{"id":3165,"date":"2008-09-25T21:27:14","date_gmt":"2008-09-26T00:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/biev\/antigo\/?p=3165"},"modified":"2018-01-28T23:54:20","modified_gmt":"2018-01-29T01:54:20","slug":"conferencia-de-abertura-henri-gervaiseau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/biev\/antigo\/conferencia-de-abertura-henri-gervaiseau\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia de Abertura Henri Gervaiseau"},"content":{"rendered":"<div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">Confer\u00eancia de Abertura e exibi\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios<br \/>\n<\/span><\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: center;\"><em><span class=\"Apple-style-span\">25 de setembro 2008 &#8211; 18hs<\/span><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\"><strong>Tem Que Ser Baiano?\u00a0<\/strong>(Brasil, 1993, 42min.)<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">Em Tr\u00e2nsito\u00a0(S\u00e3o Paulo, 2005, 98min.)<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\"><em>Henri Gervaiseau<\/em><br \/>\n<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Arte &#8211; USP<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: center;\"><span class=\"Apple-style-span\">Centro de Estudos da Metr\u00f3pole &#8211; FAPESP<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>N\u00e3o sei se \u00e9 boa tarde ou se j\u00e1 \u00e9 boa noite, mas enfim&#8230; Boa noite. Em primeiro lugar muito obrigado pelo convite, \u00e0 Ufrgs, \u00e0 Cornelia, \u00e0 Anelise, que ainda n\u00e3o tive o prazer de conhecer, mas que intermediou grande parte da minha vinda aqui. Ao Rafael, a este grupo de pesquisa. Estou muito contente de estar aqui com voc\u00eas hoje.<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"padding-left: 150px;\"><video controls=\"controls\" width=\"468\" height=\"468\"><source src=\"https:\/\/r8---sn-oxunxg8pjvn-2v5e.googlevideo.com\/videoplayback?id=d86b855af80678c1&amp;itag=18&amp;source=blogger&amp;mm=31&amp;mn=sn-oxunxg8pjvn-2v5e&amp;ms=au&amp;mv=m&amp;pl=48&amp;ei=_QltWtbpNsnYqAX_mafgDg&amp;susc=bl&amp;mime=video\/mp4&amp;lmt=1233326410254805&amp;mt=1517095316&amp;ip=2804:14d:4ca6:8974:2136:ed74:305e:adba&amp;ipbits=0&amp;expire=1517124221&amp;sparams=ip,ipbits,expire,id,itag,source,mm,mn,ms,mv,pl,ei,susc,mime,lmt&amp;signature=435372461FFD3B5620674F59DF43296A365F2AA7.1A73CA1ABF7041C73A02E091D99EE043F95FE79E&amp;key=ck2&amp;cpn=ZRKowwcsQLYhDMUZ&amp;c=WEB_EMBEDDED_PLAYER&amp;cver=20180125\" \/><\/video><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu vou falar um pouco destas quest\u00f5es que foram levantadas aqui, mas muito em cima desta experi\u00eancia de realiza\u00e7\u00e3o desse filme, particularmente, desse v\u00eddeo, &#8220;Tem que ser Baiano&#8221; e um pouco do &#8220;Em Tr\u00e2nsito&#8221; e talvez ainda de um outro trabalho que eu esqueci de sugerir que tamb\u00e9m passasse aqui porque tem a ver com imagens de acervo. \u00c9 um pequeno clipe de tr\u00eas minutos e meio que eu fiz em 1988\/1989 a partir de uma m\u00fasica do Gilberto Gil que se chama &#8220;Touchez pas mon potte&#8221;. Touche pas mon potte seria, traduzindo para o portugu\u00eas, n\u00e3o toque no meu chapa, n\u00e3o toque no meu amigo. Era o lema de uma associa\u00e7\u00e3o anti-racismo que se chamava SOS-Racisme, cujo presidente na \u00e9poca tinha um nome bastante interessante, se eu for traduzir o nome do presidente desta associa\u00e7\u00e3o, chamava-se \u201cDesejo de Harlem\u201d, Harlem Desir.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Enfim, a Fran\u00e7a \u00e9 um pa\u00eds que tem uma tradi\u00e7\u00e3o de acolhimento de exilados, de gente de tudo quanto \u00e9 canto. \u00c9 uma terra de acolhimento e ao mesmo tempo \u00e9 um pa\u00eds que tem uma tradi\u00e7\u00e3o minorit\u00e1ria, mas bastante forte, que hoje em dia tem mais for\u00e7a do que no passado, que \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o de direita, e \u00e9 at\u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos dizer de extrema direita. At\u00e9 tem um restaurante aqui em Porto Alegre que para mim \u00e9 um pouco chocante, eu gosto muito de ir l\u00e1 quando estou aqui, chama-se Ocidente. Na minha mem\u00f3ria de jovem parisiense, Ocidente era um movimento de extrema direita que havia em Paris nos anos 70. Eu tenho 54 anos, naquela \u00e9poca eu era um jovem esquerdista e fazia muitas manifesta\u00e7\u00f5es de rua contra a Guerra do Vietn\u00e3. A Fran\u00e7a \u00e9 um pa\u00eds, Paris principalmente, \u00e9 um lugar que se vai muito, se ia muito \u00e0 rua para se manifestar a favor ou contra certas coisas, e o Ocidente era um grupo de extrema direita que sa\u00eda \u00e0 rua armado, enfim&#8230; Ent\u00e3o foi criado esse movimento nos anos 80 basicamente, e o Gil fez essa m\u00fasica, que era ao mesmo tempo a \u00e9poca do centen\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, sendo franco-brasileiro, eu me sensibilizei muito por essa dupla efem\u00e9ride, como se diz e pensei que seria interessante usar esse g\u00eanero videogr\u00e1fico do clipe para tematizar essa quest\u00e3o, ao mesmo tempo do preconceito e da luta