{"id":23491,"date":"2023-08-03T09:42:00","date_gmt":"2023-08-03T12:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=23491"},"modified":"2023-07-18T13:42:39","modified_gmt":"2023-07-18T16:42:39","slug":"estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos\/","title":{"rendered":"Estrat\u00e9gias para atrair e reconhecer talentos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">Texto de Fabr\u00edcio Marques originalmente publicado em <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Revista Pesquisa Fapesp<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Uma carta publicada em fevereiro na revista <em>Science<\/em> exp\u00f4s um mal-estar compartilhado por jovens pesquisadores brasileiros: a percep\u00e7\u00e3o de que, agora que chegou a vez deles, o pa\u00eds oferece pouqu\u00edssimas oportunidades de trabalho e baixo financiamento, tornando mais \u00e1rduo o caminho para consolidar sua trajet\u00f3ria profissional. Intitulada \u201cInvistam em pesquisadores em in\u00edcio de carreira no Brasil\u201d, a carta assinala que, embora o pa\u00eds tenha elevado o n\u00famero de doutores formados a um patamar de mais de 20 mil por ano, a escassez de recursos federais para a ci\u00eancia a partir de 2015 criou um quadro inquietante: muitos dos cerca de 100 mil cientistas que ainda buscam se consolidar na profiss\u00e3o est\u00e3o sem ocupa\u00e7\u00e3o ou atuando em \u00e1reas que n\u00e3o exploram seu potencial e qualifica\u00e7\u00e3o de alto n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFala-se muito de fuga de c\u00e9rebros, mas grande parte dos jovens doutores fica aqui mesmo, em trabalhos que n\u00e3o exigem o longo preparo e investimento de uma carreira cient\u00edfica\u201d, disse \u00e0 <em>Ag\u00eancia FAPESP<\/em> a bi\u00f3loga Tha\u00eds Barreto Guedes, pesquisadora no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que assina a carta com colegas das universidades federais de Goi\u00e1s e da Bahia, da universidade de Richmond, nos Estados Unidos, e do Jardim Bot\u00e2nico Real de Kew, em Londres, Inglaterra. \u201cToda profiss\u00e3o \u00e9 digna, mas o pa\u00eds optou por investir em formar pesquisadores e agora n\u00e3o busca recuperar esse investimento. \u00c9 como construir uma mans\u00e3o e abandon\u00e1-la.\u201d Para ela, os jovens pesquisadores brasileiros precisam ser consultados e inclu\u00eddos nas comiss\u00f5es de planejamento que discutem qual \u00e9 o modelo mais adequado para fixar suas carreiras no Brasil. \u201cIsso n\u00e3o est\u00e1 sendo feito\u201d, queixa-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria da bi\u00f3loga ilustra, de certa maneira, as dificuldades de fixa\u00e7\u00e3o na carreira mesmo para quem tem um curr\u00edculo consistente: ela concluiu o doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) h\u00e1 11 anos e fez tr\u00eas est\u00e1gios sucessivos de p\u00f3s-doutorado, com bolsas da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq): no Instituto Butantan, na Universidade de Gotemburgo, na Su\u00e9cia, e na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo. Em 2022, obteve um aux\u00edlio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, da FAPESP, que apoia projetos que favorecem a forma\u00e7\u00e3o de novos grupos de pesquisa em S\u00e3o Paulo e oferecem uma bolsa com dura\u00e7\u00e3o de cinco anos ao pesquisador respons\u00e1vel, caso ainda n\u00e3o tenha v\u00ednculo empregat\u00edcio com uma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"539\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-74-1024x539.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23497\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-74-1024x539.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-74-300x158.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-74-768x404.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-74.