Conhecimento não é fator determinante para formação de opinião sobre ciência

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Pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia
realizadas em diferentes países, incluindo o Brasil, com o objetivo de avaliar
a opinião dos cidadãos sobre temas científicos e tecnológicos deparam com o
desafio de explicar quais fatores influenciam atitudes, interesse e engajamento
em relação a esses assuntos.
Isso porque, do conjunto
de indicadores utilizados nessas pesquisas para analisar quais fatores são mais
relevantes na formação de interesses e atitudes dos cidadãos sobre ciência e
tecnologia – como renda, educação, idade e escolaridade –, nenhum deles consegue
explicar minimamente a variabilidade das respostas.
De acordo com
 Juri Castelfranchi (UFMG), um dos fatores que contribuem para a
dificuldade de as pesquisas sobre percepção pública da ciência e tecnologia
determinarem qual ou quais processos contribuem para a construção da opinião
pública sobre o tema é que elas estão “baseadas na hipótese mal fundada e
fundamentada de que as atitudes das pessoas em relação aos assuntos científicos
e tecnológicos são moduladas pelo conhecimento que têm sobre esses temas”.
Dessa forma, as pessoas
não interessadas teriam baixo nível de informação e tenderiam, em geral, a ter
atitudes mais negativas em relação à ciência e tecnologia. Por outro lado, ao
estimular o interesse dessas pessoas por temas científicos e tecnológicos seria
possível melhorar o nível de conhecimento delas sobre essas áreas e,
consequentemente, suas atitudes em relação à ciência e tecnologia se tornariam
mais positivas. Entretanto, pesquisas de campo demonstraram que essas
premissas são falsas e que a situação real é muito mais complexa do que a
defendida por esse modelo, que foi derrubado.
Em geral, de acordo com os
resultados de estudos recentes na área, existe um grande interesse de boa parte
da população sobre os temas de ciência e tecnologia, mas que não corresponde à
busca de informação.
“Há grupos de público com
baixa escolaridade, principalmente em países em desenvolvimento, que não
conhecem e não buscam informação sobre ciência e que têm atitudes bastante
positivas em relação à ciência e tecnologia”, disse Castelfranchi. “Em
contrapartida, alguns estudos detectaram que não é verdade que, ao aumentar o
conhecimento, a atitude das pessoas se torna mais positiva. Em alguns casos
ocorre o contrário, elas tendem a ser mais cautelosas e críticas”, disse.
Segundo Castelfranchi, um
dos exemplos que ilustram essa suposta contradição, batizada de “paradoxo do
conhecimento versus atitude”, é a questão dos transgênicos na
Europa.
No caso do Brasil, um dos
fatores relevantes que influenciam as atitudes dos brasileiros em relação à
ciência e tecnologia, identificado por Castelfranchi e outros pesquisadores que
analisaram os dados da pesquisa realizada pelo MCTI, é o porte das cidades onde
os entrevistados moram.
Os pesquisadores
constataram que os participantes da pesquisa que moram em cidades brasileiras
de grande porte tendem a avaliar melhor os prós e contras do desenvolvimento
tecnocientífico para responder se a ciência e tecnologia trazem só benefícios
ou malefícios. Já as pessoas que residem em cidades pequenas têm uma chance
ligeiramente maior de apontar que a ciência só traz benefícios.
Uma das hipóteses
levantadas pelo pesquisador é que os códigos morais e políticos das pessoas,
como a religião, podem ser mais determinantes do que o conhecimento que elas
possuem ou não para formar suas opiniões sobre aspectos específicos da ciência
e da tecnologia.
“A trajetória e a
orientação de vida e os valores morais das pessoas, provavelmente, exercem uma
influência muito maior na modulação de suas atitudes em relação à ciência e
tecnologia em geral e sobre aspectos específicos da pesquisa do que o nível de
conhecimento que elas têm”, estima Castelfranchi.
Para comprovar essa
hipótese, de acordo com o pesquisador, é preciso desenvolver novas metodologias
qualitativas e quantitativas e grandes quantidades de observações etnográficas
para verificar como as pessoas se posicionam em relação à ciência e tecnologia,
abolindo a ideia de que isso está relacionado apenas ao nível de conhecimento.

Leia o texto de Elton Alisson na íntegra no site Agência FAPESP

 

20 de novembro de 2012

Publicado por Priscila Jacobsen