A importância das publicações científicas em tempos de crise pandêmica

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Sem dúvida, estamos vivendo um período de grandes desafios para o campo da ciência médica. A epidemia do COVID-19 é uma situação emergente e em rápida evolução que trouxe à tona conceitos científicos que não eram mais relevantes. Por um longo período, não vivenciamos situações que apresentavam uma taxa de mortalidade tão alta afetando populações inteiras ou doenças que seguiam seus cursos naturais com poucas perspectivas de tratamento ou reversão de sua apresentação clínica.

Embora estejamos acostumados ao conceito de evidência científica que é preferencialmente baseada em grandes ensaios clínicos que levam anos para serem concluídos, agora devemos confiar em estudos de caso, estudos de coorte único e até mesmo na opinião de especialistas. No entanto, sabemos que não podemos perder de vista os critérios para a medicina baseada em evidências e devemos lembrar de avaliar todos os vieses possíveis existentes nesse tipo de informação científica sem limitar sua divulgação. Cada informação sempre tem algum valor, propondo novas hipóteses, expandindo o debate e evoluindo para uma nova pesquisa científica de qualidade.

Com relação à situação atual, quase 2.000 artigos com referência ao COVID-19 foram registrados no banco de dados PubMed desde o início de 2020. Eles incluem estudos de laboratório, relatórios clínicos, diretrizes, editoriais com opiniões de especialistas e vários estudos observacionais. Esses estudos mostram evidências observacionais iniciais sobre possíveis tratamentos farmacológicos ou o uso de métodos prolongados de suporte respiratório como forma de evitar a mortalidade, morbidade ou até mesmo diminuir alguns desfechos secundários, como a carga viral. Vários tratamentos potenciais para o COVID-19 foram descritos, incluindo medicamentos já utilizados para HIV e malária, compostos experimentais que trabalham contra uma série de vírus em experimentos com animais e plasma rico em anticorpos de pessoas que se recuperaram da doença. Outros estudos dedicam-se à identificação de grupos de risco e aos vários fatores envolvidos – chegando até mesmo a propor pontuações/escalas que determinam a melhor alocação de recursos e intervenções clínicas de acordo com o status real dos pacientes.

A partir desses dados, também podemos observar a rápida resposta da comunidade científica internacional através da proposta e do início de estudos clínicos aleatórios e multicêntricos que vão rapidamente determinar a perspectiva real do uso de vários tipos de tratamento. Além de todos esses esforços, o desenvolvimento de vacinas antivirais está conectando vários grupos em todo o mundo, representando um desenvolvimento necessário para a prevenção e erradicação do COVID-19.

Essa nova situação exige que os periódicos científicos garantam a publicação rápida das informações existentes, mas, ao mesmo tempo, assegurem a qualidade e identifiquem os possíveis vieses e limitações dos dados publicados. Como uma força-tarefa de grande relevância, os editores científicos devem filtrar o material existente, sem deixar de confiar no processo de revisão por pares, e devem fornecer imediatamente uma resposta aos autores e fornecer recursos para a publicação dos dados.

Nesse sentido, os benefícios das publicações de acesso aberto são óbvios, especialmente para pesquisas nas quais a urgência e a rapidez são tão importantes. Infelizmente, a proporção de novas pesquisas científicas publicadas em periódicos de acesso aberto é decepcionantemente pequena. No entanto, considerando a urgência apresentada pela epidemia do COVID-19, existem algumas iniciativas interessantes para aumentar a abertura de pesquisas, dados e publicações. No entanto, ainda vemos que apenas 30% dos artigos relacionados a esta doença fornecem acesso ao texto completo na PubMed.

Tradução do texto de Luiz Felipe Pinho Moreira publicado no Blog Scielo em Perspectiva.
Texto publicado original em inglês no periódico Clinics, vol. 75 – Revista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

9 de abril de 2020

Publicado por Priscila Jacobsen