas as nossas pretensas certezas sobre o que \u00e9 (ou que deveria ser) arte:<\/p>\n<blockquote>\n<h3>De in\u00edcio, parece que, quanto mais olhamos, menos certeza podemos ter quanto \u00e0quilo que, afinal, permite que as obras sejam qualificadas como \u201carte\u201d, pelo menos de um ponto de vista tradicional. Por um lado, n\u00e3o parece haver mais nenhum material particular que desfrute do privil\u00e9gio de ser imediatamente reconhec\u00edvel como material de arte: a arte recente tem utilizado n\u00e3o apenas tinta, metal e pedra, mas tamb\u00e9m ar, luz, som, palavras, pessoas, comida e muitas outras coisas. Hoje existem poucas t\u00e9cnicas e m\u00e9todos de trabalho, se \u00e9 que existem, que podem garantir ao objeto acabado a sua aceita\u00e7\u00e3o como arte.<br \/>\n(Archer, 2001, p. ix)<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que professoras sabem sobre arte contempor\u00e2nea?<\/strong> <strong>Ou, o que professoras de educa\u00e7\u00e3o infantil e anos iniciais podem saber sobre arte contempor\u00e2nea?<\/strong> Como professora de arte em um curso de pedagogia, tive algumas experi\u00eancias que me fazem acreditar na potencialidade da forma\u00e7\u00e3o em arte para essas futuras professoras. Enquanto em grande parte das escolas infantis ainda vigora o repert\u00f3rio imag\u00e9tico infantilizado de Xuxa, Hello Kitty, M\u00f4nica e assemelhados (Cunha, 2005a, 2005b), al\u00e9m dos desenhos estereotipados para colorir, brindados pelos livros did\u00e1ticos adotados (muitas vezes, alegremente) pelas docentes, penso que a aproxima\u00e7\u00e3o com o mundo das artes visuais, e em especial com a arte contempor\u00e2nea, pode ampliar os modos de ver a arte, as imagens que nos rodeiam e, de alguma maneira, as imagens produzidas por crian\u00e7as. Ao visitar a Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL com minhas alunas de pedagogia, tive o prazer de v\u00ea-las, orgulhosamente, debatendo arte contempor\u00e2nea com os mediadores, sorvendo cada detalhe, com os olhos brilhando ao depararem-se com as obras dos artistas que j\u00e1 haviam conhecido antes por meio de pesquisas. Essas alunas, futuras professoras de educa\u00e7\u00e3o infantil e de anos iniciais, at\u00e9 pouco antes dessa experi\u00eancia, acreditavam que arte era, no m\u00e1ximo, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, e que os desenhos das crian\u00e7as eram t\u00e3o-somente rabiscos in\u00fateis e sem import\u00e2ncia. Essas futuras (e atuais) professoras estavam, aos poucos, superando aqueles coment\u00e1rios do senso comum que j\u00e1 estamos t\u00e3o cansados de ouvir: \u201cse isto \u00e9 arte, ent\u00e3o vou virar artista\u201d, \u201cisso at\u00e9 meu filho pequeno faz\u201d, \u201cme sinto burro diante dessas obras\u201d. Se conseguimos nos despir dos nossos preconceitos diante das obras de arte que fogem aos padr\u00f5es de nossos confort\u00e1veis referenciais familiares, de objetos de arte colecion\u00e1veis ou, de alguma forma, utilit\u00e1rios, h\u00e1 muito o que aprender com a arte contempor\u00e2nea, n\u00e3o apenas sobre a pr\u00f3pria arte, mas sobretudo a respeito das quest\u00f5es mais importantes do tempo em que vivemos, como a inf\u00e2ncia, por exemplo. Arte e inf\u00e2ncia entrecruzam-se em v\u00e1rios per\u00edodos art\u00edsticos. Podemos lembrar de algumas representa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as desenhando, como a que aparece em um detalhe da obra O ateli\u00ea do artista (1855) de Gustave Courbet, ou da obra Claude desenhando, Fran\u00e7oise e Paloma (1954), de Pablo Picasso, conforme figuras a seguir:<\/p>\n<figure id=\"attachment_218\" aria-describedby=\"caption-attachment-218\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/picasso-claude.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-218 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/picasso-claude-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-218\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Paloma&#8221;, 1954. Pablo Picasso.<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_217\" aria-describedby=\"caption-attachment-217\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-217 size-thumbnail\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/courbet-2-150x150.jpg\" alt=\"Gustave Courbet\" width=\"150\" height=\"150\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-217\" class=\"wp-caption-text\">Detalhe da obra &#8220;O ateli\u00ea do artista&#8221;, 1855. Gustave Courbet.