{"id":22560,"date":"2022-11-03T08:00:00","date_gmt":"2022-11-03T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=22560"},"modified":"2023-08-07T10:14:47","modified_gmt":"2023-08-07T13:14:47","slug":"autorias-negras-por-que-estuda-las%ef%bf%bc%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/autorias-negras-por-que-estuda-las%ef%bf%bc%ef%bf%bc\/","title":{"rendered":"Autorias negras: por que estud\u00e1-las?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Texto de Amailton Magno Azevedo originalmente publicado no <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/autorias-negras-por-que-estuda-las\/\">Portal Geled\u00e9s<\/a>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-22561\" width=\"480\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24.png 1920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-24-1536x864.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><figcaption>Amailton Magno Azevedo \u00e9 Doutor em Hist\u00f3ria pela PUC\/SP; Professor do Departamento de Hist\u00f3ria da PUC\/SP; M\u00fasico.<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Gostaria de iniciar este texto com uma quest\u00e3o: por qu\u00ea estudar as autorias negras? Em primeiro lugar, \u00e9 preciso tentar definir o que seria autoria negra. Se for circunscrito na geografia e na tradi\u00e7\u00e3o, parece relacionar-se a todo aquele ou aquela nascido\/a em \u00c1frica, compartilhando um conjunto de valores e estilos de vida. Ainda que se considere este aspecto \u2013 e \u00e9 bom que se diga isso \u2013, a resposta centrada na geografia e tradi\u00e7\u00e3o parece ser uma armadilha, considerando que as pessoas negras est\u00e3o espalhadas pelo mundo e&nbsp;cultivam diferentes costumes, culturas e modos de vida social, configurando o que posso chamar de&nbsp;<em>negritudes abertas, multifacetadas e globais<\/em>. Logo, as autorias negras t\u00eam uma profunda faceta transcontinental, extrapolando \u00c1frica e ligando-se com experi\u00eancias de gente negra ao redor do mundo, nos muitos pontos da di\u00e1spora.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, parece ser uma novidade dizer que o pr\u00f3prio Ocidente \u00e9 uma experi\u00eancia impregnada por valores africanos, como diria o escritor afro-americano Richard Wright. Ou ainda, quando Paul Gilroy afirma ser o Atl\u00e2ntico Negro uma geo-pol\u00edtica e geo-cultura elaborada no Ocidente! Lembrando a m\u00fasica &#8220;Milagres do Povo&#8221; de Caetano Veloso, na qual este grande artista brasileiro considera ser o negro um criador de milagres no cora\u00e7\u00e3o do extremo ocidente, ent\u00e3o a provoca\u00e7\u00e3o de Richard Wright e as assertivas de Paul Gilroy n\u00e3o parecem exageradas. Mas \u00e9 bom dizer que se trata de uma faceta negra, e africana, forjada no Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas recentes na \u00e1rea de Hist\u00f3ria, e em outros campos das Humanidades, t\u00eam nos informado, por exemplo, sobre <a href=\"https:\/\/www.revistas.uneb.br\/index.php\/anansi\/article\/view\/12337\/8282\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a autoria africana na filosofia grega pr\u00e9-socr\u00e1tica<\/a>, e que teria tido na Eti\u00f3pia um espa\u00e7o de sua irradia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Neste mesmo compasso, acerca da presen\u00e7a africana na constru\u00e7\u00e3o do Ocidente, Valentim Mudimbe nos ensina que o pensamento crist\u00e3o dos primeiros s\u00e9culos estava fortemente impregnado pelas ideias de autores\/intelectuais do norte da \u00c1frica: Tertuliano, Min\u00facio, F\u00e9lix, Cipriano, Comodiano, Arn\u00f3bio, Lact\u00e2ncio e, ainda, Santo Agostinho. Aqui, as autorias no contexto da filosofia et\u00edope e desses pensadores crist\u00e3os estavam circunscritas \u00e0 geografia (\u00c1frica), n\u00e3o \u00e0 cor da pele.