Astrônomo também é gente: histórias de quem faz o departamento de Astronomia – Ana Chies Santos

Ana em sua sala de trabalho, na UFRGS.

Ana Chies Santos é professora e pesquisadora do departamento de Astronomia da UFRGS desde 2015. Atua na área de evolução de galáxias, concentrando sua pesquisa em galáxias sofrendo transformações e em pequenos sistemas estelares extragalácticos como aglomerados globulares e galáxias anãs. Em 2016 Ana foi uma das vencedoras do prêmio Para Mulheres na Ciência da L’ Oreal – UNESCO- ABC na área de Física e, em 2018, foi eleita membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências!

Conversamos sobre sua trajetória, histórias e gostos! Confira:

 

AstroUFRGS: Como e quando você começou a se interessar por Astrofísica?

Ana Chies: Eu sempre fui muito curiosa, e perguntava o porquê de tudo. “Por quê? Por quê? Por quê?”
Eu sou uma pessoa privilegiada, porque meus pais são cientistas da área de biologia e sempre me incentivaram muito. Eles não sabiam nada de Astrofísica, já que são do mundo micro. Eu tinha curiosidade de saber como as coisas funcionavam, além daquilo que podíamos ver e, por isso, segui para a Astrofísica. Eu entrei na física para fazer astrofísica; sabia desde muito cedo que eu queria fazer algo relacionado a ciências.

 

AstroUFRGS: Então você nunca teve dúvidas do que queria fazer?

Ana Chies: Durante um certo período andei um pouco decepcionada, em um semestre cheio de provas e coisas intermináveis. Decidi então que queria tentar física experimental, mas essa ideia durou somente duas semanas, logo voltei para a Astro de novo.

 

AstroUFRGS: Você fez Iniciação Científica (IC) durante a graduação?

Ana Chies: Sim, desde o segundo semestre. A Miriani Pastoriza foi minha orientadora.

 

AstroUFRGS: Como começou?

Ana Chies: Teve uma greve que durou cerca de 6 meses durante o meu segundo semestre. “Foi Cálculo 1, foi tudo, e agora?” Eu estava perdida, e o meu pai começou a me falar sobre modelagem molecular, dizendo que os físicos eram bons nisso. Ele me deu um livro de química para ler e eu não gostei!
Nesse momento decidi procurar iniciação científica na astrofísica. Como tinha ouvido falar sobre a Miriani, bati na porta dela e ela me deixou como bolsista voluntária. Começamos a trabalhar com fotometria superficial de galáxias e depois acabei indo para aglomerados globulares.

 

AstroUFRGS: E tu fez mestrado na UFRGS?

Ana Chies: Sim, foi uma continuação do meu projeto de IC. Mas no mestrado a Miriani sugeriu que eu trabalhasse também com o Basílio, que era especialista em aglomerados globulares extragalácticos. Ele acabou se tornando meu orientador e a Miriani ficou de minha co-orientadora. Eu me adaptei muito bem com o jeito do Basílio trabalhar e até consegui terminar o mestrado alguns meses antes do previsto.

 

AstroUFRGS: E o doutorado?

Ana Chies: Eu apliquei para duas posições, porque eu queria fazer doutorado fora do Brasil. Em uma conferência conheci um professor da Austrália e ele me ofereceu: “quer fazer doutorado? Vamos aplicar…”. Eu fiz tudo, mas aí surgiu uma posição na Holanda, que era muito perfeita, parecia uma continuação do que eu tava fazendo, e acabei aplicando lá também. Fui aceita nos dois e não sabia o que fazer, mas acabei optando por ir para Utrecht, na Holanda.

 

Ana Chies durante a defesa de sua tese de doutorado na Holanda.

 

AstroUFRGS: E como foi a mudança de sair do Brasil e ir morar fora?

Ana Chies: Eu já tinha morado em Oxford, na Inglaterra, quando criança, por dois anos, e feito intercâmbio na Califórnia, nos EUA, durante a High School por outro ano. Eu gostava muito dessa experiência internacional, de conhecer diferentes culturas, então não foi a primeira vez.
Fazer o doutorado fora foi muito legal, porque era o que eu queria, era o meu sonho desde criança. Mas foi difícil, o clima era muito ruim. Eu cheguei num verão maravilhoso, daí quando chegou outubro eu achava tudo horrível. Ao mesmo tempo eu estava tentando aprender Holandês, que é uma língua muito diferente, os sons são muito diferentes… Mas eu mantive o meu esforço e deu tudo certo. A cidade que morava era linda, segura e organizada e a vida de andar de bicicleta é muito legal.
Eu sentia bastante saudades do Brasil, porque o grupo daqui é muito especial e se ajuda muito. O jeito de orientar dos países do norte da Europa é muito diferente do jeito latino e brasileiro, eu senti bastante essa diferença.

 

Eu sentia bastante saudades do Brasil, porque o grupo daqui é muito especial e se ajuda muito

 
 

AstroUFRGS: Diferente em que sentido?