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao pensar na inf\u00e2ncia fraturada, fragmentada, descont\u00ednua, t\u00e3o presente nas escolas, a todo o momento escapando aos progn\u00f3sticos deterministas e prescritivos de teorias psicol\u00f3gicas e pedag\u00f3gicas de \u201ccomo as crian\u00e7as devem ser\u201d, penso com Larrosa na imagem de uma inf\u00e2ncia como acontecimento, que escapa a qualquer integra\u00e7\u00e3o ou identidade: \u201co que n\u00e3o pode ser integrado, nem identificado, nem compreendido, nem previsto\u201d, ou que pode ser nomeado como \u201cinterrup\u00e7\u00e3o, novidade, cat\u00e1strofe, surpresa, come\u00e7o, nascimento, milagre, revolu\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o, liberdade\u201d (Larrosa, 2001, p. 282). Para ilustrar essa figura da inf\u00e2ncia como acontecimento, Larrosa retoma a crian\u00e7a das tr\u00eas metamorfoses de Nietzsche. Para o fil\u00f3sofo alem\u00e3o, essa figura de crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma simples figura do passado ou a origem de algo do qual temos que nos afastar para \u201cevoluir\u201d. O esp\u00edrito-crian\u00e7a \u00e9 o pr\u00f3prio por-vir, a abertura, o horizonte de um relato de liberta\u00e7\u00e3o (idem, p. 283). Ou\u00e7amos um pouco o pr\u00f3prio Nietzsche (2003):<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Inoc\u00eancia \u00e9 a crian\u00e7a, e esquecimento; um novo come\u00e7o, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer \u201csim\u201d. Sim, meus irm\u00e3os, para o jogo da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso dizer um sagrado \u201csim\u201d: o esp\u00edrito agora quer a sua vontade, aquele que est\u00e1 perdido para o mundo conquista o seu mundo. Nomeei-vos tr\u00eas metamorfoses do esp\u00edrito: como o esp\u00edrito tornou-se camelo e o camelo, le\u00e3o e o le\u00e3o, por fim, crian\u00e7a. (p. 53)<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o camelo \u00e9 o animal d\u00f3cil, domesticado, servil, obediente, que segue o rebanho, o le\u00e3o aparece como um esp\u00edrito cr\u00edtico, rebelde, que heroicamente luta por sua liberdade, de for\u00e7a negativa, a encarna\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito ressentido e niilista, o pr\u00f3prio sujeito moderno. A crian\u00e7a, por sua vez, surge como esquecimento, inoc\u00eancia, jogo, afirma\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o, abertura, possibilidade, in\u00edcio (Larrosa, 2002, p. 110). E aqui vale sublinhar uma das afirma\u00e7\u00f5es de Larrosa no mesmo texto (p. 118): o outro nome da crian\u00e7a de \u201cAs tr\u00eas metamorfoses\u201d de Nietzsche \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos dizer que, para Nietzsche, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 for\u00e7a impulsionadora para a pr\u00f3pria vida, pura pot\u00eancia, afirma\u00e7\u00e3o da vida que est\u00e1 aqui, n\u00e3o a nega\u00e7\u00e3o desta vida em rela\u00e7\u00e3o a uma vida mais verdadeira que est\u00e1 em outro lugar. Se para Nietzsche n\u00e3o h\u00e1 uma \u201corigem\u201d, n\u00e3o h\u00e1 ent\u00e3o uma ess\u00eancia a se descobrir, uma verdade a encontrar, uma unidade perdida a retomar. H\u00e1, sim, \u201co infinito desdobramento, a constante transforma\u00e7\u00e3o, a prolifera\u00e7\u00e3o de sentidos, a cria\u00e7\u00e3o\u201d (Mos\u00e9, 2005, p. 36). A\u00ed surge a vontade de pot\u00eancia, a vontade de cria\u00e7\u00e3o que se contrap\u00f5e \u00e0 \u201cvontade de verdade\u201d do homem moderno. A arte, mais do que algo feito por artistas ou especialistas, ou como institui\u00e7\u00e3o e como obra, \u00e9, para o fil\u00f3sofo alem\u00e3o, uma atividade propriamente criadora, uma for\u00e7a art\u00edstica presente n\u00e3o somente no homem, mas em todas as coisas (idem, p. 79). <strong>Poder\u00edamos assim pensar na inf\u00e2ncia e na arte como for\u00e7as potencialmente criadoras, po\u00e9ticas da pr\u00f3pria vida?<\/strong> H\u00e1 que se pensar nos modos como a inf\u00e2ncia e a arte t\u00eam sido \u201cpedagogizadas\u201d, \u201cdidatizadas\u201d, \u201ccontroladas\u201d pela doc\u00eancia e pelas escolas. Por que ainda queremos crian\u00e7as-camelo, queremos ensin\u00e1-las a obedecer, a cumprir ordens, ver o que queremos que ela veja (Fischer, 2006)? <strong>Estamos mesmos perdidos em meio ao esquecimento de nossas possibilidades criadoras, apartados que estamos da arte e da inf\u00e2ncia?<\/strong> Esta incurs\u00e3o filos\u00f3fica permite-nos ainda pensar no impensado da inf\u00e2ncia nas teorias educacionais mais tradicionais. Uma inf\u00e2ncia concebida\u00a0como acontecimento n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de discursos prescritivos ou de controle, aprisionada em um tempo linear e progressivo. Uma inf\u00e2ncia cujas palavras-chave s\u00e3o cria\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o, descontinuidade, subvers\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nem antiga nem moderna, n\u00e3o est\u00e1 nem antes nem depois, mas agora, atual, presente. Seu tempo n\u00e3o \u00e9 linear, nem evolutivo, nem gen\u00e9tico, nem dial\u00e9tico, nem sequer narrativo. A crian\u00e7a \u00e9 um presente inatual, intempestivo, uma figura do acontecimento. E s\u00f3 a aten\u00e7\u00e3o ao acontecimento, como o incompreens\u00edvel e o imprevis\u00edvel, pode levar a pensar uma temporalidade descont\u00ednua.