<\/p>\n\n\n\n<p>Na literatura e na m\u00fasica da Europa moderna, por exemplo, as autorias negras assumem concretude maior nas trajet\u00f3rias de duas c\u00e9lebres figuras, j\u00e1 pelo s\u00e9culo XIX: George Polgreen Bridgetower e Alexandre Dumas. Nestes dois casos aqui destacados, a autoria est\u00e1 relacionada \u00e0 cor da pele de ambos, n\u00e3o mais \u00e0 geografia, uma vez que eles eram homens negros ainda que fossem tamb\u00e9m europeus \u2013 Bridgetower era polon\u00eas e Dumas era franc\u00eas. Ou seja, percebe-se uma mudan\u00e7a aqui, na percep\u00e7\u00e3o das autorias negras no Ocidente, muito em vista dos impactos da escraviza\u00e7\u00e3o moderna e da estrutura\u00e7\u00e3o do racismo em perspectiva global.<\/p>\n\n\n\n<p>Os s\u00e9culos de escravismo (XV ao XIX) e as migra\u00e7\u00f5es africanas a partir do s\u00e9culo XX configuraram processos de penetra\u00e7\u00e3o negra nos espa\u00e7os ocidentais, em distintas propor\u00e7\u00f5es. As migra\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que partiram de \u00c1frica fomentaram outro fen\u00f4meno. Levas massivas de africanos e africanas adentrando em territ\u00f3rios euro-americanos refabricou a Di\u00e1spora, mas em outros moldes, possibilitando demarcar e construir novas utopias (e realidades) no Ocidente desde estilos de vida afrodiasp\u00f3ricos. Uma discrep\u00e2ncia sociocultural radicalmente negra aos modelos hegem\u00f4nicos brancos, contestadora da estrutura racista que tenta excluir e marginalizar a popula\u00e7\u00e3o negra, e cujas autorias t\u00eam expressado novas agendas de luta anti-colonialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, ainda que eu tenha at\u00e9 aqui instigado a pensar as autorias negras sob o prisma de uma Hist\u00f3ria em conex\u00e3o, tra\u00e7ando rela\u00e7\u00f5es entre a \u00c1frica e as outras partes do mundo, nos \u00e9 poss\u00edvel \u2013 e muito importante \u2013 pensar nas (re)cria\u00e7\u00f5es end\u00f3genas do pr\u00f3prio continente negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando-me para a potente historiografia africana das \u00faltimas d\u00e9cadas, por exemplo, destaco os ensinamentos de Cheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Elikia M\u00b4Bokolo e de outros intelectuais sobre os protagonismos de africanos e africanas e sobre um modo de enxergar a Hist\u00f3ria desde o pr\u00f3prio continente. Tomados pela perspectiva da descoloniza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica nos estudos africanos, esses autores estabeleceram um ajuste de contas (necess\u00e1rio) com a mem\u00f3ria da \u00c1frica. Outras temporalidades e cronologias foram formuladas a partir de um di\u00e1logo com as diversas historicidades das culturas africanas. Da antiguidade \u00e0 contemporaneidade, uma variada gama de estados, reinos, cidades e sociedades, urbanas e agr\u00e1rias, configuraram hist\u00f3rias plurais e multifacetadas do\/no continente africano.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><a href=\"https:\/\/ea9vhhuzko5.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/01.-Elikia-M%C2%B4Bokolo.jpg?strip=all&amp;lossy=1&amp;w=2560&amp;ssl=1\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ea9vhhuzko5.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/01.-Elikia-M%C2%B4Bokolo.jpg?strip=all&amp;lossy=1&amp;resize=590%2C307&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-179557\"\/><\/a><figcaption><em>Elikia M\u00b4Bokolo<\/em>. BUALA \u2013 se\u00e7\u00e3o \u201cCara a Cara\u201d, 11 de mar\u00e7o de 2016. Fonte:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.buala.org\/pt\/cara-a-cara\/entrevista-a-elikia-mbokolo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">site do blog<\/a>.