{"id":21869,"date":"2022-07-21T08:48:00","date_gmt":"2022-07-21T11:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=21869"},"modified":"2022-06-21T14:27:16","modified_gmt":"2022-06-21T17:27:16","slug":"novas-reguas-para-medir-a-qualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/novas-reguas-para-medir-a-qualidade\/","title":{"rendered":"Novas r\u00e9guas para medir a qualidade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Universidades e ag\u00eancias de fomento buscam e adotam m\u00e9tricas mais abrangentes para examinar o desempenho de pesquisadores<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:15px\">Texto de Fabr\u00edcio Marques originalmente publicado na <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/novas-reguas-para-medir-a-qualidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Revista Pesquisa Fapesp<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-1024x512.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21870\" width=\"492\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-1024x512.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-720x360.jpg 720w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-360x180.jpg 360w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-840x420.jpg 840w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140-420x210.jpg 420w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 492px) 100vw, 492px\" \/><figcaption>L\u00e9o Ramos Chaves<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A comunidade cient\u00edfica dos Pa\u00edses Baixos trava uma disputa que promete reverberar na forma como s\u00e3o avaliados a qualidade do trabalho e o desempenho de pesquisadores em outras partes do mundo. A controv\u00e9rsia teve in\u00edcio em junho, quando a Universidade de Utrecht, a mais antiga e bem ranqueada institui\u00e7\u00e3o de ensino superior holandesa, anunciou uma reforma em suas regras de contrata\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o, abolindo o uso de indicadores bibliom\u00e9tricos como o fator de impacto (FI) para mensurar a relev\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o de seus docentes. Calculado pelo n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es que um artigo recebe nas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas de outros artigos, o FI \u00e9 adotado, por exemplo, para examinar o prest\u00edgio de peri\u00f3dicos cient\u00edficos \u2013 a empresa Clarivate Analytics atualiza anualmente o <em>Journal Citation Reports<\/em>, base de dados que estima o fator de impacto m\u00e9dio de mais de 10 mil revistas. O FI \u00e9 considerado em diversas disciplinas como um bom sinalizador da repercuss\u00e3o que um artigo teve entre especialistas de sua \u00e1rea e se tornou mat\u00e9ria-prima para outros indicadores, como o \u00edndice h \u2013 que combina o n\u00famero de artigos de um autor com a frequ\u00eancia de cita\u00e7\u00f5es desses manuscritos.<br><br>No novo modelo proposto pela Universidade de Utrecht, os pesquisadores ser\u00e3o avaliados sem computar o n\u00famero e a influ\u00eancia de seus <em>papers<\/em>, mas sim com base na qualidade do ensino, no compromisso de atuar em equipes e na disposi\u00e7\u00e3o de compartilhar dados de pesquisa. Cada departamento dever\u00e1 elaborar estrat\u00e9gias pr\u00f3prias para apreciar o desempenho de seus docentes, levando em conta o efeito na economia e na sociedade e os princ\u00edpios de \u201cci\u00eancia aberta\u201d, conjunto de pr\u00e1ticas que promove a transpar\u00eancia e o trabalho em colabora\u00e7\u00e3o. \u201cTemos uma forte convic\u00e7\u00e3o de que algo precisa mudar. E abandonar o fator de impacto \u00e9 uma mudan\u00e7a necess\u00e1ria\u201d, disse \u00e0 revista <em>Nature<\/em> Paul Boselie, professor da Escola de Governan\u00e7a da universidade, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do novo sistema. Segundo ele, o uso indiscriminado do FI produziu consequ\u00eancias indesejadas, como a preocupa\u00e7\u00e3o excessiva em publicar artigos e a busca de artif\u00edcios para anabolizar sua resson\u00e2ncia, deixando em segundo plano outros objetivos importantes da atividade cient\u00edfica.