contra o preconceito. E eu fiz isso muito em cima de imagens de arquivo, particularmente de fotografias, na id\u00e9ia de que isso<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0\u00e9 um dos aspectos do interesse de se usar imagens de arquivo. Voc\u00ea recupera imagens de momentos emblem\u00e1ticos, que o seu expectador pode n\u00e3o ter conhecido, se o expectador \u00e9 mais jovem, ao mesmo tempo, voc\u00ea pode trazer imagens tamb\u00e9m que os outros expectadores viram. E o fato de voc\u00ea trazer \u00e0 lembran\u00e7a aquela imagem que j\u00e1 tem um certo tempo, e voc\u00ea associ\u00e1-la a outras, pode ter algum tipo de impacto na mente do expectador, j\u00e1 que, como voc\u00eas sabem, a nossa mem\u00f3ria, ela \u00e9 composta basicamente de imagens, o fen\u00f4meno mn\u00f4nico, o fato de voc\u00ea se lembrar de alguma coisa que desperta o processo de lembran\u00e7a, pode vir de v\u00e1rias formas, pode ser um cheiro, pode ser uma m\u00fasica, mas na nossa mente, as lembran\u00e7as, elas s\u00e3o como se fossem fotogramas, mas que n\u00e3o tem uma base fotoqu\u00edmica, e sim um substrato mental. Ent\u00e3o, voc\u00ea usar imagens de arquivo tamb\u00e9m pode ajudar a ter certo tipo de impacto no esp\u00edrito, na mente do expectador.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu me interesso por este tema da migra\u00e7\u00e3o nordestina h\u00e1 bastante tempo, sou filho de um franc\u00eas com uma cearense e sempre me interessei muito por este aspecto da migra\u00e7\u00e3o que \u00e9 um fen\u00f4meno social que tem import\u00e2ncia talvez menos contundente no Brasil de hoje, mas que j\u00e1 teve uma import\u00e2ncia muito grande no curso do s\u00e9culo 20, de movimento de popula\u00e7\u00e3o e de m\u00e3o-de-obra entre as regi\u00f5es brasileiras, foi algo constitutivo de nosso pa\u00eds. Tanto no final da escravid\u00e3o, do tr\u00e1fico de escravos, tr\u00e1fico intraprovincial de escravos, quando a escravid\u00e3o, o tr\u00e1fico de escravos foi proibido, como depois com o chamado mercado de trabalho nacional se constituiu, o mercado de trabalho livre, e depois enfim na hist\u00f3ria ent\u00e3o da urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira. Um fen\u00f4meno bastante significativo e hoje em dia, por exemplo, em S\u00e3o<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0Paulo o fen\u00f4meno da migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a mesma import\u00e2ncia, n\u00e3o aportam tantas pessoas de fora, mineiros e nordestinos, como aportavam em outras \u00e9pocas. Mas \u00e9 um fen\u00f4meno que teve import\u00e2ncia muito grande na hist\u00f3ria tanto do estado de S\u00e3o Paulo, quanto na hist\u00f3ria da metr\u00f3pole paulista. E \u00e9 uma hist\u00f3ria que \u00e9 muito pouco conhecida na verdade, ent\u00e3o eu me interessei muito por esta hist\u00f3ria e realizei no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 uma s\u00e9rie de entrevistas de hist\u00f3ria oral com imigrantes nordestinos. Eu estudei e percorri muitos arquivos e no in\u00edcio dos anos 90 quando reuni um pouco mais de elementos para poder produzir um document\u00e1rio, que foi feito na \u00e9poca com muito pouco recurso, o fen\u00f4meno estava adquirindo um car\u00e1ter um pouco diferente.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade que tem uma hist\u00f3ria muito peculiar, ao mesmo tempo em que tem uma tradi\u00e7\u00e3o de esquerda &#8211; qualquer que seja a aprecia\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a hoje em dia sobre o PT, em S\u00e3o Paulo, ou no Rio Grande do Sul, de que o PT foi forte em S\u00e3o Paulo e ainda \u00e9, o movimento social \u00e9 muito forte &#8211; ao mesmo tempo h\u00e1 cidades brasileiras que tem uma tradi\u00e7\u00e3o conservadora e uma tradi\u00e7\u00e3o de direita, embora a direita aqui no Brasil n\u00e3o se declare como tal, n\u00e3o tem uma plataforma clara como na Fran\u00e7a. S\u00e3o Paulo tem uma tradi\u00e7\u00e3o conservadora antiga e ao mesmo tempo em que \u00e9 uma grande metr\u00f3pole, \u00e9 uma metr\u00f3pole que ao menos at\u00e9 recentemente era bastante provinciana. Os paulistas t\u00eam uma esp\u00e9cie de fundo, vamos dizer assim, olig\u00e1rquico autocentrado, e isso mudou e tem mudado bastante,\u00a0<\/span><span class=\"Apple-style-span\">mas em S\u00e3o Paulo voc\u00ea se depara com uma tradi\u00e7\u00e3o de autocentramento. Isso junto com uma certa raiva pela vit\u00f3ria da Erundina, no per\u00edodo ainda um pouco complicado da hist\u00f3ria recente do Brasil, quer dizer, o \u00faltimo presidente militar saiu em 85, depois disso tivemos o Sarney. A Erundina se elegeu em 1988, havia uma raiva muito grande por parte de certos setores conservadores paulistas pela elei\u00e7\u00e3o de uma nordestina de origem modesta como prefeita. Ent\u00e3o \u00e9 uma mistura de raiva de um certo eleitorado conservador com a manipula\u00e7\u00e3o dessa raiva por parte de pol\u00edticos de direita, misturado com a crise econ\u00f4mica e social que o Brasil vivia no in\u00edcio do Governo Collor. Todo esse caldo de culturas, tinha uma conjuntura muito complicada nesse per\u00edodo.