Astrônomo também é gente – Cristina Furlanetto

Cristina Furlanetto, professora e pesquisadora do Instituto de Física da UFRGS

Nesta entrevista conversamos com Cristina Furlanetto, natural de Garibaldi (RS), que é professora e pesquisadora do Instituto de Física da UFRGS desde 2017. Seus interesses de pesquisa incluem lentes gravitacionais, matéria escura em grupos de galáxias e formação e evolução de galáxias. Conversamos sobre a sua trajetória, experiências e hobbies.

Confira a entrevista abaixo:

 

[Astro UFRGS] O que despertou o seu interesse em Ciência?
Acho que isso foi algo que sempre esteve em mim. Não foi de uma hora pra outra, não foi um livro ou algo assim que me despertou o interesse. Eu sempre quis ser cientista. Eu sempre fui fascinada pelo céu, pelo Universo. Na minha imaginação de criança, queria usar jaleco e ser astronauta.

 

Na minha imaginação de criança, queria usar jaleco e ser astronauta.

 
 

[Astro UFRGS] Teve pessoas que te incentivaram?
Meus pais sempre me incentivaram a fazer faculdade, mesmo que eles nunca tivessem estudado em uma universidade e fossem comerciantes. Eles sempre me apoiaram nas minhas escolhas profissionais. Além disso, no ensino médio eu tive um professor de Física que me instigava a pesquisar mais sobre as coisas.

 

[Astro UFRGS] Do ensino médio você foi direto para a faculdade?
Sim. Passei em Física na UFRGS, porém houve uma greve naquele ano e eu só começaria na metade do ano. Para não ficar parada, comecei o curso de Engenharia Ambiental na UCS (Universidade de Caxias do Sul), para o qual eu também havia sido aprovada. Por não conhecer muito sobre a carreira de físico, eu achei prudente aproveitar o tempo e ter um plano B, para o caso de não gostar do curso de Física. Mas logo nos primeiros meses do curso de Física da UFRGS eu já tive certeza de que aquela era a carreira que eu gostaria de seguir.

 

[Astro UFRGS] Como foi mudar de cidade para estudar?
Foi uma mudança tranquila, porque meus pais me criaram para ser independente e eu não tive dificuldade em me adaptar.

 

[Astro UFRGS] Você começou Física já querendo ir para a área da Astronomia?
Sim! Eu sempre tive interesse em Astronomia e Cosmologia, então fiz muitas disciplinas eletivas nessa área. Mas eu estava aberta a conhecer outras áreas dentro da Física. Eu fiz Iniciação Científica na área de Sistemas Dinâmicos, o que fez aumentar meu interesse em métodos numéricos e programação (algo que gosto muito até hoje).

 

Em 2006 Cristina se formou em Física na UFRGS.

 

[Astro UFRGS] Quando houve a transição?
Durante meu último semestre de graduação, cosmólogos do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) vieram para a UFRGS para ministrar um curso e eu enxerguei uma oportunidade na área. Conversei com eles e fiz a seleção para o mestrado, na qual fui aprovada. Me mudei para o Rio e comecei a estudar Cosmologia.

 

[Astro UFRGS] Como foi o doutorado?
No final do mestrado, o Prof. Martín Makler, meu orientador no CBPF, começou a trabalhar com lentes gravitacionais e eu me interessei muito pelo assunto. Mas eu queria voltar para Porto Alegre, então conversei com o Prof. Basílio, que era professor do departamento de Astronomia da UFRGS. Tanto o Basílio quanto o Martín faziam parte na época do mesmo projeto de colaboração internacional, o Dark Energy Survey (DES), e enxergamos no DES uma oportunidade de inserir meu projeto de doutorado. Na época o Basílio não era um especialista na área de lentes gravitacionais, e eu agradeço muito a ele por ter se “aventurado” a pesquisar esse assunto novo comigo. Durante o doutorado desenvolvemos métodos para simular e detectar sistemas de lentes gravitacionais nas imagens do DES. Também descobrimos aglomerados de galáxias que atuam como lentes gravitacionais, magnificando e distorcendo imagens de galáxias muito distantes, e investigamos se os aglomerados de galáxias mais distantes eram lentes gravitacionais mais eficientes que os aglomerados mais próximos.

 

Em uma de suas várias viagens oportunizadas pela Astronomia, Cristina visitou o Telescópio Blanco, no Observatório Cerro Tololo, Chile.

 

[Astro UFRGS] Você fez pós doutorado?
Logo depois do doutorado iniciei um pós-doutorado no Observatório Nacional, que fica no Rio de Janeiro. Mas surgiu uma oportunidade de ser professora substituta no departamento da Astronomia na UFRGS e eu voltei a Porto Alegre.

 

[Astro UFRGS] Como foi a experiência como professora substituta?
Fiquei um ano dando aulas como professora substituta. Foi uma experiência excelente, porque eu desejava ser professora também, mas nunca tinha dado aula antes. Serviu como um teste para saber se eu gostava de dar aulas e eu gostei muito! Mesmo sabendo o que eu queria ser desde criança, eu passei por alguns momentos de dúvida, principalmente durante a pós-graduação, que é um período muitas vezes de incerteza e instabilidade. Essa experiência foi importante para eu ter certeza que estava no caminho certo, que era essa a carreira que eu gostaria de ter.

 

Mesmo sabendo o que eu queria ser desde criança, eu passei por alguns momentos de dúvida, principalmente durante a pós-graduação, que é um período muitas vezes de incerteza e instabilidade.