<br><br>A decis\u00e3o gerou ondas de choque em outras institui\u00e7\u00f5es dos Pa\u00edses Baixos, que se materializaram em uma carta aberta assinada por 170 pesquisadores contr\u00e1rios \u00e0 mudan\u00e7a e temerosos de que ela seja adotada por mais universidades \u2013 entre os signat\u00e1rios est\u00e1 o Nobel de Qu\u00edmica de 2016 Bernard Feringa, da Universidade de Groningen. O contra-argumento \u00e9 que, na aus\u00eancia de indicadores objetivos, os processos de contrata\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o passem a ser regidos por crit\u00e9rios eventualmente arbitr\u00e1rios. \u201cO fator de impacto \u00e9 uma m\u00e9trica imperfeita, mas continua sendo \u00fatil\u201d, disse \u00e0 revista <em>Nature Index<\/em> um dos signat\u00e1rios da carta, o bi\u00f3logo celular Raymond Poot, do Centro M\u00e9dico da Universidade Erasmus, em Roterd\u00e3.<br><br>Na avalia\u00e7\u00e3o de Jacques Marcovitch, reitor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) entre 1997 e 2001, o embate nos Pa\u00edses Baixos p\u00f5e em evid\u00eancia vantagens e limites das duas abordagens. \u201cIndicadores bibliom\u00e9tricos s\u00e3o racionais e objetivos, mas eles sabidamente provocam distor\u00e7\u00f5es de comportamentos e s\u00e3o incapazes de captar dimens\u00f5es como a qualidade do ensino na sala de aula\u201d, afirma. J\u00e1 a an\u00e1lise detalhada da contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e acad\u00eamica de pesquisadores \u00e9 mais trabalhosa e imp\u00f5e desafios complexos. \u201cNaturalmente, isso envolve um processo bem mais demorado e dif\u00edcil de realizar\u201d, afirma Marcovitch, que coordena um projeto financiado pela FAPESP voltado ao desenvolvimento de novas m\u00e9tricas para avaliar o desempenho cient\u00edfico, econ\u00f4mico e cultural das universidades p\u00fablicas paulistas.<br><br>A disputa nos Pa\u00edses Baixos \u00e9 simb\u00f3lica porque estabelece uma ruptura com indicadores consagrados, cujo uso exagerado h\u00e1 tempos \u00e9 criticado como reducionista. Nos \u00faltimos anos, uma s\u00e9rie de manifestos prop\u00f4s meios de fazer avalia\u00e7\u00f5es mais abrangentes e ganhou adeptos entre universidades de toda parte. O principal deles \u00e9 a Declara\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco sobre Avalia\u00e7\u00e3o de Pesquisa (Dora), de 2012, endossada por mais de 20 mil pesquisadores e 2 mil institui\u00e7\u00f5es de 148 pa\u00edses, que recomenda abolir o uso isolado do fator de impacto de peri\u00f3dicos em avalia\u00e7\u00f5es relativas a financiamento, promo\u00e7\u00f5es e contrata\u00e7\u00f5es. Outro documento de refer\u00eancia \u00e9 um conjunto de diretrizes definidas em 2019 na 6\u00aa Confer\u00eancia Mundial de Integridade Cient\u00edfica, realizada em Hong Kong, para avaliar o desempenho dos pesquisadores de forma mais ampla e criar recompensas na carreira para os que adotarem pr\u00e1ticas capazes de refor\u00e7ar a integridade da ci\u00eancia (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/para-disseminar-os-principios-de-hong-kong\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba<\/em> <em>303<\/em><\/a>).