{"id":24558,"date":"2024-12-06T10:00:00","date_gmt":"2024-12-06T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/?p=24558"},"modified":"2024-12-05T15:25:07","modified_gmt":"2024-12-05T18:25:07","slug":"arte-e-utilizada-em-tratamentos-psiquiatricos-no-brasil-desde-o-seculo-xix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/arte-e-utilizada-em-tratamentos-psiquiatricos-no-brasil-desde-o-seculo-xix\/","title":{"rendered":"Arte \u00e9 utilizada em tratamentos psiqui\u00e1tricos no Brasil desde o s\u00e9culo XIX"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Pr\u00e1tica antecede trabalhos de m\u00e9dicos como Nise da Silveira e Os\u00f3rio Cesar<br><\/h5>\n\n\n\n<p>Originalmente publicado em <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/arte-e-utilizada-em-tratamentos-psiquiatricos-no-brasil-desde-o-seculo-xix\/\">Revista FAPESP<\/a> por Juliana Vaz.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"650\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-103-1024x650.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-24561\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-103-1024x650.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-103-300x191.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-103-768x488.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/wp-content\/uploads\/image-103.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Escola Livre de Artes Pl\u00e1sticas do Hospital Psiqui\u00e1trico do Juquery, nos anos 1950. Lice Bril\u2009\/\u2009Acervo Instituto Moreira Salles<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A m\u00fasica j\u00e1 foi ensaiada neste hosp\u00edcio, onde tivemos quatro ou cinco artistas. [\u2026] A m\u00fasica me parece um meio aproveit\u00e1vel no tratamento da loucura, e ele desde muitos anos foi empregado na It\u00e1lia, como meio curativo das afec\u00e7\u00f5es mentais. Em um pa\u00eds onde as belas-artes s\u00e3o geralmente cultivadas, esse recurso necessariamente devia ser lembrado pelos m\u00e9dicos encarregados da dire\u00e7\u00e3o dos alienados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O relato acima, de 22 de julho de 1856, \u00e9 do m\u00e9dico Manuel Jos\u00e9 Barbosa, diretor do Hosp\u00edcio de Pedro II, a primeira institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica da Am\u00e9rica Latina. Fundado em 1852, o manic\u00f4mio funcionou at\u00e9 1944 onde hoje se encontra o&nbsp;<em>campus<\/em>&nbsp;da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no bairro de Botafogo. Desde o primeiro ano, atividades como a leitura, a escrita, o desenho e a montagem de espet\u00e1culos teatrais foram oferecidas aos internos. O estabelecimento disponibilizava tamb\u00e9m oficinas de sapataria, alfaiataria, marcenaria, floricultura e de desfiar estopa, em conson\u00e2ncia com as pr\u00e1ticas do alienismo franc\u00eas, inaugurado pelo m\u00e9dico Philippe Pinel (1745-1827), considerado o fundador da moderna psiquiatria.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas no antigo hosp\u00edcio foi objeto de investiga\u00e7\u00e3o da psicanalista Cristiana Facchinetti, professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e da Sa\u00fade da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo a pesquisadora, as narrativas sobre a arte produzida em manic\u00f4mios no Brasil costumam se concentrar no per\u00edodo a partir da primeira metade do s\u00e9culo XX, quando m\u00e9dicos como Os\u00f3rio Cesar (1895-1979) e Nise da Silveira (1905-1999) passaram a dar aten\u00e7\u00e3o a essas produ\u00e7\u00f5es, reconhecendo seu valor terap\u00eautico e est\u00e9tico. Ambos defendiam uma abordagem n\u00e3o agressiva no tratamento psiqui\u00e1trico, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de ateli\u00eas de arte para os pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pesquisa, Facchinetti utilizou fontes como peri\u00f3dicos cient\u00edficos e jornais di\u00e1rios dispon\u00edveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. \u201cOs m\u00e9dicos brasileiros que fizeram est\u00e1gio em hospitais psiqui\u00e1tricos europeus naquela \u00e9poca passaram a considerar o material produzido pelos pacientes para fins de observa\u00e7\u00e3o e de diagn\u00f3stico. O Brasil estava em sintonia com as teorias que embasaram a medicina mental que circulavam no Ocidente, embora o pa\u00eds n\u00e3o tenha feito um servi\u00e7o museol\u00f3gico de guarda dessa documenta\u00e7\u00e3o visual\u201d, afirma a psicanalista.