{"id":22982,"date":"2023-03-28T09:39:19","date_gmt":"2023-03-28T12:39:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=22982"},"modified":"2023-03-27T10:09:44","modified_gmt":"2023-03-27T13:09:44","slug":"serie-vaga-lume-os-50-anos-da-colecao-que-estimulou-prazer-da-leitura-em-milhoes-de-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/serie-vaga-lume-os-50-anos-da-colecao-que-estimulou-prazer-da-leitura-em-milhoes-de-jovens\/","title":{"rendered":"S\u00e9rie Vaga-Lume: os 50 anos da cole\u00e7\u00e3o que estimulou prazer da leitura em milh\u00f5es de jovens"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Texto de Andr\u00e9 Bernardo para a <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/clj7wykjykdo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">BBC News Brasil<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Paulo, novembro de 1976. Marcos Rey (1925-1999) estava em um supermercado, acompanhado da mulher, Palma, quando, na hora de pagar as compras, flagrou trechos de uma conversa no caixa ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que voc\u00ea est\u00e1 achando dessa novela que acabou de estrear?\u201d, perguntou uma mo\u00e7a, referindo-se \u00e0 hist\u00f3ria do trambiqueiro que se passava por milion\u00e1rio para dar um golpe.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor de&nbsp;<em>Tchan, a Grande Sacada<\/em>, embora estivesse de costas, conseguiu ouvir a resposta da balconista: \u201c\u00c9 boa. Mas \u00e9 muito lenta!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar em casa, o autor da tal novela \u201cboa, mas muito lenta\u201d come\u00e7ou a mexer nos cap\u00edtulos j\u00e1 escritos. Cortou uma cena aqui, mudou um di\u00e1logo ali. Quinze dias depois, o telefone de sua casa tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>Era Roberto Talma (1949-2015), diretor de teledramaturgia da Tupi. \u201cP\u00f4, Marcos, o que \u00e9 que houve? Que melhorada voc\u00ea deu na novela!\u201d, elogiou. \u201cA cr\u00edtica daquela balconista salvou meu emprego!\u201d, brincou o autor em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo de 4 de setembro de 1983.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido Edmundo Donato, Marcos Rey ficou famoso como escritor de livros adultos, como&nbsp;<em>O Enterro da Cafetina<\/em>&nbsp;(1967) e&nbsp;<em>Mem\u00f3rias de Um Gigol\u00f4<\/em>&nbsp;(1968), e roteirista de novelas e seriados de TV, como&nbsp;<em>A Moreninha<\/em>&nbsp;(1975) e&nbsp;<em>O S\u00edtio do Picapau Amarelo<\/em>&nbsp;(1977).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas, no come\u00e7o dos anos 1980, recebeu um convite que mudaria sua carreira: escrever romances infantojuvenis para a Vaga-Lume.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHouve muita resist\u00eancia por parte dele\u201d, conta a editora Carmen L\u00facia Campos, que trabalhou por mais de 20 anos na \u00c1tica, entre a d\u00e9cada de 1980 e o in\u00edcio dos anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNunca tinha escrito para o p\u00fablico juvenil e seus temas adultos eram proibidos para menores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu primeiro livro na cole\u00e7\u00e3o foi&nbsp;<em>O Mist\u00e9rio do Cinco Estrelas<\/em>&nbsp;(1981). Em apenas 15 dias, esgotou a tiragem de 200 mil exemplares. Logo, vieram outros:&nbsp;<em>O Rapto do Garoto Dourado<\/em>&nbsp;(1982),&nbsp;<em>Um Cad\u00e1ver Ouve R\u00e1dio<\/em>&nbsp;(1983),&nbsp;<em>Sozinha no Mundo<\/em>&nbsp;(1984)&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, \u00e9 o recordista em t\u00edtulos da Vaga-Lume: 16, sendo um deles,&nbsp;<em>O Menino que Adivinhava<\/em>&nbsp;(2000), pela Vaga-Lume J\u00fanior, selo derivado surgido em 1999. S\u00f3&nbsp;<em>O Mist\u00e9rio do Cinco Estrelas<\/em>, segundo estimativa do editor Jiro Takahashi, teria vendido entre