﻿{"id":2836,"date":"2020-07-23T14:13:51","date_gmt":"2020-07-23T14:13:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=2836"},"modified":"2020-07-23T14:13:51","modified_gmt":"2020-07-23T14:13:51","slug":"violencia-emcasa-quando-a-arte-de-mulheres-rompe-o-silencio-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/violencia-emcasa-quando-a-arte-de-mulheres-rompe-o-silencio-parte-1\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia #emcasa: quando a arte de mulheres rompe o sil\u00eancio &#8211; PARTE 1"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><i>Meus sil\u00eancios n\u00e3o me protegeram. Seu sil\u00eancio n\u00e3o vai proteger voc\u00ea.\u00a0<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0Audre Lorde\u00a0<i> <\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2838\" aria-describedby=\"caption-attachment-2838\" style=\"width: 596px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Estoy-Viva.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2838\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Estoy-Viva.jpg\" alt=\"Regina Jos\u00e9 Galindo, Estoy viva , 2015, escultura de ferro fundido.  Fonte: https:\/\/mariagraciadepedro.com\/regina-jose-galindo-2015\/ \" width=\"596\" height=\"447\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Estoy-Viva.jpg 419w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Estoy-Viva-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 596px) 100vw, 596px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2838\" class=\"wp-caption-text\">Regina Jos\u00e9 Galindo, <em>Estoy viva<\/em> , 2015, escultura de ferro fundido.<br \/>Fonte: https:\/\/mariagraciadepedro.com\/regina-jose-galindo-2015\/<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_2839\" aria-describedby=\"caption-attachment-2839\" style=\"width: 602px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Algumas-escaparam.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2839\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Algumas-escaparam.jpg\" alt=\"Regina Parra, Algumas escaparam, 2019. Letreiro de Neon. Trecho da pe\u00e7a As Bacantes (405 a.C.), de Eur\u00edpedes. Fonte: https:\/\/gramho.com\/explore-hashtag\/36panoramasert%C3%A3o\" width=\"602\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Algumas-escaparam.jpg 438w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Algumas-escaparam-300x268.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2839\" class=\"wp-caption-text\">Regina Parra,<em> Algumas escaparam<\/em>, 2019. Letreiro de Neon. Trecho da pe\u00e7a As Bacantes (405 a.C.), de Eur\u00edpedes. Fonte: https:\/\/gramho.com\/explore-hashtag\/36panoramasert%C3%A3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_2841\" aria-describedby=\"caption-attachment-2841\" style=\"width: 736px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/SOS-not\u00edcia.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-2841\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/SOS-not\u00edcia-1024x576.jpg\" alt=\"Mulher v\u00edtima de viol\u00eancia pede ajuda aos vizinhos jogando toalha pela janela com mensagem de batom. Not\u00edcia em: https:\/\/g1.globo.com\/sc\/santa-catarina\/noticia\/2020\/04\/20\/mulher-vitima-de-violencia-escreve-pedido-de-socorro-com-batom-em-toalha-e-joga-pela-varanda-em-sc.ghtml\" width=\"736\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/SOS-not\u00edcia-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/SOS-not\u00edcia-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/SOS-not\u00edcia.jpg 1040w\" sizes=\"(max-width: 736px) 100vw, 736px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2841\" class=\"wp-caption-text\">Mulher v\u00edtima de viol\u00eancia pede ajuda aos vizinhos jogando toalha pela janela com mensagem de batom. Not\u00edcia em: https:\/\/g1.globo.com\/sc\/santa-catarina\/noticia\/2020\/04\/20\/mulher-vitima-de-violencia-escreve-pedido-de-socorro-com-batom-em-toalha-e-joga-pela-varanda-em-sc.ghtml<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem da casa como lugar de prote\u00e7\u00e3o, afeto e bem-estar \u00e9 imperante em nossa cultura. Nessa imagem, desfilam os ideais de fam\u00edlia, amor rom\u00e2ntico e de seguran\u00e7a frente a uma realidade sabidamente violenta como a do Brasil. Entretanto, essa imagem do &#8220;lar doce lar&#8221; seguro e feliz, evidentemente, n\u00e3o leva em conta que, para um grande segmento da popula\u00e7\u00e3o, esse pode ser o lugar mais perigoso para se estar. Cabe lembrar que, de acordo com os dados do <a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/download\/19\/atlas-da-violencia-2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atlas da Viol\u00eancia de 2019<\/a>, \u00e9 na pr\u00f3pria resid\u00eancia onde acontece a grande maioria dos assassinatos de mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sabemos, a conjuntura da pandemia jogou boa parte da popula\u00e7\u00e3o em um confinamento no lar, como a medida mais eficaz contra a transmiss\u00e3o do coronav\u00edrus. Esse confinamento e o decorrente aumento do tempo de conviv\u00eancia em fam\u00edlia, tornou n\u00edtida uma realidade que muitos insistiam em n\u00e3o ver: a da persist\u00eancia da viol\u00eancia contra mulheres no ambiente dom\u00e9stico, a despeito dos avan\u00e7os legais na coibi\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Phumzile Mlambo Ngcuka, diretora executiva da <a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONU Mulheres<\/a>, chama de <a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cp<\/a><a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">andemia invis\u00edvel<\/a>\u201d o paradoxo da\u00a0 quarentena, onde o isolamento para proteger as pessoas, aproxima ainda mais as mulheres e meninas de seus agressores aumentando os fatores de risco para a vida delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na live <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ebLxmUYHA6c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i>Viol\u00eancia Dom\u00e9stica em tempos do Covid 19<\/i><\/a>, a promotora de justi\u00e7a do Paran\u00e1, Val\u00e9ria Scarance, informou ter observado uma diminui\u00e7\u00e3o de boletins de ocorr\u00eancia, mas um aumento de cerca de 20% nos feminic\u00eddios. Embora sejam dados bastante recentes para conclus\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio prestar muita aten\u00e7\u00e3o a eles j\u00e1 que, conforme os \u00edndices, como a maior parte dos agressores vive dentro de suas casas, as mulheres podem estar com ainda mais dificuldade de denunciar.<\/p>\n<p>Se todas as mulheres est\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica, \u00e9 importante enfatizar que as v\u00edtimas mais frequentes s\u00e3o mulheres negras, aquelas que residem em\u00a0 periferias e aquelas que se encontram nas regi\u00f5es Norte e Nordeste do Brasil, conforme os dados do <em><a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/relatorio_institucional\/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mapa da Viol\u00eancia de 2015 e do Atlas da Viol\u00eancia de 2019<\/a><\/em>. Ainda, tamb\u00e9m lembrar de muitas formas de isolamentos para al\u00e9m da quarentena.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XEuJ9XT2yX8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em> Sozinhas<\/em> <\/a>(2017) sobre mulheres do campo no oeste catarinense observamos a situa\u00e7\u00e3o de isolamento geogr\u00e1fico em um contexto rural, sob a dimens\u00e3o da complexidade de conflitos que envolvem sair de uma situa\u00e7\u00e3o violenta. Situa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, materiais e sentimentais diante do afastamento das redes de apoio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe title=\"&quot;Sozinhas&quot; - Viol\u00eancia contra mulheres que vivem no campo\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XEuJ9XT2yX8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/?p=2678\">site do ARTEVERSA<\/a> j\u00e1 tratamos um pouco das ressignifica\u00e7\u00f5es feitas por muitas artistas mulheres, do ambiente da casa relegado \u00e0s mulheres como lugar do trabalho de reprodu\u00e7\u00e3o, para um lugar de cria\u00e7\u00e3o e possibilidade de exist\u00eancia. Precisamos ainda, e urgentemente, falar tamb\u00e9m de quando a casa n\u00e3o \u00e9 sequer um lugar seguro para manter-se viva, a casa como lugar de viol\u00eancias mantidas por silenciamentos e invisibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Mas ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel falar de viol\u00eancia dom\u00e9stica atrav\u00e9s da arte?<\/h2>\n<h2>Que tipo de vozes e visibilidades podem ser criadas para ajudar a transformar a situa\u00e7\u00e3o das mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia dentro de suas casas?<\/h2>\n<h2>O que a arte pode diante daquilo que \u00e9 insuport\u00e1vel para muitas pessoas?<\/h2>\n<h2>Como as artistas t\u00eam abordado o problema da viol\u00eancia dom\u00e9stica?