{"id":16851,"date":"2010-02-11T11:07:00","date_gmt":"2010-02-11T14:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdabc\/partituras-em-braille\/"},"modified":"2020-03-19T11:50:35","modified_gmt":"2020-03-19T14:50:35","slug":"partituras-em-braille","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/partituras-em-braille\/","title":{"rendered":"Partituras em Braille"},"content":{"rendered":"<p>Por F\u00e1bio Reynol<\/p>\n<p>Interpretar notas musicais grafadas em uma partitura \u00e9 tarefa banal para um m\u00fasico. Por\u00e9m, quando o instrumentista \u00e9 deficiente visual essa atividade se torna muito mais complicada, sem contar os in\u00fameros obst\u00e1culos enfrentados durante o processo de aprendizagem musical.<\/p>\n<p>Entender como um deficiente visual aprende a ler partituras pelo m\u00e9todo Braille e analisar o ensino de m\u00fasica e os recursos dispon\u00edveis para essas pessoas foi o tema da tese de doutorado \u201cDo toque ao som: ensino da musicografia Braille como um caminho para a educa\u00e7\u00e3o musical inclusiva\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho foi defendido e aprovado na quarta-feira (10\/2) por Fabiana Fator Gouv\u00eaa Bonilha, no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com orienta\u00e7\u00e3o do professor Claudiney Rodrigues Carrasco, do Departamento de M\u00fasica.<\/p>\n<p>\u201cA motiva\u00e7\u00e3o da pesquisa surgiu da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia\u201d, contou Fabiana, que \u00e9 bacharel em m\u00fasica e deficiente visual desde o nascimento. Ela explica que o trabalho \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada \u201cLeitura musical na ponta dos dedos: caminhos e desafios do ensino de musicografia Braille na perspectiva de alunos e professores\u201d e conclu\u00edda em 2000.<\/p>\n<p>Tanto no mestrado como no doutorado a estudante contou com apoio de bolsas da FAPESP. Durante o mestrado ela entrevistou estudantes de m\u00fasica com defici\u00eancia visual e coletou suas percep\u00e7\u00f5es sobre o processo de aprendizagem.<\/p>\n<p>Entre as conclus\u00f5es, Fabiana levantou que h\u00e1 poucos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o que atendem \u00e0s necessidades dos deficientes e a demanda por esses cursos \u00e9 grande. Essas dificuldades a fizeram voltar para o problema da inclus\u00e3o musical dos deficientes visuais durante o doutorado.<\/p>\n<p>A fim de compor a tese, Fabiana analisou todo o processo a ser percorrido por um deficiente visual que quer ter uma educa\u00e7\u00e3o formal em m\u00fasica, a come\u00e7ar pelo desafio de encontrar ou transcrever partituras para o c\u00f3digo Braille.<\/p>\n<p>Para que a transcri\u00e7\u00e3o seja bem-sucedida, \u00e9 fundamental a figura do transcritor. \u201cEle tem que ser um especialista tanto em m\u00fasica como em Braille\u201d, apontou. Essa atividade pode ser desempenhada tanto por pessoas que enxergam como por deficientes visuais, de acordo com Fabiana.<\/p>\n<p>Uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es do estudo foi a forma\u00e7\u00e3o de um acervo de cerca de 50 partituras vertidas para o sistema Braille durante a pesquisa. Esse material j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel no Laborat\u00f3rio de Acessibilidade da Biblioteca Central C\u00e9sar Lattes da Unicamp.<\/p>\n<p>\u201cA maioria dessas composi\u00e7\u00f5es \u00e9 brasileira. Isso \u00e9 importante porque podemos fazer um interc\u00e2mbio trocando partituras em Braille com institui\u00e7\u00f5es de outros pa\u00edses\u201d, disse.<\/p>\n<p>Capacidade de abstra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A partitura transcrita, no entanto, \u00e9 apenas o in\u00edcio do processo para o estudante com defici\u00eancia visual. Fabiana explica que a musicografia em Braille exige muito mais do estudante.<\/p>\n<p>Os s\u00edmbolos musicais impressos em tinta s\u00e3o convencionalmente grafados em cinco linhas, chamadas de pentagrama. Uma composi\u00e7\u00e3o para piano, por exemplo, utiliza ao mesmo tempo dois pentagramas, um para cada m\u00e3o, e um acima do outro para indicar a simultaneidade de algumas notas.<\/p>\n<p>Uma partitura em Braille, por sua vez, cont\u00e9m apenas caracteres resultantes das combina\u00e7\u00f5es entre seis pontos salientes. O m\u00fasico deve interpretar as notas ao toque dos dedos e ler cada linha separadamente e assim inferir a simultaneidade das m\u00e3os do piano, por exemplo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso um grau de abstra\u00e7\u00e3o muito maior e uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o musical\u201d, disse Fabiana. Isso al\u00e9m de uma boa mem\u00f3ria, uma vez que o instrumentista deve decorar toda a partitura antes de execut\u00e1-la.<\/p>\n<p>A pesquisa obteve um levantamento qualitativo baseando-se em tr\u00eas experi\u00eancias: o aprendizado de musicografia Braille de dois deficientes visuais e a capacita\u00e7\u00e3o de um professor de m\u00fasica para ensinar um aluno com defici\u00eancia visual.<\/p>\n<p>Como pr\u00e9-requisito, Fabiana selecionou casos em que os envolvidos tinham conhecimento musical pr\u00e9vio e que o desafio, portanto, seria introduzi-los ao sistema de nota\u00e7\u00e3o musical em Braille.