O Espirito do Tempo - 2: Música, Literatura e Bioética
A influência da Década de 1960 e o surgimento da Bioética Norte-Americana

Sala de Música - Multipalco Eva Sopher do Theatro São Pedro

23 de outubro de 2018  19h30min


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Considerações sobre o Espírito do Tempo, a Música, a Cultura e a Bioética
José Roberto Goldim – biólogo

Luciano Albo - músico - violão e baixo

Ayres Potthoff - músico - flauta

 

Programa

1968

Keith Richards & Mick Jaeger (1968) - Sympathy for the Devil
 

Nesta segunda oficina continuamos a resgatar a importância de refletir sobre o Espírito do Tempo. O termo Zeitgeist,  proposto por Johann Gottfried Herder, em 1793 se refere às "opiniões, costumes e hábitos predominantes de um tempo ". Georg Wilhelm Friedrich Hegel  utilizou Geist der Zeiten, ou o Espírito dos Tempos, como expressão da cultura de um povo. Esta mesma expressão já havia sido utilizada, inúmeras vezes, por Johann Wolfgang von Goethe, especialmente no início de Fausto. Na década de 1960, Edgar Morin, retomou este tema ao publicar L'Esprit du temps, no sentido de buscar entender o fenômeno da "cultura de massa".

É neste sentido que é importante entender o que ocorreu na década de 1960. É deste imenso conjunto de movimentos sociais, culturais, artísticos, científicos e políticos que surge a possibilidade de retomar a discussão da Ética, não mais como uma expressão da Moral, não mais pelo significado das palavras, mas sim como uma busca de adequação para as nossas ações. Este conjunto de condições gerou o surgimento da Bioética Norte-Americana. Ela surge em três diferentes locais com três diferentes enfoques. Em 1969, Daniel Calahan, filósofo, e Willard Gaylin, psiquiatra, criam um instituto de pesquisa em Bioética - Hastings Center - para ser um local de reflexão sobre os aspectos éticos associadas às questões da sociedade, da saúde, do ambiente. Em 1970, com fundos doados pela família Kennedy, Andre Hellegers, médico ginecologista,  criou o Instituto Kennedy de Ética, na Universidade Georgetown, em Washington DC. É uma instituição acadêmica cujo foco inicial era a reflexão bioética sobre a questão da reprodução humana. Finalmente, na Universidade de Wisconsin, Van Rensselaer Potter, químico, publica as suas reflexões sobre a necessidade de uma discussão ética mais abrangente sobre diferentes temas de impacto, naquel época, especialmente sobre a discussão de valores associados à geração de conhecimentos científicos.

Três origens independentes, três focos complementares, três propostas que geraram uma ampla discussão mundial e têm impacto até os dias de hoje.

 

Paul McCartney (1968) - Blackbird


The Beatles foi uma das grandes expressões da cultura de massa dos anos 1960. Vale lembrar que a carreira dos Beatles foi fugaz, durou de 1960 a 1970, mas o seu legado permanece ao longo de todos estes anos que se passaram. Blackbird era uma expressão pejorativa para os escravos negros norte-americanos. A música, inspirada um uma melodia de Johan Sebastian Bach - Bourée em mi menor - foi uma homenagem a Martin Luther King Jr, que estava liderando o movimento de direitos humanos, especialmente das populações negras. Na França, neste mesmo ano, 1968, ocorria a revolta dos estudantes contra as condições de ensino vigentes nas universidades. Uma das lideranças deste movimento foi Daniel Cohn-Bendit. Ou seja, diferentes locais, diferentes causas, diferentes motivações, todas buscando



Caetano Veloso (1969) - É Proibido Proibir

A música É Proibido Proibir de Caetano Veloso foi uma ruptura. No III Festival Internacional da Canção (III FIC), em 15 de setembro de 1969, Caetano Veloso fez um discurso em resposta à vaia, que ele e os Mutantes estavam recebendo por parte do público, tendo sido inclusive agredido fisicamente. Este era o clima de confronto entre realidades que conviviam, mas se enfrentavam. Era a ruptura com a sociedade da disciplina, era a consequência da nova tendência da Educação dos anos 1960.
No início da década, A.S. Neil propôs a nova escola baseada na Liberdade sem medo. Onde a disciplina era substituída pela responsabilidade. No Brasil, despontavam as ideias de Paulo Freire, que propunha que a Educação tinha que ser libertadora. No final da década de 1960, dois pedagogos norte-americanos, estabeleciam as bases para uma educação argumentativa, que gerava e nascia da contestação. Ou seja, a educação que, ao invés de disciplinar, desinstalava o aluno e o professor. Esta foi a mesma proposta da Revolta de maio de 1968 em Paris.