<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frente ao sil\u00eancios, os que podem, devem falar e abrir caminhos de para aquelas que n\u00e3o podem. Os que podem mostrar, tem o compromisso de n\u00e3o omitir. A arte, nesse sentido, \u00e9 um campo com diversas possibilidades de fazer ecoar vozes e produzir novas visualidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2843\" aria-describedby=\"caption-attachment-2843\" style=\"width: 604px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2843 \" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-1.jpg\" alt=\"Pamela 1\" width=\"604\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-1.jpg 480w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2843\" class=\"wp-caption-text\">Panmela Castro, <em>Corpo Vermelho,<\/em> 2019, performance. Fonte: https:\/\/www.premiopipa.com\/panmela-castro\/<\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_2844\" aria-describedby=\"caption-attachment-2844\" style=\"width: 606px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-2-.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2844 \" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-2-.jpg\" alt=\"Pamela 2\" width=\"606\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-2-.jpg 483w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-2--300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 606px) 100vw, 606px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2844\" class=\"wp-caption-text\">Panmela Castro, <em>Feminic\u00eddio<\/em>, 2019, instala\u00e7\u00e3o. Fonte: https:\/\/panmelacastro.com\/feminicidio-feminicide<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das vozes que ecoam em imagens \u00e9 a de Panmela Castro. A artista, que teve uma biografia marcada pela experi\u00eancia da viol\u00eancia dom\u00e9stica &#8211; seja enquanto crian\u00e7a que vivia em um lar violento, seja enquanto adulta em seus relacionamentos pessoais &#8211; tem tematizado por meio de performances, pinturas, grafittes e instala\u00e7\u00f5es essa brutal realidade a qual muitas mulheres est\u00e3o submetidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra artista que fala da viol\u00eancia dom\u00e9stica em primeira pessoa \u00e9 a estadunidense Nan Goldin. Seu trabalho \u00e9 conhecido por acompanhar\u00a0 o cotidiano e a viol\u00eancia perpetrada contra grupos homossexuais, transexuais, travestis e de prostitutas. A certo momento, no entanto, a c\u00e2mera volta-se para si mesma, expondo intimamente sua realidade. Trata-se de um autorretrato realizado ap\u00f3s uma agress\u00e3o que sofreu do pr\u00f3prio companheiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2846\" aria-describedby=\"caption-attachment-2846\" style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Nan-Goldim.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2846\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Nan-Goldim.jpg\" alt=\"Nan Goldin, Nan, um m\u00eas depois de ser agredida, de 1984, fotografia. Fonte: https:\/\/gandaia.info\/nan-goldin-fim-da-violencia-contra-as-mulheres\/  \" width=\"639\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Nan-Goldim.jpg 556w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Nan-Goldim-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2846\" class=\"wp-caption-text\">Nan Goldin, <em>Nan, um m\u00eas depois de ser agredida<\/em>, 1984, fotografia. Fonte: https:\/\/gandaia.info\/nan-goldin-fim-da-violencia-contra-as-mulheres\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na medida em que as artistas, como mulheres suscet\u00edveis \u00e0 viol\u00eancia, vocalizam seus medos e suas experi\u00eancias pessoais, produzem imagens que se convertem em s\u00edmbolos de sil\u00eancios rompidos. Resta-nos suspeitar:<\/p>\n<h2>Os apagamentos e os obst\u00e1culos colocados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica feminina ao longo da hist\u00f3ria n\u00e3o teriam sido uma forma de sufocar a den\u00fancia ao patriarcado, ou manter velado tais experi\u00eancias da viol\u00eancia?<\/h2>\n<h2>As narrativas masculinas da hist\u00f3ria da arte (aquelas em que\u00a0 h\u00e1 lugar apenas para a arte feita por homens) n\u00e3o seriam tamb\u00e9m instrumento de manuten\u00e7\u00e3o desse estado de coisas?