<\/p>\n<p>Os alunos escolhidos eram aprendizes de instrumentos distintos: viol\u00e3o e teclado, o que exigiu adapta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, pois as partituras desses instrumentos s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>Defici\u00eancia cong\u00eanita ou adquirida<\/p>\n<p>Fabiana conseguiu tra\u00e7ar algumas diferen\u00e7as no aprendizado entre deficientes visuais cong\u00eanitos (de nascen\u00e7a) e os que adquiriram a defici\u00eancia ao longo da vida.<\/p>\n<p>Entre as pessoas com defici\u00eancia visual desde o nascimento, por exemplo, est\u00e1 a maior preval\u00eancia do chamado ouvido absoluto, que \u00e9 a capacidade de identificar tons musicais em sons isolados.<\/p>\n<p>Isso ocorre porque a defici\u00eancia cong\u00eanita imp\u00f5e ao indiv\u00edduo uma depend\u00eancia dos sons desde muito cedo. \u201cA import\u00e2ncia do som nesses casos \u00e9 muito maior, pois ele d\u00e1 toda a refer\u00eancia do espa\u00e7o\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo ela, nesses casos a estrutura neuronal \u00e9 formada logo na primeira inf\u00e2ncia, visando \u00e0 enfatizar a audi\u00e7\u00e3o. \u201cPesquisas mostram que algumas regi\u00f5es do c\u00f3rtex visual s\u00e3o realocadas para processar sons nos c\u00e9rebros de deficientes visuais cong\u00eanitos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m para esses, o reconhecimento t\u00e1til \u00e9 mais desenvolvido. \u201cO Braille torna-se o primeiro c\u00f3digo de escrita, enquanto que na defici\u00eancia adquirida \u00e9 travado um processo de readapta\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade\u201d, comparou.<\/p>\n<p>Ao desenvolver a pesquisa, Fabiana colecionou uma s\u00e9rie de arquivos sonoros que compreendiam aulas, al\u00e9m de depoimentos de deficientes visuais e de professores de m\u00fasica.<\/p>\n<p>\u201cAchei esse material rico demais para ser guardado e elaborei um roteiro para unir esses arquivos em um audiodocument\u00e1rio\u201d, conta. Quando o seu orientador ouviu o piloto, incentivou-a a grav\u00e1-lo em est\u00fadio.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um document\u00e1rio de cerca de dez minutos com uma trilha sonora adaptada pela pr\u00f3pria doutoranda, e efeitos produzidos por equipamentos Braille al\u00e9m das vozes captadas ao longo da pesquisa.<\/p>\n<p>O objetivo da produ\u00e7\u00e3o, segundo ela, foi retratar a concep\u00e7\u00e3o de um deficiente visual. Por esse motivo, propositadamente, a estudante n\u00e3o quis utilizar imagens. \u201cEsse \u00e1udio tornou-se a s\u00edntese sonora da pesquisa\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O orientador do trabalho, Claudiney Carrasco, considera que a tese de Fabiana \u00e9 relevante em v\u00e1rios aspectos. \u201c\u00c9 a primeira contribui\u00e7\u00e3o de peso na pesquisa em musicografia braille no pa\u00eds e abre um amplo campo para que mais gente pesquise e contribua nessa \u00e1rea\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O professor da Unicamp tamb\u00e9m ressaltou o aspecto da inclus\u00e3o inerente da pesquisa. Para ele, o trabalho traz resultados pr\u00e1ticos que v\u00e3o auxiliar professores de m\u00fasica a interagir com alunos deficientes visuais. \u201c\u00c9 realmente uma inclus\u00e3o, n\u00e3o se trata s\u00f3 de aceitar o aluno cego e deix\u00e1-lo se virar sozinho. Fabiana prop\u00f5e um trabalho voltado a atender \u00e0s necessidades desse estudante&#8221;, disse.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a inclus\u00e3o do deficiente visual no ensino regular de m\u00fasica a principal conclus\u00e3o da tese, de acordo com Fabiana. Para ela, n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias escolas especializadas em deficientes, mas que as institui\u00e7\u00f5es de ensino regulares se adaptem a esses alunos.<\/p>\n<p>Segundo Fabiana, a principal conclus\u00e3o do trabalho \u00e9 a necessidade de inclus\u00e3o do deficiente visual no ensino regular de m\u00fasica. De acordo com o trabalho, n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias escolas especializadas em deficientes, mas que as institui\u00e7\u00f5es de ensino regulares se adaptem a esses alunos.<\/p>\n<p>Para isso, explica a musicista, seria fundamental a participa\u00e7\u00e3o de tr\u00eas personagens nesse processo: um professor de m\u00fasica especialmente preparado, um aluno consciente e motivado e um especialista transcritor que possa fornecer material de estudo de qualidade para o processo. Com esses elementos, a grande demanda por instru\u00e7\u00e3o musical por parte de deficientes visuais pode come\u00e7ar a ser atendida, aponta.<\/p>\n<p>\u2022<a href=\"http:\/\/www.agencia.fapesp.br\/audiodocumentario.mp3\">Audiodocument\u00e1rio sobre o ensino da musicografia Braille<\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.agencia.fapesp.br\/materia\/11759\/partituras-em-braille.htm\">Boletim Ag\u00eancia FAPESP<\/a><br \/>\nData: 11\/02\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por F\u00e1bio Reynol Interpretar notas musicais grafadas em uma partitura \u00e9 tarefa banal para um m\u00fasico. 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