Ana Chies: Eles são mais distantes. Não se pode generalizar, esse foi o meu caso. As pessoas são em geral mais distantes, o jeito que eles aprenderam é diferente. Por exemplo, um dia eu estava muito travada com uma coisa e fui pedir uma ajuda para o meu orientador, ‘me ajuda, eu não sei o que fazer’ e ele escreveu um README (arquivo com instruções) e me mandou entrar no computador. Ele não sentou do meu lado para explicar como os orientadores daqui faziam comigo.
Essa foi a minha experiência no doutorado, mas acho que me deixou mais forte e eu tento levar isso em conta quando lido com os meus alunos.

 

AstroUFRGS: E depois do doutorado?

Ana Chies: Eu fiz pós doutorado em Nottingham, na Inglaterra, por um pouco mais de três anos. Lá foi muito legal! Eu fui trabalhar com dois professores renomados da área e tive que aprender a lidar com muitos projetos ao mesmo tempo, o que foi bem desafiador e muito importante para o meu desenvolvimento como pesquisadora, porque na academia a gente precisa fazer muita coisa ao mesmo tempo. Trabalhei mais com aglomerados de galáxias e em outro projeto de aglomerados globulares extragalácticos e populações estelares em galáxias elípticas e lenticulares. Também tinha um projeto com nebulosas planetárias, com os mesmos tipos de galáxias. Lá eu era mais livre. Comecei a organizar os seminários do departamento, ajudei um aluno de doutorado e foi bem legal essa experiência. Também orientei os primeiros alunos de mestrado. Eu diria que o pós doutorado foi uma parte mais tranquila, que eu aproveitei mais. Até porque não é preciso escrever uma tese.

 

AstroUFRGS: Fez mais de um pós doutorado?

Ana Chies: Sim, fiz um segundo pós doc no IAG na USP em São Paulo. Quando estava terminando o pós doc em Nottingham, eu fiz um concurso aqui na UFRGS, mas não me chamaram imediatamente. Eu queria voltar para o Brasil, tinha isso bem claro.. já faziam quase 8 anos que eu estava fora. Aí eu apliquei para bolsa que se chamava ‘atração de jovens talentos’, porque era uma bolsa que pagava um pouco mais e ainda possibilitava orientar um um aluno de IC. Era uma coisa muito legal que estava sendo implementada no programa Ciências sem Fronteiras do CNPq e com isso se conseguiu atrair vários estrangeiros para fazer pós doc no Brasil. Fui selecionada para esta bolsa e segui para a USP. Eu tinha feito toda a minha mudança da Inglaterra, tinham chegado todas as caixas (incluindo até um violino que não era meu), tinha alugado apartamento por um ano e aí me chamaram no concurso aqui de Porto Alegre. Larguei tudo e segui para Porto Alegre.

 

AstroUFRGS: Como é a experiência de ser professor?

Ana Chies: É uma experiência bem legal e muito mais dinâmica do que fazer somente pesquisa, mas ao mesmo tempo pode ser muito exaustiva. Os semestres são desnecessariamente longos, na minha opinião. Tem uma parte do semestre que tu vê que os alunos não aguentam mais, está todo mundo cansado. Eu fico um tanto quanto revoltada com a desorganização do sistema. Por que não pode ser mais eficiente? Eu gosto mais de interação, quando eu consigo bolar coisas diferentes, que tragam outras atividades além do aluno escutar o professor. Mas, ser professor aqui na UFRGS é além de dar aula, fazer pesquisa, um pouco de divulgação e ajudar na administração. Acho que a parte que mais gosto é ser orientadora de projetos de pesquisa e contribuir para a melhora de certos pontos na Instituição participando de comissões como a comissão de pós-graduação.

Em 2018 Ana foi eleita membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências.

AstroUFRGS: Teve alguma dificuldade durante a trajetória?

Ana Chies: O meu curso de graduação foi muito teórico. Acho que a graduação foi a parte mais traumatizante, mas normalmente deixa os alunos bem formados.
O doutorado também foi bem difícil, por te obrigar a ser bem mais independente, de maneira que eu não estava acostumada culturalmente.
Acho que um dos problemas é a comunicação nos cursos. É muito “professores falam e os alunos ouvem”. E aí a gente não desenvolve certas aptidões, como falar em público, fazer apresentações ou conversar com outras pessoas.. e quando eu cheguei na Holanda isso pesou um pouco.
Eu sempre visualizei um objetivo final e queria alcançá-lo. Claro que nem sempre é fácil: muitas noites não dormidas, muitas dores de barriga por tomar café… No mestrado eu comecei a tomar chimarrão, graças a um colega.

 

AstroUFRGS: Descreva tua pesquisa em termos simples

Ana Chies: Eu estudo evolução de galáxias pra tentar entender como essas lindas criaturas chegaram a ser tão lindas como elas são, através dos mais modernos dados observados.

 

AstroUFRGS: Qual foi a tua maior conquista do meio científico?