<b> <\/b><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia contra as mulheres n\u00e3o iniciou na quarentena<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que vistos com ares de novidade ou de surpresa por certas pessoas, a partir de estudos de diversas autoras e artistas, podemos argumentar que a viol\u00eancia contra mulheres possui uma longa hist\u00f3ria e que, mesmo que pare\u00e7a \u00f3bvio, ainda \u00e9 preciso dizer que o isolamento na quarentena n\u00e3o \u00e9 a causa da viol\u00eancia, como insinuam <a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Misogino-reconhecido-Bolsonaro-diz-que-violencia-domestica-e-culpa-da-quarentena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">declara\u00e7\u00f5es recorrentes proferidas inclusive por chefes de Estado, do Brasil<\/a> e de outros pa\u00edses. A quarentena \u00e9 apenas um agravante dos fatores de risco que j\u00e1 existiam e que adv\u00e9m de uma cultura de viol\u00eancia estruturada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembramos que a vida no lar sempre esteve vinculada ao campo do privado, o que implicou em um denso manto de invisibilidade, neglig\u00eancia e impunidade, no \u00e2mbito das pol\u00edticas p\u00fablicas e da sociedade, quanto \u00e0s in\u00fameras formas de viol\u00eancia que ali se desenrolaram. Afora isso, a viol\u00eancia que geralmente era praticada por homens nesse ambiente, foi socialmente tratada com condescend\u00eancia e banalidade, sob o argumento de ela ser resultado de uma natureza masculina imut\u00e1vel, quando n\u00e3o, atribu\u00edda ao comportamento da pr\u00f3pria mulher, desdobrando-se na sua culpabiliza\u00e7\u00e3o. Fato \u00e9 que, a viol\u00eancia dom\u00e9stica e conjugal, foi, seja por aspectos religiosos, pol\u00edticos ou culturais, pouco combatida ou tratada como um problema de toda a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em dias de quarentena, em que vimos muitos projetos de releituras de obras de arte can\u00f4nicas em casa,\u00a0 cabe revisitar tamb\u00e9m as fotografias que a artista turca Derya Kilic realizou em 2012, encenando retratos conhecidos da hist\u00f3ria da pintura, acrescentando-lhes hematomas e machucados. Com isso, a artista sinaliza que a viol\u00eancia contra a mulher tem uma longa hist\u00f3ria, ainda que s\u00f3 recentemente tenha sido tratada como um problema social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2849\" aria-describedby=\"caption-attachment-2849\" style=\"width: 699px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Deria-Kilic.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2849\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Deria-Kilic.jpg\" alt=\"Deria Kilic\" width=\"699\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Deria-Kilic.jpg 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Deria-Kilic-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 699px) 100vw, 699px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2849\" class=\"wp-caption-text\">Derya Kilic, <em>Conhecer, ver<\/em>, 2012, fotografia. Fonte: https:\/\/womensenews.org\/2013\/02\/turkish-artist-paints-cuts-bruises-old-masters\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversas campanhas e trabalhos art\u00edsticos j\u00e1 utilizaram-se de imagens da agress\u00e3o, em sua forma f\u00edsica, para denunciar, tornar vis\u00edvel de maneira impactante, trazer para perto o que muitas vezes fica velado. No trabalho da artista estadunidense Cindy Sherman a imagem de mulheres \u00e9 ficcionalizada no corpo da pr\u00f3pria artista atrav\u00e9s de uma encena\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica de personagens de filmes que estereotipam as mulheres atrav\u00e9s de pap\u00e9is. Entre essas imagens temos rostos agredidos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2851\" aria-describedby=\"caption-attachment-2851\" style=\"width: 648px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Cindy-sherman.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2851\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Cindy-sherman.png\" alt=\"Cindy Sherman, Untitled Film Still #30, 1979. Fonte: https:\/\/www.moma.org\/collection\/works\/56687 \" width=\"648\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Cindy-sherman.png 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Cindy-sherman-300x215.png 300w\" sizes=\"(max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2851\" class=\"wp-caption-text\">Cindy Sherman,<em> Untitled Film Still #30,<\/em> 1979. Fonte: https:\/\/www.moma.org\/collection\/works\/56687<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 no trabalho da brasileira Dora Longo Bahia, isso \u00e9 feito atrav\u00e9s de pinturas a partir de not\u00edcias de p\u00e1ginas policiais. A artista pinta a si mesma na situa\u00e7\u00e3o de mulheres agredidas, acompanhando legendas de fotos no peri\u00f3dico <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/almanaque\/manchetes-mais-absurdas-do-noticias-populares.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i>Not\u00edcias Populares<\/i>.