<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-aurora-cursino-2024-12-800.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"587\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-aurora-cursino-2024-12-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-aurora-cursino-2024-12-800-250x183.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-aurora-cursino-2024-12-800-700x514.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-aurora-cursino-2024-12-800-120x88.jpg 120w\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Obra sem t\u00edtulo e sem data de Aurora Cursino dos Santos. Cole\u00e7\u00e3o Museu de Arte Os\u00f3rio Cesar\u2009\/ Cortesia: Complexo Hospitalar do Juquery e Prefeitura de Franco da Rocha\u2009\/\u2009Reprodu\u00e7\u00e3o Orlando Junior.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Facchinetti, o Hosp\u00edcio de Pedro II, posteriormente renomeado Hosp\u00edcio Nacional de Alienados (HNA), n\u00e3o s\u00f3 estimulava a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos pacientes, como tamb\u00e9m a expunha. Em 1892, na ent\u00e3o rec\u00e9m-estabelecida Rep\u00fablica, uma lei determinou uma exibi\u00e7\u00e3o anual, dentro da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, do material produzido pelos chamados \u201calienados\u201d. A arte dos internos passou a chamar a aten\u00e7\u00e3o da imprensa e atraiu a curiosidade de pessoas como o escritor Machado de Assis (1839-1908), que publicou no jornal&nbsp;<em>A Semana<\/em>, em 1895, a cr\u00f4nica \u201cSobre uma exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhos realizados pelos internos do Hosp\u00edcio Nacional de Alienados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente no s\u00e9culo XX que a arte produzida por pacientes psiqui\u00e1tricos ultrapassou as grades dos manic\u00f4mios e passou a ser exibida em galerias e museus do pa\u00eds, informa a historiadora da arte Kaira M. Caba\u00f1as, diretora associada para Programas Acad\u00eamicos e Publica\u00e7\u00f5es no Center for Advanced Study in the Visual Arts, na National Gallery of Art, em Washington, nos Estados Unidos. No ano passado, a pesquisadora norte-americana lan\u00e7ou no Brasil&nbsp;<em>Aprender com a loucura: Modernismo brasileiro e arte contempor\u00e2nea global<\/em>&nbsp;(WMF Martins Fontes), escrito durante sua estada como professora visitante na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) nos anos 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra busca entender o encontro entre os campos da arte e da sa\u00fade mental no modernismo brasileiro por meio de personagens como Cesar e Silveira. O primeiro come\u00e7ou a trabalhar em 1923 no Hospital Psiqui\u00e1trico do Juquery, inaugurado em 1898, em Franco da Rocha (SP). \u201cQuando Os\u00f3rio Cesar chega ao hospital, muitos pacientes j\u00e1 pintavam e desenhavam, mas essa produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 vai ganhar import\u00e2ncia por iniciativa dele\u201d, diz Caba\u00f1as. Em 1933, o m\u00e9dico organizou uma exposi\u00e7\u00e3o de trabalhos dos pacientes psiqui\u00e1tricos junto com o artista pl\u00e1stico Fl\u00e1vio de Carvalho (1899-1973), no Clube dos Artistas Modernos (CAM), em S\u00e3o Paulo. Entretanto, a administra\u00e7\u00e3o do hospital s\u00f3 formalizou a Se\u00e7\u00e3o de Artes Pl\u00e1sticas em 1949, que passou a ser dirigida pelo m\u00e9dico M\u00e1rio Yahn (1908-1977). Nos anos 1950, o espa\u00e7o se transformaria na Escola Livre de Artes Pl\u00e1sticas, sob gest\u00e3o de Cesar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em Alagoas, Silveira se formou em medicina em 1926, em Salvador (BA). Era a \u00fanica mulher da turma. Mudou-se para o Rio de Janeiro e foi aprovada em um concurso p\u00fablico para m\u00e9dico psiquiatra em 