Caso Estudo de Doenças Venéreas na Guatemala



José Roberto Goldim


No período de 1946 a 1948 o pesquisador norte-americano John Cutler, vinculado ao Laboratório de Pesquisas em Doenças Venéreas (Venereal Disease Research LAboratory – VDRL) do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos (USPHS), realizou um estudo sobre sífilis em populações vulneráveis da Guatemala.  Este estudo foi patrocinado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) e foi realizado em conjunto com pesquisadores da Guatemala, como o Dr. Juan Funnes, da Saúde Pública da Guatemala. A supervisão do estudo foi dos Drs. RC Arnold e JF Mahoney do mesmo Laboratório do Dr. Cutler. Vale lembrar que neste Laboratório foram estabelecidas as bases de tratamento da sífilis com o uso de penicilina e o teste diagnóstico de sífilis que recebeu a denominação do próprio Laboratório – VDRL. No ano de 1947, os três pesquisadores norte-americanos – Cutler, Mahoney e Arnold – publicaram pelo menos três artigos sobre tratamento de sífilis em coelhos e em pacientes.

Este estudo envolveu 696 participantes que eram pacientes psiquiátricos internados, presidiários, soldados e prostitutas com o objetivo de avaliar o uso da penicilina em doenças venéreas como sífilis, gonorréia e cancro. Alguns destes indivíduos participou de mais de um experimento.  

No estudo de sífilis, que teve 532 participantes, foi permitido que um grupo de prostitutas intencionalmente inoculadas com o Treponema pallidum tivesse autorização para realizar visitas íntimas a presidiários. A prostituição era reconhecida legalmente na Guatemala e as visitas íntimas para presidiários eram permitidas. Porém esta estratégia de contaminação não teve a resposta esperada. Houve uma alteração no projeto original e foi feita a inoculação direta e intencional em presidiários e em pacientes com problemas psiquiátricos. Esta inoculação era feita através de injeções subcutâneas de Treponema pallidum ou pela exposição do pênis dos apenados e pacientes a material infectado.

Os 497 indivíduos infectados de sífilis, cerca de 93% dos expostos, de acordo com o projeto, deveriam ser tratados com penicilina, que ainda estava sendo testada quanto a sua segurança e eficácia em várias doenças. Nos registros obtidos nos arquivos do USPHS não são relatados adequadamente os resultados destes tratamentos. Parte dos indivíduos infectados foram tratados adequadamente (26%), os demais ou foram tratados de forma inadequada ou nem tratados.  

Existem relatos de eventos adversos, incluindo 71  mortes. Na maioria dos casos é difícil relacionar as mortes ao efeito da penicilina devido a presença de inúmeras comorbidades, tais como epilepsia, tuberculose.

Como incentivo à participação no projeto eram oferecidos cigarros.

Os estudos sobre gonorréia e cancro foram realizados em 142 soldados guatemaltecos e doentes mentais. A inoculação dos agentes infecciosos seguiu os mesmos passos do estudo sobre sífilis. Inicialmente foi tentada a transmissão sexual com prostitutas inoculadas intencionalmente e após com a inoculação intrauretral direta. Nestes estudos foram utilizadas a penicilina e o sulfathiazol em 129 (93%) participantes.

Não foi obtido consentimento dos participantes destes estudos, que sequer sabiam que estavam participando de um projeto de pesquisa. Os pesquisadores alegaram que eles não teriam condições de entender o que estava sendo proposto. Justamente por serem vulneráveis – prostitutas, presidiários, pacientes psiquiátricos e soldados – estes participantes deveriam receber proteção adicional durante o processo de obtenção do consentimento.

Os resultados deste estudo foram descritos no Syphilis Summary Report, mas nunca foram publicados. Os pesquisadores envolvidos nos experimentos da Guatemala realizaram outros estudos envolvendo sífilis neste mesmo país, com crianças de orfanatos, pacientes com hanseníase e escolares. Estes estudos foram publicados e 1952 e 1953.

O Dr. John Cutler após este estudo foi pesquisador do Estudo de Sífilis de Tuskegee. Em 1988 publicou um artigo, em conjunto com RC Arnold, publicado no Journal of Public Health, avaliando a história do controle das doenças venéreas, buscando estabelecer um paralelo com o então enfrentamento da epidemia de AIDS. O título do artigo - Venereal Disease Control by Health Departments in the Past: Lessons for the Present – era sugestivo.

Estes dados foram obtidos acidentalmente pela Dra. Susan M. Reverby, historiadora de idéias do Wellesley College, que coletava informações sobre o Estudo de Sífilis de Tuskegee nos arquivos do USPHS. Ela já publicou dois livros sobre o Estudo de Tuskegee.    


Reverby SM. “Normal Exposure” and Inoculation Syphilis: A PHS “Tuskegee” Doctor in Guatemala, 1946-48. Journal of Policy History Special Issue on Human Subjects. January 2011

Mahoney JF, Arnold RC, Harris A: Penicillin treatment of early syphilis: A preliminary report. Vener Dis Inform 1943; 24:355-357.

Cutler JC, Arnold RC. Venereal disease control by health departments in the past: lessons for the present. Am J Public Health. 1988;78(4):372-6.

O Caso Tuskegee: quando a ciência se torna eticamente inadequada 
Ética Aplicada à Pesquisa em Saúde (aula) 
Página de Abertura - Bioética

Atualizado em 11/10/2010
©Goldim/2010