<br \/>\n(Larrosa, 2001, p. 284)<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E s\u00e3o a descontinuidade e a imprevisibilidade algumas das principais mat\u00e9rias-primas com as quais lida a arte contempor\u00e2nea. Rupturas de espa\u00e7o e tempo, questionamento de verdades, desequil\u00edbrio, o novo, o inesperado. A arte contempor\u00e2nea \u00e9 feita da irrup\u00e7\u00e3o de acontecimentos. Nem sempre h\u00e1 molduras ou paredes para abrigar quadros, nem sempre as obras se apresentam na perspectiva tradicional a que estamos acostumados. As obras podem ser interativas, podem ser tocadas, sentidas ou modificadas pelos espectadores, ou nada disso. Unidade, coer\u00eancia e identidade de temas, t\u00e9cnicas e materiais distanciam-se muitas vezes dessa arte. Talvez esteja um pouco a\u00ed a raz\u00e3o da dificuldade de aproxima\u00e7\u00e3o com esse modo contempor\u00e2neo de ver e produzir imagens, se estamos ainda marcados pela estabilidade, fixidez e linearidade com que aprendemos a interpretar o mundo. Aprendemos, modernos que somos, a ambicionar um mundo-verdade, um mundo sem contradi\u00e7\u00f5es, sem muta\u00e7\u00e3o, sem luta, sem dor. <strong>E como pensar essa figura de inf\u00e2ncia como acontecimento por meio da arte contempor\u00e2nea?<\/strong> Se ainda vemos resqu\u00edcios nost\u00e1lgicos de uma inf\u00e2ncia idealizada nas produ\u00e7\u00f5es de artistas modernos, as artes visuais hoje nos trazem in\u00fameras met\u00e1foras para pensar sobre outras inf\u00e2ncias. \u00c9 importante ressaltar o quanto as mulheres artistas, muitas vezes ainda ausentes das listas de \u201cgrandes artistas\u201d, e que em grande parte vivem a experi\u00eancia da inf\u00e2ncia bem de perto, produzem representa\u00e7\u00f5es que escapam aos modos de ver mais comuns. Algumas imagens criadas por mulheres artistas rompem com os lugares estereotipados destinadas a elas pela cultura, e com nossas id\u00e9ias mais antigas sobre o que \u00e9 (ou pode ser) o feminino. Artistas contempor\u00e2neas, principalmente a partir dos anos de 1990, surpreendem cada vez mais ao romperem com padr\u00f5es chamados \u201cfemininos\u201d, reciclando e reinventando acervos materiais e simb\u00f3licos constituintes do universo feminino h\u00e1 muito tempo. Mais do que revelarem com suas obras uma suposta \u201cess\u00eancia\u201d ou \u201cidentidade\u201d de mulheres, mostram com seus trabalhos justamente a impossibilidade da busca de uma unidade. \u201cN\u00e3o existe nada no fato de ser \u2018mulher\u2019 que naturalmente una as mulheres\u201d, provoca Donna Haraway (2000, p. 52). E, acrescentaria, nem mesmo as concep\u00e7\u00f5es que as mulheres, m\u00e3es ou n\u00e3o, t\u00eam sobre a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia, aos olhos da m\u00e3e-artista, pode ser um comovente desenho da filha sobre um travesseiro bordado, como o fez a artista ga\u00facha Paula Mastroberti.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/julia-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-220\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/julia-2.jpg\" alt=\"julia (2)\" width=\"354\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/julia-2.jpg 354w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/julia-2-300x190.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><br \/>\nA fragmenta\u00e7\u00e3o (e destrui\u00e7\u00e3o) de um dos brinquedos infantis mais antigos, a boneca, tamb\u00e9m pode ser uma forma de tematizar a inf\u00e2ncia. Nas constru\u00e7\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es da artista brasileira Lia Menna Barreto as bonecas transformam-se ao serem mutiladas, costuradas e derretidas, desafiando nossa mais doce compreens\u00e3o do universo infantil. Nem sempre a inf\u00e2ncia \u00e9 doce e alegre, ela tamb\u00e9m \u00e9 desvio, pervers\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o. E \u00e9 dessa mesma artista uma das imagens e met\u00e1foras mais contundentes sobre as institui\u00e7\u00f5es infantis. A instala\u00e7\u00e3o Jardim da inf\u00e2ncia, presente na I Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL, realizada em 1997, apresenta 11 cadeiras infantis em c\u00edrculo (Cat\u00e1logo, 1997, p. 231). As cadeiras est\u00e3o queimadas e quebradas, t\u00e3o mutiladas quanto as bonecas de outros trabalhos da artista. <strong>Que inf\u00e2ncia \u00e9 essa que habita esse c\u00edrculo melanc\u00f3lico?