{"id":21727,"date":"2022-06-23T09:00:25","date_gmt":"2022-06-23T12:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=21727"},"modified":"2022-06-21T14:16:27","modified_gmt":"2022-06-21T17:16:27","slug":"via-rapida-entre-pesquisa-e-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/via-rapida-entre-pesquisa-e-sociedade\/","title":{"rendered":"Via r\u00e1pida entre a pesquisa e a sociedade"},"content":{"rendered":"\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative <\/a>Commons CC-BY-NC-ND. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/via-rapida-entre-a-pesquisa-e-a-sociedade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Dezessete anos, em m\u00e9dia, \u00e9 o tempo que transcorre at\u00e9 que um conhecimento baseado em evid\u00eancias cient\u00edficas na \u00e1rea da sa\u00fade esteja dispon\u00edvel em hospitais e farm\u00e1cias. A defasagem, causada pela lentid\u00e3o com que uma novidade \u00e9 assimilada por servi\u00e7os m\u00e9dicos e por obst\u00e1culos concretos ou culturais, foi calculada em um artigo publicado no ano 2000 por Andrew Balas e Suzanne Boren, pesquisadores da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, e virou um s\u00edmbolo do fosso que separa a pesquisa e a pr\u00e1tica. Ela \u00e9 mencionada com frequ\u00eancia por cientistas ansiosos em ver o aproveitamento de suas descobertas antes que elas cheguem \u00e0 adolesc\u00eancia e por ag\u00eancias de financiamento \u00e0 pesquisa e autoridades desconfort\u00e1veis com a demora para traduzir investimento p\u00fablico em qualidade de vida. O c\u00e1lculo dos 17 anos tamb\u00e9m se tornou um dos incentivos para o desenvolvimento de uma disciplina emergente: a ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse campo de estudos busca facilitar a dissemina\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas baseadas em evid\u00eancias, identificando obst\u00e1culos que atrapalham sua ado\u00e7\u00e3o e testando a efici\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es para remov\u00ea-los. Suas metodologias podem ser \u00fateis para iniciativas nos campos da educa\u00e7\u00e3o e da gest\u00e3o, mas \u00e9 na sa\u00fade p\u00fablica que elas v\u00eam sendo mais aplicadas. Pesquisas de implementa\u00e7\u00e3o podem ser mais ou menos ambiciosas \u2013 h\u00e1 as que prop\u00f5em mudan\u00e7as na rotina de trabalho de um hospital ou as que buscam aperfei\u00e7oar protocolos para enfrentar doen\u00e7as que afetam milh\u00f5es de pessoas, como diabetes, Aids e transtornos mentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Frequentemente, envolvem a realiza\u00e7\u00e3o de estudos quantitativos e qualitativos, ponderam custos e benef\u00edcios e recomendam treinamento para profissionais. Antes de conceber solu\u00e7\u00f5es, contudo, \u00e9 necess\u00e1rio fazer um diagn\u00f3stico preciso dos obst\u00e1culos a serem enfrentados e monitorar os passos da pesquisa de forma rigorosa. \u00c9 mandat\u00f3ria a realiza\u00e7\u00e3o de auditorias antes e depois da interven\u00e7\u00e3o para analisar suas consequ\u00eancias, boas ou ruins. Outra caracter\u00edstica \u00e9 o envolvimento direto de pacientes, seus familiares e membros da comunidade no desenho da pesquisa. \u201cEstabelecer a efic\u00e1cia de uma inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante sua ado\u00e7\u00e3o no uso rotineiro. O campo relativamente novo da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o desenvolveu-se para ampliar a aceita\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas baseadas em evid\u00eancias e, assim, aumentar seu impacto na sa\u00fade p\u00fablica\u201d, explicou o psiquiatra Mark Bauer, pesquisador em\u00e9rito da Universidade Harvard e respons\u00e1vel por projetos de implementa\u00e7\u00e3o no sistema de hospitais que atendem veteranos de guerra em Boston, nos Estados Unidos, em um artigo publicado em 2020.