﻿{"id":2347,"date":"2019-11-04T02:29:22","date_gmt":"2019-11-04T02:29:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=2347"},"modified":"2019-12-18T21:34:52","modified_gmt":"2019-12-18T21:34:52","slug":"arte-na-escola-pra-que-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/arte-na-escola-pra-que-mesmo\/","title":{"rendered":"ARTE NA ESCOLA, PRA QU\u00ca, MESMO?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2231\" aria-describedby=\"caption-attachment-2231\" style=\"width: 457px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/salvador_brazil.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2231\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/salvador_brazil.jpg\" alt=\" Salvador, Brasil. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.jr-art.net\/projects\/inside-out-project-group-actions\" width=\"457\" height=\"342\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/salvador_brazil.jpg 675w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/salvador_brazil-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 457px) 100vw, 457px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2231\" class=\"wp-caption-text\">JR. Salvador-Brasil. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.jr-art.net\/projects\/inside-out-project-group-actions<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem foi dia de luta! As ruas foram ocupadas por jovens, adultos, idosos e aqui e acol\u00e1 uma ou outra crian\u00e7a irrompia na paisagem com seus sorrisos infantis portadores de uma esperan\u00e7a que parece estar nos escapando por entre os dedos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como professor me sinto impelido a participar de momentos como aquele, n\u00e3o podendo fugir \u00e0 fun\u00e7\u00e3o social que me foi outorgada pela sociedade atrav\u00e9s de meu diploma. \u00c9 meu dever lembrar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio manter a esperan\u00e7a viva ainda que s\u00f4frega. \u00c9 importante manter vivo na mem\u00f3ria o direito aos espa\u00e7os que garantam ao povo o direito \u00e0 voz e assim manter acesa a chama da possibilidade de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como artista que sou, me sinto vocacionado a, junto de companheiros do presente, atender ao chamado de nossos antecessores e contribuir com o grito daqueles que querem ter &#8220;voz ativa e no nosso destino mandar&#8221; &#8211; Salve Chico, o Buarque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imbu\u00eddo desse sentimento \u00e9 que me reuni com outros companheiros e companheiras da jornada docente e caminhei lado a lado com estudantes que acreditam ser donos de seus destinos e portadores de vozes pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudantes que me ladeavam ontem traziam no peito um certo inconformismo e a capacidade de transformar suas dores em poesia: vi, ouvi e senti a vibra\u00e7\u00e3o de seus corpos, capazes de converter-se em manifesta\u00e7\u00f5es vivas da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9 assim que compreendo a arte: uma oportunidade de transformar-se e transformar o mundo que habitamos atrav\u00e9s da manifesta\u00e7\u00e3o dos nossos sentidos e sentires, direcionando-os e ofertando-os ao(s) outro(s).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso, portanto, que a arte seja sempre um di\u00e1logo entre o que est\u00e1 posto como realidade e as infinitas possibilidades de sua reinven\u00e7\u00e3o. Compreendo que a arte seja um dos meios pelo qual os sujeitos s\u00e3o capazes de garantir o seu direito a vez e voz no mundo, que \u00e9 capaz de silenciar e fazer emudecer com bastante facilidade e frequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos um momento no qual o silenciamento busca ser alcan\u00e7ado n\u00e3o pela impossibilidade da voz (a internet, com suas redes sociais e prolifera\u00e7\u00e3o de fake news, parece nos iludir com a garantia de tal voz),\u00a0 mas pela sua orquestra\u00e7\u00e3o uniforme, pela tentativa de garantir narrativas \u00fanicas e em conformidade com uma hegemonia (j\u00e1) instalada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento o que se pode perceber \u00e9 um movimento de ataque aos discursos e corpos que n\u00e3o se apresentem em conson\u00e2ncia com a narrativa institucionalizada pelos detentores dos meios de condu\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica, e mesmo privada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed decorrem diversos ataques \u00e0queles que s\u00e3o identificados como em n\u00e3o conformidade com o projeto em marcha. N\u00e3o por acaso, artistas s\u00e3o atacados publicamente dia ap\u00f3s dia, seja atrav\u00e9s da deprecia\u00e7\u00e3o de sua produ\u00e7\u00e3o seja pelo ataque \u00e0s suas biografias; dia ap\u00f3s dia o pr\u00f3prio estatuto da (sua) arte \u00e9 questionado numa esp\u00e9cie de tribunal inquisit\u00f3rio formado por &#8220;especialistas de \u00faltima hora&#8221; no &#8220;Grande j\u00fari&#8221; das Redes Sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tais especialistas n\u00e3o importam as reflex\u00f5es e o conhecimento acumulado ao longo de toda a hist\u00f3ria humana, e em especial da hist\u00f3ria da arte produzida at\u00e9 a contemporaneidade. A estes me parece interessar \u00fanica e exclusivamente a repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona e pouco colorida de tons acinzentados j\u00e1 consolidados pelos seus pr\u00f3prios padr\u00f5es est\u00e9ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, importante dizer, esqueceram\u00a0 o significado dessa palavrinha t\u00e3o repetida, mas t\u00e3o pouco compreendida (ou seria mais correto dizer ainda nunca aprendida?