{"id":3134,"date":"2008-11-14T16:10:29","date_gmt":"2008-11-14T18:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/biev\/antigo\/?p=3134"},"modified":"2018-01-26T18:48:21","modified_gmt":"2018-01-26T20:48:21","slug":"fotografia-para-construcao-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/biev\/antigo\/fotografia-para-construcao-da-historia\/","title":{"rendered":"A fotografia para constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\"><strong>Simp\u00f3sio<\/strong> \u201cO documento fotogr\u00e1fico pesquisado: projetos museogr\u00e1ficos e montagem de exposi\u00e7\u00f5es\u201d<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">14 de novembro de 2008 &#8211; 14h<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><strong><span class=\"Apple-style-span\">Coordena\u00e7\u00e3o:<\/span><\/strong><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Profa. Dra. Liliane Guterres (NAVISUAL UFRGS, UCS e UNILASALLE)<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><span class=\"Apple-style-span\">Palestrantes:<\/span><\/strong><span class=\"Apple-style-span\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Ivo Canabarro<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0(Uniju\u00ed) \u2013 \u201cA utiliza\u00e7\u00e3o da fotografia para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico\u201d<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Rafael Devos<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0(BIEV e NAVISUAL, UFRGS) &#8211; \u201cAnimando documentos: cole\u00e7\u00f5es de cr\u00f4nicas etnogr\u00e1ficas em v\u00eddeo, anima\u00e7\u00f5es de fotografias e material iconogr\u00e1fico com documentos sonoros na montagem de narrativas em hiperm\u00eddia.\u201d<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Ceres Storchi<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0(Arq. UFRGS) &#8211; \u201cO documento fotogr\u00e1fico como suporte de interpreta\u00e7\u00e3o museogr\u00e1fica\u201d<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><span class=\"Apple-style-span\">Debatedora:<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/strong><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Jeniffer Cuty (PROPUR\/UFRGS)<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<blockquote>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">A utiliza\u00e7\u00e3o da fotografia para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico<\/span><\/div>\n<\/blockquote>\n<div style=\"text-align: center;\"><em><span class=\"Apple-style-span\">Ivo Canabarro<\/span><\/em><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Os trabalhos sobre fotografia no Brasil s\u00e3o muito recentes, embora a pr\u00e1tica fotogr\u00e1fica tenha iniciado h\u00e1 mais de cento e cinq\u00fcenta anos. Este longo percurso da fotografia repercute em uma grande produ\u00e7\u00e3o quantitativa e qualitativa. Os in\u00fameros acervos de imagens espalhados por todo o Brasil s\u00e3o capazes de revelar situa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas da cultura brasileira. Pode-se afirmar que parte\u00a0significativa da hist\u00f3ria do Brasil ainda permanece revelada apenas na bidimensionalidade das fotografias. Alguns historiadores afirmam que, em termos de utiliza\u00e7\u00e3o da fotografia, ainda h\u00e1, praticamente, tudo para fazer, visto ter muitas imagens, por\u00e9m poucos trabalhos.<\/span><span class=\"Apple-style-span\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A constata\u00e7\u00e3o de que existem v\u00e1rios acervos fotogr\u00e1ficos no Brasil contribui para a discuss\u00e3o da import\u00e2ncia de se utilizar a fotografia para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. Os acervos constituem-se em fontes, de certa forma, privilegiadas, por comportarem informa\u00e7\u00f5es que, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o encontradas na documenta\u00e7\u00e3o escrita. As fontes imag\u00e9ticas permitem ir muito al\u00e9m das meras descri\u00e7\u00f5es, porque trazem express\u00f5es de realidades vividas em outros tempos. Da mesma forma, devido \u00e0 diversidade de informa\u00e7\u00f5es que as fotografias apresentam, uma vez que estas registram distintas situa\u00e7\u00f5es de viv\u00eancia dos atores individuais e coletivos, possibilitam o entendimento das diferen\u00e7as sociais dos grupos, revelando quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o em um determinado contexto hist\u00f3rico.