{"id":23867,"date":"2023-09-12T10:00:00","date_gmt":"2023-09-12T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=23867"},"modified":"2023-09-08T17:42:52","modified_gmt":"2023-09-08T20:42:52","slug":"mulheres-indigenas-na-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/mulheres-indigenas-na-literatura\/","title":{"rendered":"Mulheres ind\u00edgenas na literatura"},"content":{"rendered":"\n<p><br>Originalmente publicado em <strong><a href=\"https:\/\/www.sescsp.org.br\/mulheres-indigenas-na-literatura-em-pauta-com-julie-dorrico-e-paolla-vilela\/\">Revista E<\/a><\/strong>. Artigos de Julie Dorrico e Paolla Vilela.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"1080\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23872\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao.png 1080w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-600x600.png 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-720x720.png 720w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-840x840.png 840w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-420x420.png 420w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/Ilustracao-360x360.png 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"425\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-86.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23869\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-86.png 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-86-300x159.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-86-768x408.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Luyse Costa<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A oralidade \u00e9 matriz de grande parte das hist\u00f3rias gravadas em livros. \u00c9 ela que preserva, ao longo de gera\u00e7\u00f5es e em diferentes culturas, conhecimentos e perspectivas sobre o indiv\u00edduo e sua inser\u00e7\u00e3o na comunidade que habita. Entre os povos origin\u00e1rios do Brasil, a oralidade se faz presente na escrita de mulheres ind\u00edgenas que v\u00eam abrindo espa\u00e7o na literatura, principalmente, nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. \u201cA autoria ind\u00edgena emerge do corpo do sujeito ind\u00edgena para afirmar a identidade de povo \u2013 e tudo o que lhe envolve \u2013 no livro editorial, sem deixar de reconhecer a din\u00e2mica ancestral de nossos antepassados que cultivaram (e cultivam) nossas culturas na oralidade\u201d, explica a escritora Julie Dorrico, do povo Macuxi, administradora do perfil no Instagram&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leiamulheresindigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia Mulheres Ind\u00edgenas<\/a><\/em><\/strong>&nbsp;e curadora da I Mostra de Literatura Ind\u00edgena, no Museu do \u00cdndio, da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU). No entanto, ainda s\u00e3o muitos os desafios para divulga\u00e7\u00e3o e reconhecimento dessas autoras. Para a professora e arte-educadora Paolla Andrade Vilela, do povo Puri, especializada em Cultura e Hist\u00f3ria dos Povos Ind\u00edgenas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), \u201campliar essa vertente liter\u00e1ria mostra uma varia\u00e7\u00e3o muito importante nas tem\u00e1ticas abordadas nas obras, sendo registros da cultura, lutas do movimento ind\u00edgena, quest\u00f5es pontuais de exist\u00eancia, resist\u00eancia, demarca\u00e7\u00f5es territoriais liter\u00e1rias, cosmovis\u00f5es, registros lingu\u00edsticos.