 

Roberto Carlos & Erasmo Carlos (1964) - É Proibido Fumar


Neste período também havia uma confusão entre liberdade e liberalidade. A música É Proibido Fumar bem expressa esta confusão, por meio de ambiguidades na sua letra. Foi na década de 1960 que começaram as campanhas de proibição ao tabagismo, apesar da relação entre o tabaco e o câncer já ser conhecida desde a década de 1950. O que antes era um símbolo de diferenciação social passou a ser um fator de risco para doenças graves. Era o início de uma fase triunfante da Medicina, com a criação das UTIs, com a utilização de novas drogas, especialmente antibióticos, que dominavam doenças, antes tidas como degradantes. Já era possivel tratar a maioria das doenças sexualmente transmissíveis. O surgimento da pílula anticoncepcional, ENOVID, produzida com base nas pesquisas de Gregory Pincus, provocou uma possibilidade antes inexistente: o controle de natalidade por parte da mulher. Passou a ser possível ter uma vida sexual ativa sem o risco de uma gestação. Problemas de saúde insolúveis passaram a ter solução com o desenvolvimento de transplantes de órgãos. A culminância deste processo foi a realização do transplante cardíaco na África do Sul, realizado pelo médico Christian Barnard, em 1967. Os transplantes de rim e fígado que já vinham sendo realizados, não tiveram o impacto do realizado com o coração. Isto pode ser devido ao papel fisiológico desempenhado por este órgão, ou por seu aspecto simbólico. Esta repercussão gerou a necessidade de repensar um dos maiores mistérios da vida humana: a morte. A criação das UTIs e a possibilidade de realizar transplantes a partir de pacientes falecidos fez com que se questionasse o critério até então utilizado de parada irreversível do funcionamento do coração e dos pulmões. Em 1968 foram propostos critérios encefálicos para o estabelecimento da morte. O impacto desta mudança foi em muito atenuado por uma declaração do Papa Pio XII, realizada em 1957, onde afirmou que o estabelecimento dos critérios e do momento da morte são técnicos e não morais.


 

Caetano Veloso (1967) - Alegria, Alegria

 

Caetano Veloso expressou em Alegria, Alegria, a ruptura de convenções sociais: sair sem documentos, sem nada nos bolsos ou nas mãos... Na letra da música, entre tantas citações, são lembrados os avanços científicos, o crescente volume de informações e a chegada das cores aos meios de comunicação social.
Na década de 1960 houve um incremento na corrida espacial. Iuri Gagarin, no início da década foi o primeiro ser humano a ir ao espaço, mas ainda neste mesmo período, Neil Armstrong foi o primeiro a tocar o solo da Lua. As repercussões da miniaturização de equipamentos e do desenvolvimento de novos materiais são percebidas até hoje. Marshal McLuhan anteviu a possibilidade da "aldeia global", da importância que os meios de comunicação social passariam a ter na vida de cada pessoa e da sociedade como um todo. Foi uma antevisão do cenário atual da comunicação associada às novas tecnologias da informação. Isto já foi possível de testar com a criação da ARPANet. Esta primeira interligação de computadores, proposta pelo Departamento de Defesa Norte-Americano, integrava bases militares e departamentos do governo. Posteriormente, com a entrada das universidades e outras instituições não-militares, deu origem a INTERNET.
Estes são apenas alguns temas que foram objeto de reflexão e ação na década de 1960, outros poderiam ser citados, como: o pensamento feminista; a violência e a guerra; a origem do princípio da precaução na Ética; as discussões sobre o impacto do desenvolvimento econômico e social sobre o ambiente; as discussões teóricas sobre a alteridade, o significado dos símbolos, da representação da loucura, da visão unidimensional das pessoas; a introdução da noção de sistema, da desconstrução e da nova sociedade baseada em relações de aparência, denominada de Sociedade do Espetáculo. Nas artes a confusão das fronteiras da realidade e da ficção estavam presentes e grandes fenômenos de massa se estabeleceram, como o Festival de Woodstock. Muitas antecipações e referenciais teóricos foram ali propostos e consagrados.