dois e tr\u00eas milh\u00f5es de exemplares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO autor precisava cativar seu p\u00fablico at\u00e9 a p\u00e1gina sete\u201d, explica ele, um dos idealizadores do projeto. \u201cSe a hist\u00f3ria demorasse a decolar, as chances de o leitor se cansar dela eram grandes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcos Rey foi o primeiro autor especialmente convidado para escrever para a cole\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o, a Vaga-Lume s\u00f3 publicava t\u00edtulos que j\u00e1 tinham sido lan\u00e7ados por outras editoras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de&nbsp;<em>O Escaravelho do Diabo<\/em>, de L\u00facia Machado de Almeida (1910-2005). Um dos best-sellers da cole\u00e7\u00e3o, foi publicado originalmente pela revista O Cruzeiro, entre 10 de outubro e 26 de dezembro de 1953, e adaptado para o cinema em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Vaga-Lume seguia uma f\u00f3rmula imbat\u00edvel de sucesso: livros escritos para o leitor jovem, com personagens jovens, se deparando com quest\u00f5es t\u00edpicas da juventude. Textos leves, com muita aventura, mist\u00e9rio e humor\u201d, sintetiza Carmen Campos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA cole\u00e7\u00e3o fez gera\u00e7\u00f5es de jovens descobrirem o prazer da leitura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"A-Ilha-Perdida-vendeu-5-milh\u00f5es-de-livros\"><em>A Ilha Perdida<\/em>&nbsp;vendeu 5 milh\u00f5es de livros<\/h3>\n\n\n\n<p>O t\u00edtulo que inaugurou a Vaga-Lume, h\u00e1 50 anos, foi&nbsp;<em>A Ilha Perdida<\/em>&nbsp;(1973), de Maria Jos\u00e9 Dupr\u00e9 (1898-1984). Publicada pela Brasiliense em 1944, \u00e9 a recordista da cole\u00e7\u00e3o: 5 milh\u00f5es de exemplares.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pesquisa que fez para seu doutorado, \u00c0 Sombra da Vaga-Lume (2007), com mais de 200 alunos do Curso de Letras da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), C\u00e1tia Toledo Mendon\u00e7a constatou que&nbsp;<em>A Ilha Perdida<\/em>&nbsp;\u00e9 o t\u00edtulo mais amado \u2014 ou lembrado \u2014 da cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs textos da Vaga-Lume encantam gera\u00e7\u00f5es h\u00e1 50 anos. Mesmo assim, n\u00e3o eram estudados pela academia. H\u00e1 preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura de entretenimento\u201d, admite a doutora em Letras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cV\u00e1rios entrevistados declararam ter come\u00e7ado a gostar de ler por causa da Vaga-Lume\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano de&nbsp;<em>A Ilha Perdida<\/em>, a \u00c1tica lan\u00e7ou mais tr\u00eas volumes:&nbsp;<em>Cabra das Rocas<\/em>, de Homero Homem (1921-1991);&nbsp;<em>Cora\u00e7\u00e3o de On\u00e7a<\/em>, de Of\u00e9lia (1902-1986) e Narbal Fontes (1899-1960); e&nbsp;<em>\u00c9ramos Seis<\/em>, tamb\u00e9m de Maria Jos\u00e9 Dupr\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns livros, como&nbsp;<em>\u00c9ramos Seis<\/em>, e&nbsp;<em>O Feij\u00e3o e O Sonho<\/em>&nbsp;(1981), de Or\u00edgenes Lessa (1903-1986), fizeram tanto sucesso que ganharam adapta\u00e7\u00f5es para a TV.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3&nbsp;<em>\u00c9ramos Seis<\/em>&nbsp;j\u00e1 foi adaptada cinco vezes: em 1958, pela Record; em 1967 e 1977, pela Tupi; em 1994, pelo SBT; e em 2019, pela TV Globo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada volume tinha em torno de 120 p\u00e1ginas e trazia um suplemento de trabalho com proposta l\u00fadica. Em geral, a \u00c1tica lan\u00e7ava quatro t\u00edtulos por ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas houve \u00e9poca em que, dependendo da demanda, foram lan\u00e7ados s\u00f3 dois ou at\u00e9 cinco. O nome do mascote da cole\u00e7\u00e3o, Luminoso, foi