\u201d Em agosto de 2021, Dorrico e Vilela participaram do projeto&nbsp;<strong><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AS6QIEcW7-Q&amp;list=PLFpJnk1ZHLxcH_gSUqmLwCGVqdN557Fa2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia Autoras Ind\u00edgenas<\/a><\/em><\/strong>, webs\u00e9rie de 10 epis\u00f3dios realizada pelo Sesc Ipiranga, que busca incentivar a leitura de obras ind\u00edgenas e contribuir para a descoloniza\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio carregado de estere\u00f3tipos e estigmas. Neste&nbsp;<em>Em Pauta<\/em>, ambas retomam reflex\u00f5es levantadas no projeto e compartilham conquistas e desafios dessa cena liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">A Literatura Ind\u00edgena Contempor\u00e2nea: as mulheres origin\u00e1rias<\/h1>\n\n\n\n<p><strong>Por Julie Dorrico (Macuxi)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Literatura Ind\u00edgena Contempor\u00e2nea \u00e9 um movimento pol\u00edtico e est\u00e9tico que surgiu na d\u00e9cada de 1990 no Brasil, mas tamb\u00e9m em outros pa\u00edses de Abya Yala. Pe\u00e7o licen\u00e7a tanto para entrar na terra das letras quanto para explicar o conceito de Abya Yala em n\u00edvel continental. Se os colonizadores se apropriaram de nossos territ\u00f3rios e renomearam conforme seus her\u00f3is europeus, impondo-lhe o nome de Am\u00e9rica, os povos ind\u00edgenas erguem-se coletivamente desde a d\u00e9cada de 1980 para reaver o nome, para a \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o epist\u00eamica e o estabelecimento de nossas soberanias ou autonomias ind\u00edgenas\u201d, como enseja o parente do povo Maya Kich\u00e9, Emil\u2019 Keme, em seu artigo&nbsp;<em>Para que Abya Yala viva, as Am\u00e9ricas devem morrer<\/em>, publicado na revista&nbsp;<em>Native American and Indigenous Studies<\/em>, em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento liter\u00e1rio surgiu de forma t\u00edmida, lutando contra as for\u00e7as opressoras que buscavam extinguir as identidades ind\u00edgenas no Brasil, bem como as de outros povos de Abya Yala. A autoria ind\u00edgena emerge do corpo do sujeito ind\u00edgena para afirmar a identidade de povo \u2013 e tudo o que lhe envolve \u2013 no livro editorial, sem deixar de reconhecer a din\u00e2mica ancestral de nossos antepassados que cultivaram (e cultivam) nossas culturas na oralidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho mem\u00f3rias v\u00edvidas da for\u00e7a das mulheres ind\u00edgenas da minha fam\u00edlia, da minha bisav\u00f3, Clarinda Raymond, e de minha m\u00e3e, Fel\u00edcia Julia Dorrico, e de minhas tias. Com elas aprendi que ser macuxi \u00e9 um modo de vida, \u00e9 um sentimento que exala no ser, \u00e9 um pertencimento \u00e0 terra e uma forte conex\u00e3o com a fam\u00edlia. A literatura ind\u00edgena contempor\u00e2nea protagoniza esses corpos ind\u00edgenas que v\u00eam com a mem\u00f3ria da terra para ressoar as vozes da floresta e dos povos que habitam esses territ\u00f3rios antes do Brasil instaurar-se e impor-se como Estado-na\u00e7\u00e3o. Congregando homens, mulheres e LGBTQIA+, a literatura ind\u00edgena anuncia a autodetermina\u00e7\u00e3o, os povos origin\u00e1rios, e a luta pela terra, uma luta antiga, para todos os coletivos, o que tem angariado leitores e parceiros interessados no tema.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TERRA DE NARRATIVAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Divulgar a literatura das mulheres ind\u00edgenas \u00e9 um objetivo do nosso coletivo&nbsp;<em>Leia Mulheres Ind\u00edgenas<\/em>&nbsp;(<strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leiamulheresindigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@leiamulheresindigenas<\/a><\/strong>). Gostaria de fazer um breve percurso da for\u00e7a das mulheres nativas que se empenharam em lutar contra a representa\u00e7\u00e3o nacional e \u00fanica que marginalizava os corpos ind\u00edgenas da literatura brasileira, implicando tamb\u00e9m na marginaliza\u00e7\u00e3o de nossos direitos pol\u00edticos. Com isso, argumento que suas lutas foram fundamentais para a inscri\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de corpos femininos e l\u00e9sbicos na terra da literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Eliane Potiguara, como o pr\u00f3prio nome anuncia, pertence ao povo Potiguara. \u00c9 poeta, escritora, palestrante e ativista dos direitos ind\u00edgenas. Desde a d\u00e9cada de 1970, enuncia poemas de resist\u00eancia e de ancestralidade. Por\u00e9m, s\u00f3 publicou o seu primeiro livro autoral no mercado editorial em 2004,&nbsp;<em>Metade cara, metade m\u00e1scara<\/em>&nbsp;(Global). Nele podemos ver o grito sufocado da mulher ind\u00edgena que quer existir, sobreviver e mais: cultivar sua subjetividade. Compartilho aqui o verso do poema&nbsp;<em>Brasil<\/em>: \u201cQue fa\u00e7o com a minha cara de \u00edndia? E meus cabelos\/ E minhas rugas\/ E minha hist\u00f3ria\/ E meus segredos?\/ Brasil, o que fa\u00e7o com a minha cara de \u00edndia?\/ N\u00e3o sou viol\u00eancia\/ Ou estupro\/ Eu sou hist\u00f3ria\/ Eu sou cunh\u00e3\/ Barriga brasileira\/ Ventre sagrado\/ Povo brasileiro\u201d. Os versos exortam o direito de existir do eu-l\u00edrico ind\u00edgena sem ser reduzido \u00e0 viol\u00eancia perpetrada pela coloniza\u00e7\u00e3o em curso. A poeta anuncia que somos mais, somos hist\u00f3ria, mulheres, m\u00e3es, e m\u00e3es de muitos cidad\u00e3os brasileiros. Por que ainda n\u00e3o podemos existir neste pa\u00eds e viver livremente? S\u00e3o ainda perguntas que este poema sussurra para mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7a Gra\u00fana \u00e9 escritora, poeta e pesquisadora de literatura ind\u00edgena. Em 1999, publicou a obra&nbsp;<em>Canto mestizo<\/em>, mas por viver na cidade e n\u00e3o em uma comunidade rural, ela era vista como uma mulher n\u00e3o-ind\u00edgena. Para lutar contra a nega\u00e7\u00e3o da identidade ind\u00edgena na cidade defendeu a sua tese, que virou livro, em 2013, afirmando que os sujeitos ind\u00edgenas que viviam em contexto urbano eram negados como produtores de conhecimento, como escritores. A obra&nbsp;<em>Contrapontos da Literatura Ind\u00edgena Contempor\u00e2nea no Brasil<\/em>&nbsp;(Mazza) \u00e9 uma refer\u00eancia de grande valor para n\u00f3s escritores ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Auritha Tabajara, como o nome tamb\u00e9m j\u00e1 antecipa, pertence ao povo Tabajara. \u00c9 escritora, cordelista, poeta, contadora de hist\u00f3rias, palestrante e ativista dos direitos ind\u00edgenas e LGBTQIA+. Em sua obra&nbsp;<em>Cora\u00e7\u00e3o na aldeia, p\u00e9s no mundo<\/em>&nbsp;(Uk\u2019a Editorial) publicado em 2018, ela anuncia em verso que ama mulheres, conforme veremos a seguir: \u201cAuritha tinha um segredo\/ Que n\u00e3o podia contar\/ Somente para sua av\u00f3\/ Se encorajou a falar\/ N\u00e3o gostava de meninos\/ E n\u00e3o sabia lidar\u201d. Auritha inaugura na literatura ind\u00edgena a luta tamb\u00e9m pelos direitos da mulher ind\u00edgena e l\u00e9sbica. Importante destacar que desde ent\u00e3o, houve uma organiza\u00e7\u00e3o de coletivos que se empenharam em debater formas de relacionamento que v\u00e3o al\u00e9m das normativas e opressoras, e que tais debates s\u00e3o acompanhadas pela autora que participa de coletivos e discute sobre o g\u00eanero em suas a\u00e7\u00f5es sociais, tornando-se uma importante defensora dos direitos LGBTQIA+ no nosso contexto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MUITAS E MAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, j\u00e1 s\u00e3o cerca de 40 autoras ind\u00edgenas. Esse n\u00famero exp\u00f5e o crescimento de escritoras que buscam afirmar suas identidades de povos. Escrevendo contos e poesias, as autoras falam do pertencimento, da luta pela terra, da identidade ind\u00edgena; celebram a ancestralidade origin\u00e1ria e ensejam a luta pol\u00edtica que nossos corpos n\u00e3o podem escapar. D\u00e9bora Arruda (Aran\u00e3), L\u00facia Tucuju (Kamarum\u00e3), Eliane Xunakalo (Kur\u00e2-Bakairi), Helena Indiara