<\/strong> A inf\u00e2ncia presente nas obras de Laura Ford, artista do Pa\u00eds de Gales, \u00e9 uma inf\u00e2ncia que choca, que desafia, que amedronta. Na instala\u00e7\u00e3o Headthinkers, vemos em uma sala branca uma s\u00e9rie de esculturas feitas de cer\u00e2mica e pl\u00e1stico em tamanho natural, vestidas com roupas comuns, como qualquer crian\u00e7a vestiria. Imagens de crian\u00e7as com cabe\u00e7as de burro, melancolicamente penduradas pelas paredes, ajoelhadas, apoiadas por suas estranhas cabe\u00e7as. Alguma semelhan\u00e7a com as antigas (e atuais) puni\u00e7\u00f5es escolares? Talvez. O que, afinal, pensam essas crian\u00e7as? Paula Rego \u00e9 uma das artistas portuguesas mais importantes da atualidade. Suas imagens muitas vezes s\u00e3o desconcertantes. Fam\u00edlia (1988) traz uma cena familiar pouco comum. O homem chega em casa e \u00e9 ajudado (ou sufocado? torturado?) pela filha e pela esposa. Uma menina de olhar c\u00famplice assiste \u00e0 cena, emoldurada pela luminosidade da janela, dando um tom mais dram\u00e1tico \u00e0 narrativa pict\u00f3rica. No ret\u00e1bulo ao fundo, uma suposta imagem de S\u00e3o Jorge lutando contra um drag\u00e3o. O homem est\u00e1 sendo dominado, como o drag\u00e3o? <strong>A inf\u00e2ncia pode ser perversa?<\/strong> Quem sabe. Para terminarmos, por enquanto, nosso passeio por algumas imagens de inf\u00e2ncia produzidas pela arte contempor\u00e2nea, trago as provoca\u00e7\u00f5es da artista polonesa Ella Jabl\u00f3nska \u00e0s nossas mais \u201csagradas\u201d no\u00e7\u00f5es de maternidade. Na s\u00e9rie de fotografias Supermother (Supermatka, 2006)11, a artista apresenta-se como uma m\u00e3e-hero\u00edna, ora vestida com roupas de Super-Homem, ora como Homem-Aranha ou Batman. O cen\u00e1rio: a cozinha, a sala ou o quarto de uma casa simp\u00e1tica e agrad\u00e1vel, extremamente limpa\u00a0e bem cuidada. No colo da Superm\u00e3e, o filho, tal como uma \u201cpiet\u00e1\u201d p\u00f3s-moderna. A cena remete-nos \u00e0s madonas pintadas in\u00fameras vezes ao longo da hist\u00f3ria da arte ocidental, sacralizando e cristalizando na figura da m\u00e3e de Jesus a pr\u00f3pria imagem da maternidade. Longe do campo do sagrado, o que a inf\u00e2ncia contempor\u00e2nea exige das mulheres (m\u00e3es e professoras)?<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/10f4-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-221\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/10f4-2.jpg\" alt=\"10f4 (2)\" width=\"354\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/10f4-2.jpg 354w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/10f4-2-300x164.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Um pequeno percurso apenas por algumas imagens da arte contempor\u00e2nea. O que aprendemos com elas?<\/strong> Sem buscar s\u00ednteses ou conclus\u00f5es, que talvez sejam desnecess\u00e1rias aqui, o importante \u00e9 perceber a disson\u00e2ncia da pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, da impossibilidade de aprision\u00e1-la em r\u00f3tulos, clich\u00eas ou temporalidades predefinidas. A arte \u00e9 feita de possibilidade, de inven\u00e7\u00e3o, de cria\u00e7\u00e3o, de ruptura, do imprevis\u00edvel, do inesperado. A inf\u00e2ncia, tamb\u00e9m, \u00e9 puro acontecimento.<strong> E o que a doc\u00eancia para a inf\u00e2ncia pode aprender com a arte?<\/strong> <strong>Quais as nossas met\u00e1foras contempor\u00e2neas para pensar a educa\u00e7\u00e3o para a inf\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arte, doc\u00eancia e inf\u00e2ncia<\/strong><br \/>\nAs palavras \u201cacontecimento\u201d, \u201cdescontinuidade\u201d, \u201cabertura\u201d ainda soam estranhas quando associadas \u00e0 inf\u00e2ncia escolarizada das institui\u00e7\u00f5es infantis. Embora a arte seja um terreno f\u00e9rtil para a abertura e possibilidade, a escola consegue aprision\u00e1-la em tempos e espa\u00e7os espec\u00edficos, em imagens controladas com pouco espa\u00e7o para os rabiscos imagin\u00e1rios da inf\u00e2ncia. A doc\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 ainda, em grande parte, o terreno do improviso. Usa-se a \u201cintui\u00e7\u00e3o feminina\u201d, muitas vezes ligada a um pressuposto instinto materno, que faria parte de uma \u201cess\u00eancia\u201d caracter\u00edstica de todas as mulheres. Cuidar, trocar fraldas, velar o sono, alimentar, deixar brincar \u00e0 vontade fazem parte da rotina di\u00e1ria das escolas infantis. A arte infantil nem sempre \u00e9 entendida ou se destina um espa\u00e7o privilegiado para ela. Ou melhor, justamente pela ansiedade em entender ou descobrir a \u201cverdade\u201d dos desenhos infantis \u00e9 que h\u00e1 pouco espa\u00e7o para eles. Enquanto a arte moderna rompeu com os limites das representa\u00e7\u00f5es figurativas j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, muitas professoras ainda se sentem inconformadas diante de rabiscos aparentemente sem sentido. Explora\u00e7\u00e3o do papel, registro do gesto, ludicidade? Para qu\u00ea? \u00c9 assim que os rabiscos e as inven\u00e7\u00f5es infantis precisam sempre ser nomeados, legendados: \u201c<strong>O que voc\u00ea desenhou aqui?<\/strong>\u201d. A crian\u00e7a responde, e a professora escreve sobre o desenho: legendas e r\u00f3tulos definitivos competindo visualmente com as cria\u00e7\u00f5es infantis. A escrita da professora no desenho certifica, d\u00e1 status de \u201cverdadeiro\u201d ao trabalho. Aqui \u00e9 o papai, a mam\u00e3e, o cachorro, ou o que for. \u00c9 como n\u00e3o se admitisse nunca que a crian\u00e7a seja ainda um infante, aquele que n\u00e3o fala, que n\u00e3o tem linguagem. E linguagem aqui entendida como o lugar da unidade, identidade, como signo do rebanho, como critica Nietzsche (Mos\u00e9, 2005). Como se fosse preciso necessariamente abandonar esse estado de \u201cn\u00e3o-fala\u201d. <strong>Mas por que essa inf\u00e2ncia precisa ser abandonada, banida da experi\u00eancia humana?