1933. Presa ainda nos anos 1930, durante o governo Vargas, por acusa\u00e7\u00e3o de comunismo, ficou afastada do servi\u00e7o p\u00fablico at\u00e9 1944, quando come\u00e7ou a trabalhar no Centro Psiqui\u00e1trico Nacional, no bairro carioca do Engenho de Dentro. Pouco depois, em 1946, ela abriu um ateli\u00ea de pintura para seus pacientes com o pintor Almir Mavignier (1925-2018) e, seis anos mais tarde, foi a vez de inaugurar o Museu de Imagens do Inconsciente, para guardar e expor as obras. \u201cMas j\u00e1 em 1949, o Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo [MAM-SP] exp\u00f4s as obras dos pacientes de Nise, na mostra&nbsp;<em>9 artistas de Engenho de Dentro do Rio de Janeiro<\/em>. O Brasil \u00e9 inovador nesse sentido. Na Europa, cole\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas da mais alta relev\u00e2ncia, como a Prinzhorn [<em>ver box<\/em>], s\u00f3 foram exibidas em museus de arte na d\u00e9cada de 1960\u201d, compara Caba\u00f1as.<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-manto-bispo-rosario-2024-12-800.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"694\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-manto-bispo-rosario-2024-12-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-manto-bispo-rosario-2024-12-800-250x217.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-manto-bispo-rosario-2024-12-800-700x607.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-manto-bispo-rosario-2024-12-800-120x104.jpg 120w\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Manto da apresenta\u00e7\u00e3o<\/em>, t\u00edtulo atribu\u00eddo \u00e0 obra sem data de Arthur Bispo do Ros\u00e1rio Rafael Adorjan\u2009. \u2009Cole\u00e7\u00e3o Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea\u2009\/\u2009Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. <br><\/p>\n\n\n\n<p>A mostra no MAM-SP \u00e9 considerada um marco. \u201cO cat\u00e1logo de exposi\u00e7\u00e3o, por exemplo, identificava os pacientes psiqui\u00e1tricos pelo seu verdadeiro nome, e n\u00e3o por pseud\u00f4nimos ou pelo seu diagn\u00f3stico\u201d, comenta o especialista em museologia e patrim\u00f4nio Eur\u00edpedes Gomes Cruz Junior, autor do livro&nbsp;<em>Do asilo ao museu: Nise da Silveira e as cole\u00e7\u00f5es da loucura&nbsp;<\/em>(Editora Holos, 2024), que traz um estudo comparativo de cole\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas de arte no Brasil e no exterior, como do Museu de Imagens do Inconsciente e do Centre Psychiatrique Sainte-Anne, em Paris. O trabalho \u00e9 fruto de sua tese de doutorado, defendida em 2016 na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o pesquisador, a musealiza\u00e7\u00e3o das cole\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas promoveu mudan\u00e7as na percep\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira sobre a loucura, abrindo caminho para o movimento da luta antimanicomial. \u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o Brasil tem hoje uma das legisla\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas do mundo na \u00e1rea da sa\u00fade mental. As exposi\u00e7\u00f5es de arte ajudaram a preparar o terreno para essas mudan\u00e7as\u201d, avalia Cruz Junior.<\/p>\n\n\n\n<p>Caba\u00f1as concorda, mas aponta uma contradi\u00e7\u00e3o no processo: se os espa\u00e7os culturais no Brasil do per\u00edodo moderno e cr\u00edticos de arte como Mario Pedrosa (1900-1981) fizeram uma inclus\u00e3o est\u00e9tica desses trabalhos, a exclus\u00e3o social dos artistas-pacientes permaneceu inalterada naquele momento. \u201cOs artistas estavam ent\u00e3o sujeitos, como indiv\u00edduos, a um regime psiqui\u00e1trico que considerava \u2018terap\u00eautico\u2019 o seu isolamento da sociedade, embora suas obras fossem expostas na qualidade de arte em museus\u201d, critica. \u201cAs institui\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que inclu\u00edram essas obras n\u00e3o conseguiram levar em conta seus locais de produ\u00e7\u00e3o, ou seja, os manic\u00f4mios, e incluir a popula\u00e7\u00e3o segregada do hospital, como os pobres dos centros urbanos, os imigrantes e os negros, assim como as mulheres, cada qual frequentemente considerado como uma amea\u00e7a \u00e0 \u2018ordem\u2019 social\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de nomes como Arthur Bispo do Ros\u00e1rio (<em>c.