{"id":18038,"date":"2010-05-11T11:42:24","date_gmt":"2010-05-11T14:42:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/treinabib\/?p=18038"},"modified":"2020-03-06T18:32:48","modified_gmt":"2020-03-06T21:32:48","slug":"o-fetiche-de-quantidade-artigo-de-renato-mezan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/o-fetiche-de-quantidade-artigo-de-renato-mezan\/","title":{"rendered":"O fetiche de quantidade, artigo de Renato Mezan"},"content":{"rendered":"\n<p>Renato Mezan <br>Metas de produtividade e burocracia acad\u00eamica diminuem o potencial de pesquisas cient\u00edficas <\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de conhecimento n\u00e3o pode ser medida somente pelo n\u00famero de \ntrabalhos escritos pelos pesquisadores, como \u00e9 a tend\u00eancia atual no \nBrasil <\/p>\n\n\n\n<p>A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o \ntrabalho dos professores. O grande n\u00famero de pessoas envolvidas nos \ndiversos n\u00edveis de ensino, assim como o de artigos e livros que \nmaterializam resultados de pesquisa, tem determinado uma prefer\u00eancia por\n medidas quantitativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se estas podem trazer informa\u00e7\u00f5es \u00fateis como dado parcial para \ncomparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho m\u00e9dio de \nalunos em determinada mat\u00e9ria, sua aplica\u00e7\u00e3o como \u00fanico crit\u00e9rio de \n\u201cprodutividade\u201d na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o vem gerando -a meu ver, pelo menos- \ndistor\u00e7\u00f5es bastante s\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 meu intuito recusar, em princ\u00edpio, a avalia\u00e7\u00e3o externa, que \nconsidero \u00fatil e necess\u00e1ria. Gostaria apenas de lembrar que a cria\u00e7\u00e3o de\n conhecimento n\u00e3o pode ser medida somente pelo n\u00famero de trabalhos \nescritos pelos pesquisadores, como \u00e9 a tend\u00eancia atual no Brasil. \nTampouco me parece correta a fetichiza\u00e7\u00e3o da forma \u201cartigo em revista\u201d \nem detrimento de textos de maior f\u00f4lego, para cuja elabora\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes,\n s\u00e3o necess\u00e1rios anos de trabalho paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma concep\u00e7\u00e3o tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a \ndefesa de disserta\u00e7\u00f5es e teses na \u00e1rea de humanas, com o que se torna \ndif\u00edcil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, \nque (tamb\u00e9m) por isso se tornaram refer\u00eancia nos campos respectivos.<\/p>\n\n\n\n<p>O equ\u00edvoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, \nsens\u00edvel para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do \nintelecto: \u201cO \u00daltimo Teorema de Fermat\u201d, de Simon Singh (ed. Record), e \n\u201cO Homem Que Amava a China\u201d, de Simon Winchester (Companhia das Letras).<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor talvez objete que n\u00e3o se podem comparar as realiza\u00e7\u00f5es de \nque tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, por\u00e9m, \nque os autores delas tamb\u00e9m come\u00e7aram modestamente e que, se lhes \ntivessem sido impostas as condi\u00e7\u00f5es que critico, provavelmente n\u00e3o \nteriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar at\u00e9 \nonde chegaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Everest da matem\u00e1tica<\/p>\n\n\n\n<p>O teorema de Fermat desafiou os matem\u00e1ticos por mais de tr\u00eas s\u00e9culos,\n at\u00e9 ser demonstrado em 1994 pelo brit\u00e2nico Andrew Wiles. O livro de \nSingh narra a hist\u00f3ria do problema, cujo fasc\u00ednio consiste em ser \ncompreens\u00edvel para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solu\u00e7\u00e3o\n extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema \nde Pit\u00e1goras: \u201cEm todo tri\u00e2ngulo ret\u00e2ngulo, a soma do quadrado dos \ncatetos \u00e9 igual ao quadrado da hipotenusa\u201d, ou, em linguagem matem\u00e1tica,\n a2\u00b2=b2\u00b2+c2\u00b2.<\/p>\n\n\n\n<p>Lendo sobre esta express\u00e3o na \u201cAritm\u00e9tica\u201d de Diofante (s\u00e9culo 3\u00ba), o\n franc\u00eas Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos\n n\u00fameros e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- \nteve a curiosidade de saber se a rela\u00e7\u00e3o valia para outras pot\u00eancias: \nx3\u00b3= y3\u00b3 + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. N\u00e3o conseguindo \nencontrar nenhum trio de n\u00fameros que satisfizesse as condi\u00e7\u00f5es da \nequa\u00e7\u00e3o, formulou o teorema que acabou levando seu nome -\u201cN\u00e3o existem \nsolu\u00e7\u00f5es inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2\u201d- e anotou \nna p\u00e1gina do livro: \u201cEncontrei uma demonstra\u00e7\u00e3o maravilhosa para esta \nproposi\u00e7\u00e3o, mas esta margem \u00e9 estreita demais para que eu a possa \nescrever aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a morte de Fermat, seu filho publicou uma edi\u00e7\u00e3o da obra grega \ncom as observa\u00e7\u00f5es do pai. Como o problema parecia simples, os \nmatem\u00e1ticos lan\u00e7aram-se \u00e0 tarefa de o resolver -e descobriram que era \nmuit\u00edssimo complicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Singh conta como in\u00fameros deles fracassaram ao longo dos 300 anos  seguintes; os avan\u00e7os foram lent\u00edssimos, um conseguindo provar que o  teorema era v\u00e1lido para a pot\u00eancia 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstra\u00e7\u00e3o e acabou  sendo conhecido como \u201co monte Everest da matem\u00e1tica\u201d. \u00c9 quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e t\u00e9cnicas muito mais complexos que os dispon\u00edveis na sua \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a hist\u00f3ria de como o fez \u00e9 um forte argumento a favor da posi\u00e7\u00e3o que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de c\u00e1lculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. N\u00e3o \u00e9 o caso de descrever aqui os passos que o levaram \u00e0 vit\u00f3ria; quero ressaltar somente que, n\u00e3o tendo de apresentar projetos nem relat\u00f3rios, publicando pouqu\u00edssimo durante sete anos e se retirando do \u201ccircuito  intermin\u00e1vel de reuni\u00f5es cient\u00edficas\u201d, Wiles p\u00f4de concentrar-se com  exclusividade no que estava fazendo. <\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que j\u00e1 se tentara\n desde o s\u00e9culo 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas \nmatem\u00e1ticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispens\u00e1veis \npara a estrat\u00e9gia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu \nm\u00e9todo de trabalho, Wiles respondeu: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio ter concentra\u00e7\u00e3o \ntotal. Depois, voc\u00ea para. Ent\u00e3o parece ocorrer uma esp\u00e9cie de \nrelaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o \ncontrole. \u00c9 a\u00ed que surgem as ideias novas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este processo \u00e9 bem conhecido e costumo recomend\u00e1-lo a meus \norientandos: absorver o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es e deix\u00e1-las \u201cflutuar\u201d at\u00e9 \nque apare\u00e7a algum padr\u00e3o, ou uma liga\u00e7\u00e3o entre coisas que aparentemente \nnada t\u00eam a ver uma com a outra. Uma variante da livre associa\u00e7\u00e3o, em \nsuma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, se est\u00e1 correndo contra o rel\u00f3gio, como o estudante pode se \npermitir isso? A chance de ter o \u201cestalo de Vieira\u201d \u00e9 reduzida; o mais \nprov\u00e1vel \u00e9 que se conforme com as ideias j\u00e1 estabelecidas, o que \nobviamente diminui o potencial de inova\u00e7\u00e3o do seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tarefa herc\u00falea<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo de que o tempo de gesta\u00e7\u00e3o de uma obra precisa ser \nrespeitado \u00e9 o de Joseph Needham (1900-95), cuja vida extraordin\u00e1ria \nficamos conhecendo em \u201cO Homem Que Amava a China\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bioqu\u00edmico de forma\u00e7\u00e3o, apaixonou-se por uma estudante chinesa que \nfora a Cambridge [no Reino Unido] para se aperfei\u00e7oar; ela lhe ensinou a\n l\u00edngua e, \u00e0 medida que se aprofundava no estudo da cultura chinesa, \nNeedham foi se tomando de admira\u00e7\u00e3o pelas suas realiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e\n tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1943, o Minist\u00e9rio do Exterior brit\u00e2nico o enviou como diplomata \u00e0\n China, ent\u00e3o parcialmente ocupada pelos japoneses. Sua miss\u00e3o era \najudar os acad\u00eamicos a manter o \u00e2nimo e a prosseguir em suas pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para saber do que precisavam, viajou muito pelo pa\u00eds e entrou em \ncontato com in\u00fameros cientistas; em seguida, mandava-lhes publica\u00e7\u00f5es \ncient\u00edficas, reagentes, instrumentos e o que mais pudesse obter.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse p\u00e9riplo, Needham se deu conta de que -longe de terem se mantido\n \u00e0 margem do desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o, como ent\u00e3o se acreditava no\n Ocidente- os chineses tinham descoberto e inventado muito antes dos \neuropeus uma enorme quantidade de coisas, tanto em \u00e1reas te\u00f3ricas quanto\n no que se refere \u00e0 vida pr\u00e1tica (uma lista parcial cobre 12 p\u00e1ginas do \nlivro de Winchester).<\/p>\n\n\n\n<p>Formulou ent\u00e3o o que se tornou conhecido como \u201ca pergunta de \nNeedham\u201d: se aquele povo tinha demonstrado tamanha criatividade, por que\n n\u00e3o foi entre eles, e sim na Europa, que a ci\u00eancia moderna se \ndesenvolveu?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta envolvia provar que existiam condi\u00e7\u00f5es para que isso \npudesse ter acontecido, e depois elaborar hip\u00f3teses sobre por que n\u00e3o \nocorreu. Da\u00ed a ideia de escrever um livro que mostrasse toda a \ninventividade dos chineses, tendo como base os textos recolhidos em suas\n viagens e as pr\u00e1ticas que pudera observar.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o projeto fosse ambicioso, a Cambridge University Press o \naceitou, considerando que, uma vez realizado, abrilhantaria ainda mais a\n reputa\u00e7\u00e3o da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cScience and Civilization in China\u201d [Ci\u00eancia e Civiliza\u00e7\u00e3o na China] \nteria sete volumes, e Needham acreditava que poderia escrev\u00ea-lo \u201cnum \nprazo relativamente curto para uma obra acad\u00eamica: dez anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, tomou quatro vezes mais tempo, e, quando o autor morreu, \nem 1995, j\u00e1 contava 15 mil p\u00e1ginas. Empreendimento herc\u00faleo, como se v\u00ea,\n que transformou radicalmente a percep\u00e7\u00e3o ocidental quanto ao papel da \nChina na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O volume de trabalho envolvido era imenso: de sa\u00edda, ler e \nclassificar milhares de documentos sobre os mais variados assuntos; em \nseguida, organizar tudo de modo claro e persuasivo, e por fim apresentar\n algumas respostas \u00e0 \u201cpergunta de Needham\u201d. V\u00e1rias pessoas o auxiliaram \nno percurso (em particular, sua amante chinesa), mas a concep\u00e7\u00e3o de \nbase, e boa parte do texto final, se devem exclusivamente a ele. <\/p>\n\n\n\n<p>Monumento<\/p>\n\n\n\n<p>Needham n\u00e3o publicou uma linha de bioqu\u00edmica durante os \u00faltimos 30 anos de sua carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco tinha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em hist\u00f3ria das ideias -mas isso \nn\u00e3o o impediu de, com talento e disciplina, redigir uma das obras mais \nimportantes do s\u00e9culo 20.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tivesse sido atrapalhado por exig\u00eancias burocr\u00e1ticas, se tivesse \nde orientar p\u00f3s-graduandos, se a editora o pressionasse com prazos ou \nn\u00e3o o deixasse trabalhar em seu ritmo (o primeiro volume levou seis anos\n para ficar pronto), teria talvez escrito mais um livro interessante, \nmas n\u00e3o o monumento que nos legou.<\/p>\n\n\n\n<p>O que estes exemplos nos ensinam \u00e9 que um trabalho intelectual de \ngrande alcance s\u00f3 pode ser feito em condi\u00e7\u00f5es adequadas -e uma delas \u00e9 a\n confian\u00e7a dos que decidem (e manejam os cord\u00f5es da bolsa) em quem se \nprop\u00f5e a realiz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal confian\u00e7a envolve n\u00e3o suspeitar que tempo longo signifique \npregui\u00e7a, admitir que pensar tamb\u00e9m \u00e9 trabalho, que a verifica\u00e7\u00e3o de uma\n ideia-chave ou de uma refer\u00eancia central pode levar meses -e que nada \ndisso tem import\u00e2ncia frente ao resultado final.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempo: um dos motivos encontrados por Needham para o estancamento \nda criatividade chinesa a partir de 1500 foi justamente a avers\u00e3o de uma\n estrutura burocr\u00e1tica acomodada na certeza de sua pr\u00f3pria sapi\u00eancia a \ntudo que discrepasse dos padr\u00f5es impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, na Europa (e depois na Am\u00e9rica do Norte) a inova\u00e7\u00e3o \nera valorizada, e o talento individual, recompensado. Nas palavras de um\n sin\u00f3logo citado no fim do livro, o resultado da atitude dos mandarins \nfoi que \u201co incentivo se atrofiou, e a mediocridade tornou-se a norma\u201d. \nSeria uma pena que, em nome da produtividade medida em termos somente \nquantitativos, ca\u00edssemos no mesmo erro.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte:<a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=70764\">JC e-mail 4006<\/a><br>Data: 10\/05\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Mezan Metas de produtividade e burocracia acad\u00eamica diminuem o potencial de pesquisas cient\u00edficas A cria\u00e7\u00e3o de conhecimento n\u00e3o pode &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/o-fetiche-de-quantidade-artigo-de-renato-mezan\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"kt_blocks_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[109],"tags":[],"class_list":["post-18038","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - 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