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A fotografia, como fonte de pesquisa, propicia ao historiador acrescentar novas e diferentes interpreta\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria social. A partir da leitura dos elementos que a comp\u00f5em, entende-se com mais detalhe o car\u00e1ter simb\u00f3lico, expresso por diversos sistemas de atitudes relacionadas \u00e0s representa\u00e7\u00f5es sociais. As imagens fotogr\u00e1ficas revelam alguns elementos importantes para o conhecimento da mem\u00f3ria coletiva. Neste sentido, Le Goff (1) observa que a fotografia revoluciona a mem\u00f3ria, multiplicando-a e democratizando-a, dando uma precis\u00e3o e uma verdade que permite guardar a mem\u00f3ria do tempo e da evolu\u00e7\u00e3o da sociedade.\u00a0<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0As imagens fotogr\u00e1ficas possibilitam ampliar a vis\u00e3o do historiador, colocam em cena atores sociais em diferentes situa\u00e7\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o e permitem que se conhe\u00e7am os cen\u00e1rios em que as atividades cotidianas desenvolvem-se, como tamb\u00e9m, a diversidade das articula\u00e7\u00f5es e das viv\u00eancias dos atores sociais que atuaram em um determinado contexto s\u00f3cio-cultural. Poder\u00e1, sobretudo servir como suporte para a mem\u00f3ria coletiva desses atores, na medida que registram cenas de um tempo continuum que foram perenizadas no ato fotogr\u00e1fico, podendo ser \u00a0transportadas para outras temporalidades, mediante uma mistura de passado-presente.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A utiliza\u00e7\u00e3o de fotografias pelos historiadores \u00e9 uma pr\u00e1tica muito recente e, por conseguinte, restrita. Chega-se a inferir que estes n\u00e3o gostam de imagens, pois preferem deter-se nas fontes escritas. Entretanto, n\u00e3o significa reduzir o valor do documento escrito, mas consideram-se as possibilidades de conhecimento de outras dimens\u00f5es da viv\u00eancia dos atores sociais por interm\u00e9dio das fotografias. Salienta-se que as fotografias n\u00e3o devem ser utilizadas simplesmente como uma ilustra\u00e7\u00e3o do texto verbal, mas como fontes de pesquisas, visto que os elementos que a comp\u00f5em s\u00e3o\u00a0recortados de determinados contextos sociais. Embora a fotografia seja uma representa\u00e7\u00e3o visual, todos os elementos ou pessoas que estiveram por um momento em frente da c\u00e2mara fotogr\u00e1fica s\u00e3o plaus\u00edveis de serem alocados em um determinado tempo e espa\u00e7o. Esta possibilidade atesta o car\u00e1ter hist\u00f3rico da fotografia.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0No conjunto de imagens que traduzem o mundo, a fotografia pode servir como uma alternativa a mais de leitura da realidade. Enquanto produto cultural, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o feita por um sujeito mediador, o fot\u00f3grafo, que seleciona pessoas e elementos e os enquadra na bidimensionalidade de um espa\u00e7o a ser recortado. Entre este sujeito e o retratado est\u00e1 a tecnologia, que permite a fixa\u00e7\u00e3o da cena escolhida. Sendo a fotografia um produto cultural, a sua constru\u00e7\u00e3o faz parte de um determinado contexto hist\u00f3rico, que influ\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o do olhar do fot\u00f3grafo, nas representa\u00e7\u00f5es sociais impressas e no equipamento tecnol\u00f3gico empregado para a tomada da imagem.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0O historiador precisa situar a fotografia em um determinado tempo e espa\u00e7o e perceber as altera\u00e7\u00f5es da fotografia e do contexto. O oficio do historiador consiste na realiza\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica interna e externa do documento e, neste sentido, alguns m\u00e9todos de an\u00e1lise permitem-lhe a leitura dos documentos visuais. O historiador da fotografia Michel Frizot(2) observa que se a fotografia \u00e9 um documento, ele \u00e9 hist\u00f3rico por natureza, pois o tempo que retrata e as particularidades do instante s\u00e3o fragmentos da hist\u00f3ria geral.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os historiadores, que trabalham com fotografias como documento, discutem as fontes visuais, situando-as em um determinado momento em que a historiografia ocidental come\u00e7a a ser constru\u00edda por diferentes olhares, abordagens e objetos, ampliando a no\u00e7\u00e3o de fonte documental. Com influ\u00eancia da Escola dos Annales(3), a partir dos anos trinta do s\u00e9culo XX, a no\u00e7\u00e3o de fonte documental \u00e9 ampliada e a imagem tamb\u00e9m passa a constituir-se como um res\u00edduo do passado, um tra\u00e7o capaz de atestar situa\u00e7\u00f5es de viv\u00eancia. Nesta perspectiva, Chartier(4) observa que a imagem passou a ser apreendida como documento hist\u00f3rico, ou seja, as propriedades t\u00e9cnicas, estil\u00edsticas e iconogr\u00e1ficas ligam-se a um modo particular de percep\u00e7\u00e3o e uma maneira de ver, moldada em toda a experi\u00eancia social.