<br><br>Institui\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios pa\u00edses v\u00eam reduzindo o peso de indicadores bibliom\u00e9tricos e ampliando o de par\u00e2metros de car\u00e1ter qualitativo, em busca do que se convencionou chamar de \u201cm\u00e9tricas respons\u00e1veis\u201d. A Universidade de Glasgow, no Reino Unido, incorporou recentemente o crit\u00e9rio de \u201ccolegialidade\u201d \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o de docentes: para serem promovidos ao topo da carreira, eles devem demonstrar que contribu\u00edram com a trajet\u00f3ria de colegas e assistentes, compartilhando dados e produzindo artigos em coautoria. No sistema de avalia\u00e7\u00e3o das universidades do Reino Unido, utilizado para classificar as institui\u00e7\u00f5es e distribuir recursos, h\u00e1 tempos se conjugam alguns indicadores bibliom\u00e9tricos com a an\u00e1lise feita por pares de uma sele\u00e7\u00e3o dos trabalhos mais relevantes dos pesquisadores \u2013 o peso de cada modelo \u00e9 ajustado a cada temporada de avalia\u00e7\u00e3o.<br>A estrat\u00e9gia da China tamb\u00e9m est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o. Em vez de valorizar o volume de estudos publicados, passou-se a exigir que os pesquisadores selecionem as melhores contribui\u00e7\u00f5es para serem analisadas por pain\u00e9is de especialistas. Os chineses anunciaram a inten\u00e7\u00e3o de elaborar indicadores bibliom\u00e9tricos pr\u00f3prios, que contemplem o impacto regional de sua pesquisa.<br><br>Em novembro do ano passado, diversas iniciativas relacionadas a uma avalia\u00e7\u00e3o mais completa da pesquisa foram apresentadas em uma confer\u00eancia virtual do Global Research Council, entidade criada em 2012 para estimular o interc\u00e2mbio de pr\u00e1ticas de gest\u00e3o entre ag\u00eancias de fomento. Em v\u00e1rios pa\u00edses, os pesquisadores est\u00e3o sendo instados a fornecer uma narrativa estruturada sobre sua carreira, exprimindo sua contribui\u00e7\u00e3o individual, em vez de listar o volume de artigos e as cita\u00e7\u00f5es que receberam. A Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Ci\u00eancia da Su\u00ed\u00e7a est\u00e1 testando um curr\u00edculo desse tipo, o SciCV, f\u00e1cil de preencher e de atualizar. A Royal Society, do Reino Unido, desenvolveu um curr\u00edculo dividido em quatro se\u00e7\u00f5es: gera\u00e7\u00e3o de conhecimento, desenvolvimento de talentos, contribui\u00e7\u00e3o para a comunidade de pesquisa e contribui\u00e7\u00e3o para a sociedade.<br>Nos \u00faltimos anos, uma s\u00e9rie de manifestos prop\u00f4s meios de fazer avalia\u00e7\u00f5es mais amplas, ganhando adeptos entre as universidades<br><br>Apesar das mudan\u00e7as, os indicadores bibliom\u00e9tricos ainda s\u00e3o uma ferramenta muito presente na avalia\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Um estudo publicado em 2019 na revista <em>eLifeSciences<\/em> constatou que 40% das universidades de pesquisa nos Estados Unidos e Canad\u00e1 mencionam fatores de impacto ou termos relacionados em documentos referentes \u00e0 estabilidade, revis\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de seus quadros. Um caso recente envolvendo a Universidade de Liverpool, no Reino Unido, \u00e9 revelador das dificuldades de promover uma mudan\u00e7a de cultura. A institui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das signat\u00e1rias do manifesto Dora e se diz engajada na ado\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas respons\u00e1veis, como a an\u00e1lise por pares do trabalho de seus pesquisadores. Mas est\u00e1 sendo criticada por utilizar indicadores de ordem financeira para escolher os 32 docentes de sua Faculdade de Sa\u00fade e Ci\u00eancias da Vida que ser\u00e3o demitidos. Para manter os empregos, eles precisam demonstrar que conseguiram atrair financiamento para seus projetos em n\u00edveis semelhantes aos de um grupo de 24 universidades intensivas em pesquisa ao qual Liverpool pertence. Um editorial recente da revista <em>Nature<\/em> apontou o imbr\u00f3glio de Liverpool como uma encruzilhada para o movimento deflagrado pelo manifesto Dora.