Este foi o Espírito do Tempo que provocou a necessidade de discutir as questões éticas, não mais em uma perspectiva meramente moral nem de significado atribuído às palavras, mas sim de busca de justificativa para as ações humanas. Ao rediscutir a Ética o retorno às questões associadas ao bem e ao mal, da busca da felicidade voltaram a ser importantes.
 

 

Arnaldo Baptista & Rita Lee (1972) - Balada para um Louco

 

A música composta por Arnaldo Baptista e por Rita Lee, em 1972, resume a década de 1960. Não se deve confundir esta música com outra de mesmo título - Balada para un Loco - composta por Astor Piazzolla em 1969, com base em um poema de Horacio Ferrer. Este poeta uruguaio afirmava que "os versos não são para ler, são para ouvir como a música", e completava que a poesia é "musica que se fala". Ambas se relacionam ao pensamento de Michel Foucault, que havia teorizado sobre a loucura no início dos anos 1960. Nas duas composições existe esta quase recitação da letra, da fala com a música, do insano com a sanidade, do alçar voo, da busca da felicidade. Deste desconforto é que surge a possibilidade de repensar questões importantes para a sociedade, para a saúde, para o ambiente, para a questão dos valores associados às práticas científicas, ou seja, da nova reflexão proposta pela Bioética norte-americana.

Antonio Carlos Jobim & Vinicius de Morais (1958) - A Felicidade 

Vinicius de Morais reflete na letra desta música a grande questão da tristeza e da felicidade. Da tristeza que é duradoura e da felicidade que é fugaz. É a rediscussão da proposta de Aristóteles
de que o mal nos acompanha e de que a virtude exige esforço. Ao final da letra é reconhecido que a felicidade é "delicada", que merece ser cuidada e tratada "sempre muito bem".
É nesta reflexão entre o bem e o mal que a proposta da Bioética prospera e ganha .  A partir do seu ressurgimento, no início dos anos 1970, a Bioética passa a ter crescente 

espaço na sociedade, primeiro no ambiente restrito das universidades, depois nos hospitais e finalmente nos temas que envolvem múltiplas questões que abrangem interesses sociais diversos. Deste ambiente conturbado, fértil e perturbador da década de 1960 que surge a possibilidade da Bioética se consolidar como uma experiência interdisciplinar, intercultural, plural e complexa.

Encerramento

É importante agradecer a todos que colaboraram na realização da segunda oficina O Espírito do Tempo. Desde os músicos Ayres Potthoff e Luciano Albo, assim como toda a equipe de produção e de apoio, a Associação de Amigos do Theatro São Pedro, funcionários do Theatro São Pedro e da Fundação Médica do Rio Grande do Sul.

No ano que vem termos a próxima edição da série O Espírito do Tempo: Música, Literatura e Bioética, que será sobre a A Virada do Século XXI e a Bioética Contemporânea.

Boa noite e obrigado a todos!

 

NOME DA ATIVIDADE

O ESPIRITO DO TEMPO 2: MÚSICA, LITERATURA E BIOÉTICA

 

A influência da Década de 1960 e o surgimento da Bioética Norte-Americana

FICHA TÉCNICA

Direção:

José Roberto Goldim

Márcia Santana Fernandes

Direção Artística:

Ayres Potthoff


Elenco:

Comentários:

José Roberto Goldim

Flauta:

Ayres Potthoff

 Violão e Baixo:

Luciano Albo
Produção Executiva:

Márcia Santana Fernandes:

Design Gráfico

Laura Goldim
Imagens:

Júlia Cazarré
           Natália da Rocha Pimentel

Equipe de Apoio:

Bruna Borba Neves
Bruna Genro
Bruna da Silva Conter

Bruna Caldart de Melo

Christina Hallal Alves Gazal

Daniel Tietbohl

Larissa Roso

Luciana de Almeida da Cunha

Luciane Cristina Vieira

Marianna Gazal Passos

Patrícia Fraga

Apoiadores:

·       Núcleo Interinstitucional de Bioética – HCPA

·       Escola de Medicina da PUCRS

·       Programa de Pós-Graduação em Direito da PUCRS

·       Fundação Médica do Rio Grande do Sul

·       Casa da Música

·       Instituto de Estudos Culturalistas – IEC

·       Escola Superior de Magistratura – ESM/RGS

 

 

Roteiro completo do evento disponível em
https://www.ufrgs.br/bioetica/zeitgeist2.pdf


Página de Abertura - Bioética
Incluído em 24/10/2018, atualizado em 11/08/2019
©Goldim/2018-2019