<\/a> No caso de Dora, chama aten\u00e7\u00e3o os relatos dos \u201cmotivos\u201d para a agress\u00e3o, onde detalhes de uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima s\u00e3o expostos nas p\u00e1ginas policiais e beiram a irrealidade. Al\u00e9m de ambas as artistas realizarem autorretratos, seus trabalhos trazem \u00e0 tona o tratamento dispensado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa \u00e0 viol\u00eancia sofrida pelas mulheres: em Sherman a refer\u00eancia se faz aos filmes hollywoodianos dos anos 50 e 60, em Bahia, ao jornalismo policial espetacularizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2852\" aria-describedby=\"caption-attachment-2852\" style=\"width: 675px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Dora-Longo-Bahia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2852\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Dora-Longo-Bahia.jpg\" alt=\"Dora Longo Bahia, \u201cDLB, gr\u00e1vida de 6 meses foi espancada pelo marido porque o jantar n\u00e3o estava pronto, Itaquaquecetuba, 10\/09\/1995\u201d  e \u201cDLB apanhou do irm\u00e3o porque arrumou um amante muito jovem para ela, Jardim Baronesa, 04\/07\/1995\u201d  1995, \u00f3leo sobre tela. https:\/\/issuu.com\/editora3\/docs\/select_08_desgustacao\/62\" width=\"675\" height=\"529\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Dora-Longo-Bahia.jpg 675w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Dora-Longo-Bahia-300x235.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2852\" class=\"wp-caption-text\">Dora Longo Bahia, \u201c<em>DLB, gr\u00e1vida de 6 meses foi espancada pelo marido porque o jantar n\u00e3o estava pronto, Itaquaquecetuba, 10\/09\/1995<\/em>\u201d e \u201c<em>DLB apanhou do irm\u00e3o porque arrumou um amante muito jovem para ela, Jardim Baronesa, 04\/07\/1995<\/em>\u201d 1995, \u00f3leo sobre tela. https:\/\/issuu.com\/editora3\/docs\/select_08_desgustacao\/62<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de que apenas recentemente o Estado tenha reconhecido a dimens\u00e3o de g\u00eanero dessas formas de viol\u00eancia e previsto puni\u00e7\u00f5es para elas, denota uma longa hist\u00f3ria de sil\u00eancio e naturaliza\u00e7\u00e3o desse estado de coisas. Data apenas de 2006 a implementa\u00e7\u00e3o da <em><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2004-2006\/2006\/lei\/l11340.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei Maria da Penha<\/a>,<\/em> que reconhece como crime a viol\u00eancia dom\u00e9stica, e apenas de 2015 a tipifica\u00e7\u00e3o do crime de <em>\u201cfeminic\u00eddio\u201d<\/em> no C\u00f3digo Penal, que caracteriza o assassinato de mulheres em fun\u00e7\u00e3o do seu g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no contexto brasileiro, a historiadora Lilia Schwarcz articula a tend\u00eancia brasileira ao autoritarismo \u00e0 &#8220;forma\u00e7\u00e3o patriarcal de nossa sociedade\u201d (SCHWARCZ, 2019, p. 186) como fatores que produzem uma brutal e persistente viol\u00eancia contra mulheres e contra as popula\u00e7\u00f5es LBTQI+. N\u00e3o \u00e0 toa toda essa estrutura autorit\u00e1ria e patriarcal presente e naturalizada entre n\u00f3s, est\u00e1 essencialmente ancorada em estere\u00f3tipos de g\u00eanero, em que se reitera a figura do homem como chefe de fam\u00edlia e provedor que se expressa atrav\u00e9s de um tipo de\u00a0 heterossexualidade agressiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somam-se a esses tra\u00e7os hist\u00f3ricos do Brasil, uma crescente militariza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica e a atual pol\u00edtica armamentista por parte do Estado, que apenas intensificam esse quadro se levarmos em conta que grande parte dos assassinatos no Brasil s\u00e3o cometidos por armas de fogo, ainda segundo o Atlas da Viol\u00eancia de 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A artista Beth Moys\u00e9s ilustra esse Brasil atrav\u00e9s da obra <i>5664 Mulheres <\/i>(2014) onde a bandeira do pa\u00eds \u00e9 desenhada com c\u00e1psulas de muni\u00e7\u00e3o, em refer\u00eancia ao n\u00famero de mulheres assassinadas por seus companheiros em 2013.