<br><br>A busca e a ado\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas respons\u00e1veis tamb\u00e9m avan\u00e7am no Brasil. Em um artigo divulgado recentemente nos <em>Anais da Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/em>, um trio de bioqu\u00edmicos lan\u00e7ou o manifesto \u201cAvalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica respons\u00e1vel: Minimizando os \u00edndices, aumentando a qualidade\u201d, que ressalta a import\u00e2ncia da revis\u00e3o por pares para identificar a contribui\u00e7\u00e3o de uma pesquisa. Uma das recomenda\u00e7\u00f5es \u00e9 criar mecanismos de recompensa para bons avaliadores, aqueles cientistas que t\u00eam conhecimento profundo em um tema e concentram suas sugest\u00f5es na possibilidade de melhorar a qualidade do manuscrito ou de um projeto de pesquisa de colegas.<br><br>O documento prop\u00f5e ainda que indicadores bibliom\u00e9tricos sejam utilizados com parcim\u00f4nia, levando em conta as suas limita\u00e7\u00f5es. \u201cO trabalho de pesquisadores atuando na fronteira do conhecimento n\u00e3o pode ser avaliado de forma quantitativa. A avalia\u00e7\u00e3o da qualidade s\u00f3 pode ser feita por pessoas experientes, na chamada revis\u00e3o por pares\u201d, afirma Alicia Kowaltowski, pesquisadora do Instituto de Qu\u00edmica da USP e coordenadora de \u00e1rea da Diretoria Cient\u00edfica da FAPESP, que escreveu o manifesto em parceria com Ariel Silber, tamb\u00e9m da USP, e Marcus Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O uso respons\u00e1vel de m\u00e9tricas, observa Kowaltowski, exige uma an\u00e1lise do contexto. \u201cO n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es varia de acordo com as \u00e1reas do conhecimento e \u00e9 mediado por outros fatores \u2013 artigos de revis\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o trazem dados originais, mas costumam ser mais citados. O contexto \u00e9 importante\u201d, afirma.<br><br>O bioqu\u00edmico Jorge Guimar\u00e3es, que foi presidente da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) entre 2004 e 2015 e atualmente preside a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o Industrial (Embrapii), v\u00ea com cautela a dicotomia entre indicadores de quantidade e qualidade. \u201cFala-se muito em mudar para componentes mais qualitativos, mas ningu\u00e9m sabe muito bem quais deveriam ser usados\u201d, afirma. Ele rejeita a ideia de que \u00edndices bibliom\u00e9tricos sejam meramente quantitativos. \u201cO fator de impacto mede qualidade. Mostra que algu\u00e9m leu seu artigo e o utilizou como refer\u00eancia, em geral por conta de sua contribui\u00e7\u00e3o.\u201d<br><br>Nos anos 2000, a Capes criou o Qualis, sistema de classifica\u00e7\u00e3o de revistas cient\u00edficas usado para avaliar os programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Brasil. O sistema est\u00e1 sendo revisto e costuma ser criticado por considerar a import\u00e2ncia de um artigo n\u00e3o pelo n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es que ele de fato recebeu, mas por um par\u00e2metro indireto: o fator de impacto m\u00e9dio do peri\u00f3dico que o publicou. Essa estrat\u00e9gia \u00e9 condenada em manifestos favor\u00e1veis a m\u00e9tricas respons\u00e1veis, mas Guimar\u00e3es explica que ela teve uma raz\u00e3o de ser. \u201cA avalia\u00e7\u00e3o dos programas leva em conta a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica gerada nos quatro anos anteriores. Nesse breve espa\u00e7o de tempo, o n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es de cada artigo \u00e9 pequeno e n\u00e3o serviria como boa medida de avalia\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Ele observa que o peso atribu\u00eddo a cada peri\u00f3dico era objeto de discuss\u00e3o aprofundada entre os representantes dos comit\u00eas de avalia\u00e7\u00e3o de cada \u00e1rea do conhecimento.