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Est\u00e9tica, enquanto disciplina filos\u00f3fica, h\u00e1 muito deixou de ser uma r\u00e9gua de medir os sentires a partir de padr\u00f5es pr\u00e9-estabelecidos na busca de um ideal distante, para se transformar na instaura\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo aberto e franco entre os artistas, os objetos art\u00edsticos e os apreciadores destes objetos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim sendo, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 um exemplo \u00fanico que precisa ser seguido; n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas prontas que estabele\u00e7am rota segura para alcan\u00e7ar modelos; n\u00e3o h\u00e1 garantias de que os resultados ser\u00e3o correspondentes \u00e0s expectativas. A arte contempor\u00e2nea, por raz\u00f5es diversas, entregou-se \u00e0 possibilidade da experimenta\u00e7\u00e3o; ao abandono de padr\u00f5es pr\u00e9-concebidos e necessidade da repeti\u00e7\u00e3o de qualquer regra que seja afirma\u00e7\u00e3o de uma verdade \u00fanica, enfim assumiu-se como radicalmente humana: incompleta, incerta, em constante muta\u00e7\u00e3o e acima de tudo, diversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia ent\u00e3o o ensino de arte fugir dessa configura\u00e7\u00e3o? Seria poss\u00edvel a um docente-artista n\u00e3o apresentar aos seus alunos a possibilidade da experimenta\u00e7\u00e3o da arte como uma alternativa de reinven\u00e7\u00e3o da realidade, assun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de disputa por sua pr\u00f3pria voz e, portanto, como irrup\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conformidades no espa\u00e7o escolar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o seria dever de um artista-docente provocar sua comunidade a refletir sobre como a arte pode ser manifesta de formas diversas e encoraj\u00e1-lo a receber as vozes que ela porta para o tal di\u00e1logo franco e aberto? \u00c9 realmente facultado ao professor de arte esvaziar a arte de suas cores, tonalidades e gestos em nome de uma conformidade aos tons de cinza que vem tomando conta dos espa\u00e7os escolares?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que muitas vezes parece que a escola busca silenciar aqueles que ainda mant\u00e9m alguma disposi\u00e7\u00e3o para questionar o que estaria posto como cl\u00e1usula p\u00e9trea (ali\u00e1s, onde est\u00e1 mesmo descrita esta cl\u00e1usula?) N\u00e3o deve ser a escola um lugar onde \u00e9 garantido o pensamento reflexivo, a cr\u00edtica cient\u00edfica e a experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que incomoda tanto a possibilidade da express\u00e3o dos alunos em processo de forma\u00e7\u00e3o? A quem interessa o cerceamento das possibilidades expressivas dos corpos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizer quando a censura, disfar\u00e7ada de den\u00fancia, se instala entre os tr\u00e2mites legais que atingem aqueles que apenas cumprem o papel para o qual estado eles capacitou e contratou?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje o dia foi de luta! A escola est\u00e1, e continuar\u00e1, sendo ocupada pela arte de adolescentes que com suas vidas propagam a cren\u00e7a na esperan\u00e7a de (em meio ao silenciamento em tons de cinza) manter o colorido estampado no piso da \u00e1rea de viv\u00eancia (quanta ironia!) que insistir\u00e1 em lembrar aos transeuntes que por ali passaram sujeitos capazes de intervir na conformidade do espa\u00e7o para deixar claro que a escola \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o para o di\u00e1logo com a n\u00e3o conformidade, assumida historicamente por aqueles que ousaram transformar amores, dores, alegrias e sentires em inconformadas formas de arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Natal\/Cear\u00e1-Mirim, 14\/08\/2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por Thulho Cezar Santos de Siqueira<\/strong><\/p>\n<p>(thulho.santos@ifrn.edu.br)<\/p>\n<p>\u00c9 Professor de Teatro no\u00a0Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia do Rio Grande do Norte, Campus Cear\u00e1-Mirim. Doutor em Educa\u00e7\u00e3o (UFRN), Mestre em Letras (UERN) e Graduado em\u00a0Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica com Habilita\u00e7\u00e3o em Artes C\u00eanicas (UFRN).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem foi dia de luta! 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