Ferreira Corezomae (Umutina-Balatipon\u00e9), Gleycielli Nonato (Guat\u00f3) s\u00e3o algumas autoras que podemos citar, que tivemos conhecimento recentemente de suas obras rec\u00e9m-publicadas ou de suas exist\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaco que a literatura ind\u00edgena tem sido um caminho para nossos encontros, pois no Brasil, estima-se que somos 305 povos, falantes de 274 l\u00ednguas origin\u00e1rias. A literatura ind\u00edgena contempor\u00e2nea \u00e9 um territ\u00f3rio que demarcamos com nossas hist\u00f3rias ouvidas ao redor da fogueira, ou que sentimos na pele; ainda aquelas que sonhamos e que podem adiar o fim do mundo. Autobiografia, mem\u00f3ria, fic\u00e7\u00e3o\u2026 Independentemente do projeto ao qual nos empenhamos, queremos coletivamente afirmar que somos mulheres ind\u00edgenas, escritoras, autoras e que, sim, fazemos literatura.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><\/p>\n<cite>\u201cA literatura ind\u00edgena contempor\u00e2nea \u00e9 um territ\u00f3rio que demarcamos com nossas hist\u00f3rias ouvidas ao redor da fogueira, ou que sentimos na pele; ou que podem adiar o fim do mundo.\u201d<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>JULIE DORRICO&nbsp;<\/strong>pertence ao povo Macuxi. Doutora em Teoria da Literatura pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e mestre em Estudos Liter\u00e1rios. \u00c9 poeta, escritora, palestrante, pesquisadora de literatura ind\u00edgena e ficou em 1\u00ba lugar no concurso Tamoios\/FNLIJ\/UKA de Novos Escritores Ind\u00edgenas em 2019, autora da obra Eu sou macuxi e outras hist\u00f3rias (Caos e Letras, 2019). Administradora do perfil&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leiamulheresindigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Leia Mulheres Ind\u00edgenas<\/a>&nbsp;no Instagram; curadora da I Mostra de Literatura Ind\u00edgena no Museu do \u00cdndio na Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU).<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Autoras ind\u00edgenas e o mundo liter\u00e1rio<\/h1>\n\n\n\n<p><strong>Por Paolla Vilela (Puri)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que falamos ou citamos obras ind\u00edgenas encontramos um equ\u00edvoco relacionado ao entendimento do que seria a categoria Literatura Ind\u00edgena e qual o seu papel dentro da sociedade liter\u00e1ria. No entanto, destaca-se a m\u00e1xima para a defini\u00e7\u00e3o do que se concretiza como literatura especificamente ind\u00edgena, como aquela produzida pelos sujeitos ind\u00edgenas. Sendo educadora na rede p\u00fablica, percebo que os livros de autoras ind\u00edgenas s\u00e3o menos comuns do que gostar\u00edamos, no \u00e2mbito representativo e interativo com a hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds, embora a Lei 11.645 de forma clara garanta\/obrigue o trabalho, em todas as vertentes educacionais, hist\u00f3rica e culturalmente, dos povos ind\u00edgenas no territ\u00f3rio nacional. A percep\u00e7\u00e3o na alega\u00e7\u00e3o do desconhecimento ou n\u00e3o acesso a materiais que contemplem essas tem\u00e1ticas t\u00eam estimulado a apresenta\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias frentes dentro do movimento ind\u00edgena, as quais contribuem para a divulga\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o relacionadas \u00e0 literatura ind\u00edgena e todo o seu entendimento dentro da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse vi\u00e9s, o recorte de autoria e protagonismo das mulheres nesse mundo liter\u00e1rio \u00e9 destaque em trabalhos que fazem parte desse movimento para divulgar e impulsionar a leitura e a escrita da literatura ind\u00edgena, como a p\u00e1gina&nbsp;<em>Leia Mulheres Ind\u00edgenas<\/em>&nbsp;(<strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leiamulheresindigenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@leiamulheresindigenas<\/a><\/strong>), que