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2854\" aria-describedby=\"caption-attachment-2854\" style=\"width: 612px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Beth-Bandeira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2854\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Beth-Bandeira.jpg\" alt=\" Beth Moys\u00e9s, 5664 Mulheres, 2014. Fonte: https:\/\/murilocastro.com.br\/2014-desbordando-corpos-beth-moyses-2511-a-20122014\/\" width=\"612\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Beth-Bandeira.jpg 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Beth-Bandeira-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 612px) 100vw, 612px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2854\" class=\"wp-caption-text\">Beth Moys\u00e9s, <em>5664 Mulheres<\/em>, 2014. Fonte: https:\/\/murilocastro.com.br\/2014-desbordando-corpos-beth-moyses-2511-a-20122014\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A professora e autora estadunidense bell hooks (2019) tamb\u00e9m enfatiza a amplitude e difus\u00e3o dessa viol\u00eancia, referindo-se a ela como uma \u201cviol\u00eancia patriarcal\u201d que est\u00e1 conectada ao \u201cpensamento sexista\u201d, tendo mais v\u00edtimas e outros desdobramentos al\u00e9m da viol\u00eancia dom\u00e9stica:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, o foco do feminismo em viol\u00eancia dom\u00e9stica destacou a viol\u00eancia\u00a0 de homens contra mulheres, mas com o progresso do movimento, surgiram evid\u00eancias de que a viol\u00eancia dom\u00e9stica tamb\u00e9m estava presente em relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, que mulheres em relacionamentos com mulheres eram e s\u00e3o muitas vezes v\u00edtimas de abuso, que crian\u00e7as tamb\u00e9m eram v\u00edtimas da viol\u00eancia patriarcal de adultos, mulheres e homens. [&#8230;] O termo \u2018viol\u00eancia patriarcal\u2019 \u00e9 \u00fatil porque, diferentemente da express\u00e3o \u2018viol\u00eancia dom\u00e9stica\u2019, mais comum, ele constantemente lembra o ouvinte que viol\u00eancia no lar est\u00e1 ligada ao sexismo e ao pensamento sexista, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o masculina. (hooks, 2019, p. 95-96).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>12\u00aa Bienal do Mercosul<\/em> que atualmente acontece online e traz como tema <i>Feminino(s), visualidades, a\u00e7\u00f5es e afetos<\/i>, tamb\u00e9m tem abordado o tema da <a href=\"http:\/\/www.fundacaobienal.art.br\/12-violencias-contra-mulheres%20\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">viol\u00eancia contra as mulheres<\/a> atrav\u00e9s de obras de artistas com as argentinas Ana Gallardo e F\u00e1tima Pecci e as mexicanas Elina Chauvet e M\u00f3nica Mayer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2856\" aria-describedby=\"caption-attachment-2856\" style=\"width: 661px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fatima.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2856 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fatima.jpg\" alt=\"Fatima\" width=\"661\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fatima.jpg 661w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Fatima-300x232.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 661px) 100vw, 661px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2856\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e1tima Pecci Carou, <em>Alg\u00fan d\u00eda saldr\u00e9 de aqu\u00ed<\/em>, 2014-2016, pinturas.\u00a0 Fonte: http:\/\/www.fundacaobienal.art.br\/bienal-12-obras\/Alg%C3%BAn-dia-saldr%C3%A9-de-aqu%C3%AD-(Femic%C3%ADdios)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">F\u00e1tima Pecci Carou pinta retratos de mulheres que sofreram viol\u00eancia na Argentina e intitula de \u201cAlgum dia sairei daqui\u201d essa lista de rostos.\u00a0 Ana Gallardo traz mem\u00f3rias de mulheres e meninas guatemaltecas, em especial as camponesas e as ind\u00edgenas submetidas \u00e0 torturas, trazendo fragmentos de suas falas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2857\" aria-describedby=\"caption-attachment-2857\" style=\"width: 670px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Anna-Gallardo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2857\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Anna-Gallardo.jpg\" alt=\"Ana Gallardo, Dibujos textuales II, 2018, desenho em carv\u00e3o sobre papel. Fonte: https:\/\/terremoto.mx\/dibujos-textuales-ii\/ \" width=\"670\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Anna-Gallardo.jpg 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Anna-Gallardo-300x201.