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><a id=\"os-doutores-e-o-mercado\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que o caminho dessa gera\u00e7\u00e3o ficou obstru\u00eddo se soma a evid\u00eancias de que menos brasileiros s\u00e3o atra\u00eddos pela carreira cient\u00edfica. Muito por conta da pandemia, o n\u00famero de doutores formados no pa\u00eds teve uma in\u00e9dita queda em 2020 e 2021 e v\u00e1rios programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o se ressentem da redu\u00e7\u00e3o do contingente de candidatos, mesmo ap\u00f3s o fim do isolamento social (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/crise-na-geracao-de-recursos-humanos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>ver <\/em>Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 315<\/em><\/a>). At\u00e9 na FAPESP, cujas bolsas de doutorado n\u00e3o sofreram corros\u00e3o em seus valores como aconteceu com as oferecidas por ag\u00eancias federais, a demanda por esse tipo de apoio caiu cerca de 30% no per\u00edodo de 2020 a 2022, sem retornar por enquanto aos n\u00edveis de demanda anteriores \u00e0 pandemia. Apesar da redu\u00e7\u00e3o, a demanda continua bem superior \u00e0 oferta.<\/p>\n\n\n\n<p>O recente reajuste de bolsas de ag\u00eancias federais e a inten\u00e7\u00e3o declarada do governo de ampliar investimentos p\u00fablicos em ci\u00eancia podem representar um al\u00edvio nesse cen\u00e1rio adverso, observa o bi\u00f3logo molecular Odir Dellagostin, presidente do Conselho Nacional das Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa (Confap) e diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs). Ele ressalva que a mudan\u00e7a \u00e9 muito recente e incipiente. \u201cTivemos um aumento de valor das bolsas federais, mas ainda n\u00e3o atingiu todas as modalidades com que o CNPq trabalha. Sou otimista. Acho que em 2024 teremos resultados no sentido de voltar a atrair pesquisadores e ret\u00ea-los\u201d, afirma. Um requisito para que isso ocorra \u00e9 garantir financiamento cont\u00ednuo. \u201cQuando o pesquisador recebe aportes regulares, consegue avan\u00e7ar em seus projetos e gerar conhecimento. Se n\u00e3o h\u00e1 recursos, a motiva\u00e7\u00e3o cai a zero e as equipes se desestruturam\u201d, afirma Dellagostin, que tamb\u00e9m destaca a mudan\u00e7a de clima com a troca de governo. \u201cO contexto hostil nos \u00faltimos quatro anos sinalizava para a popula\u00e7\u00e3o que a ci\u00eancia n\u00e3o valia a pena.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"792\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-2-1140.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-2-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-2-1140-250x174.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-2-1140-700x486.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-2-1140-120x83.jpg 120w\">Talita Hoffmann<\/p>\n\n\n\n<p>A perda de interesse na carreira cient\u00edfica tem raz\u00f5es complexas e ocorre em v\u00e1rios pa\u00edses. Estados Unidos e Reino Unido h\u00e1 d\u00e9cadas t\u00eam dificuldade em recrutar entre seus cidad\u00e3os m\u00e3o de obra para seus sistemas de ci\u00eancia e tecnologia e importam pesquisadores de fora, com destaque para pa\u00edses como \u00cdndia e China. \u201cMuitos alunos talentosos das universidades que poderiam seguir carreira acad\u00eamica s\u00e3o atra\u00eddos por oportunidades muito bem remuneradas no setor privado\u201d, diz o f\u00edsico Ricardo Os\u00f3rio Galv\u00e3o, presidente do CNPq. Ele observa que a populariza\u00e7\u00e3o das redes sociais tamb\u00e9m pode ter tido um papel na perda de interesse. \u201cH\u00e1 tr\u00eas anos, debati esse assunto em uma mesa-redonda com a pesquisadora Mariette DiChristina, que foi editora da revista <em>Scientific American<\/em> e hoje atua no Departamento de Jornalismo Cient\u00edfico da Universidade de Boston. Ela dizia que as redes sociais despertaram nas pessoas uma ansiedade por respostas r\u00e1pidas e n\u00e3o complexas que as afastam das perguntas aprofundadas da ci\u00eancia, como se n\u00e3o tivessem paci\u00eancia para elas\u201d, afirma. A \u00fanica forma de enfrentar o problema, na avalia\u00e7\u00e3o de Galv\u00e3o, \u00e9 investir em educa\u00e7\u00e3o para melhorar o letramento cient\u00edfico dos jovens brasileiros, cujo desempenho em avalia\u00e7\u00f5es de aprendizagem como a do Programa de Avalia\u00e7\u00e3o Internacional de Alunos (Pisa) \u00e9 bastante prec\u00e1rio (<em><a href=\"#os-doutores-e-o-mercado\">ver gr\u00e1fico<\/a>).