Bioética, Relações Familiares e Envelhecimento
 José Roberto Goldim

Quem disse que o corvo
é negro e feioso?
Saibam que ele retribui
o amor de seus pais

Alimentando-os
quando velhos.
Não é mesmo
de admirar?

O homem não chega aos pés do corvo
Este é o motivo
do meu lamento

Bak Hyo-gwan (1781-1880)
In: Im YJ, Marsicano A. Sijô. Saõ Paulo: Iluminuras, 1994:84

As relações familiares sempre foram um importante ponto de questionamento de diferentes culturas. Com o aumento da expectativa de vida da população, com a redução do âmbito familiar e com as crescentes demandas de trabalho e sobrevivência estas questões estão cada vez mais atuais.

Em uma pesquisa realizada nos EUA, citada em palestra proferida por Ronald Green, durante o III Congresso Brasileiro de Bioética, foi perguntado para uma amostra de adultos norte-americanos sobre a opção entre manter os familiares velhos em casa recebendo uma complementação de renda por esta tarefa ou mantê-los em instituições, com acréscimo de impostos, para gerar os recursos necessários. A opção mais freqüente foi a segunda, a de institucionalizar mesmo com o acréscimo de custos gerados por impostos. Nancy S. Jecker  propõe que a maioria das pessoas concorda que os pais tem deveres especiais para com seus filhos, mas existem opiniões variada sobre se os filhos adultos tem deveres para com seus pais que envelheceram.

Meyers e colaboradores defendem a existência destes deveres especiais. Eles apresentam vários fundamentos para a responsabilidade dos filhos adultos para com seus pais: gratidão, reciprocidade e deveres para com pessoas vulneráveis. Aristóteles, na Ética a Nicômacos, propunha que a dívida dos filhos para com os seus pais era impagável, aceitando a tese de que os filhos devem amparar os pais envelhecidos. Ele propunha que "quando se trata de prover a subsistência, temos de ajudar nossos pais antes de quaisquer outras pessoas, já que lhes devemos a nossa subsistência até certa idade".

Jane English acha que os filhos não devem qualquer obrigação para com seus pais por virtude, simplesmente por serem filhos. Ela defende a idéia de que “os deveres dos filhos adultos são aqueles dos amigos, e resultam do amor entre eles e seus pais, ao invés de ser uma obrigação de retribuição aos sacrifícios anteriores de seus pais”. Desta forma, a relação dos filhos com seus pais seria suprarrogatória.

A possibilidade atual de convivência simultânea de várias gerações de uma mesma família faz com que sejam colocados lado a lado diferentes visões de mundo e valores. Muitas vezes os velhos, por terem menos humildade, de acordo com Álvaro Valls, ou por reduzirem a sua flexibilidade a mudanças, tem dificuldade em se adaptar a esta diversidade. A onipotência típica dos mais jovens aliada a menor flexibilidade dos mais velhos gera um cenário propício para o estabelecimento de conflitos. Esta situação de perda de humildade e de ocupação de espaços de poder nas famílias foi magistralmente expressa por William Shakespeare, em Rei Lear. A situação de repassar o poder para a geração seguinte, sem contudo abrir mão do poder propriamente dito, pode levar a situações de conflito. Os filhos que agora detém o poder, seja ele em que instância ou abrangência, podem exercê-lo também de forma impiedosa sobre os seus próprios pais, configurando situações de abuso.

Outra situação possível, resultante da convivência prolongada, é a dos pais que são cuidados por seus filhos que também já são velhos. Os filhos mantém seu papel de cuidador mesmo na velhice, sem nunca terem tido a chance, após a vida adulta de serem, eles próprios, cuidados. A motivação do cuidador é muito importante. Quando este cuidado é exercido por amor ele tem todo um significado positivo, de reconhecimento, porém quando feito apenas por dever passa ter conotação totalmente diversa, de obrigação, de uma simples retribuição.

As relações familiares não se tornam diferentes com a possibilidade da pessoas viverem mais tempo, apenas tornam-se mais complexas devido ao número crescente de pessoas interagindo. O aumento no número de interações propicia uma maior possibilidade de relações caóticas, de acordo com Edgar Morin. A forma de organizar estas relações, visando atingir uma nova ordem, é feita muitas vezes pela redução do número de participantes, excluíndo os mais vulneráveis, os velhos ou as crianças. No passado as crianças eram facilmente afastadas do convívio da família, basta relembrar inúmeras estórias infantis, como João e Maria. Atualmente, com o reconhecimento de que os adultos tem deveres para com as crianças, é facilmente aceito reduzir as interações com os mais velhos, alijando-os do convívio. Na verdade, a nova ordem pode surgir justamente por uma estratégia oposta, de inclusão de todos no processo, reconhecendo suas diferenças e possíveis contribuições. Desta forma, o número de estratégias de como lidar com situações de conflito seria ampliado, permitindo maior possibilidade de sobrevivência de um vínculo familiar bom para todos.
 
 



Referências Bibliográficas

Aristóteles. Ética a Nicômacos. Brasília: EDUNB, 1985.

Nelson HL, Nelson JL. The patient in the family: an ethics of Medicine and families. New York: Routledge, 1995:74.

Jecker NS. Family relationships. In: Reich WT. Encyclopedia of Bioethics. 2 ed. New York: Simon & Schuster Macmillan, 1995.

English J. . "What Do Grown Children Owe Their Parents?" In Aging and Ethics: Philosophical Problems in Gerontology.  Edited by Nancy S. Jecker. Clifton, N.J.: Humana, 1991:147-154.

Meyers DT,. Kipnis K, Murphy CF.  Kindred Matters: Rethinking the Philosophy of the Family. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1993.

Morin E. Idéias contemporâneas. São Paulo: Ática, 1989:33-40.



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Texto atualizado em 22/08/2004
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