﻿{"id":2286,"date":"2019-09-18T01:47:34","date_gmt":"2019-09-18T01:47:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=2286"},"modified":"2019-12-18T21:34:52","modified_gmt":"2019-12-18T21:34:52","slug":"quais-sao-os-encontros-possiveis-entre-um-artista-negro-e-o-campo-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/quais-sao-os-encontros-possiveis-entre-um-artista-negro-e-o-campo-da-educacao\/","title":{"rendered":"QUAIS S\u00c3O OS ENCONTROS POSS\u00cdVEIS ENTRE UM ARTISTA NEGRO E O CAMPO DA EDUCA\u00c7\u00c3O?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/768.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2148 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/768.jpg\" alt=\"Dor Fantasma 2014 Aquarela e l\u00e1pis sobre papel 109 x 75 cm\" width=\"341\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/768.jpg 341w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/768-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sidney Amaral :Dor Fantasma 2014 Aquarela e l\u00e1pis sobre papel 109 x 75 cm<\/p>\n<p>Num pa\u00eds estruturalmente racista como o Brasil, para um homem negro apenas o fato de estar vivo e ter chegado \u00e0 fase adulta j\u00e1 pode ser considerado um feito e tanto. Contrariando as estat\u00edsticas e os alarmantes n\u00fameros da viol\u00eancia no pa\u00eds, onde s\u00e3o assassinadas em m\u00e9dia 130 pessoas negras por dia, na sua maioria homens entre os 15 e os 29 anos (IPEA, 2019), tenho o privil\u00e9gio e a responsabilidade de estar vivo. E, aos 41 anos de idade, sendo 22 deles dedicados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, considero que atingi o auge: sou professor em um Instituto Federal.<\/p>\n<p>Estando-se vivo, \u00e9 poss\u00edvel pensar nas condi\u00e7\u00f5es desta exist\u00eancia. No meu caso, sou artista e professor, o que me traz ao assunto foco deste texto: \u201cquais s\u00e3o os encontros poss\u00edveis entre um artista negro e o campo da educa\u00e7\u00e3o?\u201d Para cada um destes dois pap\u00e9is sociais que desempenho foi necess\u00e1ria uma forma\u00e7\u00e3o. Assim, o primeiro encontro poss\u00edvel \u00e9 na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o: antes de atuar no campo da educa\u00e7\u00e3o como professor, fui estudante, aspirante \u00e0 professor. E para ser artista, \u00e9 preciso fazer uma gradua\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, h\u00e1 muitos artistas que foram autodidatas ou fizeram outras forma\u00e7\u00f5es, como o Atelier Livre da Prefeitura, no caso dos artistas de Porto Alegre, e at\u00e9 cursos t\u00e9cnicos como o que h\u00e1 no Instituto Federal do Maranh\u00e3o (IFMA) Campus S\u00e3o Lu\u00eds \u2013 Centro Hist\u00f3rico: curso t\u00e9cnico em artes visuais integrado ao ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar em forma\u00e7\u00e3o, seja ela uma gradua\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ou um curso t\u00e9cnico em institui\u00e7\u00f5es federais, como s\u00e3o os IFs, sem pensar no acesso, nas pol\u00edticas de ingresso destas institui\u00e7\u00f5es, o que certamente nos levar\u00e1 ao assunto das cotas. Assim, outro ponto poss\u00edvel para pensarmos entre um artista negro e o campo da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o acesso: \u00e9 preciso aperfei\u00e7oar as pol\u00edticas de reserva de vaga e tamb\u00e9m de perman\u00eancia, para que possam surgir mais artistas negros e negras, com diploma, e professores negros e negras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na presente conjuntura, onde os direitos humanos em geral est\u00e3o sob ataque, mas que ainda temos a nosso favor a legisla\u00e7\u00e3o, e contamos com o Estatuto da Igualdade Racial, que garante uma s\u00e9rie de direitos conquistados com muita luta nos \u00faltimos 20 anos, o\/a artista negro\/negra transcende o encontro com o campo da educa\u00e7\u00e3o: ele ou ela \u00e9 o pr\u00f3prio assunto da aula, do projeto, da pesquisa! A obrigatoriedade do ensino da hist\u00f3ria e cultura afro brasileira e africana no Ensino B\u00e1sico, determinada pela lei 10.639\/2003, com a amplia\u00e7\u00e3o para todos os n\u00edveis de ensino a partir da Resolu\u00e7\u00e3o 1\/2004 do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE), faz parte de um conjunto de pol\u00edticas p\u00fablicas criadas no per\u00edodo compreendido entre 2003 e 2016 que visam a valoriza\u00e7\u00e3o dessas culturas e o devido reconhecimento enquanto constituintes da cultura e identidade brasileiras. Isso me remete diretamente ao bel\u00edssimo material \u201cArte Negra na Escola\u201d, criado pelo Departamento de Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Social da UFRGS (DEDS), coordenado pela educadora Rita Camisol\u00e3o, com curadoria de Eduardo Veras. Ainda hoje, h\u00e1 pouco material sobre arte negra e isso cria um problema, pois n\u00e3o tivemos forma\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no ensino m\u00e9dio e nem na gradua\u00e7\u00e3o: de onde viria a seguran\u00e7a para trabalhar com um tema delicado como esse? Imagino o medo que professores e professoras brancas tem de tocar nesse assunto, o que nos leva ao tema da branquitude. Branquitude \u00e9 a identidade branca que, ao se considerar hegem\u00f4nica, arrogantemente n\u00e3o permite que seus pertencentes percebam que essa hegemonia \u00e9 constru\u00edda em cima do racismo estrutural. A branquitude \u00e9 a falsa normaliza\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o haja negras e negros no cinema, no museu, no restaurante, no <em>shopping<\/em>, a