<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<h3>A id\u00e9ia de uma inf\u00e2ncia como uma \u201csubst\u00e2ncia ps\u00edquica\u201d pr\u00e9-subjetiva revela-se ent\u00e3o um mito, como aquela de um sujeito pr\u00e9-ling\u00fc\u00edstico, a inf\u00e2ncia e linguagem parecem assim remeter uma \u00e0 outra em um c\u00edrculo no qual a inf\u00e2ncia \u00e9 a origem da linguagem e a linguagem a origem da inf\u00e2ncia. Mas talvez seja justamente neste c\u00edrculo que devemos procurar o lugar da experi\u00eancia enquanto inf\u00e2ncia do homem. Pois a experi\u00eancia, a inf\u00e2ncia que aqui est\u00e1 em quest\u00e3o, n\u00e3o pode ser simplesmente algo que precede cronologicamente a linguagem e que, a uma certa altura, cessa de existir para versar-se na palavra, n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso que, em determinado momento, abandonamos para sempre a fim\u00a0de falar, mas coexiste originalmente com a linguagem, constitui-se ali\u00e1s ela mesma na expropria\u00e7\u00e3o que a linguagem dela efetua, produzindo a cada vez o homem como sujeito. (Agamben, 2005, p. 59)<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Agamben, a experi\u00eancia, no seu sentido mais profundo, t\u00e3o escassa nos tempos atuais, n\u00e3o pode estar inscrita apenas na linguagem, na palavra: \u201cQue o homem n\u00e3o seja sempre j\u00e1 falante, que ele tenha sido e seja ainda infante, isto \u00e9 a experi\u00eancia\u201d (idem, p. 62). N\u00e3o seria tamb\u00e9m a arte esse lugar da experi\u00eancia da inf\u00e2ncia, essa experi\u00eancia humana da qual o sujeito moderno da linguagem e da palavra insiste em se afastar? <strong>Talvez a insistente busca pela coes\u00e3o da linguagem e sua unidade, pela capacidade de relacionar palavras e coisas, por dar sentido, pela prem\u00eancia em abandonar o estado de inf\u00e2ncia e \u201cn\u00e3o-fala\u201d nos tenha impedido de viver a vida mais esteticamente, de experienciar o jogo, a cria\u00e7\u00e3o, a afirma\u00e7\u00e3o da vida que tantas vezes dan\u00e7am alegremente atrav\u00e9s da inf\u00e2ncia e da arte.<\/strong> <strong>Qual \u00e9, afinal, a fun\u00e7\u00e3o da linguagem?<\/strong> Seguindo o caminho aberto por Agamben, ou mesmo antes, por Nietzsche, e aqui com ajuda de Viviane Mos\u00e9 (2005), podemos pensar que a fun\u00e7\u00e3o da linguagem \u201cn\u00e3o \u00e9 aproximar o eternamente separado, mas produzir esta ponte que torna capaz de dan\u00e7ar sobre as dist\u00e2ncias que constituem as coisas\u201d. Ou ainda: <strong>\u201cA fun\u00e7\u00e3o afirmativa da linguagem n\u00e3o \u00e9 dizer, j\u00e1 que a complexidade da vida n\u00e3o pode ser reduzida em palavras. A fun\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e9 sobrevoar, dan\u00e7ar, fazer esquecer\u201d (p. 128). E n\u00e3o \u00e9 isso mesmo que faz a arte?<\/strong> Um di\u00e1logo travado com uma professora em um curso de forma\u00e7\u00e3o docente traz mais elementos para pensar sobre essas quest\u00f5es. A professora pergunta, preocupada: \u201co que eu devo fazer se meu aluno pintar um gato de azul?\u201d. H\u00e1 na pergunta aquele medo de estar fazendo algo errado, de que \u00e9 preciso sempre saber e dizer o \u201creal\u201d sentido de tudo, e a cren\u00e7a de que a escola jamais poder\u00e1 iludir a crian\u00e7a e que sempre dever\u00e1 contar toda a verdade sobre as coisas, mesmo que a verdade seja a mais \u201ccruel\u201d de todas: n\u00e3o existem gatos azuis. Claro que um artista como o brasileiro Aldemir Martins n\u00e3o acreditava nisso e foi o criador de muitos gatos azuis, vermelhos, amarelos, sem pensar se eles realmente existiam ou n\u00e3o. \u00c9 disso mesmo que \u00e9 feita a arte: de inven\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o que vai bem mais al\u00e9m do que cremos ser a realidade. A arte talvez seja feita da mat\u00e9ria de uma experi\u00eancia e linguagem que dan\u00e7am e sobrevoam os sentidos das coisas, sem se preocupar se h\u00e1 mesmo uma verdade a que se deva bater contin\u00eancia. Mas quem sabe disso? Ou quem pensa sobre isso? Poucas professoras de educa\u00e7\u00e3o infantil sabem ou dedicam algum tempo para pensar sobre quest\u00f5es como essas. E n\u00e3o h\u00e1 por que culp\u00e1-las. A forma\u00e7\u00e3o em arte da maioria das pessoas ainda \u00e9 muito prec\u00e1ria. As professoras s\u00e3o frutos dessa mesma escola que valorizou demasiadamente a aprendizagem da leitura, da escrita e da matem\u00e1tica ou uma determinada racionalidade, em detrimento de outras formas de conhecer e pensar sobre o mundo, como as artes visuais, a m\u00fasica, o teatro e a dan\u00e7a. Afastados da arte, estamos ainda muito apegados \u00e0 <strong>\u201cvontade de verdade\u201d do homem moderno, que, para Nietzsche, aniquila a vontade de cria\u00e7\u00e3o.