faz um trabalho de curadoria e apoio \u00e0s autoras ind\u00edgenas de todo o Brasil. Assim, nascem projetos desses encontros como&nbsp;<em>Leia Autoras Ind\u00edgenas<\/em>&nbsp;em parceria com o Sesc Ipiranga, no qual, a princ\u00edpio, foram apresentadas oitos autoras e duas oradoras em seus epis\u00f3dios, criando material de apoio n\u00e3o s\u00f3 para o meio educacional, como tamb\u00e9m para toda a popula\u00e7\u00e3o interessada, com possibilidade de potencializar as vozes diversas que est\u00e3o presentes em guerreiras de todos os povos que se encontram no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia dessas vozes e a representa\u00e7\u00e3o das mulheres em todas as camadas sociais, e dentro principalmente dos movimentos ind\u00edgenas, s\u00e3o cruciais para uma identifica\u00e7\u00e3o consciente das injusti\u00e7as e viol\u00eancias que sofrem e sofreram ao longo de todos os processos de coloniza\u00e7\u00e3o, imposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o respeito aos seus corpos e suas ancestralidades. Reconhecendo, assim, as lutas j\u00e1 h\u00e1 muito feitas por Eliane Potiguara, Gra\u00e7a Gra\u00fana, Telma Taurepang, M\u00e1rcia Wayna Kambeba e tantas outras que citamos e as quais apoiamos em suas trajet\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DEMARCA\u00c7\u00d5ES TERRITORIAIS LITER\u00c1RIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Podemos trilhar uma perspectiva mais ilustrativa quando pegamos o mercado editorial e todo o caminho feito pelo direito de existir e ser inclu\u00eddo na sociedade dos povos origin\u00e1rios. Nesse sentido, Julie Dorrico tem feito um trabalho ativo em redes sociais, no meio acad\u00eamico, em organiza\u00e7\u00f5es de livros, materiais e pontes para pensarmos na hist\u00f3ria de coloniza\u00e7\u00e3o e no percurso que a literatura ind\u00edgena teve de percorrer para alcan\u00e7ar o respeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoria individual e \u00e0 coletiva em seus contextos e disponibilidades iniciais at\u00e9 os formatos mais atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>As narrativas e autorias das mulheres s\u00e3o um movimento leg\u00edtimo constru\u00eddo pela caminhada da j\u00e1 citada Eliane Potiguara, que est\u00e1 presente nas lutas e discuss\u00f5es anteriores \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, marco em que os ind\u00edgenas s\u00e3o apontados pela primeira vez como cidad\u00e3os do Brasil. Tamb\u00e9m est\u00e1 em Gra\u00e7a Gra\u00fana, em seu olhar acad\u00eamico e produ\u00e7\u00f5es de poemas e textos, abrindo nossa vis\u00e3o para uma discuss\u00e3o mais voltada a essas no\u00e7\u00f5es de publica\u00e7\u00e3o, de modo a reivindicar um lugar de reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia e a valoriza\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, o ampliar dessa vertente liter\u00e1ria mostra uma varia\u00e7\u00e3o muito importante nas tem\u00e1ticas abordadas nas obras, sendo registros da cultura, lutas do movimento ind\u00edgena, quest\u00f5es pontuais de exist\u00eancia, resist\u00eancia, demarca\u00e7\u00f5es territoriais liter\u00e1rias (que provoco nessa linha de pensamento), cosmovis\u00f5es, registros lingu\u00edsticos. Ou seja, os elementos que s\u00e3o naturais e entendidos de acordo com cada povo, cada etnia pertencente \u00e0s autoras.