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga Sandra Unbehaum, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Carlos Chagas, observa que, para a maioria das crian\u00e7as e adolescentes de baixa renda, as escolas nem sempre s\u00e3o um ambiente estimulante para a curiosidade cient\u00edfica. \u201cMuitas t\u00eam laborat\u00f3rio, mas s\u00e3o mal equipados. As bibliotecas normalmente s\u00e3o prec\u00e1rias \u2013 poucas t\u00eam um bibliotec\u00e1rio dedicado a orientar os alunos. Esses jovens encontram muitos obst\u00e1culos para poder alcan\u00e7ar a universidade e uma carreira cient\u00edfica e, mesmo com o apoio de a\u00e7\u00f5es afirmativas, ainda s\u00e3o poucos os que conseguem\u201d, diz ela, que coordenou o recente relat\u00f3rio \u201cPanorama de educa\u00e7\u00e3o Stem no Brasil: Ensino de ci\u00eancias e suas tecnologias: An\u00e1lise de 2010 a 2020\u201d, encomendado pelo British Council. O documento aponta outros entraves, como a escassez de professores de f\u00edsica e qu\u00edmica nas escolas \u2013 as disciplinas acabam sendo ministradas por pessoas sem forma\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"670\" height=\"650\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-73.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23496\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-73.png 670w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-73-300x291.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 670px) 100vw, 670px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Alexandre Affonso \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes), Mercedes Bustamante, considera que \u00e9 preciso ter cautela na avalia\u00e7\u00e3o da crise na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e afirma que h\u00e1 realidades distintas no pa\u00eds, que requerem estrat\u00e9gias peculiares para a fixa\u00e7\u00e3o de jovens doutores. \u201cSe h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o na procura pela p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es mais consolidadas, na regi\u00e3o Norte a demanda ainda \u00e9 maior do que a oferta\u201d, compara. Segundo diz, tamb\u00e9m falta clareza sobre vari\u00e1veis como o real grau de influ\u00eancia da pandemia na crise do sistema. \u201cHouve gente que adiou planos de entrar na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o apenas para poder faz\u00ea-lo presencialmente\u201d, analisa. Ela aponta outros fatores envolvidos, como um desgaste no modelo de forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores, que \u00e9 vis\u00edvel em v\u00e1rias partes do mundo e tem a ver com a rigidez dos cursos em um mundo cada vez mais interdisciplinar. \u201cOs alunos querem mais liberdade de movimento em suas \u00e1reas e ser\u00e1 necess\u00e1rio tornar a forma\u00e7\u00e3o mais flex\u00edvel e atraente\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>A Capes planeja organizar um censo nacional da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cPrecisamos conhecer melhor as trajet\u00f3rias dos nossos egressos para desenhar as solu\u00e7\u00f5es adequadas.\u201d Esses percursos s\u00e3o diferentes tanto regionalmente quanto entre campos de conhecimento. \u201cH\u00e1 algumas \u00e1reas, como as que tratam de sistemas de informa\u00e7\u00e3o, como automa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial, em que h\u00e1 car\u00eancia de recursos humanos e os profissionais s\u00e3o rapidamente absorvidos pelo mercado, mesmo sem fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. O Brasil vai precisar de pessoal qualificado nessas \u00e1reas e ser\u00e1 necess\u00e1rio investir nelas\u201d, prev\u00ea Bustamante. O ritmo e o rumo da economia v\u00e3o ditar novos desafios ao sistema. \u201cOs jovens pesquisadores precisam ser absorvidos pelo setor privado, que historicamente emprega poucos doutores. H\u00e1 uma demanda pela reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas n\u00e3o no formato da ind\u00fastria do s\u00e9culo XX. Tamb\u00e9m vamos precisar de bons cientistas na gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"596\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-3-1140.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-3-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-3-1140-250x131.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-3-1140-700x366.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/RPF-talentos_328-2023-05-site-3-1140-120x63.jpg 120w\">Talita Hoffmann<\/p>\n\n\n\n<p>Para Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), a realiza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o primeiro semestre de 2024, de uma Confer\u00eancia Nacional de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o pode ajudar a modular as ambi\u00e7\u00f5es do sistema de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e atrair investimentos para \u00e1reas priorit\u00e1rias para o pa\u00eds. \u201cA confer\u00eancia deve sinalizar para os pesquisadores em que \u00e1reas o Brasil pretende ser protagonista e l\u00edder na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, e que ser\u00e3o tratadas como prioridade para o desenvolvimento do pa\u00eds\u201d, afirma. \u201cIsso certamente vai valer para as \u00e1reas em que o destino nos aquinhoou bem, como o meio ambiente e a biodiversidade da Amaz\u00f4nia.