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2857\" class=\"wp-caption-text\">Ana Gallardo, Dibujos textuales II, 2018, desenho em carv\u00e3o sobre papel. Fonte: https:\/\/terremoto.mx\/dibujos-textuales-ii\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A viol\u00eancia como ato discursivo<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o ato violento \u00e9 entendido como mensagem e os crimes se percebem orquestrados em claro estilo responsorial, encontramos-nos com uma cena onde os atos de viol\u00eancia comportam-se como uma l\u00edngua capaz de funcionar eficazmente para os entendidos, os avisados, os que a falam, <i>ainda quando n\u00e3o participem diretamente na a\u00e7\u00e3o enunciativa<\/i>. \u00c9 por isso que, quando um sistema de comunica\u00e7\u00e3o com um alfabeto violento instala-se, \u00e9 muito dif\u00edcil desinstal\u00e1-lo, elimin\u00e1-lo. A viol\u00eancia constitu\u00edda e cristalizada em forma de sistema de comunica\u00e7\u00e3o transforma-se em uma linguagem est\u00e1vel e passa a se comportar com o quase-automatismo de qualquer idioma. (SEGATO, 2013, p. 31-32)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o da fala parece ser um ponto chave quando pensamos a viol\u00eancia como uma linguagem, como forma de comunicar um poder, com intuito de fazer entender uma mensagem, aquilo que Rita Segato chama de \u201cpedagogia da crueldade\u201d. O que podemos relacionar, por exemplo, com os significados discursivos do <a href=\"http:\/\/www.generonumero.media\/2018-o-ano-da-violencia-politica-e-da-morte-de-marielle\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assassinato da soci\u00f3loga e pol\u00edtica negra Marielle Franco<\/a>, ocorrido no Rio de Janeiro em 2018,\u00a0 cujo nome se desenha sobre o corpo de todas as mulheres que, como ela, desafiaram estruturas de poder. Um crime ainda impune, uma viol\u00eancia, mais do que instrumental, tamb\u00e9m expressiva, contra uma mulher negra bissexual que ousou ocupar um cargo p\u00fablico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2860\" aria-describedby=\"caption-attachment-2860\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-Marielle.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2860\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-Marielle.jpg\" alt=\"Panmela Castro, Marielle, fotografia e performance, 2018. Fonte: https:\/\/www.premiopipa.com\/panmela-castro\/\" width=\"525\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-Marielle.jpg 498w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Pamela-Marielle-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2860\" class=\"wp-caption-text\">Panmela Castro, <em>Marielle<\/em>, 2018, fotografia e performance. Fonte: https:\/\/www.premiopipa.com\/panmela-castro\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem da viol\u00eancia que historicamente tem sido associada ao patriarcado, foi alimentada, desde tempos long\u00ednquos, pela ideia de uma inferioridade da mulher, isto \u00e9, a ideia de que ela seria menos humana que o homem. No entanto, autoras como Silvia Federici e Rita Segato, que t\u00eam pesquisado diferentes dimens\u00f5es dessa viol\u00eancia, estabelecem correla\u00e7\u00f5es entre o ataque \u00e0s mulheres e aspectos pol\u00edticos mais amplos como as din\u00e2micas dos sistemas capitalista e neoliberal. Tais sistemas, dizem elas, est\u00e3o calcados em modos de rela\u00e7\u00e3o que fragilizam a empatia, os la\u00e7os comunit\u00e1rios, a solidariedade e a pr\u00e1tica do cuidado, valores fortemente associados ao feminino. Al\u00e9m disso, tais sistemas se pautam em uma l\u00f3gica da propriedade e da preda\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e da natureza, l\u00f3gica que acaba se estendendo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com as mulheres. Assim, o ataque \u00e0s mulheres seria a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o desses sistemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas de que maneiras a arte poderia desafiar esses sistemas? Uma das vias poss\u00edveis a esta pergunta parece ser as pr\u00e1ticas que s\u00e3o d\u00e3o no \u00e2mbito das micropol\u00edticas, em que olha-se e utiliza-se de elementos do pr\u00f3prio cotidiano onde essas viol\u00eancias acontecem, como podemos ver no trabalho da artista americana Peggy Giggs, <i>Domestic Violence Milk Carton Project<\/i>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2861\" aria-describedby=\"caption-attachment-2861\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Peggy.