<\/strong> Para o fil\u00f3sofo, esse \u201camor \u00e0 verdade\u201d \u00e9 apenas mau gosto, um desvario adolescente que o aborrece. Tudo \u00e9 apar\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 verdades a descobrir, ess\u00eancias a desvendar. E \u00e9 a\u00ed que ele nos convoca a assumir uma postura art\u00edstica diante da vida, que n\u00e3o nos deixemos dominar pela vontade de verdade, por uma desenfreada ansiedade de atingir a ess\u00eancia das coisas, mas que nos deixemos tomar por uma vontade de pot\u00eancia, pela vontade de reinventar o real, de transfigurar a pr\u00f3pria vida (Loponte, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando as pol\u00edticas (e os livros did\u00e1ticos) n\u00e3o dan\u00e7am: que lugar h\u00e1 para arte e inf\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nMas o que alimenta, afinal, a doc\u00eancia para a inf\u00e2ncia? De que modo a doc\u00eancia v\u00ea a inf\u00e2ncia e sua arte? Podemos pensar assim nos pr\u00f3ximos desdobramentos diante das novas pol\u00edticas p\u00fablicas para inf\u00e2ncia no Brasil, e como a doc\u00eancia est\u00e1 implicada nisso. A amplia\u00e7\u00e3o para nove anos do ensino fundamental, com a inclus\u00e3o da crian\u00e7a aos 6 anos nesse\u00a0sistema de ensino, significar\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia? A inclus\u00e3o da crian\u00e7a de 6 anos de idade (e, \u00e0s vezes, de cinco anos) no 1\u00ba ano do ensino fundamental significar\u00e1 o seu ingresso definitivo no mundo da palavra e o abandono da inf\u00e2ncia? <strong>Que lugar ter\u00e1 a arte, essa experi\u00eancia nem sempre traduz\u00edvel em palavras? Ou melhor, que \u201carte\u201d estar\u00e1 ali? A arte \u201cescolarizada\u201d dos livros did\u00e1ticos, pautada por desenhos estereotipados e datas comemorativas?<\/strong> Acredito que n\u00e3o h\u00e1 como pensar em pol\u00edticas para a inf\u00e2ncia sem pensar na doc\u00eancia e no que a alimenta, no que a forma. Enquanto h\u00e1 um incremento das pesquisas sobre educa\u00e7\u00e3o infantil e em forma\u00e7\u00e3o docente no pa\u00eds, em muitas escolas infantis s\u00e3o alguns livros did\u00e1ticos que tomam o lugar de \u201cespecialistas da inf\u00e2ncia\u201d. Cole\u00e7\u00f5es de livros como \u201cAlfabetiza\u00e7\u00e3o sem segredos\u201d, dirigidos ao ensino infantil, circulam em profus\u00e3o em muitas escolas infantis da regi\u00e3o de Santa Cruz do Sul, por exemplo. Essas cole\u00e7\u00f5es s\u00e3o vendidas pelas editoras diretamente nas escolas e t\u00eam exercido um apelo irresist\u00edvel \u00e0s docentes, pouco acostumadas a livrarias. A referida cole\u00e7\u00e3o apresenta livros para todas as faixas et\u00e1rias da educa\u00e7\u00e3o infantil, desde o maternal, utilizando chamadas que d\u00e3o certo tom \u201coficial\u201d a essas publica\u00e7\u00f5es: \u201ctrabalhando de acordo com os RCN (MEC)\u201d. A cole\u00e7\u00e3o utiliza-se de todo o discurso legitimado pelo MEC, pelo RCN. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte, por exemplo, fala-se em artes visuais ou linguagem visual, m\u00fasica e teatro, inclusive com trechos literais dos documentos oficiais. Enquanto aparentemente h\u00e1 um discurso pedag\u00f3gico supostamente \u201cmoderno\u201d, legitimado pela linguagem oficial, o conte\u00fado \u00e9 exatamente o mesmo de qualquer cartilha tradicional. Atividades para colorir ou colar papel picado, com legendas de cores predeterminadas, desenhos estereotipados para colorir relativos \u00e0s datas comemorativas, s\u00f3 para ficar em alguns exemplos. As atividades e os desenhos parecem subestimar a capacidade das crian\u00e7as em criar e apreciar imagens de qualidade. Como vemos o que poder\u00edamos chamar de uma \u201cepidemiologia de representa\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia\u201d (Chalmel, 2004) nesses materiais did\u00e1ticos?<strong> Por que as professoras se aliam e se \u201ccolam\u201d t\u00e3o facilmente a esse tipo de atividade? De que \u00e9 feita a experi\u00eancia da doc\u00eancia? Uma experi\u00eancia expropriada de inf\u00e2ncia e de arte? Que papel tem a experi\u00eancia est\u00e9tica para a forma\u00e7\u00e3o docente?<\/strong> Acredito que a doc\u00eancia pode ainda aprender muito com os artistas e as artistas, com a arte contempor\u00e2nea, com a vontade de cria\u00e7\u00e3o impulsionada pela arte. Podemos aprender mais sobre a inf\u00e2ncia, sobre o mundo, sobre n\u00f3s mesmas como docentes. <strong>N\u00e3o poderia, afinal, a doc\u00eancia ser uma obra de arte?<\/strong> N\u00e3o poder\u00edamos aprender com a arte essa vontade de sermos\u00a0artistas de nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia, \u201cpoetas-autores de nossas vidas\u201d, como queria Nietzsche? Ou ainda continuar indagando com Michel Foucault: <strong>por que afinal a arte \u00e9 algo apenas para especialistas? N\u00e3o poderia a pr\u00f3pria vida ser uma obra de arte?