{"id":1731,"date":"2009-12-15T19:20:00","date_gmt":"2009-12-15T22:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdabc\/ortega-y-gasset-e-missao-do\/"},"modified":"2020-03-18T17:30:49","modified_gmt":"2020-03-18T20:30:49","slug":"ortega-y-gasset-e-missao-do","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/ortega-y-gasset-e-missao-do\/","title":{"rendered":"Ortega y Gasset e a miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Pierce Butler, em sua obra An introduction to library science, originalmente publicada em 1933 e tendo uma tradu\u00e7\u00e3o brasileira, lan\u00e7ada em abril de 1971 [Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia da biblioteconomia. Rio de Janeiro: Lidador, 1971. 86 p.], ao comentar o comportamento do bibliotec\u00e1rio, cunhou a express\u00e3o \u201csimplicidade do seu pragmatismo\u201d para relacion\u00e1-la com o exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o. A raz\u00e3o dessa express\u00e3o foi ocasionada pelo fato de que \u201cao contr\u00e1rio de seus colegas em outros campos da atividade social, o bibliotec\u00e1rio, por estranho que pare\u00e7a, desinteressa-se pelos aspectos te\u00f3ricos de sua profiss\u00e3o. Parece possuir uma imunidade peculiar a esse tipo de curiosidade (&#8230;) O bibliotec\u00e1rio aparentemente permanece isolado na simplicidade do seu pragmatismo: uma racionaliza\u00e7\u00e3o de cada processo t\u00e9cnico imediato, tomado isoladamente, parece satisfazer seu interesse intelectual. Na verdade, qualquer esfor\u00e7o para generalizar tais racionaliza\u00e7\u00f5es na tentativa de compor uma filosofia profissional parece-lhe n\u00e3o apenas in\u00fatil, mas definitivamente perigoso\u201d (BUTLER, p. ix-x).<\/p>\n<p>Mas, por que estou falando dessa simplicidade do pragmatismo existente na maioria dos bibliotec\u00e1rios? \u00c9 para assinalar a import\u00e2ncia da tradu\u00e7\u00e3o para a nossa l\u00edngua, do ensaio de Jos\u00e9 Ortega y Gasset, intitulado Miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio [Bras\u00edlia: Briquet de Lemos Livros, 2006. 82 p.]. Tendo sido originalmente publicada em 1935, estranhamente, a obra s\u00f3 apareceu em portugu\u00eas setenta anos depois! Mesmo assim, ela veio dar uma grande contribui\u00e7\u00e3o para a escassa bibliografia brasileira na \u00e1rea de filosofia da biblioteconomia.<\/p>\n<p>Seu conte\u00fado faz parte do discurso inaugural proferido pelo fil\u00f3sofo espanhol \u2013 na \u00e9poca, ministro da educa\u00e7\u00e3o \u2013 em 20 de maio de 1935, por ocasi\u00e3o da abertura do Segundo Congresso Internacional de Bibliotecas e Bibliografia, realizado em Madri. Complementa e enriquece a tradu\u00e7\u00e3o brasileira o posf\u00e1cio, elaborado por Antonio Agenor Briquet de Lemos, intitulado \u201cCircunst\u00e2ncia e recep\u00e7\u00e3o de Miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio\u201d (p. 57-82).<\/p>\n<p>Nessa obra, Ortega y Gasset come\u00e7a comentando que \u201cmiss\u00e3o significa, antes de tudo, aquilo que um homem deve fazer em sua vida. Pelo visto, a miss\u00e3o \u00e9 algo exclusivo do homem\u201d (p. 3). Mais adiante, refor\u00e7a esse conceito ao afirmar que \u201ceis que toda vida humana tem uma miss\u00e3o. Miss\u00e3o \u00e9 isto: a consci\u00eancia que cada homem tem de seu mais aut\u00eantico ser, daquilo que est\u00e1 chamado a realizar\u201d (p. 7). A seguir, analisa a miss\u00e3o profissional, pois \u201ca vida \u00e9, sobretudo, trabalho. N\u00e3o nos damos a vida, mas \u00e9 ela que nos \u00e9 dada. (&#8230;) para viver devemos estar sempre fazendo algo, sob pena de sucumbir. Sim, a vida \u00e9 trabalho. Sim, a vida d\u00e1 trabalho, e, o maior de todos, acertar fazer o que \u00e9 preciso fazer. (p. 7-8).<\/p>\n<p>O intelectual espanhol aponta que \u201cas profiss\u00f5es s\u00e3o tipos de atividade humana de que, pelo visto, a sociedade necessita. E um deles, h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos, \u00e9 o do bibliotec\u00e1rio\u201d (p. 11). Adiante, o autor aponta para a exist\u00eancia de uma dualidade: \u201ca miss\u00e3o do homem, o que cada homem deve fazer para ser o que \u00e9, e a miss\u00e3o profissional, em nosso caso a miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio, o que o bibliotec\u00e1rio deve fazer para ser um bibliotec\u00e1rio\u201d (p. 12). Ele tamb\u00e9m pondera que o bibliotec\u00e1rio \u201cao exercer uma profiss\u00e3o, compromete-se a fazer o que a sociedade necessita. (&#8230;) para determinar a miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio, \u00e9 preciso partir (&#8230;) da necessidade social a que serve vossa profiss\u00e3o. E esta necessidade, como tudo que \u00e9 propriamente humano, n\u00e3o consiste em uma magnitude fixa, mas \u00e9, essencialmente, vari\u00e1vel, migrat\u00f3ria, evolutiva; em suma hist\u00f3rica\u201d (p. 13, 16).<\/p>\n<p>Portanto, como vemos, essa necessidade social \u00e9 mut\u00e1vel ao longo do tempo e \u201co trabalho do bibliotec\u00e1rio variou sempre em fun\u00e7\u00e3o, rigorosamente, do que o livro significava como necessidade social\u201d (p. 16). Como \u00e9 sabido, historicamente o livro cumpriu diversas necessidades sociais ao longo dos s\u00e9culos, assim \u201cdurante a Idade M\u00e9dia, a ocupa\u00e7\u00e3o com os livros ainda \u00e9 infra-social, n\u00e3o aparece para o p\u00fablico: est\u00e1 latente, secreta, pode-se dizer, intestina, confinada no recinto secreto dos mosteiros. (&#8230;) Ser guardi\u00e3o dos livros n\u00e3o era algo especial. Somente no alvorecer do Renascimento \u00e9 que come\u00e7a a delinear-se na \u00e1rea p\u00fablica, a diferen\u00e7ar-se dos outros tipos gen\u00e9ricos de vida, a figura do bibliotec\u00e1rio. (&#8230;) \u00e9 precisamente a \u00e9poca em que, tamb\u00e9m pela primeira vez, o livro \u00e9 sentido socialmente como necessidade. (&#8230;) Neste sentido, digo que at\u00e9 o Renascimento a necessidade do livro n\u00e3o foi vig\u00eancia social. E como foi ent\u00e3o que se tornou vig\u00eancia social a\u00ed vemos surgir imediatamente o bibliotec\u00e1rio como profiss\u00e3o\u201d (p.18-20).<\/p>\n<p>Nessa fase do Renascimento \u201ca cataloga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ainda urgente. A aquisi\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o de livros, em compensa\u00e7\u00e3o, adquirem tra\u00e7os de hero\u00edsmo. Estamos no s\u00e9culo XV\u201d (p. 21). Passaram-se tr\u00eas s\u00e9culos e o autor argutamente indaga: \u201co que aconteceu entrementes com os livros? Publicaram-se muitos e a impress\u00e3o tornou-se mais barata. S\u00e3o tantos os que existem que se sente a necessidade de catalog\u00e1-los. (&#8230;) Agora se sente a necessidade n\u00e3o de buscar livros \u2013 isso deixou de ser um problema real \u2013 mas de promover a leitura e buscar leitores. E, de fato, nessa etapa as bibliotecas se multiplicam e com elas os bibliotec\u00e1rios. J\u00e1 \u00e9 uma profiss\u00e3o que ocupa muitas pessoas\u201d (p. 21-22).<\/p>\n<p>Continuando, Ortega y Gasset, como se fosse numa aula de hist\u00f3ria, comenta que a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa transformou a sociedade europ\u00e9ia. Para ele \u201cesta sociedade foi consequ\u00eancia \u00faltima daquela f\u00e9 no livro sentida pelo Renascimento. A sociedade democr\u00e1tica \u00e9 filha do livro, \u00e9 o triunfo do livro escrito pelo homem escritor sobre o livro revelado por Deus e sobre os livros das leis ditadas pela autocracia. (&#8230;) O livro tornou-se socialmente imprescind\u00edvel. \u00c9 a \u00e9poca, por isso, em que surge o fen\u00f4meno das enormes tiragens. (&#8230;) O Estado oficializa as ci\u00eancias e as letras. Reconhece no livro uma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e o considera um organismo pol\u00edtico fundamental. Em virtude disso, a profiss\u00e3o de bibliotec\u00e1rio se converte em burocracia, por uma raz\u00e3o de Estado. Chegamos, pois, (&#8230;) \u00e0 fase em que o livro se tornou uma necessidade imprescind\u00edvel\u201d (p. 24-26).<\/p>\n<p>Em seguida, o fil\u00f3sofo espanhol aponta que, no Ocidente, at\u00e9 os meados do s\u00e9culo XIX, o livro era uma necessidade social e tamb\u00e9m um instrumento ben\u00e9fico por minorar as dificuldades de conservar todas as id\u00e9ias. Por\u00e9m, j\u00e1 no s\u00e9culo seguinte, com o aumento das tiragens e de novos t\u00edtulos, em toda a Europa existia a impress\u00e3o de que havia \u201cdemasiados livros, ao contr\u00e1rio do que acontecia no Renascimento. O livro deixou de ser um desejo e \u00e9 sentido como um peso. O pr\u00f3prio homem de ci\u00eancia adverte que uma das grandes dificuldades de seu trabalho est\u00e1 em orientar-se na bibliografia do seu tema\u201d (p. 34). Aqui, Ortega y Gasset aponta para o fen\u00f4meno que, tempos depois, seria denominado \u201cexplos\u00e3o documental\u201d.<\/p>\n<p>Assinala-se aqui que, foi no s\u00e9culo XX, que ocorreu o enorme incremento no volume de informa\u00e7\u00e3o registrada e tamb\u00e9m das pessoas alfabetizadas, potencialmente produtoras de novos documentos. Da\u00ed a aceita\u00e7\u00e3o do uso da met\u00e1fora \u201cexplos\u00e3o\u201d para qualificar esse contexto como explosivo. Para domar essa \u201cexplos\u00e3o\u201d \u00e9 sugerida uma nova miss\u00e3o para o bibliotec\u00e1rio, pois, at\u00e9 aquele momento, esse profissional tinha \u201cse ocupado principalmente do livro como coisa, como objeto material. A partir de hoje ter\u00e1 que cuidar do livro como fun\u00e7\u00e3o viva: ter\u00e1 de exercer a pol\u00edcia do livro e tornar-se domador do livro enfurecido\u201d (p. 39).<\/p>\n<p>Agora \u00e9 preciso ver o livro como conflito. Nesse ponto o autor espanhol analisa tr\u00eas t\u00f3picos relacionados com essa situa\u00e7\u00e3o conflituosa. O primeiro t\u00f3pico se refere ao volume de livros, pois \u201cmesmo reduzindo bastante o n\u00famero de temas a que cada homem dedica sua aten\u00e7\u00e3o, a quantidade de livros que ele precisa absorver \u00e9 t\u00e3o gigantesca que supera os limites de seu tempo e sua capacidade de assimila\u00e7\u00e3o\u201d (p.40). Assim, para penetrar nessa \u201cselva de livros\u201d ser\u00e3o necess\u00e1rios novos instrumentos. Neste ponto, de forma interessante, Ortega y Gasset prop\u00f5e uma \u201cestat\u00edstica de id\u00e9ias\u201d \u2013 conceito anteriormente denominado bibliometria, em 1934, por Paulo Otlet, em seu cl\u00e1ssico Trait\u00e9 de documentation \u2013 para determinar \u201ccom rigor o instante cronol\u00f3gico quando nasce uma id\u00e9ia, o processo de sua difus\u00e3o, o per\u00edodo exato durante o qual perdura como vig\u00eancia coletiva e, por fim, a hora do seu decl\u00ednio\u201d (p. 42).<\/p>\n<p>Nesse mesmo t\u00f3pico o autor, dez anos antes do surgimento do primeiro computador, sugere a cria\u00e7\u00e3o de \u201cuma nova t\u00e9cnica bibliogr\u00e1fica de um automatismo rigoroso\u201d (p.43). \u00c9 poss\u00edvel que aqui esteja a semente da id\u00e9ia de utiliza\u00e7\u00e3o dos enormes potenciais do que hoje conhecemos por tecnologia da informa\u00e7\u00e3o em prol da moderniza\u00e7\u00e3o do fluxo informacional. Foi acertada, portanto, a intui\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo espanhol de uma ordena\u00e7\u00e3o rigorosa e r\u00e1pida da bibliografia, felizmente conseguida com a utiliza\u00e7\u00e3o, cada vez mais crescente, do computador e da internet.<br \/>\nNo segundo t\u00f3pico, o autor ao comentar essa explos\u00e3o documental sugere que a profiss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio \u201cser\u00e1 incumbida pela sociedade de regular a produ\u00e7\u00e3o do livro, a fim de evitar que se publiquem os que forem desnecess\u00e1rios e, que, em compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faltem aqueles que s\u00e3o exigidos\u201d (p. 43-44).<\/p>\n<p>\u00c9 sugerido que o bibliotec\u00e1rio tenha um novo papel profissional, quase similar ao de censor. Essa ideia, conforme comentada no posf\u00e1cio provocou enormes discuss\u00f5es em diversos pa\u00edses.<\/p>\n<p>No \u00faltimo t\u00f3pico, \u00e9 apontada a import\u00e2ncia do futuro bibliotec\u00e1rio \u201corientar o leitor n\u00e3o especializado na selva selvaggia dos livros, e ser o m\u00e9dico, o higienista de suas leituras\u201d (p. 45). Aqui Ortega y Gasset est\u00e1 propondo a\u00e7\u00f5es relacionadas com o treinamento e educa\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio. \u00c9 poss\u00edvel que tamb\u00e9m esteja sugerindo uma sele\u00e7\u00e3o criteriosa dos volumes contidos nos acervos e nas indica\u00e7\u00f5es de leituras. Ao final deste t\u00f3pico, o fil\u00f3sofo mencionou uma frase muito conhecida em nosso contexto: \u201cnesta dimens\u00e3o de seu of\u00edcio imagino o futuro bibliotec\u00e1rio como um filtro que se interp\u00f5e entre a torrente de livros e o homem\u201d (p. 46). Prop\u00f4s, portanto, que o bibliotec\u00e1rio seja o mediador\/avaliador entre o documento e o usu\u00e1rio \u2013 um conceito que perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Nota-se, assim, que veio em boa hora o lan\u00e7amento da Miss\u00e3o do bibliotec\u00e1rio. Esse ensaio tem sido reeditado com frequ\u00eancia, traduzido para v\u00e1rios idiomas e objeto de in\u00fameras discuss\u00f5es e debates em artigos de peri\u00f3dicos, cursos e teses acad\u00eamicas. Esse lan\u00e7amento veio facilitar o acesso por parte do aluno de biblioteconomia \u00e0 fonte original e, para o bibliotec\u00e1rio, a chance de sair um pouco do seu pragmatismo exacerbado, parando um pouco para refletir sobre uma filosofia da profiss\u00e3o sugerida sete d\u00e9cadas atr\u00e1s pelo grande Ortega y Gasset. Suas id\u00e9ias ainda s\u00e3o v\u00e1lidas e precisam ser conhecidas, discutidas e divulgadas na nossa \u00e1rea.(Murilo Bastos da Cunha)<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdabc\/ortega-y-gasset-e-missao-do\/\">A Informa\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\nData:12\/12\/2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pierce Butler, em sua obra An introduction to library science, originalmente publicada em 1933 e tendo uma tradu\u00e7\u00e3o brasileira, lan\u00e7ada &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/ortega-y-gasset-e-missao-do\/\">Leia mais<\/a>&hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/ortega-y-gasset-e-missao-do\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"kt_blocks_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[109],"tags":[],"class_list":["post-1731","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - 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