O que você leu na pandemia? 23 livros para tempos difíceis

A lista não definitiva, mas muito afetiva de livros lidos em diferentes momentos do distanciamento social!

Em 22 de novembro de 2021, como parte da agenda mensal do Super 8 e também como evento da programação da Feira do Livro de Osório, tivemos uma edição bem especial de “O que você está lendo?” adaptado para “O que você leu na pandemia?”, nosso evento literário de cada segunda segunda-feira do mês.

Como oportuno (e lamentavelmente não utilizado de verdade) slogan ou frase provocativa, poderíamos ter oferecido algo como “Quem mais fez da biblioteca pessoal um lugar de alento?”, e então realizar o amplo chamado para que cada um, ao se sentir representado ou instigado, realizasse a inscrição no evento. Independentemente de slogan ou não-slogan, a ideia era justamente reunir “gentes” que recorrem aos livros literários, cada qual segundo o próprio motivo.

  

Em tempos pandêmicos

Ninguém passou ou está passando ileso pela pandemia. Em contextos assim, doídos, complexos, lamentáveis, o que nos resta? Vemos profissionais na linha de frente desde o início, expostos a todo possível infortúnio de tempos de peste irrefreada. Como bibliotecários, de um modo não geral (a generalização seria um enorme e intransigente equívoco), não estamos na linha de frente. Mas então, onde estamos?

A resposta é simples, mas não é explícita. O bibliotecário, em muito de sua atividade, se “transfigura” quase como que em uma mão invisível que apoia o usuário para que este chegue onde quiser/precisar. Especificamente em termos de UFRGS, estamos por aqui, mantendo as atividades dentro do melhor funcionamento possível, com as rotinas das Bibliotecas UFRGS em dia, retroalimentando o Super 8 em uma bem sucedida e ainda muito promissora parceria com estes mesmos usuários que acompanhamos de um modo ou de outro.

Desde o início do distanciamento social, usando a nosso favor as tecnologias disponíveis, no Super 8 encontramos uma profícua possibilidade de interação e de encurtar distâncias. O projeto de extensão das Bibliotecas UFRGS traz soluções para aqueles, assim como nós, se mantiveram e se mantém durante este estranho estado pandêmico, impelidos a continuar.

Ao falar sobre o Super 8, muitas e muitas e muitas vezes vocês nos ouvirão dizer que participar dos diferentes módulos ajudará a diminuir as agruras da vida acadêmica. E sim, ajudará. Cada um de nossos oito passos poderá acompanhá-los durante todas as diversas etapas de quaisquer níveis e situações acadêmicas.

Super 8 e a Literatura

Muito antes dos módulos literários, já afirmamos com segurança estas possibilidades do Super 8. E por que incluímos módulos literários, então? Já não estava bom?

Na verdade, não. Aqui nas bibliotecas nós igualmente nos preocupamos com: a possibilidade de tantos de nossos estudantes passarem pelo vínculo com a UFRGS sem conhecer os gerenciadores de referências; a possível incompreensão de que podem e devem contar com as bibliotecas e suas equipes e sem terem tido contato com o universo da literatura.

Não precisamos (e talvez não devamos) trazer aqui uma profissão de utilidades da literatura. Utilidade não parece um termo adequado. Para a literatura, parece que o termo condizente seria Importância. Em seu A Literatura em Perigo (2008), Todorov diz que 

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. (p. 76)

Essa ideia de percurso nos é muito cara dentro do Super 8. Cada dica, cada orientação, cada módulo, visa justamente qualificar a trajetória. E quanto mais triste deve ser a trajetória sem a literatura… Com o intuito de compartilhar as leituras realizadas durante a pandemia, segundo o total de quase zero critérios, nossas três ilustres participantes do evento generosamente responderam a esta pergunta que não enjoamos de repetir, apesar da variação dos tempos verbais aqui para um passado recente: o que você leu?  Ou poderia ser: em que outra mente transcrita em páginas tua própria mente encontrou lar? A avó de nossa querida amiga e colega Luísia costumava dizer “ele escreveu para mim”. E quem é que dirá que não?!