<strong>O que \u00e9<\/strong><br>\u2022 Compreende estudos sobre m\u00e9todos capazes de reduzir lacunas entre a pesquisa e a pr\u00e1tica, apoiando e acelerando a aplica\u00e7\u00e3o de conhecimentos baseados em evid\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Objetivos<\/strong><br>\u2022 Identificar os caminhos mais eficazes que ligam resultados de experimentos \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o em disciplinas diversas como educa\u00e7\u00e3o, psicologia, gest\u00e3o e, destacadamente, sa\u00fade<br>\u2022 Avaliar como interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o adotadas e aplicadas em situa\u00e7\u00f5es concretas para obter uma compreens\u00e3o de sua efic\u00e1cia em diferentes contextos<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que ela \u00e9 importante<\/strong><br>\u2022 Um estudo publicado no ano 2000 mostrou que boas evid\u00eancias cient\u00edficas em sa\u00fade levam em m\u00e9dia 17 anos at\u00e9 se tornarem pr\u00e1ticas de rotina. Remover as barreiras que atrasam o aproveitamento de resultados de pesquisa aumenta a chance de que eles beneficiem a popula\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>A disciplina ganhou consist\u00eancia nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas com a forma\u00e7\u00e3o de centros de investiga\u00e7\u00e3o dedicados a ela em pa\u00edses como Reino Unido, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Estados Unidos, e o surgimento de revistas especializadas na \u00e1rea. No Brasil, a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica ainda \u00e9 incipiente, mas pesquisadores de v\u00e1rios estados desenvolvem desde a d\u00e9cada passada estudos e interven\u00e7\u00f5es seguindo os conceitos da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um desses trabalhos conseguiu elevar de 19 para 25 o n\u00famero de cidades que adicionam fl\u00faor \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel no estado de Mato Grosso do Sul em 2021. \u201cA fluoreta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 obrigat\u00f3ria por lei e os benef\u00edcios dessa pr\u00e1tica na preven\u00e7\u00e3o da c\u00e1rie s\u00e3o amplamente conhecidos, mas h\u00e1 obst\u00e1culos que retardam sua implementa\u00e7\u00e3o fora dos grandes centros urbanos\u201d, explica o odontologista Rafael Aiello Bomfim, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que coordenou a iniciativa em parceria com o Conselho Regional de Odontologia do estado. Ele explica que um dos c\u00e2nones da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecer e envolver todas as partes interessadas em um problema na busca por uma solu\u00e7\u00e3o. \u201cIdentificamos 14 diferentes atores, como a Secretaria Estadual da Sa\u00fade, a ag\u00eancia que regula a concess\u00e3o de servi\u00e7os de \u00e1gua, as empresas de saneamento e representantes da popula\u00e7\u00e3o. E fizemos a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas com aqueles com mais poder de fiscalizar\u201d, conta. Foi criado um comit\u00ea com as partes interessadas, para o qual foram apresentadas as evid\u00eancias cient\u00edficas sobre a fluoreta\u00e7\u00e3o e o impacto esperado. N\u00e3o foi dif\u00edcil remover as barreiras. \u201cAs empresas geralmente n\u00e3o se mexem porque a mudan\u00e7a envolve um aumento de custos operacionais. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o existiam cobran\u00e7as para a implementa\u00e7\u00e3o porque os principais \u00f3rg\u00e3os de vigil\u00e2ncia n\u00e3o monitoravam\u201d, explica. A experi\u00eancia foi narrada em um artigo publicado em dezembro no <em>Journal of Public Health Dentistry<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns estudos brasileiros em ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o s\u00e3o ancorados em colabora\u00e7\u00f5es internacionais. Um deles \u00e9 um projeto iniciado em 2018, cofinanciado pela FAPESP e pelo Global Alliance for Chronic Diseases (GACD), associa\u00e7\u00e3o que re\u00fane ag\u00eancias de fomento \u00e0 pesquisa de 13 pa\u00edses para enfrentar doen\u00e7as como diabetes e c\u00e2ncer. O objetivo desse projeto espec\u00edfico \u00e9 testar em Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) de Ribeir\u00e3o Preto, no interior paulista, a efici\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es que reduzam o estigma sofrido por pacientes com transtornos mentais quando s\u00e3o atendidos na rede de sa\u00fade. \u201cExiste uma dificuldade dos profissionais de lidar com esse grupo da popula\u00e7\u00e3o. Isso torna esses pacientes ainda mais vulner\u00e1veis\u201d, diz a coordenadora do projeto, Carla Ventura, da Escola de Enfermagem