Porque ensino meus alunos sobre fracasso científico

Tradução do texto de Jennifer Lanni para Science.org

Com a aula prestes a começar, imprimo 14 imagens de testes Western blot¹para meus alunos discutirem. O trabalho de 3 horas deve ser a culminação de um projeto de pesquisa de uma semana no meu curso de graduação em biologia, o dia em que meus alunos determinam se seus resultados experimentais apoiam suas hipóteses cuidadosamente elaboradas. Mas as imagens são todas iguais – e todas cheias de nada além de faixas de fundo. Meus alunos estão prestes a ter uma dura lição sobre fracasso científico e como ser resiliente diante dele. É uma lição que eu gostaria de ter aprendido antes de começar a pós-graduação.

Como estudante de pós-graduação passei por muitos ciclos frustrantes alimentando hipóteses que mais tarde seriam frustradas por causa de falhas técnicas ou resultados experimentais ambíguos. Quando me formei, pensei que nunca mais faria pesquisa de bancada de laboratório. Eu não estava disposta a sacrificar tantas horas longe dos meus filhos pequenos com tão pouco [resultado] para mostrar. Em vez disso, abracei meu amor pelo ensino trabalhando como palestrante.

Uma década depois e com meus filhos na escola, minha curiosidade científica saiu da hibernação e reiniciei minha carreira de pesquisadora. Depois de um período de pós-doutorado, consegui um emprego em uma faculdade de artes liberais, onde estabeleci meu próprio pequeno laboratório. Em minhas aulas de graduação, pedi aos meus alunos que concluíssem experimentos de laboratório que eram praticamente garantidos para produzir dados interpretáveis. Mas depois de alguns anos, fiquei desconfortável com a lacuna entre esses experimentos perfeitos e meus próprios projetos de pesquisa. Sim, meus alunos saiam das sessões de laboratório com resultados, sentindo que seu tempo foi bem gasto. Mas eu temia estar enganando-os sobre a experiência real de praticar a ciência, que raramente produz dados na primeira tentativa.

Resolvi desenvolver um novo curso que daria aos alunos experiência na realização de experimentos reais, que tinham o potencial de falhar. Usando meus próprios interesses de pesquisa como estrutura, dei aos alunos uma coleção de artigos para ler. Durante as sessões de brainstorming em grupo, eles identificaram novas questões que surgiram a partir do que já havia sido feito e, coletivamente, criaram suas próprias hipóteses. Depois de passar algum tempo aprendendo os métodos de laboratório necessários para testar suas hipóteses, eles começaram a trabalhar realizando seu primeiro experimento.

No dia da análise dos dados, entreguei a eles as impressões de Western blot e pedi que examinassem as imagens e discutissem suas descobertas. A maioria assumiu que seus blots estavam corretos – que as faixas de fundo que viram representavam as proteínas que esperavam detectar – e imediatamente passaram a interpretar os dados. Mas eu me recusei a deixar os alunos seguirem em frente.

Depois de uma hora de “embates” e algumas perguntas importantes de minha parte, um aluno finalmente se manifestou. “Isto não faz sentido. As faixas parecem do mesmo tamanho, mas as proteínas devem ter tamanhos diferentes.” Aleluia! Um aluno recuou para ver o que esperava ver e descreveu o que os dados realmente mostravam. Sua descoberta ajudou seus colegas a começarem a olhar para os resultados com olhares mais objetivos. Em poucos minutos, eles estavam transbordando de perguntas e ideias sobre o que poderia ter dado errado. Passamos as próximas 2 horas cobrindo o quadro-negro com planos para solucionar os procedimentos experimentais. Meus alunos estavam pensando como cientistas — um desenvolvimento que nenhum planejamento antecipado poderia ter criado.

ROBERT NEUBECKER

Depois, refleti sobre como treinamos futuros cientistas. Devemos falar mais abertamente com os alunos sobre o fracasso? Quando deixei a pesquisa parada, frustrada com o que parecia ser uma falha de execução minha, essa era uma experiência típica? Quantas vezes nós inadvertidamente desencorajamos os alunos a persistirem na ciência, simplesmente omitindo descrições honestas do fracasso inerente ao processo de pesquisa? A pesquisa é confusa e cheia de tentativas fracassadas. Tentar proteger os alunos dessa realidade é um desserviço.

Minha classe nunca gerou dados para testar suas hipóteses. Em vez disso, terminamos o semestre lendo e discutindo sobre o fracasso científico. Espero que os poucos alunos que vão para a pós-graduação aprendam com a experiência e conscientizem-se de que o sucesso nem sempre é fácil. Confio que esse conhecimento também ajudará meus outros alunos, onde quer que eles estejam.

¹Técnica analítica para detectar, analisar e quantificar proteínas.