Amazon terá venda de páginas de livros

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Loja on-line terá sistema de busca dentro de obras e cobrará por acesso a páginas; Google pode ter serviço semelhante.

Na corrida pela posição de iTunes do mundo editorial, a Amazon e o Google estão ambos desenvolvendo sistemas que permitirão aos usuários ter acesso on-line a qualquer página, trecho ou capítulo de um livro. Os programas combinarão os sistemas já disponíveis de buscas on-line em livros que as duas empresas operam e um componente comercial que pode revolucionar a maneira pela qual as pessoas lêem livros.
A idéia é fazer pelos livros o que a Apple fez pela música, permitindo que os leitores adquiram e baixem partes de livros para uso pessoal em seus computadores, em lugar de terem de ir a uma livraria ou de receber pedidos pelo correio. Os consumidores poderiam, por exemplo, adquirir uma única receita em um livro de culinária, ou apenas o capítulo de um manual técnico
que ensina como reconstruir o motor de um carro.
As iniciativas já deflagraram um cabo-de-guerra entre as editoras e os potenciais vendedores eletrônicos de conteúdo para determinar quem se alinhará com quem e como dividir os proventos.
A Random House, maior editora dos Estados Unidos, propôs um sistema de micropagamentos sob o qual os leitores pagariam cerca de US$ 0,05 por página. A editora ficaria com 80% do valor e se encarregaria de pagar ao autor.
As propostas também podem se tornar ferramentas para a negociação de acordos que encerrem os processos judiciais movidos contra o Google por associações setoriais representando editoras e autores. Os grupos acusaram o Google de violação de direitos autorais por realizar cópias digitais de livros que fazem parte do acervo de bibliotecas com o objetivo de incluí-las em seu
sistema de busca de livros na internet.
Mas, se essas cópias de títulos mais antigos, disponíveis apenas em bibliotecas e há muito ausentes das livrarias, começarem a gerar receita para as editoras e escritores, é possível que as associações setoriais deixem de lado algumas de suas objeções.Paul Aiken, diretor-executivo da
Authors Guild, associação de escritores que moveu processo contra o Google por violação de direitos autorais em função do programa Google Print, classificou o anúncio da Amazon como “um desdobramento positivo”.
“É dessa forma que as coisas deveriam funcionar: dar aos consumidores acesso aos livros e garantir que as receitas cheguem às editoras e autores”, declarou Aiken. “Conceitualmente, algo semelhante poderia ser possível quanto ao programa do Google.”
A Amazon anunciou ontem que estava desenvolvendo dois programas que seriam implementados em algum momento do ano que vem. O primeiro, o Amazon Pages, permite que os usuários realizem buscas em todo o universo de títulos que ela oferece e depois comprem e leiam on-line apenas as páginas que desejarem em cada dado título. O segundo programa, Amazon Upgrade, permitirá que os consumidores acrescentem acesso on-line ao conteúdo de um livro que já tenham adquirido em forma física no site da empresa.
Jeffrey Bezos, presidente-executivo da Amazon, declarou que acredita que, para a vasta maioria dos livros à venda, os consumidores seriam autorizados a baixar, copiar e imprimir as porções que lhes interessasse adquirir. Mas a decisão, acrescentou, caberia à editora ou ao autor.
O Google está trabalhando no desenvolvimento de sistema semelhante, disseram os executivos de três editoras que foram informadas pelo serviço de buscas quanto aos seus projetos. Usando o site Google Print, os leitores poderiam realizar buscas na biblioteca de livros digitalizada pelo Google e adquirir um livro inteiro ou apenas as partes relevantes para seus propósitos.
Nate Tyler, porta-voz do Google, preferiu não comentar sobre os planos da empresa, alegando apenas que a companhia estava “explorando outros modelos econômicos”, mas por enquanto nada tinha a anunciar.
Tyler disse que o Google recebia favoravelmente o programa da Amazon. “A Amazon é um parceiro valioso”, disse, “e nós oferecemos links para que as pessoas possam adquirir na Amazon livros localizados por meio do Google Print. Estamos felizes por os nossos usuários disporem de maneiras adicionais de ganhar acesso a livros que encontrarem usando o Google Print.”
Atualmente, o Google Print oferece acesso on-line livre e gratuito ao conteúdo integral de livros que estejam em domínio público, mas permite o acesso a apenas trechos de obras ainda protegidas por direitos autorais. Sob os planos que o Google tem em desenvolvimento, dizem as editoras, os livros mais antigos mas ainda protegidos por direitos autorais poderiam ser adquiridos integral ou parcialmente por meio do serviço da empresa.
“Conversamos tanto com o Google quanto com a Amazon ao longo dos últimos meses” sobre os seus sistemas de buscas, disse Richard Sarnoff, presidente do grupo de desenvolvimento corporativo da Random House.
Ao criar um modelo financeiro que permitiria que os programas do Google e da Amazon funcionem na prática, Sarnoff declarou que a Random House estava “fincando uma bandeira, tentando estabelecer regras básicas que nos permitam trabalhar confortavelmente com esse novo tipo de comércio que gira em torno do conteúdo de um livro”.
O modelo desenvolvido pela Random House estipula que os consumidores poderão ter acesso a um livro por, digamos, US$ 0,05 a página, no caso de livros comuns, e somas mais elevadas, como US$ 0,25 por página, para livros de culinária e outras publicações especializadas. Mas o sistema proposto pela editora permitiria apenas acesso on-line ao conteúdo, e não cópia ou
impressão das páginas adquiridas. Mas, “se os consumidores absolutamente exigirem determinada forma de acesso”, disse Sarnoff, “seria importante que a fornecêssemos”.
David Steinberger, presidente-executivo do Perseus Book Club, disse que recebia favoravelmente as novas iniciativas e acreditava que seria melhor para os consumidores que diversas empresas desenvolvessem esse serviço.
“Esse é um desdobramento muito mais significativo do que aqueles que vimos durante o boom da internet”, quando dezenas da empresas entraram na corrida pelo desenvolvimento de livros eletrônicos.
Os planos foram em larga medida abandonados porque a opinião dos consumidores sobre os leitores eletrônicos era desfavorável e o boom da internet sofreu colapso. “Dessa vez”, declarou Steinberger, “parece que as coisas podem realmente acontecer.”
Fonte: The New York Times, 05-11-2005
(Tradução de Paulo Migliacci)
10 de novembro de 2005

Publicado por Gabriela Marchioro