de Ribeir\u00e3o Preto da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n\n\n\n<p>A equipe de Ventura j\u00e1 entrevistou 300 profissionais da sa\u00fade de seis UBS da cidade e 600 pacientes com transtornos psiqui\u00e1tricos atendidos por elas. Das seis unidades, tr\u00eas receber\u00e3o as interven\u00e7\u00f5es e outras tr\u00eas servir\u00e3o como grupo de controle. As estrat\u00e9gias a serem implementadas est\u00e3o sendo desenvolvidas. A ideia \u00e9 fazer workshops e atividades art\u00edsticas com os profissionais de equipes da sa\u00fade da fam\u00edlia. \u201cAl\u00e9m dos profissionais, os pacientes ter\u00e3o participa\u00e7\u00e3o ativa no workshop. Compartilhar as experi\u00eancias de quem sofre o estigma \u00e9 fundamental para ampliar a comunica\u00e7\u00e3o entre as partes\u201d, explica. A estrat\u00e9gia foi criada em 2014 pelo Centre for Addiction and Mental Health da Universidade de Toronto, no Canad\u00e1. Ventura teve contato com a iniciativa em 2014, quando passou uma temporada na universidade canadense. Em 2017, surgiu a oportunidade de submeter um projeto em uma chamada do GADC e da FAPESP em colabora\u00e7\u00e3o com o colega canadense Akwatu Khenti. O cronograma sofreu atrasos por conta da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>O GACD \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 pesquisa que mais disseminam a ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o. Criado em 2012 e sediado em Londres, coordena atividades voltadas \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e ao tratamento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis em escala global. Diante da quantidade gigantesca de evid\u00eancias cient\u00edficas ainda sem aplica\u00e7\u00e3o, o GACD estabeleceu como foco o apoio a estudos de implementa\u00e7\u00e3o para mol\u00e9stias como diabetes, c\u00e2ncer, doen\u00e7as card\u00edacas e respirat\u00f3rias e transtornos mentais. J\u00e1 financiou cerca de 110 projetos no mundo, mas s\u00f3 tr\u00eas envolvem cientistas brasileiros. A pouca familiaridade de pesquisadores do pa\u00eds com esse novo campo da ci\u00eancia tem sido um entrave importante.<\/p>\n\n\n\n<p>A FAPESP integra o GACD desde 2017 e lan\u00e7ou at\u00e9 agora quatro chamadas conjuntas com a institui\u00e7\u00e3o. No ano passado, nenhum projeto foi contemplado no edital lan\u00e7ado sobre c\u00e2ncer, embora 20 propostas tenham sido apresentadas e 9 pr\u00e9-selecionadas pela Funda\u00e7\u00e3o. \u201cQuando os representantes do GACD analisaram os projetos, n\u00e3o recomendaram a aprova\u00e7\u00e3o de nenhum deles. Embora bons, n\u00e3o adotavam metodologias apropriadas para estudos de implementa\u00e7\u00e3o\u201d, explica o endocrinologista Rui Maciel, da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e membro da coordena\u00e7\u00e3o adjunta de Ci\u00eancias da Vida da Diretoria Cient\u00edfica da FAPESP. <a href=\"https:\/\/fapesp.br\/15233\/chamada-fapespglobal-alliance-for-chronic-disease-gacd-fatores-de-risco-comum-em-idades-vulneraveis-adolescentes-e-jovens-adultos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Em dezembro, a Funda\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou uma nova chamada em parceria com o GACD, para apoiar pesquisas sobre doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis<\/a>. Com a meta de envolver grupos j\u00e1 consolidados, ser\u00e3o selecionadas at\u00e9 tr\u00eas propostas na modalidade Projeto Tem\u00e1tico, que tem financiamento por cinco anos e \u00e9 destinado a equipes que atuam na fronteira do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 grupos brasileiros que superaram esse tipo de dificuldade buscando expertise sobre ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o no exterior. A m\u00e9dica Rosana Teresa Onocko-Campos, da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), est\u00e1 \u00e0 frente de um projeto apoiado pela FAPESP para integrar as redes de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e de sa\u00fade mental no munic\u00edpio de Itatiba, no interior paulista, e seu grupo trouxe para o Brasil um arcabou\u00e7o te\u00f3rico desenvolvido no Reino Unido. O projeto, iniciado em 2019, partiu de uma demanda do ent\u00e3o secret\u00e1rio da Sa\u00fade de Itatiba, Fabio Luiz Alves, pesquisador da FCM-Unicamp. \u201cItatiba disp\u00f5e de servi\u00e7os instalados na quantidade necess\u00e1ria, mas que n\u00e3o conversavam bem entre si\u201d, explica Onocko-Campos. \u201cQuarenta por cento dos pacientes que ingressam no sistema pelas unidades de sa\u00fade mental n\u00e3o eram encaminhados para resolver outros problemas de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, como colesterol alto, diabetes ou hipertens\u00e3o.