Anti-inflamatórios e batata doce, really?

Você já sentiu aquela dor chata de uma unha encravada ou mesmo de uma espinha inflamada e recorreu a anti-inflamatórios? Também deve adorar aquela batata doce caramelizada feita pela vó ou pela mãe, não? E neste momento deve estar se perguntando qual a relação de anti-inflamatórios e batata doce…

Bem, foram encontradas algumas moléculas nas folhas ou caules da batata doce possuindo ação anti-inflamatória, que foram chamadas de ipomatosídeos (devido ao nome científico da batata doce, Ipomoea batatas). Mas se você acha que agora poderá deixar de usar medicamentos com ação anti-inflamatória e passar a usar chazinho de batata doce, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Essas moléculas possuem pouca ação, e tiveram sua atividade demonstrada somente em laboratório. Para o desenvolvimento de novos fármacos, são necessários muitos estudos adicionais. Por exemplo, a determinação de como os ipomatosídeos exercem suas ações. Ou, se fármacos são chaves que abrem “portas” em nosso corpo (ou sejam exercem uma função), precisamos saber como os ipomatosídeos se encaixam nessas “portas” (proteínas, neste caso uma proteína chamada ciclooxigenase ou, pra resumir, COX). E aí, novamente, entra a bioinformática.
Para os Ipomatosídeos, nosso grupo de pesquisas estudou como deve ser a forma dessas moléculas no nosso corpo, e como ocorre a sua interação com a COX (se você tiver curiosidade, o link para o trabalho é http://www.mdpi.com/1420-3049/19/4/5421). Quando pensamos em como as moléculas devem estar no nosso corpo, devemos imaginar um filme, no qual a forma da molécula muda com o tempo (se você tiver curiosidade, dê uma conferida no link a seguir pra ter uma idéia https://youtu.be/ckTqh50r_2w). Essas várias formas (chamadas de conformações) podem se encaixar na proteína (a fechadura na nossa analogia, em que os ipomatosídeos são as chaves). Na verdade, a COX possui duas fechaduras, mas demonstramos que as moléculas da batata dose se ligam a só uma dessas fechaduras. E pra que isso serve?

Ipomatosídeo (verde) interagindo com a COX (azul). As moléculas são representadas esquematicamente como ‘surface’.

Ipomatosídeo (verde) interagindo com a COX (azul). As moléculas são representadas esquematicamente através de suas superfícies.

Exemplo do “filme” que descreve o comportamento de moléculas em nosso corpo.

Moléculas isoladas de plantas normalmente não são muito úteis no tratamento de doenças antes de serem modificadas quimicamente. São como que chaves que entram muito frouxas em uma fechadura, e não a abrem muito bem. Para que a “porta”se abra bem, sempre, precisamos realizar uma série de modificações nesse encaixe “chave-fechadura”. E nesse trabalho mostramos justamente como esse encaixe ocorre, átomo por átomo. É o primeiro passo, antes de começarmos a modificar essa molécula para se tornar uma “chave” melhor e, a partir daí, quem sabe um novo fármaco. Quem sabe no futuro além de comermos batata doce, poderemos usar esta planta para diminuir nossa dor. Ótimo não?

 

Texto de Pablo Ricardo Arantes