escolhido atrav\u00e9s de concurso. O vencedor foi um funcion\u00e1rio da editora que trabalhava no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"Sinopse-era-crucial-para-sucesso\">Sinopse era crucial para sucesso<\/h3>\n\n\n\n<p>Editor da Vaga-Lume entre 1973 e 1984, Takahashi pedia aos autores uma sinopse de tr\u00eas p\u00e1ginas sobre a hist\u00f3ria que gostariam de contar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, enviava aquele resumo, sem mencionar o nome do autor, para 3.000 alunos das redes p\u00fablica e particular do Rio, S\u00e3o Paulo e Minas. Sob a orienta\u00e7\u00e3o de professores, os estudantes avaliavam desde a trama at\u00e9 os personagens. Em alguns casos, davam notas. Em outros, sugeriam ajustes.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim, conta Takahashi, que Marcos Rey incluiu um personagem cadeirante em&nbsp;<em>O Mist\u00e9rio do Cinco Estrelas<\/em>&nbsp;e mudou o g\u00eanero da protagonista de&nbsp;<em>Sozinha no Mundo<\/em>. \u201cSe os alunos liam r\u00e1pido demais a sinopse, era sinal de que o livro era bom. Se demoravam, hummm\u2026 algo estava errado\u201d, raciocina Takahashi.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cUm livro \u00e9 bom quando termina a aula, come\u00e7a o recreio e os alunos n\u00e3o param de falar dele.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, a Vaga-Lume \u00e9 composta de 106 livros. O mais recente \u00e9&nbsp;<em>Os Marcianos<\/em>&nbsp;(2021), de Luiz Ant\u00f4nio Aguiar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo a cole\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para o p\u00fablico jovem, as hist\u00f3rias t\u00eam que ter muita aventura\u201d, ensina Aguiar, que j\u00e1 tinha escrito&nbsp;<em>Opera\u00e7\u00e3o Nova York<\/em>&nbsp;(2000) para a s\u00e9rie. \u201cMas tem que ser aventura mesmo, com boas hist\u00f3rias, daquelas que seduzem o leitor, e bons personagens\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No auge da cole\u00e7\u00e3o, ou seja, no final dos anos 1970 e in\u00edcio dos anos 1980, cada t\u00edtulo vendia, em m\u00e9dia, 120 mil exemplares. Na pior das hip\u00f3teses, emplacava 40 mil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs livros vendiam muito porque o pre\u00e7o era baixo. E os pre\u00e7os eram baixos porque os livros vendiam muito\u201d, explica Takahashi. \u00c0 \u00e9poca, cada livro da cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia custar mais do que um exemplar de uma revista semanal, como Veja ou Isto\u00c9.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Livro foi censurado por escola do Rio \u2014 em 2018<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Com o sucesso de vendas, a \u00c1tica lan\u00e7ou, em 1976, outra cole\u00e7\u00e3o infantojuvenil: a&nbsp;<em>Para Gostar de Ler<\/em>, que reunia cronistas como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Rubem Braga (1913-1990), Paulo Mendes Campos (1922-1991) e Fernando Sabino (1923-2004). E, em 1999, o selo Vaga-Lume J\u00fanior, com 25 t\u00edtulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, novos autores foram convidados a integrar a cole\u00e7\u00e3o. Mineiro de Guaxup\u00e9, Luiz Puntel foi um deles. Quando morava em Ribeir\u00e3o Preto (SP), se comunicava, por carta, com Marcos Rey, na capital paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cApesar da deforma\u00e7\u00e3o nos dedos, era um furac\u00e3o para escrever\u201d, afirma Puntel, referindo-se \u00e0 hansen\u00edase que o colega contra\u00edra aos 10 anos de idade. \u201cEscrevia maravilhosamente bem. Morria de inveja dele\u201d, ri.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a Vaga-Lume, Puntel escreveu sete livros, de&nbsp;<em>Deus me Livre!