Leitoras Generosas

Nossas já conhecidas mestres de cerimônia de O que você está lendo?, Leticia Strehl e Andrea Loguércio, receberam a professora Daniela Kern e bateram um papo super descontraído, daqueles em que você sai com o caderninho preenchido com uma lista cheia de dicas finas, elegantes e sinceras e um milhão de ideias na cabeça. O vídeo do evento está disponível no Canal do Super 8 no YouTube e a lista de leituras deixamos bem aqui, neste post (ó a mão discreta do bibliotecário aí, gente!), para sua alegria.

Sem mais delongas: a Lista

Importante informar:

1 Nós amamos listas;
2 A lista a seguir não tem a pretensão de ser uma lista exaustiva ou de livros que “todos deveriam ler”, nem dos maiores, melhores ou mais urgentes e imperdíveis livros de todos os tempos;
3 Não é uma lista idealizada ou direcionada;
4 É uma lista real, sem metas absurdas de leitura, elaborada por pessoas muito diferentes entre si, que tem em comum o gosto pela leitura.

São livros lidos durante a pandemia, ou seja, que foram companhia durante diferentes fases do distanciamento social e que não foram abandonados antes do fim, mesmo em tempos tão difíceis.

Aproveite!

Escritos por Mulheres

1 O caminho de casa – Yaa Gyasi

 “A família é como a floresta. Se você estiver do lado de fora, ela é fechada. Se estiver dentro, verá que cada árvore tem sua própria posição.”
– Provérbio Akan.

Romance de estréia de Yaa Gyanse. Aborda os horrores da escravidão e todas as suas consequências nas relações familiares. Está entre as leituras realizadas e recomendadas pela Andrea Loguercio. Essencial para desmontar a naturalização do sistema escravagista.

2 Como se tornar um escritor – Wislawa Szymborska

Wislawa Szymborska

A escritora polonesa venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Para saber mais sobre vida e obra da escritora, indicada pela professora Daniela Kern, sugestão de uma matéria linda publicada pelo Instituto Ling, aqui.

3 Um conto de fadas mexicano e outras histórias – Leonora Carrington

Em “Um conto de fadas”, a professora Daniela Kern destaca a presença da dobradinha arte + literatura. O livro é uma coletânea de importantes textos de Carrington, considerada a principal figura feminina do surrealismo.

4 Sobre os ossos dos mortos – Olga Tokarczuk

“Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite.”

Que tal?
Descrito como uma “fábula filosófica sobre vida e morte” pelo The New York Times, a história da protagonista Janina Dusheiko, é divertida, excêntrica, subversiva e fisgou com tudo a Leticia Strehl! Curiosidade: Olga Tokarczuk, assim como Wislawa Szymborska, venceu o Prêmio Novel de Literatura, mas no ano de 2018.

Leia Mulheres!

5 A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

“Todas as certezas desmoronam no percurso à vida adulta.”

Neste livro, a badalada escritora Elena Ferrante aborda conflitos da adolescência. Dica da Andrea! Alguém mais está com livros de Ferrante entre seus favoritos e/ou desejos de leitura?

6 A garota do penhasco – Lucinda Riley

Esta dica tem um sabor muito especial, pois veio de uma pessoa da audiência do evento! Juliana Souza, queremos teu Instagram! Nossa querida participante contou o quanto ficou apaixonada pelo romance (redundância bonita essa) e inspirou uma porção de participantes a conhecer a autora. Leitura boa é leitura compartilhada!

Dica: há uma vídeo-resenha bem interessante AQUI! O livro é cheio de reviravoltas.

7 O Deus da carnificina – Yasmina Reza

A indicação da Daniela é perfeita para quem sente que está com tempo apertado para leituras mais longas: é direta e densa. Uma abordagem da escritora francesa Yasmina Reza sobre quão frágeis são os comportamentos ditos civilizados nas relações humanas.