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">E eu quando retomei esse trabalho, esse tema, n\u00e3o tinha a priore a inten\u00e7\u00e3o de dirigi-lo muito para a atualidade, acabei pesquisando muito em acervo. E eu julguei que seria fundamental tentar contar um pouco dessa hist\u00f3ria muito mal conhecida da migra\u00e7\u00e3o nordestina em S\u00e3o Paulo, de que na verdade nordestinos vieram para S\u00e3o Paulo inicialmente porque foram subsidiados, se pagava o transporte para as pessoas virem. Eu achei que era fundamental contar essa hist\u00f3ria usando v\u00e1rios tipos de materiais de arquivo: textos, mas tamb\u00e9m imagens e sons. E foi enfim o que eu fiz nesse document\u00e1rio &#8220;Tem que ser Baiano&#8221;, que por um lado usa muitas fotografias, tem fotografias do Cruzeiro, v\u00e1rios tipos de fotos da \u00e9poca dos anos 50, 40 e tal. Usa filmes de \u00e9poca, tem imagens que aparecem de caminh\u00e3o pau-de-arara, como se chamou, \u00e9 uma programa\u00e7\u00e3o de cine jornal que se chamava \u201cBandeirantes na Tela\u201d, um cine\u00a0<\/span><span class=\"Apple-style-span\">jornal da \u00e9poca dos anos 50, in\u00edcio dos anos 50, tamb\u00e9m cita um filme muito usado que \u00e9 esse do caf\u00e9 que \u00e9 de 22, voc\u00ea v\u00ea o pessoal trabalhando no caf\u00e9. E eu tamb\u00e9m fiz uma pesquisa ampla num arquivo de um colecionador de m\u00fasica e can\u00e7\u00f5es populares, n\u00e3o sei se ele est\u00e1 vivo ainda, chamado Nirei, ent\u00e3o todas as m\u00fasicas, a maior parte das m\u00fasicas usadas, fora a do Luiz Gonzaga que aparece no final, vem desse arquivo, e a m\u00fasica tema do filme que \u00e9 \u201cTem que ser Baiano&#8221; eu descobri numa loja perto ali da Pra\u00e7a da S\u00e9, foram can\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, tamb\u00e9m anos 50 basicamente. Ent\u00e3o eu fiz um mix, fui uma esp\u00e9cie de DJ audiovisual, usando imagens e sons de diversas proced\u00eancias e numa postura que n\u00e3o \u00e9 tanto do historiador no sentido mais rigoroso da palavra porque, por exemplo, tem uma seq\u00fc\u00eancia no filme onde ao mesmo tempo em que surge um texto de um deputado estadual paulista na assembl\u00e9ia constituinte de 34, onde se discutia o subs\u00eddio \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, e que diz \u201cqueremos que os nordestinos venham, a lavoura cafeeira esta precisando\u201d, esse \u00e9 um texto de 34. As imagens que n\u00f3s vemos s\u00e3o de 28. N\u00e3o \u00e9 um trabalho de historiador, mas sim de algu\u00e9m que busca mais trabalhar com a mem\u00f3ria e atrav\u00e9s desse entrecruzamento de fontes orais, imag\u00e9ticas e textuais, visa problematizar a abordagem do assunto e tamb\u00e9m suscitar interroga\u00e7\u00f5es na mente do expectador.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00c9 claro que neste sentido a imagem mais uma vez tem uma fun\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica que \u00e9 vari\u00e1vel segundo o expectador, j\u00e1 que se o espectador j\u00e1 conhece aquelas imagens isso pode ter um certo tipo de impacto, se ele n\u00e3o as conhece isso tem um outro impacto.<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0Ao mesmo tempo tem um jogo que voc\u00ea pode fazer na sua composi\u00e7\u00e3o, na composi\u00e7\u00e3o audiovisual, no conjunto do document\u00e1rio produzindo, que \u00e9 voc\u00ea mexer com a pr\u00f3pria mem\u00f3ria do expectador, por exemplo, nesse document\u00e1rio tem muitas imagens que aparecem repetidas vezes, mas elas aparecem repetidas vezes associadas de forma diferente, a outras imagens. Ent\u00e3o a primeira vez que a imagem aparece ela aparece dentro do contexto de um conjunto de imagens, associada a um certo tipo de som ou de falas, e ela ressurge depois associada a outras imagens, outras falas. Esse \u00e9 um recurso que tamb\u00e9m mexe com a mem\u00f3ria, a\u00ed no caso do expectador durante o pr\u00f3prio filme, isso \u00e9 um tipo de procedimento que eu usei e que eu acho que \u00e9 muito interessante de a gente usar quando vai fazer um document\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu fui muito influenciado por um grande cineasta arm\u00eanio, que eu n\u00e3o sei se voc\u00eas j\u00e1 ouviram falar que se chama Pelechiam. Se voc\u00eas forem reparar, todos que se chamam iam s\u00e3o de origem armena, inclusive tem um homem que vende bon\u00e9s numa das ruas ai de Porto Alegre que tem o nome iam e eu perguntei para ele e ele \u00e9 de origem armena. Mas enfim o Pelechiam, grande cineasta arm\u00eanio, muito pouco conhecido, ele veio ao Brasil numa mostra de cinema em S\u00e3o Paulo, nos anos 90 e n\u00e3o tinha um gato pingado na mostra dele porque essa coisa de divulga\u00e7\u00e3o e tal, mas \u00e9 um dos grandes montadores de cinema, ele foi redescoberto na Fran\u00e7a e na Europa nos anos 80 e ele \u00e9 um cineasta que tem uma teoria muito interessante resumida num artigo, \u00e9 a teoria da montagem \u00e0 dist\u00e2ncia. E os filmes dele me influenciaram bastante.