\u201d Para ele, segue sendo essencial destinar mais recursos p\u00fablicos para a ci\u00eancia. \u201cPraticamente n\u00e3o existe no pa\u00eds carreira de pesquisador separada da de docente em universidade p\u00fablica. Ela ser\u00e1 atrativa se houver concursos, valoriza\u00e7\u00e3o salarial, perspectiva de boa aposentadoria e plano de carreira.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 consenso de que algumas estrat\u00e9gias de fixa\u00e7\u00e3o precisam ser refor\u00e7adas, como ampliar as bolsas de p\u00f3s doutorado, fundamentais para manter um jovem pesquisador em atividade enquanto n\u00e3o ingressa em uma institui\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter permanente. \u201cEm 2015, t\u00ednhamos 9 mil bolsas de p\u00f3s-doutorado da Capes e do CNPq, hoje temos 4,3 mil. Considerando o aumento no n\u00famero de doutores titulados nos \u00faltimos oito anos, ter\u00edamos que criar umas 7,5 mil bolsas para recuperar o terreno\u201d, informa Dellagostin, do Confap.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/026-031_talentos_328-2023-05-info-3-640.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Alexandre Affonso \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 outras frentes de discuss\u00e3o. No Brasil, a forma\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 dividida em dois anos de mestrado e quatro de doutorado.Espera-se, nesse per\u00edodo, que os bolsistas se dediquem exclusivamente \u00e0 atividade de pesquisa. Isso faz com que muitos obtenham o primeiro emprego formal tardiamente, depois dos 35 anos, quase 10 anos mais tarde do que o padr\u00e3o de pa\u00edses desenvolvidos. Uma ideia que vem sendo amadurecida \u00e9 incluir a contribui\u00e7\u00e3o ao INSS e a contagem do tempo de aposentadoria no per\u00edodo de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cAntigamente, isso n\u00e3o era necess\u00e1rio porque muitos ingressavam na doc\u00eancia ainda quando faziam o mestrado\u201d, afirma Dellagostin. \u201cSe esses alunos se formarem aos 38 anos e s\u00f3 ent\u00e3o come\u00e7arem a contribuir com o INSS, ter\u00e3o uma vida profissional muito diferente da que teriam em outras carreiras\u201d, disse o diretor cient\u00edfico da FAPESP, Marcio de Castro (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/marcio-de-castro-mais-impulso-a-ousadia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>ver entrevista<\/em><\/a>). Para ele, esse \u00e9 o momento de discutir modelos diferentes dos que est\u00e3o em vigor. \u201cO mestrado virou um programa profissional. S\u00f3 um ter\u00e7o dos mestres vai para o doutorado. Mas continuamos insistindo em exigir o mestrado na forma\u00e7\u00e3o de um pesquisador. N\u00e3o seria melhor refor\u00e7ar o doutorado e o p\u00f3s-doutorado?\u201d, indaga.<\/p>\n\n\n\n<p>O bioqu\u00edmico Jorge Guimar\u00e3es, que presidiu a Capes e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o Empresarial (Embrapii), considera que h\u00e1 tr\u00eas iniciativas simples que o governo poderia tomar no curto prazo para melhorar as condi\u00e7\u00f5es dos jovens cientistas. A primeira seria mudar o foco das bolsas de produtividade do CNPq, que hoje oferecem uma complementa\u00e7\u00e3o \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o entre R$ 1.200 e R$ 1.560 a pesquisadores, como reconhecimento a sua produ\u00e7\u00e3o e ao trabalho de orientar estudantes. \u201cEssas bolsas foram institu\u00eddas pelo CNPq h\u00e1 muito tempo, quando ainda n\u00e3o estava disseminado o regime de tempo integral nas universidades e os sal\u00e1rios dos docentes eram baixos. Hoje, elas significam pouco para pesquisadores seniores que as recebem, mas fariam toda a diferen\u00e7a se fossem redirecionadas, e com valores atraentes, a jovens docentes de universidades federais e estaduais, que t\u00eam sal\u00e1rios ainda pouco compensadores\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O CNPq planeja repatriar pesquisadores, oferecendo contratos de trabalho tempor\u00e1rio