Bioética e Espiritismo


José Roberto Goldim


Em 09 de junho de 2003 foi realizada a primeira das entrevistas do projeto de pesquisa Bioética e Espiritualidade. Esta reunião do grupo vinculado ao Núcleo Interistitucional de Bioética foi realizada com o Prof. Cícero Marcos Teixeira versando sobre o tema do Espiritismo e de suas relações com situações da área da saúde.

Vale lembrar que os comentários apresentados a seguir visam única e exclusivamente informar e permitir que os profissionais de saúde tenham conhecimento das diferentes posições religiosas e sua influência no processo de tomada de decisão dos pacientes e familiares.

O Prof. Cícero afirmou que  "o espírito é o ser que pensa" e   denomina a consciência de o "eu consciencial". Tudo que existe no plano físico também existe no plano extra-físico.

O tema do início da vida de uma pessoa é visto pelos espíritas como uma continuidade, pois segundo esta doutrina tudo é vida. O espírito seleciona a família onde irá reencarnar com o sentido de continuar a sua trajetória. Os pais são selecionados com base em suas características e necessidades, estabelecidas em um plano para a sua nova vida. A explicação sobre a ocorrência de mal formações ou outras intercorrências, tais como mortes em fases iniciais de desenvolvimento, é a de que este foi o melhor estado possível no atual estágio. Mesmo antes da concepção propriamente dita, isto é, da fertilização do óvulo, a relação entre o futuro filho e seus pais já existe. A conexão entre o espírito e o novo corpo físico ocorre no momento da fecundação.

O final da vida do corpo físico não implica na liberação imediata do espírito. Pode ser necessário um período de 48 a 72 horas, ou mais, para que isto ocorra. Este período depende de como a pessoa encarava a sua relação com o corpo físico, da sua relação de apego. Na doutrina espírita, a rigor, ninguém morre, apenas ocorre uma transmutação. O corpo físico morre, mas a consciência continua. As intervenções que são feitas no corpo neste período são sentidas pela consciência, inclusive as dores e sofrimentos.

Na área de transplantes esta concepção de morte e separação do espírito tem uma importante implicação. A doação de órgãos de um cadáver somente poderia ocorrer após a liberação do espírito.  Outro importante ponto a ser lembrado é que a doação de órgãos deve sempre ser fruto da vontade do doador. Caso contrário pode haver um apego com relação o órgão transplantado. Este apego, mesmo após a separação física do órgão e colocação em um receptor pode gerar fenômenos não esperados de rejeição deste enxerto. A doação de órgãos, manifestada em vida, é um ato de amor.

Algumas práticas espíritas como oração e passes também foram brevemente comentadas.  oração demonstra o poder energético da palavra, a sua importante função de comunicação com o mundo maior. O passe é considerado pelos espíritas como uma transfusão de energia.

Inúmeros destes pontos brevemente apresentados tem implicações na prática dos profissionais de saúde. A Bioética, dentro de uma proposta pluralista e interdisciplinar, que lhe é inerente, tem o dever de entender os diferentes posicionamentos a partir da perspectiva espírita, assim como das demais denominações religiosas.

Inúmeros outros pontos importantes foram abordados discutidos em maior profundidade. Estas informações serão apresentados na sua íntegra com a transcrição e edição do conteúdo da entrevista, que será futuramente divulgada.


Bioética e Espiritualidade
Página de Abertura - Bioética

Texto atualizado em 09/06/2003
(c)Goldim/2003