<\/strong> (Foucault, 1995). Da\u00ed a import\u00e2ncia de que cursos de forma\u00e7\u00e3o docente privilegiem a forma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e art\u00edstica das futuras docentes. No entanto, a dimens\u00e3o est\u00e9tica dessa forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso dizer, n\u00e3o se pode restringir a disciplinas ou cursos que passeiem panoramicamente por t\u00e9cnicas e atividades art\u00edsticas. \u00c9 preciso alimentar esteticamente as futuras docentes com um mergulho em experi\u00eancias que as desloquem, que as perturbem, que subvertam esse modo linear e cont\u00ednuo de compreender a arte e a inf\u00e2ncia. Talvez, pela arte, possamos descobrir um pouco mais dessa inf\u00e2ncia como acontecimento, da inf\u00e2ncia como leg\u00edtima experi\u00eancia humana, de um \u201cdevir-crian\u00e7a como processo criativo de uma educa\u00e7\u00e3o que resista \u00e0s vergonhas do presente\u201d (J\u00f3dar &amp; G\u00f3mez, 2002, p. 43). J\u00e1 acompanhados de Nietzsche, Agamben e Larrosa no percurso deste texto, voltamos a Deleuze e \u00e0 frase que abriu nossa conversa\u00e7\u00e3o: \u201c\u00e0 sua maneira, a arte diz o que dizem as crian\u00e7as\u201d. <strong>Se a arte diz mesmo o que dizem as crian\u00e7as, se a arte pode nos conectar com experi\u00eancias que nos transformam, que nos deslocam da linearidade de nossas paisagens familiares, se nos diz de acontecimento, de experi\u00eancia, de cria\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, de inf\u00e2ncia, a pergunta \u00e9: n\u00f3s, que pensamos sobre educa\u00e7\u00e3o, sabemos ouvir?<\/strong><\/p>\n<h5>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<br \/>\nAGAMBEN, Giorgio. Inf\u00e2ncia e hist\u00f3ria: destrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e origem da hist\u00f3ria. Belo Horizonte: UFMG, 2005.<br \/>\nAMORIM, Verussi de Mello. Por uma educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: um enfoque na forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria de professores. 2007. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o) \u2013 Centro de Ci\u00eancias Sociais Aplicadas, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Campinas, Campinas, 2007.<br \/>\nARCHER, Michael. Arte contempor\u00e2nea: uma hist\u00f3ria concisa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<br \/>\nBRASIL. Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Proinfantil \u2013 Programa de Forma\u00e7\u00e3o Inicial para Professores em Exerc\u00edcio na Educa\u00e7\u00e3o Infantil: diretrizes gerais. Bras\u00edlia: MEC, 2005. Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 25 maio 2007.<br \/>\n________. Par\u00e2metros nacionais de qualidade na educa\u00e7\u00e3o infantil. v. 2. Bras\u00edlia: MEC, 2006. Dispon\u00edvel em: . Acesso em: 25 maio 2007.<br \/>\nCAMARGO, Iber\u00ea. Gaveta dos guardados. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1998.<br \/>\nCAT\u00c1LOGO da Primeira Bienal de Artes Visuais do Mercosul. Porto Alegre: FBAVM, 1997.<br \/>\nCHALMEL, Loic. Imagens de crian\u00e7as e crian\u00e7as nas imagens: representa\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia na iconografia pedag\u00f3gica nos s\u00e9culos XVII e XVIII. Educa\u00e7\u00e3o e Sociedade, Campinas, v. 25, n. 86, p. 57-74, abr. 2004.<br \/>\nCLARET, Martin (Coord.). O pensamento vivo de Picasso. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 1985. (cole\u00e7\u00e3o O pensamento vivo.)<br \/>\nCUNHA, Susana Rangel Vieira da. Cen\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o infantil. Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade,Porto Alegre, n. 30, v. 2, p. 165-185, jul.\/dez. 2005a.<br \/>\n________. Um pouco al\u00e9m das decora\u00e7\u00f5es das salas de aula. Reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, Santa Cruz do Sul, v. 13, n. 1, p. 133-149, jan.\/jun. 2005b.<br \/>\nDELEUZE, Gilles. O que as crian\u00e7as dizem. In: ______. Cr\u00edtica e cl\u00ednica. S\u00e3o Paulo: Ed.34, 1997. p. 73-79.<br \/>\nFARIA, Ana L\u00facia Goulart de. Pequena inf\u00e2ncia, educa\u00e7\u00e3o e g\u00ea- nero: subs\u00eddios para um estado da arte. Cadernos Pagu, Campinas, n. 26, p. 279-287, jan.\/jun. 2006.<br \/>\nFARINA, Cynthia. Pedagogia das afec\u00e7\u00f5es: arte atual, corpo e sujeito. Reflex\u00e3o e A\u00e7\u00e3o, Santa Cruz do Sul, v. 14, n. 1, p. 45-53, jan.\/jun. 2006<br \/>\nFISCHER, Rosa Maria Bueno. Inf\u00e2ncia, m\u00eddia e experi\u00eancia. In: GURSKI, Roselene; DALPIAZ, Sonia; VERDI, Marcelo Spalding (Orgs.). Cenas da vida atual. A fam\u00edlia, a escola e a cl\u00ednica. Iju\u00ed: Ed. UNIJU\u00cd, 2006. p. 27-40.<br \/>\nFOUCAULT, Michel. Sobre a genealogia da \u00e9tica: uma revis\u00e3o do trabalho. In: DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault, uma trajet\u00f3ria filos\u00f3fica. Para al\u00e9m do estruturalismo e da hermen\u00eautica. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 1995. p. 253-278.<br \/>\n_______. Nietzsche, a genealogia e a hist\u00f3ria. In: ______. Microf\u00edsica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2001. p. 15-37.<br \/>\nHARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: ci\u00eancia, tecnologia e feminismo-socialista no final do s\u00e9culo XX. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do p\u00f3shumano. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2000. p. 37-129.<br \/>\nJ\u00d3DAR, Francisco; G\u00d3MEZ, Luc\u00eda. Devir-crian\u00e7a: experimentar e explorar outra educa\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o e Realidade, Porto Alegre: FACED\/UFRGS, v. 27, n. 2, p. 31-45, jul.\/dez. 2002.<br \/>\nLARROSA, Jorge. Dar a palavra. Notas para uma l\u00f3gica da transmiss\u00e3o. In: LARROSA, Jorge; SKLIAR, Carlos. Habitantes de Babel: pol\u00edticas e po\u00e9ticas da diferen\u00e7a. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2001. p. 281-295.<br \/>\n_________. Nietzsche e educa\u00e7\u00e3o.Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2002.<br \/>\n_________. O enigma da inf\u00e2ncia: ou o que vai do imposs\u00edvel ao verdadeiro. In: ______. Pedagogia profana: dan\u00e7as, piruetas e mascaradas. Porto Alegre: Contrabando, 1998. p. 229-246.<br \/>\n_________. Do esp\u00edrito da crian\u00e7a \u00e0 crian\u00e7a do esp\u00edrito. A id\u00e9ia de forma\u00e7\u00e3o em Peter Handke. In: ______. Pedagogia profana: dan\u00e7as, piruetas e mascaradas. Porto Alegre: Contrabando, 1998b. p. 54-88.<br \/>\nLEITE, Maria Isabel; OSTETTO, Luciana Esmeralda. Forma\u00e7\u00e3o de professores: o convite da arte. In: OSTETTO, Luciana E.; LEITE, Maria Isabel. Arte, inf\u00e2ncia e forma\u00e7\u00e3o de professores: autoria e transgress\u00e3o. Campinas: Papirus, 2004. p. 11- 24.<br \/>\nLOPONTE, Luciana Gruppelli. Do Nietzsche tr\u00e1gico ao Foucault \u00e9tico: sobre est\u00e9tica da exist\u00eancia e uma \u00e9tica para a doc\u00eancia. Educa\u00e7\u00e3o e Realidade, v. 28, n. 2, jul.\/dez. 2003.<br \/>\n_________. Doc\u00eancia artista: arte, est\u00e9tica de si e subjetividades femininas. 2005. 207f. Tese (Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o) \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.<br \/>\nMARTINS, Mirian Celeste. Arte: o seu encantamento e o seu trabalho na educa\u00e7\u00e3o de educadores \u2013 a celebra\u00e7\u00e3o de metamorfoses da cigarra e da formiga. 1999. Tese (Doutorado em Educa\u00e7\u00e3o) \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 1999.<br \/>\nMOS\u00c9, Viviane. Nietzsche e a grande pol\u00edtica da linguagem. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005.<br \/>\nNIETZSCHE, Friedrich. A gaia ci\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<br \/>\n_________. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.<br \/>\nOSTETTO, Luciana. A arte no itiner\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o de professores: acender coisas por dentro. Reflex\u00e3o e A\u00e7\u00e3o, Santa Cruz do Sul, v. 14, n. 1, p. 29-43, jan.\/jun. 2006.<br \/>\nPEREIRA, Marcos Villela. A est\u00e9tica da professoralidade: um estudo interdisciplinar sobre a subjetividade do professor. 1996. Tese (Doutorado em Supervis\u00e3o e Curr\u00edculo) \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 1996.<br \/>\nRADESPIEL, Maria. Alfabetiza\u00e7\u00e3o sem segredos. Di\u00e1rio do professor. Contagem: Iemar, 2002. (Cole\u00e7\u00e3o Pirulito \u2013 Maternal)<\/h5>\n<h4>LUCIANA GRUPPELLI LOPONTE, doutora em educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o na mesma universidade.<\/h4>\n<h5>Link direto para o artigo:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/v13n37\/10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbedu\/v13n37\/10<\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Luciana Gruppelli Loponte Uma frase de Deleuze, no livro Cr\u00edtica e cl\u00ednica (1997), \u00e9 como uma p\u00e9rola perdida entre tantos outros discursos circulares que tentam falar de arte e inf\u00e2ncia, de arte e educa\u00e7\u00e3o: \u201cA arte [&#8230;] atinge esse estado celestial que j\u00e1 nada guarda de pessoal nem de racional. \u00c0 sua maneira, a arte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":221,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[36,117,118,40,121,119,133,120],"class_list":["post-216","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-arte-contemporanea","tag-dimensao-estetica","tag-docencia","tag-educacao","tag-gustave-courbet","tag-infancia","tag-miro","tag-picasso"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=216"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":679,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/216\/revisions\/679"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}