\u201d J\u00e1 foram analisados mais de 6 mil prontu\u00e1rios que permitiram a formula\u00e7\u00e3o de propostas de capacita\u00e7\u00e3o e de aprimoramento do atendimento e 120 profissionais receberam treinamento. Se as interven\u00e7\u00f5es tiverem sucesso, ser\u00e3o criados programas de educa\u00e7\u00e3o permanente. \u201cGra\u00e7as \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um comit\u00ea gestor da pesquisa, conseguimos dar continuidade \u00e0 proposta apesar de a cidade ter passado no per\u00edodo por tr\u00eas secret\u00e1rios da Sa\u00fade diferentes e dois prefeitos\u201d, diz Onocko-Campos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o sei se a ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o chega a ser uma ci\u00eancia nova. Talvez seja uma linguagem que a gente precisa aprender e sistematizar\u201d, sugere o enfermeiro Carlos Alberto Treichel, que atualmente faz est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado na FCM-Unicamp com bolsa da FAPESP. Ele participa do projeto de Itatiba desde seu doutorado em sa\u00fade coletiva na Unicamp, com per\u00edodo sandu\u00edche no Centro de Ci\u00eancia de Implementa\u00e7\u00e3o do King\u2019s College London, criado em 2014. O Reino Unido, com seu sistema de sa\u00fade p\u00fablico e universalizado, \u00e9 um celeiro para pesquisas de implementa\u00e7\u00e3o. \u201cL\u00e1, os hospitais t\u00eam n\u00facleos para incorporar inova\u00e7\u00f5es por meio de estudos de implementa\u00e7\u00e3o\u201d, observa Treichel. Na institui\u00e7\u00e3o londrina, ele teve contato com um esfor\u00e7o para sistematizar o conhecimento relacionado a essa ci\u00eancia, que resultou em uma ferramenta para orientar a elabora\u00e7\u00e3o de projetos. Batizado de Implementation Research Tool, agora dispon\u00edvel em portugu\u00eas, oferece um checklist que permite identificar o arcabou\u00e7o te\u00f3rico adequado \u00e0 pesquisa, utilizar os principais conceitos da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o e monitorar resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos obst\u00e1culos enfrentados por projetos de implementa\u00e7\u00e3o s\u00e3o comportamentais. Treichel menciona a dificuldade de m\u00e9dicos e t\u00e9cnicos de unidades de sa\u00fade em cobrar a caderneta de vacina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as atendidas. \u201cEles t\u00eam muita coisa a fazer no posto de sa\u00fade e muitos se esquecem de pedir. Uma interven\u00e7\u00e3o que se mostrou eficiente foi criar um sistema de prontu\u00e1rio eletr\u00f4nico em que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel encerrar o atendimento depois de cobrar as vacinas.\u201d Nem sempre \u00e9 simples identificar as barreiras que uma pesquisa de implementa\u00e7\u00e3o pode encontrar. O cardiologista Antonio Luiz Pinho Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenou a tentativa de implementa\u00e7\u00e3o de um modelo de suporte em ambul\u00e2ncias para lidar com pacientes com suspeita de acidente vascular cerebral que se revelou invi\u00e1vel. \u201cO socorrista precisava acessar um tablet, o que era uma barreira intranspon\u00edvel. Eles est\u00e3o ocupados demais para abrir um tablet\u201d, explica. J\u00e1 um outro sistema, que auxiliava enfermeiros nos cuidados com pacientes diab\u00e9ticos internados e tamb\u00e9m utilizava tablets, deu resultados positivos \u2013 ainda assim, observou-se que n\u00e3o bastava mobilizar os enfermeiros. Toda a equipe de assist\u00eancia tinha de aderir ao esfor\u00e7o. \u201cAs barreiras podem estar em diferentes atores. Pode ser o paciente, a falta de estrutura do sistema de sa\u00fade ou a resist\u00eancia de profissionais no uso de inova\u00e7\u00f5es\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O cardiologista lidera um programa de telemedicina sediado no Hospital das Cl\u00ednicas da UFMG que h\u00e1 11 anos ganhou alcance nacional e hoje oferece servi\u00e7os de eletrocardiografia a dist\u00e2ncia em mais de mil cidades de 12 estados. \u201cCome\u00e7amos a desenvolver novos aplicativos no centro de telessa\u00fade, gra\u00e7as a um financiamento da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], que requereram estudos de implementa\u00e7\u00e3o.