Em 2012 estreou uma versão cinematográfica do livro, dirigida por Roman Polanski. Disponível em diversas plataformas (encontramos apenas em plataformas pagas, infelizmente), a luta psicológica travada pelas personagens tem a duração de pouco mais de uma hora. Uma boa opção para quem gosta do “veja o filme, leia o livro” e de todo o debate que se dá a posteriori sobre as questões da adaptação. Trailer do filme AQUI.

8 Tudo é rio – Carla Madeira

A escritora brasileira Carla Madeira tem uma narrativa forte, entretanto suave e poética, mesmo quando trata de dores indescritíveis. Foge do clichê de que toda história tem um “vilão” e sabe emocionar. Sem spoilers, a dica da Andrea foi bem eficaz e cá estamos recomendando: leia! Nem que seja para discordar de absolutamente tudo…

9 Testamentos – Margareth Atwood

Mais conhecida por seu O conto da aia, Margareth Atwood nos presenteou com uma vasta obra para além de seu livro adaptado ao formato seriado. Sobre Testamentos, vamos direto na fonte: Leticia fala da dica compartilhada conosco AQUI!

ESCRITORES E MUNDOS EXTREMOS

10 Em busca de sentido – Viktor E. Frankl

Esta dica também veio de uma pessoa da audiência do evento! Assim como na obra de Yaa Gyasi e a abominável escravização de africanos e todas as suas terríveis consequências, Viktor Frankl aborda outra atrocidade cometida contra a humanidade: o Holocausto. O autor fala da própria experiência como sobrevivente de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

11 O gueto interior – Santiago Amigorena

Também referente ao genocídio a seis milhões de judeus, mas abordado por Amigorena de uma forma completamente diferente. Saiba: o título é literal. E por mais que você já possa ter lido outros livros sobre o holocausto – e temos publicações aos montes, não dê o tema por esgotado. O gueto interior é um exemplo perfeito disso. Aliás, um vídeo super relevante e muito recente a respeito do tema você pode encontrar AQUI. O tema parece batido? Talvez. Mas o que temos visto é a urgência do debate pela não banalização a respeito.

12 O pavilhão dos padres – Guillaume Zeller

Aqui, a dica da Andrea apresenta uma terceira possibilidade, completamente diferente das duas anteriores para um tema em comum: o Holocausto e a situação de padres perante o nazismo. Já havia escutado falar?

13 A montanha mágica – Thomas Mann

Um livraço em todos os sentidos! 7 grandes argumentos para lê-lo AQUI.

14 Os últimos melhores dias da minha vida – Gilberto Dimenstein e Anna Penido

Uma narrativa de despedida. Dói? Dói. Traz a experiência do próprio autor com o adoecimento devido a um grave e irreversível câncer de pâncreas. Você terá em mãos um consciente último livro. A Andrea nos contou que vale muito a experiência!

Aqui você pode acompanhar uma entrevista com a esposa de Gilberto, a jornalista e diretora de cinema Anna Penido sobre o livro.

15 Sobre a Terra somos belos por um instante – Ocean Vuong

Romance de estreia do poeta vietnamita Ocean Vuong. Escrito em primeira pessoa, apresenta aspectos de descobertas e dores da vida do narrador, como o luto, a pobreza, sofrimentos, relações familiares abusivas e descobertas da sexualidade. Dica da Andrea, com a definição: “belíssimo e comovente!

16 O outono do patriarca – Gabriel García Marquez

Nesta obra, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, partindo da fala de diferentes narradores, aborda a natureza contraditória do poder e do autoritarismo na América Latina. Grande dica da Marina (alô, Marina, queremos teu Instagram também!), participante do evento!

17 O diabo no corpo – Raymond Radiguet

“Narrado em primeira pessoa, é uma história de adultério e de iniciação amorosa, tendo como pano de fundo histórico a Primeira Guerra Mundial. É a história de amor entre um menino e uma mulher bem mais velha, enquanto o noivo encontrava-se no front durante a Primeira Guerra Mundial. É um romance maravilhosamente amaldiçoado, que captura e machuca da primeira à última linha. Raymond Radiguet mergulha em sua obra-prima (sim, obra-prima) sem o desnecessário – e muitas vezes ineficaz – jargão descritivo, geralmente associado a romances semibiográficos.” Leitura indicada pela Daniela e você encontra uma ótima resenha aqui!