Ana Chies: Quando eu fui aceita para fazer o primeiro pós-doutorado.
Foi muito traumatizante aplicar pra fazer um pós doc, porque o mercado é uma pirâmide. Tem um monte de gente qualificada com doutorado e vai afunilando. Tu tem que aplicar um ano antes e tem que escrever o que tu quer e tal, e eu não sei se eu estava preparada. Mas era o sistema na Holanda, e eu fui atrás e foi muito difícil. Quando fui selecionada para aquela posição em Nottingham que era legal, foi muito bom!

 

AstroUFRGS: Em 2016 tu ganhou o prêmio L’Oreal para mulheres na ciência. Como foi a sensação?

Ana Chies: Foi muito legal, uma experiência inesquecível. Ser reconhecida pelo que tu faz é muito importante, dá um pouco de segurança de que estamos no caminho certo. Eu fiquei sabendo quando estava de férias na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e voltava de um caminhada bem longa. Quando cheguei no hostel, tinha um whatsapp da minha mãe avisando que tinha algo para me contar urgente, e que era uma notícia muita boa. A produção da L’Oreal estava tentando me contactar fazia dias e eu não atendia o telefone desconhecido pois, com DDD do Rio, pensava que era alguma companhia telefônica me importunando. Ainda bem que conseguiram contatar a minha mãe. Este prêmio traz muita visibilidade e eu já fui (ainda sou) meio tímida, então, tive que aprender a lidar com entrevistas, mesas redondas, enfim, com toda a atenção que uma premiação como essa requer. Faz parte.

 

Foi muito legal, uma experiência inesquecível. Ser reconhecida pelo que tu faz é muito importante, dá um pouco de segurança de que estamos no caminho certo.

 
 

AstroUFRGS: Como surgiu a ideia de criar a página Astro UFRGS?

Ana Chies: Quando eu comecei como professora da UFRGS em 2015, estava com muita energia e sempre pensando em mil maneiras de contribuir para aprimorar as coisas ao meu redor. Conversando com um colega e uma pós doc que gostaram da ideia, resolvemos criar a fanpage para dar mais visibilidade a Astrofísica da UFRGS.

 

AstroUFRGS: Tem algum conselho pra quem quer entrar pra astro?

Ana Chies: Aprenda a programar.

 

AstroUFRGS: O que mais te intriga acerca do Universo?

Ana Chies: [silêncio] O Universo é muito instigante, mas parece que a gente perde o romantismo depois que fica nisso todos os dias (risos).
Acho que o que mais me intriga, e ao mesmo tempo me perturba, é saber da infinidade de galáxias no Universo e de como ainda não conhecemos quase nada sobre os componentes dominantes do Universo. Ao mesmo tempo, vivo me perguntando como podem existir pessoas ao nosso redor que estão acreditando em Terra plana e que não querem vacinar seus filhos.
 

Acho que o que mais me intriga, e ao mesmo tempo me perturba, é saber da infinidade de galáxias no Universo e de como ainda não conhecemos quase nada sobre os componentes dominantes do Universo.

 
 

Em 2010 Ana teve a oportunidade de conhecer o observatório de La Silla.

AstroUFRGS: Tem algum cientista favorito?

Ana Chies: Tive vários, em diferentes fases. Mas sempre nos decepcionamos com algumas coisas que a gente lê, que são essas coisas de enigmatizar certas personalidades… elas não são 100% perfeitas, daí acaba que não fica mais favorito. Acabamos analisando com senso mais crítico.

 

AstroUFRGS: Filme ou série favorita?

Ana Chies: Eu vejo de tudo, até as séries mais ridículas. Às vezes a gente passa o dia todo com o cérebro fritando, e tem hora que não dá.. tem que se desocupar. Ver filmes românticos, séries e besteiras que tu não precise pensar também é legal.

 

AstroUFRGS: Livro favorito?

Ana Chies: Tenho um livro que eu gosto muito desde criança: “As brumas de Avalon”. É sobre a lenda do rei Arthur contada por mulheres. Eu li esse livro pela primeira vez quando eu tinha 10 ou 11 anos.

 

AstroUFRGS: Considerações finais

Eu acho que todo mundo precisa fazer exercício físico porque ajuda a manter o equilíbrio. Eu amo dançar, mas atualmente pratico yoga e corrida.
Temos que ter bastante senso crítico e falar com as pessoas que estão ao nosso redor, concordem elas ou não conosco. Temos que fazer um esforço para sair da nossa bolha e sermos humildes. Acho que isso é um exercício que o pessoal da Universidade precisa fazer mais.
Eu acho que a gente não pode ser arrogante. Existe muita arrogância no mundo acadêmico. As pessoas que espalham “baboseiras” não são arrogantes, elas falam o que o povo quer ouvir. Então acho que temos que fazer alguma coisa como comunidade para sair da bolha. Temos que falar com todo mundo, porque é preocupante o que estamos vivenciando como consequência deste movimento anti-ciência.

 

Equipe Astro UFRGS

Eduardo Hartmann [e_sky], Jamile Fritzen [s_mile]