&nbsp;<\/em>(1984) a&nbsp;<em>O Grito do Hip-Hop<\/em>&nbsp;(2005). Desses sete, considera dois imbat\u00edveis:&nbsp;<em>A\u00e7\u00facar Amargo<\/em>&nbsp;(1986), sobre boias-frias, e&nbsp;<em>Meninos Sem P\u00e1tria<\/em>&nbsp;(1988), sobre exilados pol\u00edticos. \u201cNunca sofri censura da \u00c1tica. Sofri do Santo Agostinho, no Rio\u201d, lamenta Puntel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, a dire\u00e7\u00e3o suspendeu a leitura de&nbsp;<em>Meninos Sem P\u00e1tria<\/em>&nbsp;a pedido dos pais de alguns alunos do sexto ano. Ao col\u00e9gio, alegaram que o livro \u201cdoutrina crian\u00e7as com ideologia comunista\u201d. A hist\u00f3ria foi livremente inspirada na vida do jornalista mineiro Jos\u00e9 Maria Rabelo (1928-2021). Depois da repercuss\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o da escola evitou comentou o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEscrevia meus livros como se fossem roteiros de filmes de a\u00e7\u00e3o, com cap\u00edtulos curtos e di\u00e1logos \u00e1geis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Contato pr\u00f3ximo com leitores<\/h3>\n\n\n\n<p>Logo, col\u00e9gios do Brasil inteiro come\u00e7aram a convidar os autores da Vaga-Lume para participar de debates com seus alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos mais requisitados foi Raul Drewnick, autor de oito t\u00edtulos: de&nbsp;<em>Um Inimigo em Cada Esquina<\/em>&nbsp;(1994) a&nbsp;<em>A Noite dos Quatro Furac\u00f5es<\/em>&nbsp;(2005). S\u00f3 Marcos Rey publicou mais livros pela Vaga-Lume do que ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois, ali\u00e1s, trabalharam juntos na revista Veja. Foi Marcos Rey que, em 1992, indicou o nome de Drewnick aos editores Carmen L\u00facia Campos e Fernando Paix\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDe dez em dez p\u00e1ginas, nos reun\u00edamos e \u00edamos tocando o projeto, discutindo forma e conte\u00fado\u201d, recorda o autor.<\/p>\n\n\n\n<p>A princ\u00edpio, Drewnick recusava todo e qualquer convite para visitar escolas. \u201cDizia n\u00e3o ter jeito com crian\u00e7a\u201d, entrega Carmen Campos. At\u00e9 que, um dia, se rendeu e n\u00e3o parou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o bastasse ter inspira\u00e7\u00e3o para novos livros, ainda aprendia o linguajar dos jovens. Num dos col\u00e9gios, ouviu de um aluno: \u201cO senhor \u00e9 celebridade?\u201d. Rindo, respondeu que n\u00e3o, de forma alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas outro aluno rebateu: \u201c\u00c9 claro que \u00e9! Tem at\u00e9 jatinho\u201d. \u201cUm t\u00edpico caso em que a imagina\u00e7\u00e3o do leitor \u00e9 muito mais rica que a do mais criativo dos escritores\u201d, ele cai na risada.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, Marcos Rey conheceu um aluno do Col\u00e9gio Magno que se apresentou como filho do editor da Global, Luiz Alves J\u00fanior. Anos depois, os dois voltaram a se encontrar na sede da editora, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o gostava de apertar a m\u00e3o das pessoas porque tinha os dedos comprometidos. Apesar disso, escrevia muito r\u00e1pido. Geralmente, \u00e0 noite e, quase sempre, acompanhado de um copo de u\u00edsque\u201d, relata Richard Alves, diretor geral da Global, que relan\u00e7ou 14 dos 16 t\u00edtulos publicados por Marcos Rey na Vaga-Lume.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1tica n\u00e3o recebia apenas convites para seus autores visitarem escolas. Recebia tamb\u00e9m cartas. Centenas delas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSempre fiz quest\u00e3o de responder uma por uma\u201d, garante Sersi Bardari, autor de&nbsp;<em>A Maldi\u00e7\u00e3o do Fara\u00f3<\/em>&nbsp;(1991),&nbsp;<em>Amea\u00e7a nas Trilhas do Tar\u00f4<\/em>&nbsp;(1992) e&nbsp;<em>O Segredo dos Sinais M\u00e1gicos<\/em>&nbsp;(1993).