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Na verdade ele retoma muito da grande tradi\u00e7\u00e3o de uma certa vertente do cinema sovi\u00e9tico dos anos 20, do Eisenstein e particularmente do Vertov, que \u00e9 a de que a arte da montagem busca articular n\u00e3o apenas fotogramas cont\u00edguos: como \u00e9 que se relaciona um fotograma ap\u00f3s o outro, como \u00e9 que voc\u00ea liga uma imagem ap\u00f3s a outra; mas que a arte da montagem, ou a arte dos intervalos para retomar a terminologia que o Vertov usava, ela tamb\u00e9m tem a ver em como criar uma dist\u00e2ncia entre fotogramas: como ao longo de um filme voc\u00ea pode articular fotogramas criando uma dist\u00e2ncia entre um momento e outro que passa o mesmo fotograma. Voc\u00ea muda o contexto em que o fotograma apareceu a primeira vez, em que ele \u00e9 repetido na segunda vez e isso tem uma import\u00e2ncia grande na mente do expectador e tamb\u00e9m no tipo de produ\u00e7\u00e3o de sentido que a associa\u00e7\u00e3o de imagens pode sugerir j\u00e1 que evidentemente como voc\u00eas sabem a produ\u00e7\u00e3o de sentido ela se d\u00e1 muito como na poesia no cinema pela associa\u00e7\u00e3o das imagens. No caso deste trabalho eu tinha lido e tinha visto alguns filmes do Pelechiam e aquilo ali me impressionou bastante, me influenciou bastante ent\u00e3o foi uma forma que eu tive de pensar a montagem desse filme.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu acho que o document\u00e1rio se presta muito a isso, na medida em que ele tem uma liberdade de composi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um discurso cient\u00edfico racional, que deve produzi<\/span><span class=\"Apple-style-span\">r enunciados un\u00edvocos, que tenham apenas um sentido, o document\u00e1rio em grande parte \u00e9 um discurso, visa produzir um discurso de cunho po\u00e9tico, cujo entendimento, cuja leitura n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea. A sucess\u00e3o das imagens pode querer dizer v\u00e1rias coisas, o document\u00e1rio se presta tamb\u00e9m ao uso de fontes escritas, imag\u00e9ticas e sonoras. O document\u00e1rio ele pode ser interessante tamb\u00e9m no sentido do qu\u00ea resulta do confronto entre fontes diversas, o que resulta do confronto de uma imagem, de uma fotografia antiga, de uma can\u00e7\u00e3o antiga e o discurso atual? Como voc\u00ea pode suscitar novas reflex\u00f5es, novos pensamentos, atrav\u00e9s desse confronto? N\u00e3o usar apenas uma imagem ou um som antigos, uma fotografia, apenas como um elemento de prova, como se fosse um documento jur\u00eddico, numa argumenta\u00e7\u00e3o de um advogado, uma prova pericial. A imagem fotogr\u00e1fica particularmente tem esse car\u00e1ter indicial, \u00e9 um vest\u00edgio, \u00e9 um rastro de algo que efetivamente aconteceu, ent\u00e3o tem essa dimens\u00e3o de prova, vamos dizer assim, mas ao mesmo tempo voc\u00ea pode usar essas fontes e o confronto de fontes para produzir interroga\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Outro aspecto que me parece tamb\u00e9m interessante no uso de filmes, fotos, imagens e sons de arquivo \u00e9 que, justamente como parte das imagens ou dos sons que voc\u00ea usa pode ter tido uma recep\u00e7\u00e3o por parte do seu p\u00fablico antes, voc\u00ea est\u00e1 tamb\u00e9m de alguma forma lidando com o limiar da mem\u00f3ria das pessoas, da mem\u00f3ria individual das pessoas, da mem\u00f3ria coletiva. Ent\u00e3o se voc\u00ea viu determinado filme, ou viu determinada foto emblem\u00e1tica, em determinado per\u00edodo, isso tamb\u00e9m cria um certo tipo de impacto na mem\u00f3ria do expectador.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Tem um outro aspecto tamb\u00e9m que a gente pode pensar do trabalho do documentarista neste sentido, relacionado a um trabalho de produ\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria, que \u00e9 n\u00e3o apenas a incorpora\u00e7\u00e3o de fontes pr\u00e9-existentes, sejam fotos, sejam filmes, sejam sons, m\u00fasicas, programas de televis\u00e3o. O documentarista, usando material audiovisual ou escrito pr\u00e9-existente ou n\u00e3o, ele de alguma forma est\u00e1 produzindo de uma forma consciente, um documento. Ele se preocupando no momento de editar, registrando as suas cenas, suas situa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana, de entrevistas, ele de alguma forma se preocupando em constituir uma mem\u00f3ria na medida em que o registro audiovisual se constitui efetivamente, pode se constituir em algum tipo de documento. Por isso at\u00e9 que\u2026 se bem que esse termos de document\u00e1rio n\u00e9 que hoje a gente usa comumente assim como tudo que \u00e9 n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o de alguma forma\u2026 tudo que \u00e9 n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o, ai j\u00e1 fica um pouco mais complicado, porque sei l\u00e1, \u00e9\u2026 programa de televis\u00e3o, a Xuxa, sei l\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um document\u00e1rio. Mas o termo document\u00e1rio \u00e9 um termo relativamente recente, e at\u00e9 o termo de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Para que algo se chame de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o tem que ter uma evid\u00eancia, para que a gente consiga chamar algo de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, isso pressup\u00f5e que existe algo que a gente chama de fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o isso nasceu com o cinema. J\u00e1 que document\u00e1rio pode haver document\u00e1rio biogr\u00e1fico, document\u00e1rio televisivo \u00e9 algo que vem j\u00e1 do cinema, e quando o cinema nasceu n\u00e3o existia por um lado o campo do document\u00e1rio e por outro lado o cam<\/span><span class=\"Apple-style-span\">po da fic\u00e7\u00e3o. O campo da fic\u00e7\u00e3o e o campo da n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 algo que foi progressivamente se constituindo.