Ursula K. Le Guin e a teoria da ficção como sacola

Ursula K. Le Guin morreu no dia 22 de janeiro de 2018, aos 88 anos de idade. Foi escritora de inúmeros livros de ficção científica e fantasia.

Qual foi a primeira ferramenta inventada pela humanidade?

Talvez a cena do macaco descobrindo que um osso pode ser usado como extensão de seu braço, possibilitando que ele possa atingir e matar outros animais, seja a primeira imagem a surgir na sua mente. E não seria à toa… A cena clássica do filme reflete a ideia, bastante difundida, de que as primeiras ferramentas foram armas e objetos de defesa, como clavas de osso ou galhos de árvore, facas, lanças e escudos de madeira ou pedra… Também essa teria sido a origem da ficção, da contação de histórias, onde, geralmente em volta de uma fogueira, os homens contavam dos perigos que enfrentaram nas caçadas… as primeiras histórias de heróis.

Cena icônica do filme “2001: uma odisseia no espaço”

Para Ursula K. Le Guin isso não fazia muito sentido…

O ensaio “The carrier bag theory of fiction” foi publicado pela primeira vez na coletânea “Dancing at the edge of the world”

Em seu ensaio The Carrier Bag Theory of Fiction, a escritora retoma o argumento de Elizabeth Fisher em seu livro Woman’s Creation: Sexual Evolution and the Shaping of Society de que, antes de se tornar caçadora (e por muito tempo depois da caça surgir), a humanidade foi predominantemente coletora: a alimentação de nossos ancestrais primevos era substancialmente composta por vegetais, frutas, sementes e raízes, coletados nos lugares por onde passavam. Por conta disso a primeira ferramenta (e dispositivo cultural) não foi uma arma, mas o recipiente, a sacola, a bolsa, a mochila, a rede, o sling, que permitia transportar alimentos e a prole de um lugar para o outro.

Partindo da hipótese de que a primeira ferramenta tenha sido a sacola ou mochila, Ursula nos traz uma série de implicações e possibilidades de recontar a história e de recontar histórias. Nessa nova história, o herói, o que luta, defende, briga, corta, mata (qualidades geralmente associadas ao masculino) perde importância para aquilo que abriga, cuida, guarda, gesta… a própria ação de contar histórias é assim vista como o ato de tirar ideias, palavras e nomes de uma sacola e ofertá-las a outras pessoas.

the natural, proper, fitting shape of the novel might be that of a sack, a bag. A book holds words. . . A novel is a medicine bundle, holding things in particular, powerful relation to one another and to us.

Sua teoria da “sacola” deu origem inclusive a uma interessante proposta de método de pesquisa.

Ursula Le Guin seguia essa teoria em sua ficção. Seus personagens raramente expressam esse tipo de atitude heroica, e quando o fazem, geralmente fracassam. No lugar do heroísmo apresentam uma complexa ambiguidade. Importante dizer que não perdem a agressividade nem deixam de ser violentos, mas a expressão dessas características ganha outros contornos e já não é mais o principal recurso disponível para lidar com o conflito.

Ursula foi uma das primeiras escritoras a levar o debate de gênero para a ficção científica. Em “A mão esquerda da escuridão”, um de seus livros mais famosos, ela faz o exercício de imaginar um planeta onde nossas questões de gênero (as humanas) não se aplicam, pois as/os habitantes não têm sexo definido… assumem o papel de macho ou de fêmea (de forma aleatória) apenas quando estão no “kemmer”, a fase fértil de um  ciclo semelhante ao nosso ciclo menstrual, permanecendo totalmente assexuado(a)s e andrógino(a)s na maior parte do tempo. Seguindo a análise que o livro apresenta, de contornos antropológicos, dessa sociedade imaginária, vamos percebendo, pelo contraste com o radicalmente diferente, os absurdos culturais que têm suas raízes em nossos papéis de gênero.

Ursula K. Le Guin nos deixou em janeiro deste ano. Seu legado influenciou o pensamento de autoras como Donna Haraway (de quem era amiga pessoal e que menciona sua teoria da “sacola” em uma importante conferência). Apresentou complexas inovações linguísticas em sua ficção utópica trazendo a ideia de que uma mudança da linguagem é parte necessária de uma mudança social ampla e também nos advertindo, pelo estranhamento, de que nossas práticas sociais atuais são apenas uma possibilidade entre infinitas outras.

Ursula formou gerações de leitores que, através de seus livros, tiveram acesso a uma literatura de ficção científica e fantasia muito diferente do padrão desse nicho, predominantemente masculino.

 

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