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A no\u00e7\u00e3o de documento atribu\u00edda \u00e0s imagens pelas primeiras gera\u00e7\u00f5es dos Annales refere-se principalmente aos quadros, \u00e0s gravuras, \u00e0s estampas, \u00e0s est\u00e1tuas e aos demais objetos visuais. A utiliza\u00e7\u00e3o das fontes visuais para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento na hist\u00f3ria \u00e9 ainda muito restrita e de certa forma problem\u00e1tica. Sobre esta quest\u00e3o, Meneses(5) comenta que \u00e9 poss\u00edvel pensar em uma Hist\u00f3ria Visual, produzida a partir de documentos visuais para tentar examinar a dimens\u00e3o visual da sociedade. O mesmo autor pondera que o visual refere-se \u00e0 sociedade e n\u00e3o \u00e0s fontes para o seu conhecimento; neste sentido, o objeto \u00e9 sempre a sociedade, cabendo ao historiador trabalhar com os problemas hist\u00f3ricos, buscando a solu\u00e7\u00e3o por interm\u00e9dio de fontes visuais, juntamente com outras fontes pertinentes.<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A fotografia como uma fonte visual come\u00e7a a ser trabalhada com mais \u00eanfase na Fran\u00e7a, a partir da terceira gera\u00e7\u00e3o dos Annales. \u00a0Le Goff e Nora(6) avan\u00e7am nas discuss\u00f5es sobre os novos problemas, as novas abordagens e os novos objetos, atribuindo a fotografia o car\u00e1ter de fonte documental e resgatando sua import\u00e2ncia para o trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o do passado. Ao mesmo tempo, d\u00e1 credibilidade \u00e0s pesquisas realizadas sobre a hist\u00f3ria social da fotografia.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Para Le Goff(7), a fotografia est\u00e1 entre os grandes documentos para se fazer hist\u00f3ria, por consistir de provas de que algo aconteceu. O autor observa que a fotografia permite conhecer a riqueza da vida,\u00a0mesmo sendo realista, porque o pr\u00f3prio realismo \u00e9 tamb\u00e9m uma cria\u00e7\u00e3o. A fotografia representa uma ineg\u00e1vel express\u00e3o do indiv\u00edduo, da face, do retrato e, tamb\u00e9m, express\u00e3o da vida ordin\u00e1ria do campon\u00eas. A imagem mostra toda a riqueza do simples ato de ver, por ser um texto visual que exprime a plenitude do humanismo. O autor finaliza salientando que se existem provas concretas do passado, a fotografia \u00e9 uma delas.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0O historiador Pierre Nora(8) observa que, a partir dos anos 70 do s\u00e9culo XX, o texto visual, principalmente a fotografia, come\u00e7ava a fazer parte da escrita da hist\u00f3ria. O autor salienta que o alargamento da hist\u00f3ria, propiciado pela \u201cnouvellle histoire\u201d, influencia na valoriza\u00e7\u00e3o do arquivo visual. Paralelo a isso, a no\u00e7\u00e3o de testemunha passa a ser entendida como no\u00e7\u00e3o de tra\u00e7o e o n\u00e3o escrito come\u00e7ava a dilatar o dom\u00ednio da hist\u00f3ria. Nora entende a fotografia como um instant\u00e2neo extra\u00eddo do movimento permanente, uma mostra representativa de uma realidade distante, um analogon do que foi o passado, uma rela\u00e7\u00e3o de descontinuidade decorrente de uma mistura de dist\u00e2ncia e de aproxima\u00e7\u00e3o. Deste modo, cabe ao historiador perceber o valor de diferen\u00e7a do que se apresenta e o movimento que continua a existir. Naturalmente, esse \u00e9 um longo trabalho que exige muita erudi\u00e7\u00e3o na restitui\u00e7\u00e3o de um objeto hist\u00f3rico.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Apesar do entusiasmo de historiadores conceituados, tais como Le Goff e Nora, pouco foi feito relativo \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o das fotografias para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento hist\u00f3rico. Em recente texto publicado na Revista \u00c9tudes photographiques(9) com o sugestivo t\u00edtulo \u201cL\u2019histoire par la photographie\u201d, os autores observam que se tem realizado muitos trabalhos sobre a hist\u00f3ria da fotografia, mas pouco se discutiu sobre a hist\u00f3ria pela fotografia, devido aos raros pesquisadores que se dedicam \u00e0 an\u00e1lise de arquivos fotogr\u00e1ficos. Esta discuss\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 presente em algumas obras de historiadores brasileiros, os quais procuram salientar esta diferencia\u00e7\u00e3o e\/ou aproxima\u00e7\u00e3o entre a hist\u00f3ria da fotografia e a hist\u00f3ria pela fotografia.