\u201d Paralelamente, ele foi agraciado em 2012 com uma c\u00e1tedra de professor visitante na Universidade de Southampton, na Inglaterra. L\u00e1, conheceu James Batchelor, diretor de unidade de Pesquisa em Inform\u00e1tica Cl\u00ednica da universidade, com o qual come\u00e7ou a colaborar. Em 2019, Batchelor e Ribeiro conseguiram um financiamento do GACD e do Medical Research Council do Reino Unido e est\u00e3o implementando um projeto de sa\u00fade digital para monitorar pacientes com hipertens\u00e3o e diabetes, ancoradas em 34 unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade em cidades do Vale do Mucuri, em Minas Gerais. Em metade dessas unidades os profissionais receber\u00e3o nos pr\u00f3ximos meses softwares e treinamento para tratar e gerenciar seus pacientes. Na outra metade, as pessoas ser\u00e3o cuidadas de maneira padr\u00e3o. O Hospital Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 parceiro do projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>O advento da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia de um movimento que, a partir da d\u00e9cada de 1980, renovou o ensino e as pr\u00e1ticas profissionais dos m\u00e9dicos, a medicina baseada em evid\u00eancias. \u201cExiste uma produ\u00e7\u00e3o absurda de estudos apontando solu\u00e7\u00f5es confirmadas pela ci\u00eancia, mas n\u00e3o se consegue absorver isso\u201d, afirma Vilanice Alves de Ara\u00fajo P\u00fcschel, pesquisadora da Escola de Enfermagem da USP. Em 2016, ela foi credenciada a aplicar na Am\u00e9rica Latina uma metodologia de uma institui\u00e7\u00e3o da Austr\u00e1lia, o JBI (Instituto Joanna Briggs, em uma antiga denomina\u00e7\u00e3o), ligado \u00e0 Universidade de Adelaide, que criou uma s\u00e9rie de ferramentas para auxiliar profissionais da sa\u00fade a implementar as melhores evid\u00eancias cient\u00edficas no atendimento. Hoje, ela coordena na Escola de Enfermagem um curso que j\u00e1 formou seis turmas. A primeira parte do curso \u00e9 presencial. Depois de se familiarizar com um arcabou\u00e7o te\u00f3rico, cada aluno escolhe um tema de implementa\u00e7\u00e3o \u2013 o JBI disp\u00f5e de uma cole\u00e7\u00e3o de mais de 500 t\u00f3picos com o que h\u00e1 de mais robusto na literatura cient\u00edfica sobre cada um deles. \u201cPodem ser evid\u00eancias para implementar o autocuidado de pacientes com diabetes, prevenir quedas em pacientes internados ou resolu\u00e7\u00e3o de conflitos entre equipes de sa\u00fade, entre outros\u201d, informa P\u00fcschel. Encerrada a primeira etapa do curso, os alunos voltam \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es para aplicar as medidas. Meses depois, t\u00eam mais 40 horas de atividade presencial, em que apresentam relat\u00f3rios de implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A cirurgi\u00e3 tor\u00e1cica Juliana Ferreira participou de uma das turmas e estabeleceu em 2019 um projeto de implementa\u00e7\u00e3o em um hospital p\u00fablico onde trabalhava em Juiz de Fora, Minas Gerais. O projeto buscou aplicar as melhores pr\u00e1ticas de inser\u00e7\u00e3o de cateter venoso central em pacientes adultos, procedimento m\u00e9dico no qual se introduz um cateter em uma grande veia para infus\u00e3o de soro e medicamentos. \u201cO hospital dispunha de um aparelho de ultrassom, que \u00e9 essencial para fazer uma pun\u00e7\u00e3o venosa central segura, mas havia uma barreira: a maioria dos profissionais n\u00e3o tinha treinamento para introduzir cateteres guiados por ultrassom\u201d, explica Ferreira. O projeto envolveu construir ela pr\u00f3pria um manequim de simula\u00e7\u00e3o, pois o hospital n\u00e3o tinha recursos para comprar um. \u201cAp\u00f3s o treinamento dos m\u00e9dicos e residentes, 100% dos procedimentos de pun\u00e7\u00e3o venosa central passaram a ser guiados por ultrassom, o que teve grande impacto na qualidade do atendimento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O