n\u00e3o ser atuando como servi\u00e7ais de limpeza ou seguran\u00e7a. E est\u00e1 a\u00ed a import\u00e2ncia de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, de uma educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, das pol\u00edticas de cotas e perman\u00eancia, da inclus\u00e3o e da diversidade na escola e nas universidades: \u00e9 preciso abalar a branquitude e com isso construir a equidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente ainda em 2019, um professor negro al\u00e9m de fazer tudo o que outros professores tem de fazer, precisa estar sempre alerta, \u201cser resist\u00eancia\u201d, ensinar todas e todos sobre racismo (inclusive para seus pares), pois o racismo estrutural est\u00e1 presente o tempo todo, em todas as inst\u00e2ncias das institui\u00e7\u00f5es. Ao artista negro resta existir, estar vivo e trabalhando, para que sua trajet\u00f3ria possa um dia romper as bolhas dos sistemas da arte (que em geral s\u00e3o racistas e elitistas) pela persist\u00eancia, como o fazem Leandro Machado (1970), Pel\u00f3pidas Thebano (1934) e Carlos Alberto Oliveira, o Carl\u00e3o (1951-2013), os tr\u00eas artistas eleitos para figurarem no referido material \u201cArte Negra na Escola\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falo sobre racismo por a\u00ed, em minhas aulas, cursos e palestras, \u00e9 comum as pessoas brancas ficarem quietas, t\u00edmidas, com receio de falar. Certa vez, ao convidar uma turma para participar de atividades da Semana da Consci\u00eancia Negra, ouvi de uma estudante branca que ela n\u00e3o participaria pois n\u00e3o era certo tirar o lugar de fala das pessoas negras. O Renato Noguera, professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), me ajudou a responder:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ubuntu<\/em> pode ser traduzido como \u201co que \u00e9 comum a todas as pessoas\u201d. A m\u00e1xima zulu e xhosa, <em>umuntu ngumuntu ngabantu<\/em> (uma pessoa \u00e9 uma pessoa atrav\u00e9s de outras pessoas) indica que um ser humano s\u00f3 se realiza quando humaniza outros seres humanos. A desumaniza\u00e7\u00e3o de outros seres humanos \u00e9 um impedimento para o autoconhecimento e a capacidade de desfrutar de todas as nossas potencialidades humanas. O que significa que uma pessoa precisa estar inserida numa comunidade, trabalhando em prol de si e de outras pessoas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, n\u00e3o adianta as pessoas negras ficarem debatendo entre si o racismo, pois as pessoas negras n\u00e3o oprimem nem assediam a si mesmas, n\u00e3o s\u00e3o elas que exercem o racismo, mas sim as pessoas brancas. \u00c9 preciso que as pessoas brancas assumam a sua responsabilidade sobre o racismo estrutural, des\u00e7am do pedestal da branquitude e comecem a refletir criticamente e debater sobre seu protagonismo na perpetua\u00e7\u00e3o do racismo estrutural para que possamos ter um avan\u00e7o maior que leis como a 10.639 e a das cotas.<\/p>\n<p><strong>Por Estev\u00e3o da Fontoura Haeser<\/strong><\/p>\n<p>(estevao.haeser@osorio.ifrs.edu.br)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 professor de arte no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia, campus Os\u00f3rio. Artista multim\u00eddia, mestre em Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o pelo\u00a0IFRS, especialista em Pedagogia da Arte pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS (2009) e Licenciado em Artes Visuais (2018) e Bacharel em Artes Pl\u00e1sticas (Habilita\u00e7\u00e3o em Desenho) pelo Instituto de Artes da UFRGS (2003). Foi curador das mostras brasileiras nas trienais Eksperimenta! 2014 e 2017, em Tallinn, Est\u00f4nia.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BRASIL. <em>Lei n. \u00ba 10.639, de 09.01.03<\/em>. Altera a Lei 9394\/96 para incluir no curr\u00edculo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da tem\u00e1tica \u201cHist\u00f3ria e culturaafro-brasileira\u201d. Dispon\u00edvel em\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &lt;http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2003\/l10.639.htm&gt;. Acesso em: 22 de julho de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNE\/CP. <em>Resolu\u00e7\u00e3o 1\/2004<\/em>. Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, Bras\u00edlia, 22 de junho de 2004, Se\u00e7\u00e3o 1, p. 11. Dispon\u00edvel em\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &lt;<a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/cne\/arquivos\/pdf\/res012004.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/portal.mec.gov.br\/cne\/arquivos\/pdf\/res012004.pdf<\/a>&gt; Acesso em: 22 de julho de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOGUERA, Renato. <em>Ubuntu como modo de existir: <\/em>elementos gerais para uma \u00e9tica afroperspectiva<em>.<\/em> Revista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores\/as Negros\/as (ABPN), v. 3, n. 6, p. 147-150, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VERAS, E.; MARQUES, A. S. ; FONTOURA, E. ; VIEIRA, G. S. ; MORESCO, L. ; CINEL, N. ; SANTOS, P. X. ; LOPES, V. N. ; CAMISOLAO, R. S. . <em>Arte negra na escola<\/em>. UFRGS, Prorext, v. 1, n. 1. 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sidney Amaral :Dor Fantasma 2014 Aquarela e l\u00e1pis sobre papel 109 x 75 cm Num pa\u00eds estruturalmente racista como o Brasil, para um homem negro apenas o fato de estar vivo e ter chegado \u00e0 fase adulta j\u00e1 pode ser considerado um feito e tanto. 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