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Outros autores brasileiros que trabalham com fotografias apontam as limita\u00e7\u00f5es e as dificuldades neste dom\u00ednio espec\u00edfico. Para Kossoy (10), \u00e9 necess\u00e1rio o estabelecimento de algumas diferen\u00e7as te\u00f3ricas, relativas aos objetos de investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da fotografia como na hist\u00f3ria atrav\u00e9s da fotografia. No primeiro caso, o autor salienta que \u00e9 um estudo sistem\u00e1tico da fotografia como um meio de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o em seu processo hist\u00f3rico. Afirma que \u00e9 importante\u00a0conhecer os artefatos representativos dos diferentes per\u00edodos, a tecnologia utilizada e os estilos e tend\u00eancias de representa\u00e7\u00e3o vigentes em um certo per\u00edodo hist\u00f3rico. Tamb\u00e9m considera fundamentais as circunst\u00e2ncias ligadas ao processo que originou a imagem, como tamb\u00e9m o seu uso enquanto testemunho visual, em suas diferentes aplicabilidades ao longo de sua hist\u00f3ria.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A interpreta\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o presente na obra de Miriam Moreira Leite(11). A autora identifica duas correntes historiogr\u00e1ficas: uma considera que o documento fala e que a imagem fotogr\u00e1fica transmite clara e diretamente informa\u00e7\u00f5es; a outra corrente concebe as imagens fotogr\u00e1ficas enquanto representa\u00e7\u00f5es que aguardam um leitor para decifr\u00e1-las. Neste sentido, a autora observa que a bibliografia a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o da fotografia n\u00e3o \u00e9 extensa e que muitos trabalhos se det\u00eam na hist\u00f3ria da t\u00e9cnica, na biografia dos fot\u00f3grafos, na multiplica\u00e7\u00e3o da arte fotogr\u00e1fica ou na recupera\u00e7\u00e3o da verdade. Raros s\u00e3o os estudos do significado e do conte\u00fado cultural da imagem. Por fim, a autora salienta que \u00e9 preciso um estudo comparativo de sistemas de significados, das media\u00e7\u00f5es entre a realidade que se quer compreender e da imagem dessa realidade.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os trabalhos recentes que utilizam a fotografia como documento para a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, principalmente no caso brasileiro, procuram manter uma certa diferen\u00e7a entre a hist\u00f3ria da fotografia(12) e a hist\u00f3ria\u00a0pela fotografia. Algumas aproxima\u00e7\u00f5es visam \u00e0 inser\u00e7\u00e3o do documento em um contexto espec\u00edfico, constru\u00eddo pelo conjunto das representa\u00e7\u00f5es visuais, ou seja, uma certa no\u00e7\u00e3o de contexto iconogr\u00e1fico, que compreende todos os elementos est\u00e9ticos sobre a fotografia em um determinado momento. Salientando que este contexto iconogr\u00e1fico insere-se no contexto hist\u00f3rico, e que tal diferencia\u00e7\u00e3o entre a hist\u00f3ria da fotografia e a hist\u00f3ria pela fotografia, \u00e9 basicamente uma quest\u00e3o de abordagem, que permite analisar elementos pertencentes especificamente \u00e0 imagem fotogr\u00e1fica.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Entende-se, portanto, que a fotografia se insere em um determinado momento da hist\u00f3ria e, ao mesmo tempo serve como fonte para a sua reconstitui\u00e7\u00e3o. Neste sentido, About e Ch\u00e9roux(13) concebem que, teoricamente a hist\u00f3ria poder\u00e1 cruzar a fotografia, pois esta \u00e9 constitutivamente hist\u00f3rica, dando uma forma tang\u00edvel aos fatos e registra elementos do passado, isto \u00e9, um ar, um gesto, um olhar, uma tens\u00e3o, que os outros documentos dificilmente contemplam. Na perspectiva de que a hist\u00f3ria pode cruzar a fotografia, \u00e9 necess\u00e1ria a percep\u00e7\u00e3o deste duplo sentido de orienta\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria da fotografia, enquanto suporte para a hist\u00f3ria pela fotografia. Essas, antes de tudo, s\u00e3o vertentes complementares que recorrem \u00e0 fotografia como fonte visual e estabelecem especificidades em termos de problematiza\u00e7\u00e3o do objeto de estudo.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0As atuais discuss\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es em hist\u00f3ria social da fotografia ultrapassam os limites de uma hist\u00f3ria da fotografia que visava apenas o conhe<\/span><span class=\"Apple-style-span\">cimento das t\u00e9cnicas, a import\u00e2ncia de alguns fot\u00f3grafos, os artefatos da imagem e outras observa\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas sobre a mesma. Pode-se contar com uma s\u00e9rie de obras de historiadores que investigam a fotografia inserida socialmente, situada em seu contexto hist\u00f3rico de pertencimento. Autores franceses como Michel Frizot, Andr\u00e9 Gunthert, Michel Pouvert, Georges Didi-Huberman, Cl\u00e9ment Ch\u00e9roux, Andr\u00e9 Rouill\u00e9, dentre outros, procuram investigar a fotografia como um produto social, considerando as media\u00e7\u00f5es entre a imagem e a sociedade e a maneira pela qual a fotografia retrata a sociedade e as rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A