em vez de bolsas<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outra sugest\u00e3o se relaciona ao repatriamento de pesquisadores. \u201cPa\u00edses como Argentina e China criaram programas para atrair de volta cientistas que foram ao exterior, oferecendo oportunidades de trabalho e financiamento espec\u00edfico dos respectivos projetos. Poder\u00edamos lan\u00e7ar inciativas de fomento a repatriados ou para que pesquisadores radicados no exterior passassem temporadas no Brasil e se conectassem com grupos daqui\u201d, afirma. Uma terceira frente seria a cria\u00e7\u00e3o de vagas dentro das universidades e em outras institui\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia e tecnologia, mas desvinculadas da doc\u00eancia. Guimar\u00e3es prop\u00f5e conceder recursos p\u00fablicos a grupos j\u00e1 estabelecidos para contratar pesquisadores em regime de CLT [Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho] que atuem em seus projetos. \u201cV\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es como Embrapa, CNPEM, Impa, t\u00eam seus pesquisadores e pessoal t\u00e9cnico contratados h\u00e1 v\u00e1rios anos pelo regime CLT. As 96 unidades da Embrapii contratam pesquisadores com carteira assinada. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque a Embrapii \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o segue as regras das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Se grupos vinculados a programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o tivessem essa prerrogativa, poderiam incorporar a seus projetos um contingente de jovens talentos, ajudando a ret\u00ea-los\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Galv\u00e3o, do CNPq, conta que a ag\u00eancia planeja lan\u00e7ar um novo programa, com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT), para repatriar doutores brasileiros em atividade no exterior. A iniciativa j\u00e1 tem nome, Ci\u00eancia em Reconstru\u00e7\u00e3o, mas seu formato ainda est\u00e1 em an\u00e1lise na \u00e1rea jur\u00eddica do \u00f3rg\u00e3o. A ideia inicial \u00e9 oferecer aos pesquisadores n\u00e3o bolsas, mas contratos de trabalho tempor\u00e1rios, que podem chegar a quatro anos de dura\u00e7\u00e3o. \u201cA nova legisla\u00e7\u00e3o trabalhista permite que o servi\u00e7o p\u00fablico fa\u00e7a contrata\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, possivelmente por meio de funda\u00e7\u00f5es de apoio a universidades\u201d, afirma. A meta \u00e9 trazer os pesquisadores n\u00e3o s\u00f3 para atuar em institui\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia e tecnologia, mas tamb\u00e9m em empresas. \u201cO objetivo \u00e9 repatriar doutores vinculados principalmente a \u00e1reas em que temos falta de profissionais, como tecnologias digitais, e ajudar a impulsionar a inova\u00e7\u00e3o em empresas\u201d, afirma o presidente do CNPq. Ainda n\u00e3o h\u00e1 previs\u00e3o de quando a iniciativa dever\u00e1 ser lan\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a sa\u00edda de pesquisadores para o exterior alimentou a ideia de que o pa\u00eds passava por uma in\u00e9dita fuga de c\u00e9rebros, tangidos pela falta de investimento e de oportunidades. Um estudo recente do Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos (CGEE) estimou que cerca de 3 mil pesquisadores foram trabalhar em institui\u00e7\u00f5es do exterior nos \u00faltimos anos. \u201cO problema parece estar aumentando, mas o contingente \u00e9 restrito quando comparado a ondas de evas\u00e3o de talentos de outros pa\u00edses\u201d, explica a soci\u00f3loga Ana Maria Carneiro, pesquisadora do N\u00facleo de Estudos de Pol\u00edticas P\u00fablicas da Unicamp, que est\u00e1 fazendo um levantamento para mapear a situa\u00e7\u00e3o e as motiva\u00e7\u00f5es de brasileiros altamente qualificados que atuam no exterior, em carreiras acad\u00eamicas, \u00f3rg\u00e3os governamentais, empresas e startups.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"760\" height=\"850\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-75.