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Diante disso, uma nova indaga\u00e7\u00e3o se coloca: sob o prisma da escrita, seria a autoria uma experi\u00eancia relacionada \u00e0 assinatura ou ent\u00e3o a uma cultura livresca? Falar em autorias negras conduz, inevitavelmente, o nosso olhar a pensar apenas na dimens\u00e3o do registro gr\u00e1fico. A partir desse horizonte, Valentin Mudimbe indica que os primeiros autores africanos s\u00e3o dos s\u00e9culos VI e VII \u2013 respectivamente Antar (550-615) e Abu Dulama Ibn al-Djaun (720-777). No entanto, sob a influ\u00eancia dos estudos africanos e afrodiasp\u00f3ricos, cr\u00edticos do colonialismo, pode-se conceber a oralidade como uma modalidade de saber preciosa para a funda\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das sociedades africanas. Para o mesmo Mudimbe, essa \u201cexperi\u00eancia oral tradicional dos africanos negros [\u2026] remonta \u00e0 pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o das comunidades humanas\u201d. Algo que Anthony Appiah&nbsp;sugere fortemente ao pensar ser a oralidade um tipo de conhecimento muito antigo e duradouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao conceber a oralidade como uma forma de autoria negra, seria razo\u00e1vel avalizar as artes, dan\u00e7as e m\u00fasicas nesse conjunto? Se seguirmos a sugest\u00e3o do ensa\u00edsta negro \u00c9douard Glissant, tudo leva a crer que sim. Foi este autor quem afirmou ser a dan\u00e7a e a m\u00fasica as express\u00f5es mais significativas da vida negra nas Am\u00e9ricas, substitutas da ret\u00f3rica valorizada no\/para o Ocidente. Assim, foi pela via das artes que n\u00f3s, negros e negras, for\u00e7amos nossa entrada na modernidade, configurando estilos de vida muito espec\u00edficos na contram\u00e3o do colonialismo europeu.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rieb\/a\/9ChXBqB3GsMRsDnwXHwDbGg\/?format=pdf&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Tenho dito<\/a>&nbsp;que a m\u00fasica pode ser considerada o meio mais poderoso e vigoroso de afirma\u00e7\u00e3o de nossa dignidade humana na hist\u00f3ria da Di\u00e1spora. O fil\u00f3sofo Cornel West pontua que a m\u00fasica e os esportes nos impediram de \u201cdescer at\u00e9 os esgotos\u201d e sermos invisibilizados, ainda que ideologias supremacistas e nazistas proponham a escurid\u00e3o como o \u00fanico \u201cmundo\u201d poss\u00edvel para a gente negra. O escritor James Baldwin nos ensina que n\u00e3o foi pela via do rancor que afro-americanos constru\u00edram suas vidas. Se por esta via fosse, teriam muito provavelmente desaparecido. No caso do Brasil, o escritor e capoeirista Muniz Sodr\u00e9 concluiu, ao estudar os modos de vida dos iorub\u00e1s, que a base do seu pensamento seria a alegria. Sendo assim, a alegria \u00e9 uma forma de autoria negra?<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode notar, at\u00e9 aqui, s\u00e3o muitas as portas e caminhos que levam \u00e0 autoria negra. Diante dessa complexidade, qual o melhor caminho? Talvez, na minha opini\u00e3o, seja aquele dos movimentos negros do s\u00e9culo XX. Entenda por movimento uma rede de pessoas estabelecendo formas de interlocu\u00e7\u00e3o e de luta coletiva, sendo aqui os negros e negras protagonistas na formula\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es cr\u00edticas ao racismo e respons\u00e1veis por narrativas de emancipa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra. Sendo assim, acompanho Kabengele Munanga: o negro\/a sai de uma condi\u00e7\u00e3o de objeto e projeta-se como sujeito, de fato, da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas foram as a\u00e7\u00f5es de gente negra nesse circuito afrodiasp\u00f3rico, no campo das artes, do ativismo pol\u00edtico e da cultura: Harlem Renascence, Negrismo cubano, Indigenismo haitiano, Negritude, Panafricanismo e movimentos negros no Brasil. Em linhas gerais, esses movimentos art\u00edsticos e pol\u00edtico-culturais fizeram renascer a ideia de \u00c1frica e de \u201cnegro\/a\u201d como pot\u00eancia e presen\u00e7a. Negro como humano e sujeito de\/da Hist\u00f3ria, numa perspectiva totalmente avessa a vis\u00e3o colonialista. O debate inaugurado por estes movimentos se arrastou ao longo do s\u00e9culo XX e continuou a tangenciar o debate sobre Negritude no s\u00e9culo XXI. Sob esse prisma, \u00e9 negro todo aquele que reivindica para si essa identidade. Portanto, a negritude \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica!<\/p>\n\n\n\n<p>Muito se fala do esgotamento dessa reivindica\u00e7\u00e3o, pautada como um \u201cidentitarismo\u201d, considerando a pessoa negra como \u201cprisioneira\u201d de sua pr\u00f3pria cor, quando esta deveria reivindicar sua humanidade. Os precursores da Negritude \u2013 Leopold Senghor, Aim\u00e9 C\u00e9saire e Leon Damas \u2013 afirmavam ser tal ideia algo provis\u00f3rio, e finito. O que importa mesmo \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o humana, j\u00e1 intr\u00ednseca ao seu Ser. Poderia se duvidar desse meu apego ao substantivo \u201cnegro\u201d. De fato, n\u00e3o \u00e9 algo que traduz a humanidade dos povos de pele escura e marrom, mas a afirma\u00e7\u00e3o da negritude no contexto p\u00f3s-colonial ainda se fazia necess\u00e1ria. Como enfatizado por Eduardo de Assis Duarte:<\/p>\n\n\n\n<p> \u201c<a href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/artigos\/artigos-teorico-conceituais\/152-eduardo-de-assis-duarte-entre-orfeu-e-exu-a-afrodescendencia-toma-a-palavra\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Em 1987, por ocasi\u00e3o da Primeira Confer\u00eancia Hemisf\u00e9rica dos Povos Negros da Di\u00e1spora \u2013 Negritude, Etnicidade e Culturas Negras nas Am\u00e9ricas, realizada em Miami, Aim\u00e9 C\u00e9saire fez um balan\u00e7o do movimento do qual foi um dos fundadores. Em seu conhecido Discurso sobre a Negritude, configura o empreendimento como uma \u201creflex\u00e3o sobre o destino do homem negro no mundo moderno\u201d e, como tal, \u201cuma das formas de humanismo criadas pela hist\u00f3ria\u201d. Esse gesto propicia inicialmente uma \u201ctomada de consci\u00eancia da diferen\u00e7a, como mem\u00f3ria, como fidelidade e como solidariedade<\/em><\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, podemos considerar que as autorias negras est\u00e3o articuladas a esse debate da Negritude, atribuindo assim protagonismo hist\u00f3rico a negros e negras, no presente e no passado, em qualquer continente e cultura, seja em \u00c1frica, seja nos muitos pontos da Di\u00e1spora. Diante desse percurso, ao ancorar agora na realidade brasileira, gostaria de enfatizar sobre o que considero ser um dos paradigmas das autorias negras em nossa contemporaneidade: o Movimento Negro. Olhando em retrospectiva, observa-se uma multifacetada movimenta\u00e7\u00e3o negra ao longo do s\u00e9culo XX. No entanto, considero ser no per\u00edodo espec\u00edfico das d\u00e9cadas de 1970 e 1980, considerando haver uma virada de p\u00e1gina do movimento negro brasileiro. Uma gera\u00e7\u00e3o de ativistas e intelectuais engajados na cr\u00edtica da desigualdade racial e da viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil. \u00c9 a partir dessa agenda que podemos considerar o surgimento, em 1978, do Movimento Negro Unificado Contra o Racismo e a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial \u2013 MNU, na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"https:\/\/ea9vhhuzko5.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/L%C3%A9lia-Gonzalez-1.jpg?strip=all&amp;lossy=1&amp;w=2560&amp;ssl=1\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ea9vhhuzko5.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/L%C3%A9lia-Gonzalez-1.jpg?strip=all&amp;lossy=1&amp;resize=571%2C571&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-153136\"\/><\/a><figcaption><em>L\u00e9lia Gonzalez<\/em>. Fotografia por C\u00e9zar Loureiro, antes de 1994. (Foto: Cezar Louceiro \/ Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Interessa-me aqui refor\u00e7ar a narrativa questionadora que o MNU inaugurou naquele momento \u2013 meados dos anos 1970 \u2013 e que ainda ecoa nos dias de hoje. Uma autoria negra coletiva (obra de ativistas, professores, pesquisadores, pol\u00edticos e artistas negros e negras) que aponta para um projeto inconcluso de Aboli\u00e7\u00e3o e o