<br><br>Guimar\u00e3es sustenta que indicadores devem sempre ser interpretados com crit\u00e9rio. Ele observa, por exemplo, que o impacto da ci\u00eancia brasileira em agricultura tropical \u00e9 baixo, uma vez que os resultados t\u00eam interesse regional. \u201cMas ningu\u00e9m tem d\u00favida de sua import\u00e2ncia econ\u00f4mica e social no Brasil. Isso precisa ser levado em conta na avalia\u00e7\u00e3o.\u201d J\u00e1 os pesquisadores brasileiros da \u00e1rea de qu\u00edmica, diz Guimar\u00e3es, t\u00eam trabalhos de alta qualidade. \u201cMas h\u00e1 pouca transposi\u00e7\u00e3o da pesquisa desenvolvida nas universidades para o setor industrial.\u201d<br>Para Jacques Marcovitch, um dos desafios \u00e9 identificar os tipos de impacto que a universidade \u00e9 capaz de gerar em diferentes \u00e1reas do conhecimento. \u201cH\u00e1 m\u00e9tricas que s\u00e3o adequadas para algumas disciplinas, mas n\u00e3o fazem nenhum sentido para outras. Se nas engenharias um indicador sobre patentes pode ser \u00fatil, na filosofia o reconhecimento dos pares \u00e9 o principal objetivo a ser obtido\u201d, explica. J\u00e1 a sociedade espera das universidades um outro tipo de impacto. \u201cQuer ver resultado todo ano, na forma de ingresso de novos alunos e na sa\u00edda de profissionais bem formados, assim como espera extens\u00e3o e pesquisa de qualidade. Na crise sanit\u00e1ria, essa press\u00e3o gerou um enorme estresse e as universidades se esmeraram em dar respostas \u00e0 sociedade\u201d, afirma.<br><br>A avalia\u00e7\u00e3o dos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Capes est\u00e1 mudando para contemplar mais aspectos qualitativos. Alguns indicadores, como quantidade de professores e n\u00famero de estudantes de mestrado e doutorado, perderam import\u00e2ncia na avalia\u00e7\u00e3o quadrienal que se encerra neste ano e n\u00e3o influenciar\u00e3o mais na nota dos cursos. Ser\u00e3o considerados apenas como indicativo para manter o m\u00ednimo de pessoas atuando no programa. J\u00e1 a publica\u00e7\u00e3o de artigos dos docentes e alunos vinculados a cada programa passar\u00e1 a ser analisada em tr\u00eas n\u00edveis diferentes e s\u00f3 o primeiro deles, o que mede a produ\u00e7\u00e3o total, ter\u00e1 car\u00e1ter quantitativo. Nos demais, contemplar\u00e1 an\u00e1lise por pares para avaliar um conjunto seleto de trabalhos de cada docente, assim como os melhores itens da produ\u00e7\u00e3o intelectual do programa \u2013 al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tamb\u00e9m ser\u00e1 poss\u00edvel escolher trabalhos t\u00e9cnicos e art\u00edsticos. Para o cientista da informa\u00e7\u00e3o Rog\u00e9rio Mugnaini, da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, as mudan\u00e7as s\u00e3o interessantes. \u201cA ideia de obrigar os docentes e a coordena\u00e7\u00e3o do programa a destacar o que h\u00e1 de mais relevante na produ\u00e7\u00e3o \u00e9 boa e reduz o peso do volume de produ\u00e7\u00e3o na avalia\u00e7\u00e3o do programa, desestimulando o produtivismo\u201d, afirma. <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, ainda \u00e9 cedo para avaliar quais ser\u00e3o os efeitos. \u201cO ideal \u00e9 que esses modelos fossem testados em um ciclo de avalia\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 implementados no seguinte, para ver se funcionam bem\u201d, afirma. No futuro, a Capes planeja mudar profundamente seu sistema de avalia\u00e7\u00e3o, analisando os programas em cinco diferentes dimens\u00f5es (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/avaliacao-em-5-dimensoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba<\/em> <em>286<\/em><\/a>). De acordo com Mugnaini, a combina\u00e7\u00e3o ideal entre indicadores de quantidade e qualidade est\u00e1 por ser testada, mas ele n\u00e3o acredita que m\u00e9tricas sobre a produ\u00e7\u00e3o venham a ser abandonadas. \u201cPublicar trabalhos \u00e9 parte essencial para a atividade cient\u00edfica e n\u00e3o me parece poss\u00edvel prescindir deles em um modelo de avalia\u00e7\u00e3o. Mas sem d\u00favida importa olhar al\u00e9m do mero produto, estimulando o desenvolvimento de projetos consistentes e duradouros e tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o em redes de colabora\u00e7\u00e3o.