<\/em>&nbsp;1909-1989) e Aurora Cursino dos Santos (1896-1959). Bispo, um dos \u00faltimos pacientes psiqui\u00e1tricos a produzir dentro de um manic\u00f4mio, a Col\u00f4nia Juliano Moreira (CJM), em Jacarepagu\u00e1, no Rio de Janeiro, nunca reivindicou a condi\u00e7\u00e3o de artista, mas sua obra ganhou&nbsp;<em>status<\/em>&nbsp;de arte ap\u00f3s sua morte. Desde 2000, batiza um museu situado na antiga CJM, que come\u00e7ou a ser desativada na d\u00e9cada de 1990. Santos, que trabalhou como prostituta, passou seus \u00faltimos 15 anos de vida no Hospital Psiqui\u00e1trico do Juquery. Ali, frequentou a Escola Livre de Artes Pl\u00e1sticas, quando pintou mais de 200 quadros, ao mesmo tempo que era submetida a sess\u00f5es de eletrochoque.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, ela \u00e9 considerada uma artista pioneira do feminismo por suas imagens que retratam a viol\u00eancia contra a mulher, como defende a historiadora Silvana Jeha, doutora pela PUC-Rio. \u201cSeus desenhos de vaginas, estupros e demais abusos anteciparam, nos anos 1950, uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que a arte feminista norte-americana abordaria apenas uma d\u00e9cada mais tarde, e s\u00f3 seriam discutidas no Brasil no s\u00e9culo XXI\u201d, afirma a pesquisadora independente, autora do livro&nbsp;<em>Aurora: Mem\u00f3rias e del\u00edrios de uma mulher da vida<\/em>&nbsp;(Editora Veneta, 2022), que assina com o psicanalista Joel Birman, professor da UFRJ. E completa: \u201cInfelizmente, existem poucas exposi\u00e7\u00f5es individuais da produ\u00e7\u00e3o desses artistas no Brasil. \u00c9 como se, aos olhos dos curadores nacionais, eles n\u00e3o tivessem uma singularidade art\u00edstica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contornos do imagin\u00e1rio<\/strong><br><strong><br><\/strong><em>Cole\u00e7\u00e3o alem\u00e3 re\u00fane cerca de 40 mil obras de pacientes psiqui\u00e1tricos de institui\u00e7\u00f5es europeias<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-Elfriede-Lohse-Wachtler-2024-12-800.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1041\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-Elfriede-Lohse-Wachtler-2024-12-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-Elfriede-Lohse-Wachtler-2024-12-800-250x325.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-Elfriede-Lohse-Wachtler-2024-12-800-700x911.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/RPF-loucura-Elfriede-Lohse-Wachtler-2024-12-800-120x156.jpg 120w\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Autorretrato de Elfriede Lohse-W\u00e4chtler (1931), artista alem\u00e3 morta pelo regime nazista. Wikimedia Commons. <\/p>\n\n\n\n<p>Apontada como uma das mais importantes do g\u00eanero no mundo, a cole\u00e7\u00e3o Prinzhorn, hospedada na Cl\u00ednica Psiqui\u00e1trica da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, vem sendo pesquisada desde 2018 por Lucia Reily, professora do curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em artes visuais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Composto por itens como desenhos e pinturas realizados por pacientes psiqui\u00e1tricos, o acervo come\u00e7ou a ser reunido no final do s\u00e9culo XIX. Por\u00e9m entre 1919 e 1921 ganhou musculatura ao ser ampliado pelo psiquiatra e historiador da arte Hans Prinzhorn (1886-1933) e pelo ent\u00e3o diretor da cl\u00ednica de Heidelberg, o tamb\u00e9m psiquiatra Karl Wilmanns (1873-1945).&nbsp;Na \u00e9poca, a cole\u00e7\u00e3o passou a reunir cerca de 5 mil obras realizadas por 435 internos de Heidelberg e de outras institui\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1921, Prinzhorn analisou uma s\u00e9rie daqueles trabalhos art\u00edsticos. O estudo rendeu o livro&nbsp;<em>Bildnerei der Geisteskranken<\/em>&nbsp;(ou&nbsp;<em>Imagin\u00e1ria dos doentes mentais<\/em>), lan\u00e7ado no ano seguinte. \u201cEle n\u00e3o tratou as obras pelo vi\u00e9s da patologia, mas as relacionou aos movimentos de arte moderna, como o expressionismo\u201d, conta Reily.