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23499\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-75.png 760w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-75-268x300.png 268w\" sizes=\"auto, (max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Alexandre Affonso \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/p>\n\n\n\n<p>Dados preliminares de seu estudo ser\u00e3o apresentados em julho em Curitiba na reuni\u00e3o anual da SBPC. Eles dizem respeito a pouco mais de mil question\u00e1rios respondidos por pesquisadores que trabalham no exterior, entre p\u00f3s-doutorandos e docentes de universidades (cerca de 60%), estudantes (30%) e indiv\u00edduos que trabalham e estudam fora (por volta de 10%). A metade deles saiu depois de 2018 e 82% foram embora sem previs\u00e3o de retorno. As raz\u00f5es alegadas para deixar o pa\u00eds foram variadas, como ofertas de trabalho no exterior, melhores condi\u00e7\u00f5es de financiamento e de infraestrutura, chances de progress\u00e3o na carreira, qualidade de vida, entre outras. \u201cA situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conflagrada do Brasil tamb\u00e9m aparece como motiva\u00e7\u00e3o, em especial dos que sa\u00edram nos \u00faltimos quatro anos\u201d, informa.<\/p>\n\n\n\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que parte dos que sa\u00edram cogita retornar. Cerca de 35% condicionam o retorno a oportunidades de emprego, enquanto 11% aceitariam ter um v\u00ednculo parcial, mantendo atividades dentro e fora do pa\u00eds. Quinze por cento planejam voltar s\u00f3 depois da aposentadoria. O question\u00e1rio termina com uma pergunta aberta sobre quais pol\u00edticas p\u00fablicas deveriam ser criadas para que o pa\u00eds aproveite melhor o potencial desses recursos humanos qualificados que est\u00e3o no exterior. \u201c\u00c9 poss\u00edvel identificar tr\u00eas grandes temas\u201d, explica Ana Maria Carneiro. O primeiro abrange a amplia\u00e7\u00e3o do financiamento \u00e0 ci\u00eancia. O segundo \u00e9 incentivar a internacionaliza\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que o ambiente de pesquisa no Brasil ainda \u00e9 avesso a colabora\u00e7\u00f5es, com entraves burocr\u00e1ticos e falta apoio \u00e0 mobilidade\u201d, afirma a soci\u00f3loga. Um terceiro conjunto de recomenda\u00e7\u00f5es trata de contribui\u00e7\u00f5es que eles poderiam dar. \u201cAlguns se prop\u00f5em a fazer atividades como participar de comit\u00eas de avalia\u00e7\u00e3o de ag\u00eancias de fomento e julgamento de concursos. A maioria se mostrou disposta a receber estudantes e colegas brasileiros em suas institui\u00e7\u00f5es.\u201d Segundo Carneiro, com a mudan\u00e7a de governo, criaram-se perspectivas melhores para repatriar talentos brasileiros. \u201cMas \u00e9 preciso avan\u00e7ar no sentido de dar condi\u00e7\u00f5es de fixa\u00e7\u00e3o a jovens cientistas e de investir na infraestrutura de pesquisa, que em muitas institui\u00e7\u00f5es est\u00e1 sucateada\u201d, explica<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\">licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Fabr\u00edcio Marques originalmente publicado em Revista Pesquisa Fapesp Uma carta publicada em fevereiro na revista Science exp\u00f4s um &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos\/\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":23579,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"kt_blocks_editor_width":"","footnotes":""},"categories":[111],"tags":[522,175,406,523],"class_list":["post-23491","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pesquisa-cientifica","tag-carreira-cientifica","tag-pesquisa-cientifica","tag-pos-graduacao","tag-trabalho-formal"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.6 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Estrat\u00e9gias para atrair e reconhecer talentos - Biblioteca Central da UFRGS<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Estrat\u00e9gias para atrair e reconhecer talentos - Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Texto de Fabr\u00edcio Marques originalmente publicado em Revista Pesquisa Fapesp Uma carta publicada em fevereiro na revista Science exp\u00f4s um &hellip; Leia mais\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/estrategias-para-atrair-e-reconhecer-talentos\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Biblioteca Central da UFRGS\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/biblioteca.centralufrgs\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-08-03T12:42:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Pesquisa-cientifica.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1080\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"1080\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"- Priscila S. 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