JBI j\u00e1 concedeu um selo de reconhecimento a seis hospitais do mundo, admitindo seus servi\u00e7os de qualidade e a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas baseadas em evid\u00eancias. O Hospital Universit\u00e1rio da USP (HU-USP) \u00e9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o brasileira da lista. Em 2013, implantou o N\u00facleo de Enfermagem Baseada em Evid\u00eancias (Nuebe) e enviou uma de suas enfermeiras \u00e0 Austr\u00e1lia para fazer o curso do JBI \u2013 mais tarde, tr\u00eas profissionais treinados na institui\u00e7\u00e3o australiana passaram a disseminar a metodologia em diversos servi\u00e7os e equipes do hospital. Um dos 17 projetos aplicou as melhores evid\u00eancias cl\u00ednicas para triagem e detec\u00e7\u00e3o de del\u00edrios em pacientes intensivos. Uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es foram aplicadas e avaliadas para incentivar o paciente a manter a orienta\u00e7\u00e3o de tempo e de espa\u00e7o, como evitar que fique sem \u00f3culos ou aparelhos auditivos, garantir acesso a jornais e televis\u00e3o, permitir a perman\u00eancia da fam\u00edlia e controlar medica\u00e7\u00f5es que podem causar confus\u00e3o mental. \u201cO pr\u00f3prio JBI sugeriu que nos candidat\u00e1ssemos ao selo de reconhecimento, j\u00e1 que a nossa parceria com eles era muito produtiva\u201d, diz Karina Sichieri, chefe t\u00e9cnica da Divis\u00e3o de Enfermagem Cl\u00ednica do HU-USP.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio Ribeiro, da UFMG, observa que estudos de implementa\u00e7\u00e3o ser\u00e3o cruciais para melhorar a qualidade dos servi\u00e7os do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). \u201cO fosso de implementa\u00e7\u00e3o existe no mundo todo, mas em pa\u00edses em desenvolvimento h\u00e1 obst\u00e1culos adicionais. Por mais que o SUS seja universal, sabemos que a qualidade de assist\u00eancia \u00e9 irregular.\u201d Cleusa Ferri, psiquiatra e epidemiologista da Unifesp, vai na mesma linha e ressalta a import\u00e2ncia da ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o para planejar a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica que enfrentem os efeitos do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira. \u201cDesde 2017 a OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade] pressiona governos do mundo a implementar planos sobre dem\u00eancia, porque o n\u00famero de pessoas com a doen\u00e7a tende a aumentar muito nos pr\u00f3ximos anos\u201d, conta. Ferri est\u00e1 \u00e0 frente da vertente brasileira de um projeto sediado no Reino Unido, que busca testar no Brasil, na \u00cdndia e na Tanz\u00e2nia a efic\u00e1cia de um tipo de interven\u00e7\u00e3o em indiv\u00edduos com dem\u00eancia leve, a terapia de estimula\u00e7\u00e3o cognitiva, que se mostrou eficiente em ensaios cl\u00ednicos para melhorar a qualidade de vida e desacelerar a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Ferri trabalhou por mais de uma d\u00e9cada no Reino Unido no University College London, onde conheceu a coordenadora do projeto, a psic\u00f3loga Amy Spector. O projeto prev\u00ea a oferta de 14 sess\u00f5es da terapia a pacientes acompanhados por familiares, com t\u00e9cnicas para estimular a cogni\u00e7\u00e3o, como jogos e terapias baseadas em reminisc\u00eancias e no uso de fotografias do passado. \u201cComo epidemiologista, estava acostumada a identificar o problema, mas n\u00e3o pensar em solu\u00e7\u00f5es. A ci\u00eancia de implementa\u00e7\u00e3o ajuda a identificar alternativas e viabiliz\u00e1-las.\u201d<strong>Em busca de um selo de qualidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas (HSL), em S\u00e3o Paulo, est\u00e1 empenhado em obter at\u00e9 2025 o selo do Programa de Reconhecimento Magnet, concedido pela American Nurses Credentialing Center a 563 hospitais de excel\u00eancia na pr\u00e1tica de servi\u00e7os de enfermagem \u2013 nenhum deles at\u00e9 agora \u00e9 do Brasil. \u201cSer uma institui\u00e7\u00e3o Magnet significa implantar e manter uma assist\u00eancia de excel\u00eancia\u201d, diz Wania Ba\u00eda, enfermeira e diretora assistencial do HSL. Um dos pilares para obter a certifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas baseadas em evid\u00eancias em servi\u00e7o