configura\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria social da fotografia perpassa pela compreens\u00e3o de que, em primeiro lugar, a fotografia \u00e9 um produto social e a sua constru\u00e7\u00e3o revela as demandas de diferentes grupos sociais. Estes mesmos grupos podem utilizar-se da fotografia para divulgar e legitimar o seu poder em um determinado momento e como forma de divulga\u00e7\u00e3o e de imposi\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es sociais, sendo estas matrizes para as pr\u00e1ticas sociais, que podem interferir na constru\u00e7\u00e3o de modelos ideais de comportamentos a serem seguidos pelos demais grupos\u00a0de uma sociedade. Esta forma impositiva de legitima\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es, por interm\u00e9dio das fotografias, serve tamb\u00e9m como um meio importante para a constru\u00e7\u00e3o da identidade, tanto individual quanto coletiva.<\/span><\/div>\n<p><\/p>\n<div><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">1<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0LE GOFF, Jacques. Hist\u00f3ria e mem\u00f3ria. Campinas, SP: UNICAMP, 1996.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">2<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0FRIZOT, Michel (org). Nouvelle histoire de la photographie. Paris: Adan Biro\/ Larousse, 2001.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">3<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0Um breve retrospecto sobre a Escola dos Annales pode ser constatado em: BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929 \u2013 1989). S\u00e3o Paulo: UNESP, 1991.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">4<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0CHARTIER, Roger. Verbete Imagens. In: BURGUI\u00c8RE, Andr\u00e9. Dicion\u00e1rio das ci\u00eancias hist\u00f3ricas. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p.407.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">5<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0MENESES, Ulpiano T. Bezerra. Fontes visuais, cultura visual, hist\u00f3ria visual. Balan\u00e7o provis\u00f3rio, propostas cautelares. In. Revista Brasileira de Hist\u00f3ria. V.23, n\u00ba 45. S\u00e3o Paulo: ANPUH \/ Humanitas Publica\u00e7\u00f5es, 2003. p. 11-36.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">6<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre.\u00a0Hist\u00f3ria \u2013 novos problemas, novas abordagens, novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">7<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0LE GOFF, Jacques. Mirages de l\u2019histoire. In: La Recherche Photographique, N\u00ba.18. Paris: Paris Audiovisuel, 1995.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">8<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0NORA, Pierre. Historiens, Photographes: Voir et Devoir. In: CAUJOLLES, Cristian (dir.). \u00c9thique, esth\u00e9tique, politique. Arles: Actes Sud, 1997.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">9<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0Revista \u201c\u00c9tudes photographiques\u201d, N\u00ba.10. Soci\u00e9t\u00e9 Fran\u00e7aise de Photographie, Paris, Novembro, 2001.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">10<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0KOSSOY, Boris. Fotografia e hist\u00f3ria. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1989, p. 35 &#8211; 37.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">11<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0LEITE, Miriam Moreira. Retratos de Fam\u00edlia: Leitura da fotografia hist\u00f3rica. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1993.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">12<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0Observa-se que existem algumas obras sobre hist\u00f3ria da fotografia, independentes da pretens\u00e3o de se fazer hist\u00f3ria pela fotografia. Por exemplo: VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Imp\u00e9rio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. \u00a0FREYRE, Gilberto (et.al). O retrato brasileiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1983.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">13<\/span> <span class=\"Apple-style-span\">\u00a0ABOUT, Ilsen, CH\u00c9ROUX, Cl\u00e9ment. L\u2019histoire par la photographie. In: \u00c9tudes photographiques. N.10, Paris: Soci\u00e9t\u00e9 Fran\u00e7aise de Photographie, 2001.<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Simp\u00f3sio \u201cO documento fotogr\u00e1fico pesquisado: projetos museogr\u00e1ficos e montagem de exposi\u00e7\u00f5es\u201d 14 de novembro de 2008 &#8211; 14h \u00a0 Coordena\u00e7\u00e3o: Profa. Dra. 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