Diferentes possibilidades de sorrir

18 Bartleby, o Escriturário – Herman Melville 

 “Eu preferiria não fazer”.

A curiosa história de Bartebly e sua franqueza desconcertante foi publicada pela primeira vez em 1853. Melville é mais conhecido por seu Moby Dick, mas a expansão do olhar sobre as obras do autor pelos caminhos do escriturário vale muito a pena! Dica da Daniela.

19 A biblioteca mágica de Bibbi Boken – Jostein Gaarder

“Havia alguma coisa incomum naquela mulher que o garoto Nils encontrou numa livraria, quando comprava um diário para iniciar uma correspondência com a prima Berit. A mulher, uma certa Bibbi Bokken, vagava diante das estantes numa espécie de transe, olhando para os livros como se fossem de chocolate ou marzipã. Quando Nils foi pagar a conta, ela ofereceu uma contribuição; tudo muito estranho.
Os dois primos decidiram investigar quem era a tal mulher e o porquê de suas atitudes suspeitas — as duas perguntas básicas de uma boa história de detetives. E, nessa investigação, acabam conhecendo a história dos livros, das bibliotecas e do fascínio que eles exercem sobre as pessoas há séculos”. 

Esta sinopse pegamos “emprestada” daqui, para apresentar o livro lido pela Andrea, que nos contou estar especialmente interessada em livros sobre livros e bibliotecas. É um livro estruturado de forma epistolar e com uma narrativa bem simples (não simplória), lúdica e atraente, pelo mundo do “biblioteconomês”.

20 O elefante – Aleksandr Kuprin

“Para desenferrujar o russo”, segundo a professora Daniela. Chique, não é? O elefante faz parte da Coleção Mir, da Editora Kalinka, que reúne edições bilíngues da prosa curta russa. Uma narrativa “para crianças” sobre o encontro entre a menina Nádia e o elefante Tommy. Do desejo de Nádia e conhecer um elefante, te pergunto: qual bicho você sonhou encontrar/ter na infância? Esta que vos escreve sonhou muito com um imenso urso marrom…

Inspirações (no sentido literal ou não)

21 Do que falo quando falo sobre corrida – Haruki Murakami

Este Murakami foi lido tanto pela Daniela, quanto pela Andrea e ambas concordam: é inspirador. O autor apresenta a relação que enxerga entre duas atividades que lhe são tão caras: a corrida e a escrita.

22 Caminhos para a paz interior – Thich Nhat Hanh

A cada dia fazemos e lidamos com coisas que têm a ver com a paz. Se tivermos consciência sobre nossa vida e nossa maneira de enxergar as coisas, saberemos como gerar a paz no momento preciso em que estamos vivendo. É sabido que, se tomamos uma coisa como verdade e a isso nos apegamos, mesmo que a própria verdade apareça em pessoa e bata à nossa porta, nós não abriremos. Para que as coisas possam ser reveladas a nós, precisamos estar dispostos a abandonar nossos pontos de vista sobre elas.

De forma objetiva, apresenta ensinamentos sobre budismo e espiritualidade. Thich Nhat Hanh faleceu recentemente e foi, além de poeta e escritor, um monge vietnamita, líder espiritual, ativista dos direitos humanos e professor. Este e o livro a seguir foram sugeridos por participantes do encontro!

23 Silêncio: o poder da quietude em um mundo barulhento – Thich Nhat Hanh

Até a capa deste pequeno passa paz, não é? Para os que apreciam a quietude e para os que ainda não, “Silêncio” sugere um exercício de encontro com a própria calma.

E você, o que leu na pandemia? Se quiser compartilhar conosco dica de leitura e resenha, entre em contato pelo super8@bc.ufrgs.br para montarmos coletivamente uma nova lista!

Diante de uma lista tão diversa, fica a proposta para a seguinte meta: