{"id":21722,"date":"2022-05-26T09:00:52","date_gmt":"2022-05-26T12:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=21722"},"modified":"2023-08-07T10:13:44","modified_gmt":"2023-08-07T13:13:44","slug":"como-a-retorica-da-excelencia-influencia-avaliacao-da-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/como-a-retorica-da-excelencia-influencia-avaliacao-da-pesquisa\/","title":{"rendered":"Como a ret\u00f3rica da excel\u00eancia influencia a avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa"},"content":{"rendered":"\n<p>Texto de Lilian Nassi-Cal\u00f2 para<a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2022\/01\/28\/como-a-retorica-da-excelencia-influencia-a-avaliacao-da-pesquisa\/#.YgqZTNXMK5s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Blog Scielo em Perspectiva<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas ao redor do mundo divulgam seus programas de ensino e pesquisa associados a posi\u00e7\u00f5es de destaque em\u00a0<em>rankings<\/em>\u00a0universit\u00e1rios renomados, egressos ilustres, ou simplesmente nomes de universidades que s\u00e3o sin\u00f4nimos de sucesso, prest\u00edgio e reputa\u00e7\u00e3o h\u00e1 s\u00e9culos. Na maior parte das vezes, o termo \u201cexcel\u00eancia\u201d \u00e9 utilizado para qualificar a pesquisa que desenvolvem, as faculdades que congregam e os ilustres laureados que por ali passaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Samuel Moore e coautores, em um&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1057\/palcomms.2016.105\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo de 2017<\/a>,<sup>1<\/sup>&nbsp;se debru\u00e7aram sobre a \u201cret\u00f3rica da excel\u00eancia\u201d atrav\u00e9s do mundo acad\u00eamico e seus efeitos delet\u00e9rios, que est\u00e3o longe de qualificar ci\u00eancia de qualidade \u2013 muito pelo contr\u00e1rio, favorecem a falta de reprodutibilidade, fraude e a distribui\u00e7\u00e3o ineficaz de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa, para, ao final, propor estrat\u00e9gias de como combat\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>O termo \u201cexcel\u00eancia\u201d n\u00e3o tem um significado particular quando utilizado para qualificar institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, e n\u00e3o se sabe se \u00e9 poss\u00edvel reconhecer \u201cexcel\u00eancia\u201d antes de observ\u00e1-la. Fato \u00e9 que n\u00e3o se sabe se a busca por \u201cexcel\u00eancia\u201d e seu uso para premiar ou punir determinadas institui\u00e7\u00f5es, pesquisadores ou programas de pesquisa ajuda ou prejudica o alcance de seus objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores do estudo, apoiados pela extensa literatura revisada, demonstram que o uso do termo \u201cexcel\u00eancia\u201d para orientar a distribui\u00e7\u00e3o de recursos para a pesquisa, na verdade, impede, ao inv\u00e9s de promover a ci\u00eancia e atividade de pesquisa, ao mesmo tempo que desencoraja assumir o risco intelectual necess\u00e1rio para avan\u00e7ar nas pesquisas mais significativas que envolvem mudan\u00e7as de paradigma e a \u201cci\u00eancia normal\u201d que permite consolidar o conhecimento na esteira de tais avan\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo \u00e9 constitu\u00eddo de tr\u00eas partes. Na primeira, discute-se \u201cexcel\u00eancia\u201d como ret\u00f3rica, na qual os autores argumentam que o termo amplamente utilizado n\u00e3o \u00e9 uma qualidade a ser descoberta, por\u00e9m um mecanismo de interc\u00e2mbio lingu\u00edstico por meio do qual pesquisadores comparam conjuntos heterog\u00eaneos de pr\u00e1ticas disciplinares. Na segunda parte, os autores investigam o uso da \u201cexcel\u00eancia\u201d como ferramenta de avalia\u00e7\u00e3o e chegam \u00e0 conclus\u00e3o de que ela distorce a pr\u00e1tica da pesquisa e falha na tentativa de fornecer um meio confi\u00e1vel de distinguir entre projetos, institui\u00e7\u00f5es ou pessoas concorrentes. Finalmente, prop\u00f5em narrativas alternativas para a avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa, dos pesquisadores e institui\u00e7\u00f5es, baseada em solidez e capacidade. Onde houver mais heterogeneidade e maior oportunidade para a diversidade de resultados e perspectivas, acreditam os autores, a pesquisa se fortalece.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"o-que-e-excelencia\">O que \u00e9 \u201cexcel\u00eancia\u201d?<\/h3>\n\n\n\n<p>O termo encontra in\u00fameras defini\u00e7\u00f5es na literatura para se referir \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es, atividades acad\u00eamicas e pesquisadores. No entanto, \u201cnada nos diz sobre a import\u00e2ncia da ci\u00eancia e diz tudo sobre quem decide.\u201d<sup>2<\/sup>&nbsp;Esta afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 de acordo com o trabalho de outros autores, que nos \u00faltimos anos recomendam reformas no processo de avalia\u00e7\u00e3o por pares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante, segundo os autores, avaliar o processo de avalia\u00e7\u00e3o por pares, como tem sido proposto, por meio de treinamento para pareceristas, maior transpar\u00eancia e outras a\u00e7\u00f5es. No entanto, um dos autores citados, Lamont, \u00e9 de opini\u00e3o que \u201cas solu\u00e7\u00f5es atuais para este problema \u2013 que consistem principalmente em alterar os graus de anonimato ou o ponto em que a revis\u00e3o \u00e9 conduzida (pr\u00e9 ou p\u00f3s-publica\u00e7\u00e3o) \u2013 s\u00e3o insuficientes e constituem \u2018garantias imperfeitas,\u2019\u201d e acrescenta que, \u201ccomo muitas quest\u00f5es em comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o desafio da avalia\u00e7\u00e3o por pares n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnico, e sim social.\u201d<sup>3<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Diferentes disciplinas t\u00eam distintos entendimentos de medidas de \u201cexcel\u00eancia\u201d. Bi\u00f3logos, por exemplo, consideram n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es, posi\u00e7\u00e3o do autor e n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es fortes indicadores de performance, ao passo que acad\u00eamicos de literatura inglesa relacionam como indicadores de prest\u00edgio elevado n\u00famero de palavras por artigo, autoria \u00fanica, e publica\u00e7\u00e3o ou artigo de revis\u00e3o em peri\u00f3dico liter\u00e1rio renomado. Portanto, parece claro que culturas avaliativas est\u00e3o operando mesmo sem consenso interno, al\u00e9m de algumas categorias amplas de desempenho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, questionam os autores, poderia \u201cexcel\u00eancia\u201d ser um \u201cdescritor lingu\u00edstico sem qualquer significado pr\u00e9-estabelecido cujo valor reside na capacidade de capturar julgamentos de valor interdisciplinares e demonstrar a utilidade pol\u00edtica do investimento p\u00fablico em pesquisas e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa?\u201d<sup>1<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 nem mesmo \u00fatil desta maneira, concluem. Por n\u00e3o ter conte\u00fado, o termo serve no sentido mais amplo apenas como uma (pretensa) reivindica\u00e7\u00e3o de sucesso comparativo: que alguma coisa, pessoa, atividade ou institui\u00e7\u00e3o pode ser \u201cmelhor\u201d, mais importante\u201d do que outra (geralmente incompar\u00e1vel de outra maneira), e, portanto, mais merecedora de reconhecimento. No entanto, esta \u00eanfase em reconhecimento, segundo Kohn<sup>4<\/sup>&nbsp;e outros autores, \u00e9 delet\u00e9ria \u00e0s verdadeiras qualidades que est\u00e3o sendo comparadas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"excelencia-e-bom-para-a-pesquisa\">\u201cExcel\u00eancia\u201d \u00e9 bom para a pesquisa?<\/h3>\n\n\n\n<p>Os autores, como vimos, v\u00eam argumentando que \u201c\u2018excel\u00eancia\u2019 seria um sinalizador ret\u00f3rico utilizado para reivindicar valor por parte de institui\u00e7\u00f5es, pesquisadores, projetos ou disciplinas essencialmente heterog\u00eaneas, e n\u00e3o uma medida objetiva e intr\u00ednseca de m\u00e9rito.\u201d Por\u00e9m, existiriam crit\u00e9rios formais que poderiam ser utilizados para identificar \u201cexcel\u00eancia\u201d em uma \u00fanica inst\u00e2ncia de pesquisa em seus pr\u00f3prios termos ou uma disciplina em particular? Os autores concluem que encontrar uma resposta \u00e0 esta quest\u00e3o \u2013 que est\u00e1 no centro do debate do artigo \u2013 \u00e9 mais dif\u00edcil do que se possa imaginar.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito e impacto do trabalho cient\u00edfico, e isso envolve in\u00fameros desafios. Entre eles est\u00e1 a n\u00e3o previsibilidade do impacto cient\u00edfico no momento da publica\u00e7\u00e3o, ou mesmo com base em cita\u00e7\u00f5es recebidas, Fator de Impacto (FI) e outros \u00edndices; a falta de correla\u00e7\u00e3o entre concess\u00e3o de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa e subsequente produtividade; o fato de que artigos inicialmente rejeitados por um peri\u00f3dico acabam sendo publicados por outros de similar prest\u00edgio e circula\u00e7\u00e3o sem maiores altera\u00e7\u00f5es, e outros. Estes exemplos s\u00e3o mencionados pelos autores para salientar a not\u00f3ria falta de habilidade da academia em avaliar \u201cexcel\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais preocupante, adicionam, \u00e9 a consider\u00e1vel evid\u00eancia de falsos positivos no processo de avalia\u00e7\u00e3o por pares. S\u00e3o artigos que em uma primeira avalia\u00e7\u00e3o cumprem com os requisitos de \u201cexcel\u00eancia\u201d estipulados por um determinado peri\u00f3dico, ag\u00eancia de fomento ou institui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o passam quando submetidos \u00e0 m\u00e9tricas subsequentes. Por exemplo, artigos que foram aceitos para publica\u00e7\u00e3o em um peri\u00f3dico s\u00e3o ressubmetidos com breves altera\u00e7\u00f5es. Destes, apenas 8% foram detectadas pelos editores ou pareceristas. Daqueles que n\u00e3o foram detectados, 90% foram rejeitados por falhas metodol\u00f3gicas e\/ou outras raz\u00f5es pelos mesmos peri\u00f3dicos que haviam publicado estes artigos anteriormente. Estes \u201cnovos\u201d artigos foram rejeitados por n\u00e3o ser suficientemente \u201cexcelentes\u201d por peri\u00f3dicos que haviam previamente decidido que eram \u201cexcelentes\u201d o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Analogamente, um&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/492034a\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo<\/a><sup>5<\/sup>&nbsp;mostrou que autores muito citados tinham menor capacidade de liderar aux\u00edlios a pesquisa importantes em biomedicina do que autores menos citados, por\u00e9m socialmente bem conectados, associados com grupos de estudo e pain\u00e9is de revis\u00e3o da ag\u00eancia financiadora. Tamb\u00e9m nesta dire\u00e7\u00e3o,&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.7554\/eLife.13323\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fang,&nbsp;<em>et al<\/em>.<\/a><sup>6<\/sup>&nbsp;conclu\u00edram que as propostas de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa concedidas pelos&nbsp;<em>National Institutes of Health<\/em>&nbsp;dos Estados Unidos (NIH) definidas por avalia\u00e7\u00e3o por pares mostravam uma baixa correla\u00e7\u00e3o com a produtividade dos autores contemplados, medida por cita\u00e7\u00f5es das publica\u00e7\u00f5es produzidas no \u00e2mbito do aux\u00edlio. Este resultado tamb\u00e9m evidenciou um vi\u00e9s das ag\u00eancias de fomento contra projetos altamente inovadores, que dificilmente s\u00e3o contemplados.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base no n\u00famero crescente de retrata\u00e7\u00f5es publicadas, inclusive em peri\u00f3dicos renomados, os casos de fraude e erros vem crescendo na literatura cient\u00edfica. A maioria das retrata\u00e7\u00f5es s\u00e3o devido \u00e0 fraude, publica\u00e7\u00e3o duplicada e pl\u00e1gio (67,4%), e apenas uma pequena parte devido \u00e0 erros (21,3%). Ainda mais preocupante s\u00e3o os casos de falsos positivos, ou seja, estudos que n\u00e3o podem ser replicados. Pode parecer um contrassenso, mas tem sido postulado por in\u00fameros autores que o desejo de ser bem-sucedido e produzir pesquisa de \u201cexcel\u00eancia\u201d pode levar pesquisadores a ultrapassar a linha \u00e9tica e submeter pesquisa fraudulenta, contendo erros substanciais, e n\u00e3o raro, irreprodut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadores do Reino Unido e Austr\u00e1lia chegaram a admitir em entrevistas realizadas em 2016<sup>7<\/sup>&nbsp;extrapolar nas alega\u00e7\u00f5es de impactos feitos em propostas de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa, afirmando que se tornou um aspecto \u201cnormal e necess\u00e1rio, se bem que lament\u00e1vel, da cultura acad\u00eamica, considerando a busca por competitivos recursos de pesquisa,\u201d inferindo que se trata de uma pr\u00e1tica amplamente disseminada. \u201cAqui se v\u00ea como um requisito competitivo, percebido ou real, por \u2018excel\u00eancia\u2019, combinado com a falta de cren\u00e7a na habilidade dos assessores de detectar falsas alega\u00e7\u00f5es, leva \u00e0 uma concep\u00e7\u00e3o de \u2018excel\u00eancia\u2019 que \u00e9 pura encena\u00e7\u00e3o: um conceito definido pelo que consegue se livrar&nbsp;<em>alegando<\/em>&nbsp;(ao inv\u00e9s de realmente&nbsp;<em>mostrar<\/em>) \u2018excel\u00eancia\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de artigos fraudulentos, ou com algum tipo de erro, j\u00e1 seria ruim para a ci\u00eancia, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica consequ\u00eancia de como o foco em \u201cexcel\u00eancia\u201d prejudica a pesquisa. Esta pr\u00e1tica acaba favorecendo o que \u00e9 conhecido como o \u201cefeito Mateus\u201d,<sup>8<\/sup>&nbsp;ou seja, a desigual distribui\u00e7\u00e3o de recursos para a pesquisa entre pesquisadores e institui\u00e7\u00f5es que s\u00e3o bem providas de aux\u00edlios, em detrimento daqueles que n\u00e3o o s\u00e3o. Este c\u00edrculo vicioso cria distor\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de todo o ciclo da pesquisa, criando vieses contra projetos de pesquisa inovadores, ou de autores em in\u00edcio de carreira, desencorajando a pesquisa e a publica\u00e7\u00e3o de \u201cci\u00eancia normal\u201d, inclusive estudos de replica\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o fundamentais para a viabilidade do processo de pesquisa, sem ser atraentes o suficiente para sugerir que seus autores sejam \u201cexcelentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As instru\u00e7\u00f5es aos autores da maior parte dos peri\u00f3dicos de \u201cexcel\u00eancia\u201d indicam a predile\u00e7\u00e3o por artigos originais e resultados positivos. Nesta categoria n\u00e3o se enquadram estudos de replica\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o h\u00e1 incentivos estruturais para conduzir estudos que \u201cmeramente\u201d possam revalidar (ou n\u00e3o) estudos existentes. No entanto, o fato de a literatura abrigar estudos cujos resultados n\u00e3o s\u00e3o reprodut\u00edveis tem consequ\u00eancias potencialmente perigosas uma vez que pode levar a condutas ineficazes ou inseguras, ou servir de alicerce para estudos futuros cuja base n\u00e3o \u00e9 verdadeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, o impacto negativo da \u201cexcel\u00eancia\u201d pode se dar de formas mais sutis do que vimos at\u00e9 aqui. Ao utilizar como indicadores de desempenho padr\u00f5es norte-americanos e europeus de \u201cexcel\u00eancia\u201d em capacidade de pesquisa, pa\u00edses do sul global podem experimentar um efeito paradoxal de redu\u00e7\u00e3o desta capacidade ao reduzir o financiamento de projetos de pesquisa \u201cnormal\u201d ou se afastar das prioridades nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Analogamente, pode haver intensifica\u00e7\u00e3o do preconceito contra mulheres e grupos minorit\u00e1rios na concess\u00e3o de aux\u00edlios \u00e0 pesquisa, pois estes grupos, estando sub-representados, tendem a se perpetuar desta forma. \u00c9 muito mais f\u00e1cil se sua apar\u00eancia, padr\u00f5es de trabalho e objetivos de pesquisa estiverem de acordo com aqueles em que seus \u00e1rbitros t\u00eam experi\u00eancia anterior. Na aus\u00eancia de medidas corretivas substanciais e conscientiza\u00e7\u00e3o, o foco na \u201cexcel\u00eancia\u201d continuar\u00e1 a manter, ao inv\u00e9s de superar, as barreiras sociais \u00e0 participa\u00e7\u00e3o em pesquisas por grupos atualmente sub-representados.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"narrativas-alternativas-trabalhando-em-prol-da-mudanca\">Narrativas alternativas: trabalhando em prol da mudan\u00e7a<\/h3>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que se apresenta, ap\u00f3s expor in\u00fameros exemplos sobre como \u201cexcel\u00eancia\u201d \u00e9 um crit\u00e9rio pouco confi\u00e1vel para atribuir par\u00e2metros de qualidade e validade, \u00e9 propor formas alternativas de avaliar a atividade da pesquisa e sua comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior desafio, acreditam os autores est\u00e1 na infraestrutura de financiamento \u00e0 pesquisa. Os recursos p\u00fablicos e de fontes privadas para financiar projetos de pesquisa e inova\u00e7\u00e3o est\u00e3o cada vez mais escassos e a competi\u00e7\u00e3o envolve prioridades e julgamento de valores em decis\u00f5es dif\u00edceis de tomar.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe aqui citar o relat\u00f3rio&nbsp;<em>Publons<\/em>&nbsp;de 2019 (publicado dois anos ap\u00f3s o artigo em an\u00e1lise neste&nbsp;<em>post<\/em>),&nbsp;<a href=\"https:\/\/publons.com\/community\/gspr\/grant-review\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Grant Review in Focus<\/em><\/a>,<sup>9<\/sup>&nbsp;com os resultados compilados a partir das respostas de mais de 11.000 pesquisadores, mais de 800 financiadores em 95 pa\u00edses, alguns dos quais foram entrevistados para ter uma vis\u00e3o sobre a melhor forma de identificar projetos com maior potencial para receber financiamento, objeto de um&nbsp;<a href=\"https:\/\/blog.scielo.org\/blog\/2019\/12\/04\/um-olhar-sobre-a-avaliacao-por-pares-de-propostas-de-auxilio-a-pesquisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>post<\/em>&nbsp;neste&nbsp;<em>blog<\/em><\/a>:<sup>10<\/sup><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Uma diferen\u00e7a fundamental entre a avalia\u00e7\u00e3o por pares de publica\u00e7\u00f5es e de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa reside no fato de que a primeira, por ocorrer ap\u00f3s a pesquisa ter sido realizada influencia a dire\u00e7\u00e3o que seguir\u00e1 a pesquisa em uma determinada \u00e1rea ao determinar o que ser\u00e1 publicado e onde, o que consequentemente ir\u00e1 influenciar a carreira do pesquisador. A avalia\u00e7\u00e3o de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa, por outro lado, tem influ\u00eancia mais direta em uma determinada \u00e1rea do conhecimento, por determinar se a pesquisa ser\u00e1 financiada ou n\u00e3o e, neste \u00faltimo caso, poder\u00e1 nunca se concretizar. Os crit\u00e9rios utilizados pelos pareceristas e o peso de cada um deles s\u00e3o, muitas vezes, decis\u00f5es pessoais, ou podem ser formalmente providas pelos pr\u00f3prios financiadores. Por este motivo, estes pareceristas t\u00eam em suas m\u00e3os enormes desafios ao atribuir m\u00e9ritos a projetos, pois acabam tendo grande influ\u00eancia na pesquisa de toda uma \u00e1rea ou de um pa\u00eds.<sup>10<\/sup><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em muitos pa\u00edses l\u00edderes em pesquisa e desenvolvimento, como Estados Unidos, Canad\u00e1, Reino Unido e na\u00e7\u00f5es com tradi\u00e7\u00e3o em pesquisa da Europa, \u00e9 comum que as institui\u00e7\u00f5es mais renomadas (e mais ricas) concentrem os aux\u00edlios p\u00fablicos \u00e0 pesquisa (o j\u00e1 mencionado \u201cefeito Mateus\u201d). No entanto, tem havido propostas recentes de redistribui\u00e7\u00e3o mais equitativa de recursos entre grupos de pesquisa menores, e proposi\u00e7\u00f5es de estrat\u00e9gias alternativas ap\u00f3s a constata\u00e7\u00e3o de que uma mais produtiva alternativa seria distribuir recursos com base na diversidade e n\u00e3o em percep\u00e7\u00e3o de \u201cexcel\u00eancia\u201d, ou at\u00e9 a proposi\u00e7\u00e3o de que distribuir os recursos dispon\u00edveis para todos os postulantes seria mais econ\u00f4mico e produtivo do que enviar as propostas para revis\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o, ou ainda decidir quem receber\u00e1 o aux\u00edlio por meio de sorteio. De qualquer forma, ao inv\u00e9s de procurar por \u201cexcel\u00eancia\u201d, os pareceristas que avaliam propostas de aux\u00edlio \u00e0 pesquisa deveriam buscar algum crit\u00e9rio b\u00e1sico de qualifica\u00e7\u00e3o, como \u201ccredibilidade\u201d ou \u201cvalidade\u201d, levando \u00e0 transi\u00e7\u00e3o de&nbsp;<strong>avalia\u00e7\u00e3o de resultados<\/strong>&nbsp;para&nbsp;<strong>avalia\u00e7\u00e3o de procedimento<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores postulam que enfocar em \u201cvalidade\u201d e \u201csolidez\u201d e \u201ccapacidade\u201d ao inv\u00e9s da ret\u00f3rica de \u201cexcel\u00eancia\u201d pode oferecer alternativas concretas. Parte da premissa de que \u201cpesquisa v\u00e1lida ou s\u00f3lida \u00e9 pesquisa de qualidade\u201d e \u201cmais pesquisa \u00e9 melhor do que pouca\u201d coloca o foco em rigorosidade, completude, e padr\u00f5es adequados de descri\u00e7\u00e3o, evid\u00eancia e probidade, ao inv\u00e9s de vagas atribui\u00e7\u00f5es de superioridade. As qualidades mencionadas podem ser comparadas e mensuradas objetivamente. A cole\u00e7\u00e3o da&nbsp;<em>Public Library of Science<\/em>&nbsp;(PloS) lan\u00e7ada em 2001 com o&nbsp;<em>PLoS ONE<\/em>&nbsp;e hoje com 12 peri\u00f3dicos, tem como principal pol\u00edtica editorial, al\u00e9m do acesso aberto, a publica\u00e7\u00e3o de artigos tecnicamente s\u00f3lidos, sem considerar o grau de inova\u00e7\u00e3o ou impacto, fazendo da PLoS a maior cole\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>mega journals<\/em>&nbsp;em acesso aberto que existe.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema est\u00e1 longe de ter sido esgotado pelo artigo, reconhecem seus autores. De fato, este artigo faz parte de uma colet\u00e2nea reunida pela&nbsp;<em>Nature<\/em>&nbsp;pelo Prof. James Wilsdon intitulada&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/collections\/kzffqpcdch\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>The future of Research Assessment<\/em><\/a>,<sup>11<\/sup>&nbsp;que, desde 2017, incluiu novas publica\u00e7\u00f5es sobre o tema, enfocando a gest\u00e3o de recursos financiamento \u00e0 pesquisa do Reino Unido, Austr\u00e1lia, Estados Unidos e pa\u00edses da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o, postulam, \u201cestaria na redistribui\u00e7\u00e3o dos recursos para a academia e n\u00e3o na concentra\u00e7\u00e3o destes nas institui\u00e7\u00f5es que se autodenominam de \u2018excel\u00eancia\u2019, uma vez que esta n\u00e3o pode ser reconhecida ou consensualmente definida. Redistribui\u00e7\u00e3o aumentaria a capacidade e o diversificaria o escopo da atividade, enfocando\u00a0<em>na pr\u00e1tica da pesquisa<\/em>, incluindo sua comunica\u00e7\u00e3o. Ao adotar esta abordagem, ser\u00e1 poss\u00edvel reconhecer atividade acad\u00eamica s\u00f3lida e v\u00e1lida, e com isso, construir culturas e comunidades em torno deste reconhecimento. E isso seria excelente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Lilian Nassi-Cal\u00f2 para Blog Scielo em Perspectiva Institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas ao redor do mundo divulgam seus programas de ensino &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/como-a-retorica-da-excelencia-influencia-avaliacao-da-pesquisa\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":21724,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"kt_blocks_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[111],"tags":[358,276],"class_list":["post-21722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pesquisa-cientifica","tag-avaliacao-cientifica","tag-financiamento-academico"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Como a ret\u00f3rica da excel\u00eancia influencia a avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa - Biblioteca Central da UFRGS<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Texto publicado no Blog Scielo em Perspectiva aborda a influ\u00eancia da avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa de institui\u00e7\u00f5es com posi\u00e7\u00f5es de destaque em rankings universit\u00e1rios renomados, egressos ilustres, ou simplesmente com nomes que s\u00e3o sin\u00f4nimos de sucesso.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Como a ret\u00f3rica da excel\u00eancia influencia a avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa - Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Texto publicado no Blog Scielo em Perspectiva aborda a influ\u00eancia da avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa de institui\u00e7\u00f5es com posi\u00e7\u00f5es de destaque em rankings universit\u00e1rios renomados, egressos ilustres, ou simplesmente com nomes que s\u00e3o sin\u00f4nimos de sucesso.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/como-a-retorica-da-excelencia-influencia-avaliacao-da-pesquisa\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/biblioteca.centralufrgs\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2022-05-26T12:00:52+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2023-08-07T13:13:44+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/excelencia.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"269\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"188\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"- Priscila S. 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