\u00a0<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"padding-left: 180px;\"><video controls=\"controls\" width=\"452\" height=\"452\"><source src=\"https:\/\/r8---sn-oxunxg8pjvn-2v5e.googlevideo.com\/videoplayback?id=79dc889db05c9688&amp;itag=18&amp;source=blogger&amp;mm=31&amp;mn=sn-oxunxg8pjvn-2v5e&amp;ms=au&amp;mv=m&amp;pl=48&amp;ei=_QltWs6eNoHyqAXRm4ToDg&amp;susc=bl&amp;mime=video\/mp4&amp;lmt=1233328700288740&amp;mt=1517095316&amp;ip=2804:14d:4ca6:8974:2136:ed74:305e:adba&amp;ipbits=0&amp;expire=1517124221&amp;sparams=ip,ipbits,expire,id,itag,source,mm,mn,ms,mv,pl,ei,susc,mime,lmt&amp;signature=220794162624E25CC9C3910A192F5DA3D8846F63.84253023D3DDFB75E25E93483B4C130987FFE949&amp;key=ck2&amp;cpn=0PxvDcpa0MCKHNLF&amp;c=WEB_EMBEDDED_PLAYER&amp;cver=20180125\" \/><\/video><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Mas ent\u00e3o \u00e9 esta dimens\u00e3o de documento, o documentarista deve se preocupar com a dimens\u00e3o do registro que ele \u00e9 capaz de produzir. E nesse caso, tanto quando eu fiz esse document\u00e1rio \u201cTem que ser Baiano\u201d que voc\u00eas viram, quanto muitos anos depois este outro que talvez parte de voc\u00eas vejam aqui, se tiverem paci\u00eancia de ficarem tanto tempo aqui dentro, que vai passar daqui a pouco, me preocupei de forma diversa, com essa dimens\u00e3o do registro. De que forma? Por um lado, por exemplo, no caso do \u201cTem que ser Baiano\u201d, voltando \u00e0quelas quest\u00f5es da direita conquistando o pensamento conservador, etc. isso \u00e9 algo pr\u00f3prio da sociedade brasileira, n\u00e3o \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o, por parte do pensamento conservador, e dos pol\u00edticos que tem uma atua\u00e7\u00e3o que pode ser qualificada mais conservadora, de ter um discurso ideol\u00f3gico muito expl\u00edcito em defesa de suas posi\u00e7\u00f5es conservadoras. Sabemos, geralmente s\u00e3o posicionamentos excludentes, que visam a defender os interesses de por\u00e7\u00f5es mais privilegiadas da sociedade. E n\u00f3s sabemos que a sociedade brasileira \u00e9 uma sociedade excludente. N\u00e3o \u00e9 por acaso que at\u00e9 hoje, por mais que haja um progresso neste sentido, a sociedade brasileira \u00e9 uma das sociedades mais desiguais do planeta, onde a concentra\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 maior e onde h\u00e1 uma dist\u00e2ncia mais quilom\u00e9trica entre quem ganha pouco e quem ganha muito. Enfim, n\u00e3o vou rebater aqui coisas que s\u00e3o conhecidas de todo mundo, mas o fato \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1, como na Fran\u00e7a, por exemplo, um pensamento tradicional de direita, que se afirme de direita. Aqui ningu\u00e9m diz que \u00e9 de direita. Eu achei que no contexto do tipo de discuss\u00e3o que me interessava favorecer com esse filme, desse document\u00e1rio, eu deveria registrar o pensamento conservador. Tanto o pensamento conservador de figuras que poderiam ter um discurso ideol\u00f3gico mais explicito, como s\u00e3o estes vereadores e deputados estaduais que eu entrevistei e que aparecem neste document\u00e1rio, como de pessoas comuns de S\u00e3o Paulo, percorrendo algumas ruas, de alguns bairros onde o eleitorado tradicionalmente vota na direita, como a Mooca.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Isso \u00e9 um tipo de registro, um tipo de fonte que o documentarista pode produzir, para sua finalidade imediata, o document\u00e1rio que ele vai produzir, como tamb\u00e9m a\u00ed sendo uma esp\u00e9cie de produtor de documentos para o historiador no futuro, por exemplo. Quando eu fiz o \u201cEm Tr\u00e2nsito\u201d, que \u00e9 um outro tipo de trabalho, foi um document\u00e1rio basicamente sobre o dia-a-dia de pessoas\u00a0no tr\u00e2nsito e no transporte p\u00fablico em S\u00e3o Paulo e na grande S\u00e3o Paulo, sobre os trajetos das pessoas, nos trens, metr\u00f4s, \u00f4nibus, carros, motos. Por outro lado, o filme tamb\u00e9m conta com algumas conversas, alguns di\u00e1logos de profundidade, com algumas pessoas, que partilham sempre desse dia-a-dia e que, no decorrer da conversa, se a conversa era boa, abordava outras quest\u00f5es que estavam ligadas ao dia-a-dia, que permitiam ver como \u00e9 esse dia-a-dia mais prosaico poss\u00edvel. Todo mundo tem que fazer isso, sair de casa para ir trabalhar, \u00e9 algo bastante universal digamos assim essa necessidade, bastante banal, ocorre que isso se liga com outras dimens\u00f5es da vida, sobretudo numa cidade em que as pessoas passam muito tempo fazendo isso, porque a cidade \u00e9 muito grande e porque o transporte p\u00fablico \u00e9 complicado. E tem coisas banais para a gente que vive no dia-a-dia, certamente voc\u00eas conhecem aqui Porto Alegre\u2026 \u00e9 freq\u00fcente, num sinal, num engarrafamento, enfim, voc\u00ea estar dentro do seu carro e ter gente que \u00e9 ambulante, que vende mercadorias na rua. Isso \u00e9 banal na cidade. Quando eu estava fazendo esse document\u00e1rio, no dia, por exemplo, que a gente estava gravando numa rodovia, eu fiquei pensando assim \u201cbom, mas, isso \u00e9 banal, \u00e9 cotidiano\u201d. Mas ao mesmo tempo isso \u00e9 interessante, a gente gravar o que \u00e9 banal, o que \u00e9 cotidiano, esse tipo de rela\u00e7\u00e3o humana que se estabelece neste tipo de situa\u00e7\u00e3o, que a gente acha completamente banal.