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEra um tempo sem internet, e-mail e redes sociais. Dava prazer receber e responder a essas cartas. Lev\u00e1-las ao correio era um dos meus programas favoritos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Um-aut\u00f3grafo-de-Marcos-Rey\">Um aut\u00f3grafo de Marcos Rey<\/h2>\n\n\n\n<p>Muitos alunos cresceram e viraram escritores. E hoje se orgulham de fazer parte da cole\u00e7\u00e3o que despertou neles o prazer da leitura. \u00c9 o caso do jornalista e escritor Marcelo Duarte, muito conehcido pela s\u00e9rie&nbsp;<em>Guia dos Curiosos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Autor de cinco t\u00edtulos, de&nbsp;<em>Jogo Sujo<\/em>&nbsp;(1997) a&nbsp;<em>Meu Outro Eu<\/em>&nbsp;(2003), tinha 11 anos quando leu&nbsp;<em>O Caso da Borboleta At\u00edria<\/em>&nbsp;(1975), de L\u00facia Machado de Almeida. Gostou tanto do livro \u2014 \u201cO desfecho \u00e9 maravilhoso!\u201d \u2014 que emendou outros suspenses da autora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEram razoavelmente baratos e f\u00e1ceis de ler\u201d, elogia. \u201cLi uns para a escola e outros por pura divers\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a \u00c1tica lan\u00e7ou&nbsp;<em>O Mist\u00e9rio do Cinco Estrelas<\/em>, Duarte ficou encantado. Decidiu que, quando crescesse, queria escrever igual ao Marcos Rey.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTinha um sonho, quase uma obsess\u00e3o, de, um dia, lan\u00e7ar algo pela cole\u00e7\u00e3o que tanta import\u00e2ncia teve na minha vida\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quando entregou a sinopse de&nbsp;<em>Jogo Sujo<\/em>, recebeu um tsunami de cr\u00edticas de alunos e docentes. Alguns reclamaram de personagens mal constru\u00eddos. Outros, de tramas mal amarradas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFiquei chateado. Achei que n\u00e3o fosse conseguir. Mas reescrevi a hist\u00f3ria e deu certo\u201d, orgulha-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que&nbsp;<em>Jogo Sujo<\/em>&nbsp;saiu da gr\u00e1fica, Carmen L\u00facia mandou um exemplar para Marcos Rey. Em retribui\u00e7\u00e3o, o veterano enviou um exemplar autografado de&nbsp;<em>Gincana da Morte<\/em>&nbsp;(1997) e parabenizou o novato por ingressar no time da Vaga-Lume.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMuitos tentaram, mas poucos conseguiram\u201d, dizia a dedicat\u00f3ria. \u201cNunca fiquei t\u00e3o emocionado. Guardo esse livro at\u00e9 hoje como trof\u00e9u\u201d, emociona-se Duarte.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Mar\u00e7al Aquino fez livro em 3 meses<\/h3>\n\n\n\n<p>Quem tamb\u00e9m fala com carinho da Vaga-Lume \u00e9 Mar\u00e7al Aquino, autor de quatro t\u00edtulos, entre eles&nbsp;<em>A Turma da Rua Quinze<\/em>&nbsp;(1989) a&nbsp;<em>O Primeiro Amor e Outros Perigos<\/em>&nbsp;(1996).<\/p>\n\n\n\n<p>No finalzinho da d\u00e9cada de 1980, ele trabalhava como redator do Jornal da Tarde de S\u00e3o Paulo quando seu chefe, o tamb\u00e9m escritor Fernando Portela, perguntou se ele n\u00e3o estaria interessado em escrever um livro infantojuvenil para a cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00c1tica, Aquino deu de cara com dois problemas: a sinopse (\u201cSempre gostei de escrever sem saber muito sobre o livro. \u00c9 o prazer maior da coisa\u201d) e o prazo (\u201cUm colega estava enfrentando um \u2018bloqueio criativo\u2019 e eu teria tr\u00eas meses para entregar o livro\u201d). Mesmo assim, topou o desafio e entregou o manuscrito no tempo estipulado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos quatro livros que escreveu, seu preferido \u00e9&nbsp;<em>O Jogo do Camale\u00e3o<\/em>&nbsp;(1992). Como a trama fazia men\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico e ao consumo de drogas, sofreu restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o vi problema em dar uma \u2018amansada\u2019 no texto porque n\u00e3o tirava em nada o impacto da narrativa\u201d, avalia. \u201c\u00c9 a melhor trama que criei para a Vaga-Lume, com direito a um plot-twist radical que nenhum leitor consegue desvendar\u201d, orgulha-se.