\u201d<br><br>A FAPESP tem aperfei\u00e7oado o processo de avalia\u00e7\u00e3o de projetos para assegurar uma an\u00e1lise calcada em m\u00e9rito e qualidade. A principal mudan\u00e7a envolve os termos usados nos formul\u00e1rios para apresenta\u00e7\u00e3o de projetos \u2013 e servem para refor\u00e7ar as expectativas da Funda\u00e7\u00e3o tanto para quem submete propostas quanto para quem as avalia. Em vez de indagar quais foram os artigos, livros ou patentes do proponente que tiveram mais impacto, o foco agora s\u00e3o os resultados cient\u00edficos mais relevantes e a capacidade daquele projeto de multiplicar essa contribui\u00e7\u00e3o e ampliar seu alcance. \u201cO objetivo \u00e9 colocar na frente a qualidade do projeto e garantir que o que est\u00e1 sendo avaliado em primeiro lugar \u00e9 a sua contribui\u00e7\u00e3o\u201d, diz Crist\u00f3v\u00e3o de Albuquerque, gerente de Colabora\u00e7\u00e3o em Pesquisa da FAPESP.<br>H\u00e1 um esfor\u00e7o, tamb\u00e9m, no sentido de aperfei\u00e7oar a revis\u00e3o por pares. A Funda\u00e7\u00e3o fez um v\u00eddeo para orientar avaliadores que busca ajud\u00e1-los a produzir um despacho construtivo. \u201cA ideia \u00e9 que o parecer represente sempre uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 melhoria da proposta e, caso seja denegada, ela possa ser refeita e ressubmetida adiante de forma mais consistente\u201d, afirma Albuquerque. A FAPESP, observa ele, tamb\u00e9m permite que os proponentes incluam narrativas informando circunst\u00e2ncias da vida relevantes para compreender sua contribui\u00e7\u00e3o. \u201cIsso auxilia, por exemplo, pesquisadoras que foram m\u00e3es e precisaram se afastar por um per\u00edodo\u201d, conclui.<br><br>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/novas-reguas-para-medir-a-qualidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Universidades e ag\u00eancias de fomento buscam e adotam m\u00e9tricas mais abrangentes para examinar o desempenho de pesquisadores Texto de Fabr\u00edcio &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/novas-reguas-para-medir-a-qualidade\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":21870,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"kt_blocks_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[111],"tags":[358,347,357,175],"class_list":["post-21869","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pesquisa-cientifica","tag-avaliacao-cientifica","tag-indicador-bibliometrico","tag-metricas-de-desempenho","tag-pesquisa-cientifica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Novas r\u00e9guas para medir a qualidade - Biblioteca Central da UFRGS<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Novas r\u00e9guas para medir a qualidade - Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Universidades e ag\u00eancias de fomento buscam e adotam m\u00e9tricas mais abrangentes para examinar o desempenho de pesquisadores Texto de Fabr\u00edcio &hellip; Leia mais\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/novas-reguas-para-medir-a-qualidade\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/biblioteca.centralufrgs\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2022-07-21T11:48:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/046-051_metricas_307-0-1140.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"- Priscila S. 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