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Neste sentido, o fato de ser franco-braslieiro, de ser de dois lugares, poderia ser franco-\u00e1rabe ou brasileiro-sueco, o que importa mesmo no fato de ser de dois lugares \u00e9 que ajuda voc\u00ea a ver de forma estranha o que \u00e9 o familiar, n\u00e3o \u00e9 isso? Porque \u00e9 sempre interessante voc\u00ea fazer isso, voc\u00ea olhar para o que \u00e9 banal, para o que \u00e9 \u00f3bvio, com um olhar de estrangeiro. Eu pensei na Fran\u00e7a, por exemplo, em Paris, isso n\u00e3o acontece com tanta freq\u00fc\u00eancia como acontece em S\u00e3o Paulo, no Rio ou em\u00a0outras metr\u00f3poles brasileiras, voc\u00ea ter neguinho l\u00e1 com um monte de bugigangas, bichinho de pel\u00facia e de neg\u00f3cio de celular, n\u00e3o sei o qu\u00ea, que vende e a\u00ed a pessoa no carro passa todo o dia por l\u00e1, uma mulher burguesa, ent\u00e3o a filha dela \u00e9 amiga da menininha que est\u00e1 l\u00e1 com o pai vendendo bugiganga. Normalmente esse contato n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum. Ent\u00e3o isso tamb\u00e9m eu acho que \u00e9 algo, o documentarista no presente, tentando documentar algo do dia-a-dia e registrando algo daquele dia-a-dia, pensando que esse dia-a-dia do presente pode dizer alguma coisa sobre a sociedade em que ele se encontra, e ao mesmo tempo pode vir a ser um documento no futuro, de como as pessoas viviam naquela sociedade, naquele momento. Isso evidentemente n\u00e3o fui eu que inventei, esse tipo de postura \u00e9 algo bastante presente na preocupa\u00e7\u00e3o de quem registra\u2026 a partir do momento em que o registro\u2026 a possibilidade de voc\u00ea registrar fragmentos do dia-a-dia, fragmentos do cotidiano, a partir do momento que os artefatos t\u00e9cnicos permitiram, de uma forma que isso fosse poss\u00edvel, essa id\u00e9ia j\u00e1 se encontrava.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Por exemplo, n\u00e3o sei, o grupo aqui da UFRGS deve acompanhar isso, eu por acaso estou trabalhando em alguns v\u00eddeos, em fun\u00e7\u00e3o do meu trabalho l\u00e1 na USP, e eu estava revendo esse livrinho aqui, um livro que estuda a fotografia e o document\u00e1rio alem\u00e3o e americano dos anos trinta e como naquele per\u00edodo muitos fot\u00f3grafos escreveram em revistas a id\u00e9ia de um estilo documental e como essa discuss\u00e3o n\u00e3o apenas uma discuss\u00e3o acad\u00eamica, mas isso tamb\u00e9m essa discuss<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00e3o em revistas etc. e tal resistiu porque essa \u00e9 uma pr\u00e1tica fotogr\u00e1fica no presente. Ent\u00e3o havia um di\u00e1logo entre os fot\u00f3grafos escrevendo no espa\u00e7o acad\u00eamico, e os fot\u00f3grafos vamos dizer assim produziam textos, e Isso \u00e9 algo presente, por exemplo, no projeto de uma fot\u00f3grafa americana desse per\u00edodo, dos anos trinta, que \u00e9 a Abbott, ela tem um projeto muito importante, salvo engano eu me lembro que se chamava Changing New York, \u201cNova York mudando\u201d. A id\u00e9ia era fotografar de forma sistem\u00e1tica e cont\u00ednua Nova York, porque a cidade estava evoluindo. Ent\u00e3o essa id\u00e9ia do registro, particularmente na fotografia americana dos anos trinta \u00e9 algo presente em muitos projetos, e tem muitas iniciativas.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Tem um cara que \u00e9 contempor\u00e2neo da Nouvelle Vague, muito amigo do Godard, que se chama Andr\u00e9 Labarthe. Ele fez muitos programas de TV, uma s\u00e9rie muito interessante que se chama \u201cCinema de notre temps\u201d. Eu nunca vi os trabalhos dele, mas ele conta numa entrevista que ele mora em Paris, no mesmo lugar h\u00e1 30 anos, e todo ano ele vai \u00e0 mesma esquina com uma c\u00e2mera 16 mil\u00edmetros, e ele filma durante v\u00e1rias horas aquela esquina, mais ou menos na mesma posi\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o sei se ele j\u00e1 fez alguma coisa dessa grava\u00e7\u00e3o, acho at\u00e9 que tem um filme de fic\u00e7\u00e3o de um escritor americano que retoma um pouco uma id\u00e9ia parecida, o \u201cCortina de Fuma\u00e7a\u201d. N\u00e3o sei se esse realizador americano soube dessa hist\u00f3ria do Andr\u00e9 Labarthe, mas tem algu\u00e9m que est\u00e1 fazendo isso efetivamente h\u00e1 20 anos. Ent\u00e3o essa id\u00e9ia de voc\u00ea i<\/span><span class=\"Apple-style-span\">ntencionalmente produzir no presente um registro, isso pode ser algo que \u00e9 produzido profissionalmente, com vistas a uma utiliza\u00e7\u00e3o futura, mas que n\u00e3o \u00e9 jogado na vis\u00e3o imediata dos contempor\u00e2neos. Voc\u00ea de alguma forma, como esse Andr\u00e9 Labarthe, est\u00e1 filmando, mas isso n\u00e3o est\u00e1 circulando. \u00c9 a constitui\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de arquivo, vamos dizer assim, ou voc\u00ea pode tamb\u00e9m, como \u00e9 o meu caso, voc\u00ea est\u00e1 realizando um document\u00e1rio, tentando de alguma forma documentar a sociedade em que voc\u00ea vive e fazendo circular essas imagens, mas tentando tamb\u00e9m ter um olhar ligeiramente distanciado deste dia-a-dia.