<\/p>\n\n\n\n<p>O escritor, desenhista e roteirista Rubens Francisco Lucchetti, o R. F. Lucchetti, tamb\u00e9m precisou fazer ajustes no \u00fanico texto que lan\u00e7ou pela Vaga-Lume:&nbsp;<em>O Fantasma do Tio William<\/em>&nbsp;(1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ser lan\u00e7ado pela \u00c1tica, o livro foi publicado pela Cedibra, em 1974, e relan\u00e7ado pela Melhoramentos, em 1982.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando foi lan\u00e7ada, a hist\u00f3ria se passava na Inglaterra e se destinava ao p\u00fablico adulto. Depois, tive que adapt\u00e1-la para o Brasil. E, mais adiante, torn\u00e1-la mais infantil\u201d, relata o autor de 93 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDe todas, prefiro a vers\u00e3o adulta\u201d. Uma curiosidade: Lucchetti criou a hist\u00f3ria, por volta de 1945, para distrair uma de suas irm\u00e3s, C\u00e9lia, que estava doente, com c\u00e2ncer.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"Lan\u00e7amentos-at\u00e9-hoje\">Lan\u00e7amentos at\u00e9 hoje<\/h2>\n\n\n\n<p>A Vaga-Lume prosseguiu at\u00e9 2008, quando foi lan\u00e7ado&nbsp;<em>O Mestre dos Games<\/em>, de Afonso Machado. Doze anos depois, a Somos Educa\u00e7\u00e3o retomou a cole\u00e7\u00e3o, com o lan\u00e7amento de&nbsp;<em>Ponha-se no Seu Lugar<\/em>&nbsp;(2020), de Ana Pacheco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando enviei os originais para a editora, n\u00e3o imaginava que meu livro seria lan\u00e7ado pela Vaga-Lume. Soube depois que aceitaram e fiquei feliz da vida\u201d, confessa a autora.<\/p>\n\n\n\n<p>Baseado no conto&nbsp;<em>O Nariz<\/em>&nbsp;(1836), de Nikolai Gogol (1809-1852), conta a hist\u00f3ria de um estudante de classe alta que, certa manh\u00e3, acorda sem nariz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO mote \u00e9 absurdo, mas as consequ\u00eancias s\u00e3o reais. D\u00e1 oportunidade para alunos e professores debaterem temas atuais, como padr\u00e3o de beleza, classe social e cirurgia pl\u00e1stica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A Somos Educa\u00e7\u00e3o disponibiliza 68 t\u00edtulos em seu cat\u00e1logo, sendo 13 da Vaga-Lume J\u00fanior. E n\u00e3o deve parar por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFuturamente, pretendemos lan\u00e7ar novos t\u00edtulos. Queremos manter a cole\u00e7\u00e3o viva e dar espa\u00e7o a mais autores\u201d, adianta Laura Vecchioli do Prado, coordenadora da Somos Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jiro Takahashi n\u00e3o cabe em si de orgulho por ter ajudado a criar uma s\u00e9rie editorial t\u00e3o longeva e bem-sucedida. Mas lamenta o fato de n\u00e3o ter pensado l\u00e1 atr\u00e1s no licenciamento de produtos, como o boneco do Luminoso, o mascote da cole\u00e7\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou, ainda, na adapta\u00e7\u00e3o de filmes, pe\u00e7as e jogos baseados nos livros da s\u00e9rie. \u201cHoje em dia, voc\u00ea encontra de tudo: de \u00e1lbum de figurinha do D.P.A. (Detetives do Pr\u00e9dio Azul) a parque tem\u00e1tico do Harry Potter!\u201d, espanta-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMuitos adultos v\u00eam falar comigo. Uns dizem: \u2018\u00d3, meu vaga-lume favorito \u00e9&nbsp;<em>O Escaravelho do Diabo<\/em>\u2019. \u00c9 uma cole\u00e7\u00e3o que ajudou a formar leitores.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/clj7wykjykdo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">BBC News Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Andr\u00e9 Bernardo para a BBC News Brasil S\u00e3o Paulo, novembro de 1976. 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