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico deixou Heidelberg em 1921, antes portanto da publica\u00e7\u00e3o do livro, e abandonou a carreira de psiquiatra hospitalar, passando a trabalhar como psicanalista. De acordo com a pesquisadora, a obra atraiu a aten\u00e7\u00e3o de artistas como o pintor alem\u00e3o Max Ernst (1891-1976) e o escritor franc\u00eas Andr\u00e9 Breton (1896-1966), um dos te\u00f3ricos do movimento surrealista. Mesmo in\u00e9dito no Brasil, o livro influenciou tamb\u00e9m psiquiatras brasileiros, como Os\u00f3rio Cesar. Em 1929, Cesar publicou&nbsp;<em>A express\u00e3o art\u00edstica nos alienados: Contribui\u00e7\u00e3o para o estudo dos s\u00edmbolos na arte<\/em>, em que aponta semelhan\u00e7as entre a produ\u00e7\u00e3o dos internos do Hospital Psiqui\u00e1trico do Juquery (SP) e os movimentos art\u00edsticos de vanguarda, como o cubismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ascens\u00e3o do nazismo, nos anos 1930, a cole\u00e7\u00e3o caiu no ostracismo at\u00e9 que parte dela veio a p\u00fablico em 1963 em mostra no museu Kunsthalle, na Su\u00ed\u00e7a. Atualmente, o acervo abriga cerca de 40 mil obras de pacientes psiqui\u00e1tricos, como a pintora Elfriede Lohse-W\u00e4chtler (1899-1940), internada em uma cl\u00ednica na Alemanha em 1929. Em 2023, 130 trabalhos da artista alem\u00e3 ganharam exposi\u00e7\u00e3o no Museu Cole\u00e7\u00e3o Prinzhorn. \u201cEla j\u00e1 tinha uma carreira art\u00edstica profissional antes da interna\u00e7\u00e3o e retratou muitas mulheres, inclusive colegas da cl\u00ednica\u201d, diz Reily. \u201cEm 1940, foi condenada \u00e0 morte pelo Programa T4, do regime nazista, que eliminou pessoas com dist\u00farbios mentais e defici\u00eancias avaliadas como n\u00e3o recuper\u00e1veis. Felizmente, suas obras continuam a circular por meio de exposi\u00e7\u00f5es, pesquisas e publica\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">A reportagem acima foi publicada com o t\u00edtulo \u201c<strong>A arte da loucura<\/strong>\u201d na edi\u00e7\u00e3o impressa n\u00b0 346, de dezembro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Artigos\u00a0cient\u00edficos<br>FACCHINETTI, C.\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0104-59702022000500003\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica dos alienados: Hist\u00f3rias de teorias e pr\u00e1ticas do alienismo brasileiro, 1852-1902<\/a>.\u00a0<strong>Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade-Manguinhos<\/strong>, Rio de Janeiro. v. 29, supl. 1. 2022.<strong><br><\/strong>REILY, L.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.20396\/modos.v8i1.8675660\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Engajamento da sociedade com a cria\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica de pessoas que vivenciam experi\u00eancias psiqui\u00e1tricas: O Museu da Cole\u00e7\u00e3o Prinzhorn<\/a>.\u00a0<strong>MODOS: Revista de Hist\u00f3ria da Arte.<\/strong>\u00a0v. 8, n. 1. p. 224\u201359. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livros<\/strong><br>BIRMAN, J. e JEHA, S.\u00a0<strong>Aurora: Mem\u00f3rias e del\u00edrios de uma mulher da vida<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2022.<br>CABA\u00d1AS, K. M.\u00a0<strong>Aprender com a loucura: Modernismo brasileiro e arte contempor\u00e2nea global<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2023.<br>CRUZ JUNIOR, E. G.\u00a0<strong>Do asilo ao museu: Nise da Silveira e as cole\u00e7\u00f5es da loucura<\/strong>. Rio de Janeiro: H\u00f3los Consultoria e Assessoria, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e1tica antecede trabalhos de m\u00e9dicos como Nise da Silveira e Os\u00f3rio Cesar Originalmente publicado em Revista FAPESP por Juliana Vaz. &hellip; <a class=\"kt-excerpt-readmore more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/bibliotecacentral\/arte-e-utilizada-em-tratamentos-psiquiatricos-no-brasil-desde-o-seculo-xix\/\">Leia 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