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu vou ler aqui as minhas anota\u00e7\u00f5es do que eu preparei aqui um pouco para comentar e algo que eu preparei tem a ver com a correspond\u00eancia que eu troquei com a Anelise, quem \u00e9 ela aqui hoje?<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Eu estou aqui dialogando de alguma forma com algo que ela me colocou que seria interessante que eu comentasse algo sobre os itiner\u00e1rios urbanos presentes nos document\u00e1rios que eu fiz, a quest\u00e3o da sociabilidade, que eu acho que s\u00e3o temas que voc\u00eas trabalham aqui, ent\u00e3o que seria interessante falar alguma coisa\u2026<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">J\u00e1 vindo para essa quest\u00e3o que tem mais a ver diretamente<\/span><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0com o \u201cEm Tr\u00e2nsito\u201d, filme que vai passar aqui. As pessoas, efetivamente hoje em dia\u2026 S\u00e3o Paulo talvez seja um fen\u00f4meno mais sofr\u00edvel do que em outros lugares, n\u00f3s passamos hoje muito tempo em transporte e nesse tempo que n\u00f3s passamos em transporte, muitas coisas acontecem, quando estamos nos deslocando. Tanto quanto n\u00f3s nos deslocamos a p\u00e9, por um certo tipo de sociabilidade que pode acontecer, como quando estamos nos meios de transporte coletivos, como \u00f4nibus, metr\u00f4, trem, como quando n\u00f3s estamos dentro de um carro. S\u00e3o tipos de sociabilidades diferentes. Isso ent\u00e3o era algo que me interessava muito quando eu pensei em produzir um document\u00e1rio sobre essas quest\u00f5es. E ao mesmo tempo me interessei um pouco, e isso vai muito\u00a0da influ\u00eancia do De Certeau, que \u00e9 um grande etn\u00f3grafo, historiador, enfim, ele era um monte de coisa ao mesmo tempo, que \u00e9 um homem que escreveu um grande livro que chama a Inven\u00e7\u00e3o do Cotidiano, ele se interessava muito pelo qu\u00ea as pessoas fazem, como \u00e9 que as pessoas numa situa\u00e7\u00e3o em que elas n\u00e3o escolheram, vou aqui resumir de uma forma um tanto sum\u00e1ria parte das quest\u00f5es que De Certeau colocava, mas um dos aspectos que ele chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que hoje em dia, no mundo contempor\u00e2neo, as pessoas vivem em situa\u00e7\u00f5es que elas a priori n\u00e3o inventaram, mas como dentro destas circunst\u00e2ncias que elas n\u00e3o inventaram, elas conseguem inventar? Voc\u00ea passa tr\u00eas horas num \u00f4nibus para ir da zona sul de S\u00e3o Paulo, ou do centro de S\u00e3o Paulo para a zona sul. Voc\u00ea vai ficar l\u00e1 sofrendo essas tr\u00eas horas, se lamentando porque \u201cnossa, mas que desgra\u00e7a, todo dia essa desgra\u00e7a e tal\u201d ou voc\u00ea vai procurar fazer algo nessas tr\u00eas horas, voc\u00ea vai procurar reinventar algo dessa adversidade. N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem, mas esse \u00e9 um fen\u00f4meno muito interessante, acho que o hip hop aqui em Porto Alegre \u00e9 algo, pelo menos at\u00e9 recentemente pelo pouco que eu sei, e eu sei muito pouco, me parece que n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno desprez\u00edvel aqui em Porto Alegre. Se n\u00e3o \u00e9 em Porto Alegre, ainda menos em S\u00e3o Paulo. Muito do pessoal do hip hop se conheceu em \u00f4nibus, at\u00e9 um dos personagens que aparece no \u201cEm tr\u00e2nsito\u201d \u00e9 um happer que conta que nos anos 90 todo dia, ele era Office boy e tinha que ir do centro de S\u00e3o Paulo onde ele trabalhava, para a zona sul onde ele morava e que tinha um samba de primeira, toda a sexta feira, particularmente. Enfim, isso \u00e9 um certo tipo de sociabilidade\u2026<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Outra forma de sociabilidade \u00e9 a reserva, que \u00e9 algo que a Rita trabalhou bastante aqui na\u2026 no trabalho dela, enfim muita gente se interessa pelo que o Simmel tematizou, a solid\u00e3o do cidad\u00e3o metropolitano, dentro da multid\u00e3o voc\u00ea evita o contato, porque \u00e9 um excesso de contato, excesso de possibilidades de contato. Ent\u00e3o as pessoas se fecham, isso \u00e9 uma sociabilidade \u00e0s avessas, mas n\u00e3o deixa de ser um fen\u00f4meno de sociabilidade, quer dizer, voc\u00ea evita o contato, mas voc\u00ea evita o contato porque ele \u00e9 poss\u00edvel, porque h\u00e1 um excesso de contatos poss\u00edveis, voc\u00ea quer proteger\u00a0<\/span><span class=\"Apple-style-span\">a sua individualidade, e \u00e9 claro que o fen\u00f4meno