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2861 \" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Peggy.jpg\" alt=\"Peggy\" width=\"620\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Peggy.jpg 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Peggy-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2861\" class=\"wp-caption-text\">Peggy Giggs, Domestic Violence Milk Carton Project, 1992. Inser\u00e7\u00e3o de mensagens em embalagens de leite. http:\/\/www.peggydiggs.net\/milk-carton<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1992, por sugest\u00e3o de uma mulher que havia sido presa por matar seu marido em leg\u00edtima defesa, Peggy desenvolveu mensagens para caixas tetra pak de leite e negociou com empresas de latic\u00ednios a circula\u00e7\u00e3o dessas mensagens pelos supermercados atrav\u00e9s do <em>design<\/em> das embalagens, visando atingir as mulheres atrav\u00e9s de um alimento comum nas casas. Nessas mensagens haviam contatos para den\u00fancias,\u00a0 pensando-se que no supermercado, um dos poucos lugares onde algumas mulheres iriam sozinhas, fornecer essas informa\u00e7\u00f5es poderia encoraj\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080;\"><span style=\"color: #000000;\">Continue lendo a PARTE 2<\/span> (em breve).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>hooks, bell. <i>O feminismo \u00e9 para todo mundo<\/i>: pol\u00edticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.<\/p>\n<p>SCHWARCZ, Lilia Moritz. <em>Sobre o autoritarismo brasileiro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia da Letras, 2019.<\/p>\n<p>SEGATO, Rita. <em>La escritura en el cuerpo de las mujeres asesinadas en Ciudad Ju\u00e1rez<\/em>. Buenos Aires: Tinta Lim\u00f3n, 2013.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Links<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2019\/11\/27\/audre-lorde-ensaio-irma-outsider\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/theintercept.com\/2019\/11\/27\/audre-lorde-ensaio-irma-outsider\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0104-026X2005000200003&amp;script=sci_arttext\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0104-026X2005000200003&amp;script=sci_arttext <\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/relatorio_institucional\/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/images\/stories\/PDFs\/relatorio_institucional\/190605_atlas_da_violencia_2019.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.onumulheres.org.br\/noticias\/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Misogino-reconhecido-Bolsonaro-diz-que-violencia-domestica-e-culpa-da-quarentena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.esquerdadiario.com.br\/Misogino-reconhecido-Bolsonaro-diz-que-violencia-domestica-e-culpa-da-quarentena<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ebLxmUYHA6c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ebLxmUYHA6c<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Os links das fontes das imagens foram inclu\u00eddos nas legendas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este texto foi produzido a muitas m\u00e3os, durante junho e julho de 2020.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto, Ta\u00eds Ritter Dias e Luciana Gruppelli Loponte<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o: Diane Sbardelotto, Carine Betker e Luciana Gruppelli Loponte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Meus sil\u00eancios n\u00e3o me protegeram. Seu sil\u00eancio n\u00e3o vai proteger voc\u00ea.\u00a0 \u00a0Audre Lorde\u00a0 &nbsp; &nbsp; A imagem da casa como lugar de prote\u00e7\u00e3o, afeto e bem-estar \u00e9 imperante em nossa cultura. Nessa imagem, desfilam os ideais de fam\u00edlia, amor rom\u00e2ntico e de seguran\u00e7a frente a uma realidade sabidamente violenta como a do Brasil. Entretanto, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2839,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[474,540,486,538,537,536,534,533,535,539,542,294,530,529,543,532,531,541,528,527],"class_list":["post-2836","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artistas","tag-fiqueemcasa","tag-ana-gallardo","tag-arteversaemquarentena","tag-audre-lord","tag-bell-hooks","tag-beth-moyses","tag-cindy-sherman","tag-derya-kilic","tag-dora-longo-bahia","tag-fatima-pecci-carou","tag-marielle-franco","tag-mulheres-artistas","tag-nan-goldin","tag-panmela-castro","tag-peggy-giggs","tag-regina-jose-galindo","tag-regina-parra","tag-rita-segato","tag-violencia-contra-mulheres","tag-violencia-domestica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2836"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2897,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions\/2897"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2839"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/arteversa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}