de enfermagem. Por isso, o hospital celebrou uma parceria com o Joanna Brigs Institute (JBI), da Austr\u00e1lia, e em 2021 foi realizado o primeiro curso de mentoria em parceria com a institui\u00e7\u00e3o. Participaram da iniciativa 11 enfermeiros e um fisioterapeuta. Cada um deles desenvolveu um projeto de implementa\u00e7\u00e3o de melhorias no hospital. As interven\u00e7\u00f5es compreendem a aplica\u00e7\u00e3o das melhores evid\u00eancias para, entre outros exemplos, diminuir a dor de pacientes oncol\u00f3gicos, aprimorar o uso de oxig\u00eanio, reduzindo desperd\u00edcios, e diminuir o uso de restri\u00e7\u00e3o f\u00edsica de pacientes em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). \u201cA pr\u00e1tica de restri\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u00e9 disseminada em hospitais brasileiros, mas pode ser prejudicial \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o do paciente, com impactos psicol\u00f3gicos importantes\u201d, explica Regina Claudia da Silva Souza, enfermeira do HSL que lidera uma das estrat\u00e9gias para conseguir o selo. \u201cEssas iniciativas t\u00eam como foco diminuir o distanciamento entre a melhor evid\u00eancia cient\u00edfica dispon\u00edvel e a pr\u00e1tica assistencial de excel\u00eancia aplicada na rotina di\u00e1ria\u201d, refor\u00e7a o fisioterapeuta Wellington Yamaguti, gerente assistencial do HSL.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Projetos<\/strong><br><strong>1.<\/strong> Pesquisa de implementa\u00e7\u00e3o: dispositivos de integra\u00e7\u00e3o da rede de sa\u00fade mental no munic\u00edpio de Itatiba-SP (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/103538\/pesquisa-de-implementacao-dispositivos-de-integracao-da-rede-de-saude-mental-no-municipio-de-itatiba\/?q=18\/10366-6\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00ba 18\/10366-6<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Pesquisa em Pol\u00edticas P\u00fablicas; <strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong> Rosana Teresa Onocko Campos (Unicamp); <strong>Investimento<\/strong> R$ 472.674,52.<br><strong>2.<\/strong> Valida\u00e7\u00e3o transcultural, dissemina\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o do uso de uma ferramenta para melhorar a qualidade de projetos e pesquisas de implementa\u00e7\u00e3o: ImpRes Tool-BR (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/196649\/validacao-transcultural-disseminacao-e-avaliacao-do-uso-de-uma-ferramenta-para-melhorar-a-qualidade-\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00ba 20\/14309-7<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Bolsas de P\u00f3s-Doutorado; <strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong> Rosana Teresa Onocko Campos (Unicamp); <strong>Benefici\u00e1rio<\/strong> Carlos Alberto dos Santos Treichel; <strong>Investimento<\/strong> R$ 194.649,84.<br><strong>3.<\/strong> Exploring stigma, discrimination and recovery-based perspectives toward mental illness and substance use problems among primary healthcare providers in Ribeir\u00e3o Preto, Brazil: a randomized controlled trial (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/100410\/exploring-stigma-discrimination-and-recovery-based-perspectives-toward-mental-illness-and-substance-\/?q=17\/50111-4\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00ba 17\/50111-4<\/a>); \u00a8C35C Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Pesquisa em Pol\u00edticas P\u00fablicas; \u00a8C36C Carla Aparecida Arena Ventura (USP); \u00a8C37C R$ 370.180,16.<br>\u00a8C38C I Simp\u00f3sio Internacional de Implementa\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias em sa\u00fade (SIIES) (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/103594\/i-simposio-internacional-de-implementacao-de-evidencias-em-saude-siies\/?q=19\/00834-5\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00ba 19\/00834-5<\/a>); \u00a8C39C Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o de Reuni\u00e3o Cient\u00edfica; \u00a8C40C Vilanice Alves de Ara\u00fajo P\u00fcschel (USP); \u00a8C41C R$ 15.073,75.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/via-rapida-entre-a-pesquisa-e-a-sociedade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND. 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