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o processos de crescimento, entendimento e fortalecimentos por serem pessoas da natureza, pertencentes a uma na\u00e7\u00e3o, identidade e que trazem a for\u00e7a de todas as suas ancestrais. Logo, \u00e9 um momento de reconhecimento de suas pot\u00eancias, suas for\u00e7as e, principalmente, de modifica\u00e7\u00e3o de olhar para retirar as mazelas ligadas a seus corpos, a sua desvaloriza\u00e7\u00e3o como mulheres e a seus pap\u00e9is sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ESCRITAS PLURAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento de di\u00e1logo se destaca devida \u00e0 propor\u00e7\u00e3o esmagadora de narrativas ao longo da hist\u00f3ria liter\u00e1ria constitu\u00edda a partir desse vi\u00e9s ocidental, que tem o ponto de partida na invas\u00e3o do Brasil e indica escritos portugueses como as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es nacionais, ou outros escritores que s\u00e3o reconhecidos pela mec\u00e2nica do que se chama signos, formas de representa\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o escrita. Desse modo, \u00e9 ignorado todo o percurso das na\u00e7\u00f5es pertencentes a esse territ\u00f3rio e suas formas de comunica\u00e7\u00e3o, sendo atrav\u00e9s da oralidade, grafismos, artesanatos, pinturas rupestres ou outros nomes que v\u00e3o classificar as v\u00e1rias formas de existir nesse processo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a manifesta\u00e7\u00e3o da literatura em suas v\u00e1rias maneiras de fixar exist\u00eancia se torna um est\u00edmulo para as autoras, uma fonte de fluidez dos pensamentos, falando com suas comunidades e fora delas. Assim, garante, de certo modo, as diversidades dos povos em seus pensamentos expostos, conjuntamente \u00e0s caracter\u00edsticas que fazem parte desse conjunto de formas da identidade, cultura e hist\u00f3ria. Al\u00e9m disso, a palavra, os livros, o existir nesse tempo, demarca as diferen\u00e7as lingu\u00edsticas que s\u00e3o t\u00e3o pertinentes nos seus significados, permitindo abrir o olhar para essa comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 menor em sua import\u00e2ncia, mas cujo processo de registro m\u00faltiplo mostra-se necess\u00e1rio para a garantia de sua exist\u00eancia al\u00e9m do formato ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse vi\u00e9s, portanto, destacam-se como autoras que refletem sobre muitos desses processos, Gra\u00e7a Gra\u00fana, Linda Tuhiwai Smith, Julie Dorrico e tantas outras que nos provocam esse movimento de quebrar as classifica\u00e7\u00f5es. Descolonizar pode ser um processo diversificado e a escrita das mulheres ind\u00edgenas garante o seio da resist\u00eancia, as quais s\u00e3o carregadas em seus corpos, em seus escritos, em seus olhares, alegrias e dores de ser essa infinidade de formas. S\u00e3o nossas m\u00e3es que sussurram em nossos ouvidos quando foi proibido ou vergonhoso falar sobre nossa ancestralidade. \u00c9 no encontro de todas n\u00f3s que a vida liter\u00e1ria se d\u00e1, se fortalece, se permite ser tantas, validando todos os modos de ser.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-87.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-23870\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-87.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-87-300x115.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Luyse Costa<\/figcaption><\/figure><\/div><cite>\u201cA manifesta\u00e7\u00e3o da literatura em suas v\u00e1rias maneiras de fixar exist\u00eancia se torna um est\u00edmulo para as autoras, uma fonte de fluidez dos pensamentos, falando com suas comunidades e fora delas.\u201d<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>PAOLLA ANDRADE VILELA&nbsp;<\/strong>\u00e9 Puri, professora, arte-educadora, mestranda em Artes C\u00eanicas, especializada em Cultura e Hist\u00f3ria dos Povos Ind\u00edgenas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atualmente, cursa licenciatura em Teatro na Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o Del Rei (UFSJ).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Originalmente publicado em Revista E. Artigos de Julie Dorrico e Paolla Vilela. 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