 

[Astro UFRGS] Fez outros pós doutorados?
Sim, eu fiz um pós-doutorado na Universidade de Nottingham, na Inglaterra, durante dois anos e meio. Foi um período de grande crescimento pessoal e profissional. A experiência que eu tinha com detecção e caracterização dos sistemas de lentes gravitacionais foi complementada com a aprendizagem de técnicas de modelamento deste fenômeno durante meu pós-doutorado em Nottingham. A partir de então eu passei a utilizar a informação obtida através do modelamento para investigar as propriedades das galáxias distantes lenteadas, bem como dos objetos que atuam como lente. Ao retornar para o Brasil no segundo semestre de 2016 eu comecei outro pós-doutorado em Porto Alegre, mas logo abriu concurso para professor no Instituto de Física da UFRGS e eu fui aprovada.

 

As observações de objetos astronômicos são feitas através de computadores, podendo ser remotamente (fora do observatório) ou no observatório. Em outubro de 2015 Cristina teve a oportunidade de fazer uma observação na sala de controle do próprio telescópio.

 

[Astro UFRGS] Tem algum livro favorito?
Acho que não tenho “o” livro favorito. Dados os acontecimentos dos últimos anos no Brasil, ultimamente tenho lido mais sobre política mesmo. Ao contrário do estereótipo, não gosto muito de ficção científica, prefiro personagens complexos e livros mais clássicos. No momento estou lendo O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

 

[Astro UFRGS] Tem alguma série favorita?
Não assisto muito a séries, porque sei que se começo e gosto, fico vendo série até às 3 da manhã (risos). Assim como na literatura, eu prefiro séries dramáticas e com personagens complexos. Das séries mais antigas, gostei muito de Breaking Bad. Já das séries mais recentes, uma que eu assisti há pouco tempo e que gostei muito foi Russian Doll (Boneca Russa).

 

[Astro UFRGS] Cientista favorito?
É difícil citar uma pessoa só. Mas eu poderia dizer que a Miriani e a Thaisa sempre foram uma grande inspiração para mim.

 

[Astro UFRGS] Já sofreu algo por ser mulher na academia?
Felizmente nunca sofri nada grave por ser mulher, mas já ouvi muitas insinuações ou comentários um tanto depreciativos, em geral associado a estereótipos, dirigidos a mim ou a outras colegas. São micro agressões, mas que se acumulam e incomodam muito. Fazem a gente sentir que esse lugar na Ciência não nos pertence, nos colocam em posição de isolamento.

 

São micro agressões, mas que se acumulam e incomodam muito. Fazem a gente sentir que esse lugar na Ciência não nos pertence, nos colocam em posição de isolamento.

 

[Astro UFRGS] O que mais te intriga no Universo?
O que mais me intriga é a natureza da matéria escura. Faz algumas décadas que se descobriu que as galáxias e aglomerados de galáxias parecem conter muito mais matéria do que poderia ser explicado pelo material visível — estrelas, gás e poeira. Acredita-se que essa matéria invisível ou faltante, chamada matéria escura, represente mais de um quarto da massa total e energia no Universo. A pergunta sobre o que é matéria escura é uma que eu gostaria que fosse respondida durante a minha vida.

 

[Astro UFRGS] Você acha que o grupo de Astronomia da UFRGS é diferente de outros lugares?
Acho legal que aqui há uma bom convívio entre professores e alunos, tanto de graduação quanto de pós graduação, em um ambiente informal e descontraído. Todos participam das atividades de pesquisa e extensão e há muitas atividades sociais também. As confraternizações englobam todo mundo e todos brindam juntos. Em outros lugares há uma hierarquia muito grande entre aluno e professor.

 

[Astro UFRGS] Tem algum conselho para os alunos?
Acho essa geração atual de alunos muito boa, pois eles se preocupam tanto com a ciência quanto com assuntos paralelos, como política, assédio no ambiente acadêmico, inclusão, saúde mental. Eles têm uma consciência do seu papel dentro da universidade e na sociedade muito maior do que a minha geração tinha, por exemplo. Eu me preocupo com as próximas gerações por causa da falta de investimento em ciência e educação que estamos vendo agora. Mas peço que não desistam.
Meu conselho é que se cerquem de amigos e colegas que possam lhe apoiar e lhe escutar nos momentos mais difíceis e que cuidem de sua saúde física e mental. Também aconselho a participarem de atividades de extensão para a comunidade e de divulgação de ciência. Hoje, mais do que nunca, precisamos mostrar para a sociedade o quanto a ciência é importante.

 

Eu me preocupo com as próximas gerações por causa da falta de investimento em ciência e educação que estamos vendo agora. Mas peço que não desistam.

 
 

[Astro UFRGS] Algum recado final?
Apesar de eu sempre ter estudado em escola pública, me sinto privilegiada porque minha família sempre me apoiou muito para que eu pudesse ir em busca do que eu queria. Atualmente me sinto muito bem em poder retribuir o investimento que foi feito em mim (na educação do ensino básico ao superior) para a sociedade. Estou feliz de poder fazer parte dessa Universidade que me acolheu lá em 2002 e me deu tantas oportunidades, que mudaram minha vida. Meu desafio agora é buscar oferecer aos nossos alunos oportunidades ainda melhores do que aquelas que eu tive.


 

Equipe Astro UFRGS

Jamile Fritzen, João Pedro Benetti, Stéfani Almeida Villa