mais radical disso \u00e9 o cidad\u00e3o recluso no seu autom\u00f3vel, com o seu vidro fum\u00ea, com medo de ser assaltado. Enfim, tudo isso s\u00e3o fen\u00f4menos contempor\u00e2neos de sociabilidade, voc\u00ea tem tamb\u00e9m outro tipo de fen\u00f4menos que s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es religiosas que podem acontecer particularmente nos trens, eu n\u00e3o sei se isso acontece nos trens de sub\u00farbio aqui em Porto Alegre, mas no Rio e em S\u00e3o Paulo isso \u00e9 um fen\u00f4meno muito presente, em certos tipos de linhas. Isso se d\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 claro pela necessidade que as pessoas t\u00eam de se agregar atrav\u00e9s de ritos religiosos e tamb\u00e9m pela dificuldade que elas t\u00eam de realizar isso no seu dia-a-dia fora de um espa\u00e7o mais ritualizado que \u00e9 um templo. Ent\u00e3o j\u00e1 que o meio de transporte se transformou num lugar de passagem em que se passa muito tempo, um certo tipo de sociabilidade muito espec\u00edfica se reproduz nestes meios de transporte como uma quest\u00e3o muito fundamental do mundo contempor\u00e2neo. Isso me interessou bastante.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Quanto aos trajetos, isso tem a ver tamb\u00e9m com essa quest\u00e3o, quer dizer, os trajetos que as pessoas realizam numa metr\u00f3pole s\u00e3o diferenciais, tem muito a\u00a0ver evidentemente com o tipo de grupo social ao qual voc\u00ea pertence, tem a ver com o lugar que voc\u00ea mora. Interessou-me bastante, ao mesmo tempo vendo aqui os pontos sugeridos tamb\u00e9m para eu poder dizer alguma coisa para voc\u00eas, de dialogar com voc\u00eas a partir do que a anelise sugeriu, esta quest\u00e3o dos cen\u00e1rios urbanos, como \u00e9 que a gente v\u00ea a cidade quando estamos num meio de transporte? Isso\u00a0\u00e9 um certo tipo de vis\u00e3o que se tem da cidade, voc\u00ea v\u00ea em geral a cidade emoldurada atrav\u00e9s de um quadro que \u00e9 a janela. Em geral as janelas, pelo menos dos trens de sub\u00farbio no Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, elas s\u00e3o mais opacas, s\u00e3o mais fechadas, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea muito a paisagem urbana. Em compensa\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo voc\u00ea tem o metr\u00f4 subterr\u00e2neo, mas voc\u00ea tem tamb\u00e9m o metr\u00f4 que passa, n\u00e3o sei se chama assim, na Fran\u00e7a se chamava metr\u00f4 a\u00e9reo, metr\u00f4 que passa como se fosse uma esp\u00e9cie de trem, n\u00e3o passa num t\u00fanel, ele passa no meio da cidade. A janela do vag\u00e3o \u00e9 ampla, ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea a cidade atrav\u00e9s dessa janela e tem um certo tipo de percep\u00e7\u00e3o da cidade. Da mesma forma, quando voc\u00ea est\u00e1 no \u00f4nibus voc\u00ea tem um certo tipo de vis\u00e3o atrav\u00e9s da janela. E muita gente que vive uma vida puxada, muito do desfrute visual que essa pessoa pode ter da cidade em que vive, \u00e9 um recorte fragment\u00e1rio que se d\u00e1 atrav\u00e9s do enquadramento oferecido pela janela.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Enfim, s\u00e3o muitos trajetos e muitas vis\u00f5es que voc\u00ea pode ter, a vis\u00e3o que voc\u00ea pode ter, por exemplo, o tipo de aprecia\u00e7\u00e3o visual que voc\u00ea pode ter da paisagem urbana, \u00e9 diferente se voc\u00ea circula de moto. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea ter essa experi\u00eancia sensorial \u201cna vida real\u201d, na vida que voc\u00ea realiza, na experi\u00eancia sensorial que voc\u00ea vive no seu corpo, com o seu corpo, quando voc\u00ea est\u00e1 como terr\u00e1queo,\u00a0dentro de um meio de transporte qualquer e quando voc\u00ea est\u00e1 andando. Outra cosia \u00e9 a experi\u00eancia que voc\u00ea tem desse tipo de circula\u00e7\u00e3o visual do cen\u00e1rio urbano quando voc\u00ea est\u00e1 sentado numa sala de cinema ou em frente\u00a0ao seu v\u00eddeo, quando essa paisagem urbana lhe \u00e9 oferecida para ser vista por um filme, porque ai evidentemente que o cineasta ou o videasta, qualquer que seja o termo que se use, ele pode lhe dar uma aprecia\u00e7\u00e3o, construir um movimento cin\u00e9tico de um certo tipo, ele pode recortar essa paisagem e remont\u00e1-la na cena que ele quiser de um jeito X, para produzir um certo tipo de efeito, na mente do expectador.<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Enfim, n\u00e3o sei se est\u00e1 muito fragmentado, muito misturado, o que eu estou colocando aqui para voc\u00eas, talvez seja interessante, n\u00e3o sei se h\u00e1 tempo, se houve alguma obscuridade, que eu comentei aqui de forma um tanto improvisada, se algu\u00e9m teria alguma pergunta ou\u2026 teria prazer em responder\u2026<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span class=\"Apple-style-span\">Ent\u00e3o muito obrigado pela presen\u00e7a de voc\u00eas.<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de Abertura e exibi\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios 25 de setembro 2008 &#8211; 18hs &nbsp; Tem Que Ser Baiano?\u00a0(Brasil, 1993, 42min.) 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