enraizamento do racismo, cujos desdobramentos impuseram a n\u00f3s, gente negra, uma condi\u00e7\u00e3o de subalternidade que tem sido fortemente questionada. Essa interpreta\u00e7\u00e3o ressoa de muitas vozes potentes: Beatriz Nascimento, L\u00e9lia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Milton Barbosa (Milt\u00e3o do MNU), Gevanilda Santos, Luiza Bairros, Sueli Carneiro e tantos outros e outras. Esses atores, em sua maioria ligados aos movimentos sociais, fizeram agonizar a ideia de um Brasil mesti\u00e7o, harm\u00f4nico e sem racismo. Questionaram a ideologia da democracia racial, porque essa obra nunca passou de um mito, ainda que se almejasse chegar a ela. E fundaram outra perspectiva, deslocando-se do prisma euroc\u00eantrico do lusotropicalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns paralelos podem ser feitos com os EUA. L\u00e1, segundo exp\u00f5e Isabel Wilkerrson, existe uma esp\u00e9cie de &#8220;sistema de casta&#8221; que naturalizou o lugar dos negros na sociedade, desde uma condi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca de subalternidade. Para a escritora, esse sistema criou ra\u00edzes nos Estados Unidos desde o s\u00e9culo XVIII, sendo a escravid\u00e3o a \u201c<a href=\"https:\/\/lfg.jusbrasil.com.br\/noticias\/2184176\/quais-sao-as-pedras-de-toque-do-direito-administrativo-ricardo-avelino-carneiro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pedra de toque<\/a>\u201d desse modelo. Imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no Brasil, quando a exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra se revela numa situa\u00e7\u00e3o semelhante, ainda que com uma Hist\u00f3ria dessemelhante. Tal sistema colou na pele negra os estigmas da inferioridade, servilismo, pregui\u00e7a, irresponsabilidade. Estigmatizado pela sua apar\u00eancia, os negros e as negras no Brasil tiveram que tocar suas vidas no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, muitos e muitas contando com a pr\u00f3pria sorte. Emparedados pelo racismo, eles foram empurrados para a mis\u00e9ria, o abandono, o esquecimento e a degrada\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>As perspectivas e questionamentos daquela gera\u00e7\u00e3o do movimento negro brasileiro ainda se fazem presentes hoje em dia. Podemos considerar alguns avan\u00e7os sociais importantes \u2013 a cria\u00e7\u00e3o e institucionalidade da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, em 1988; a elei\u00e7\u00e3o de pessoas negras para cargos p\u00fablicos desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o (seja em n\u00edvel municipal, estadual ou federal); a Lei 10.639\/2003, que obriga o ensino de Hist\u00f3ria da \u00c1frica e Hist\u00f3ria e Cultura Afro-brasileira; a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010; a Lei de Cotas aprovada em 2012 e 2014 etc. \u2013, mas os desafios continuam enormes quando se consultam dados sobre renda, educa\u00e7\u00e3o, trabalho e moradia. A d\u00edvida com a popula\u00e7\u00e3o negra ainda permanece. Logo, ressalto, a&nbsp;<em>segunda aboli\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;\u00e9 um projeto urgente! Para um pa\u00eds com imensa maioria negra, esse acerto de contas significa n\u00e3o s\u00f3 justi\u00e7a social e hist\u00f3rica, mas uma ampla pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a nova utopia negra no s\u00e9culo XXI, que reverbera desde as autorias negras, suas reflex\u00f5es e narrativas questionadoras da realidade contempor\u00e2nea. Uma utopia constru\u00edda a muitas m\u00e3os!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assista ao <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QFrm5opq5Zk&amp;feature=emb_imp_woyt\">v\u00eddeo<\/a> do historiador Amailton Magno Azevedo no Acervo Cultne sobre este artigo<\/strong>. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Amailton Magno Azevedo originalmente publicado no Portal Geled\u00e9s. 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