José Roberto Goldim
No período de
Este estudo envolveu 696 participantes que eram pacientes psiquiátricos
internados, presidiários, soldados e prostitutas com o objetivo de avaliar o
uso da penicilina em doenças venéreas como sífilis, gonorréia e cancro. Alguns destes indivíduos participou de mais de um
experimento.
No estudo de sífilis, que teve 532 participantes, foi permitido que
um grupo de prostitutas intencionalmente inoculadas com o Treponema
pallidum tivesse autorização para
realizar visitas íntimas a presidiários. A prostituição era reconhecida
legalmente na Guatemala e as visitas íntimas para presidiários eram permitidas.
Porém esta estratégia de contaminação não teve a resposta esperada. Houve uma
alteração no projeto original e foi feita a inoculação direta e intencional em
presidiários e em pacientes com problemas psiquiátricos. Esta inoculação era
feita através de injeções subcutâneas de Treponema pallidum ou pela exposição do pênis dos apenados e
pacientes a material infectado.
Os 497 indivíduos infectados de sífilis, cerca de
93% dos expostos, de acordo com o projeto, deveriam ser tratados com
penicilina, que ainda estava sendo testada quanto a sua segurança e eficácia em
várias doenças. Nos registros obtidos nos arquivos do USPHS não são relatados
adequadamente os resultados destes tratamentos. Parte dos indivíduos
infectados foram tratados adequadamente (26%), os demais ou foram tratados
de forma inadequada ou nem tratados.
Existem relatos de eventos adversos, incluindo 71
mortes. Na maioria dos casos é
difícil relacionar as mortes ao efeito da penicilina devido a
presença de inúmeras comorbidades, tais como epilepsia,
tuberculose.
Como incentivo à participação no projeto eram oferecidos cigarros.
Os estudos sobre gonorréia e cancro foram realizados em 142 soldados
guatemaltecos e doentes mentais. A inoculação dos agentes infecciosos seguiu os
mesmos passos do estudo sobre sífilis. Inicialmente foi tentada a transmissão
sexual com prostitutas inoculadas intencionalmente e após com a inoculação intrauretral direta. Nestes estudos foram utilizadas a
penicilina e o sulfathiazol em 129 (93%)
participantes.
Não foi obtido consentimento dos participantes destes estudos, que
sequer sabiam que estavam participando de um projeto de pesquisa. Os
pesquisadores alegaram que eles não teriam condições de entender o que estava
sendo proposto. Justamente por serem vulneráveis – prostitutas, presidiários,
pacientes psiquiátricos e soldados – estes participantes deveriam receber
proteção adicional durante o processo de obtenção do consentimento.
Os resultados deste estudo foram descritos no Syphilis Summary
Report, mas nunca foram publicados. Os pesquisadores envolvidos nos
experimentos da Guatemala realizaram outros estudos envolvendo sífilis neste
mesmo país, com crianças de orfanatos, pacientes com hanseníase e escolares. Estes
estudos foram publicados e 1952 e 1953.
O Dr. John Cutler após este estudo foi
pesquisador do Estudo de Sífilis de Tuskegee. Em 1988
publicou um artigo, em conjunto com RC Arnold, publicado no Journal of Public
Health, avaliando a história do controle das doenças venéreas, buscando
estabelecer um paralelo com o então enfrentamento da epidemia de AIDS. O título do artigo - Venereal
Disease Control by Health Departments in the Past: Lessons for the Present –
era sugestivo.
Estes dados foram obtidos acidentalmente pela Dra. Susan
M. Reverby, historiadora de idéias do Wellesley College, que coletava
informações sobre o Estudo de Sífilis de Tuskegee nos
arquivos do USPHS. Ela já
publicou dois livros sobre o
Estudo de Tuskegee.
Cutler JC, Arnold RC. Venereal
disease control by health departments in the past: lessons for the present. Am J Public Health. 1988;78(4):372-6.
O Caso Tuskegee:
quando a ciência se torna eticamente inadequada
Ética Aplicada à Pesquisa em Saúde (aula)
Página de Abertura - Bioética
Atualizado
em 11/10/2010
©Goldim/2010