Desafios na revisão de artigos científicos em Administração no Brasil

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RAE-Revista de Administração de Empresas apresenta na edição de número 4 de 2018 artigos de diferentes áreas de conhecimento e traz, na seção Perspectivas, dois artigos que debatem os desafios na revisão de artigos científicos em Administração no Brasil. Em “Autores, pareceristas e editores: tripé do processo de revisão de artigos científicos”, Sandro Cabral, Doutor pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Université Paris 1 (Pantheon-Sorbonne) e pós-doutorado em políticas públicas pela UFBA. É professor no Insper, professor licenciado da Escola de Administração da UFBA e Bolsista de Produtividade do CNPq e editor do periódico Organizações & Sociedade , compartilha sua experiência e fala como autores, pareceristas e editores podem conciliar suas visões no processo de avaliação dos artigos. Contribuindo para a discussão, Marcelo de Souza Bispo, Doutor em administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-doutorado em teoria social pela Universidade de Kentucky (EUA). É professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador do Núcleo de Estudos em Aprendizagem e Conhecimento (NAC-CNPq) e editor-chefe da Revista Teoria e Prática em Administração-TPA, reflete sobre a postura do revisor e quais são as competências técnicas para realizar uma boa avaliação durante o processo editorial.

Ao partilhar suas experiências como autores, pareceristas e editores de periódicos científicos, Cabral e Bispo mencionam sobretudo a questão do produtivismo que acaba por sobrecarregar os pareceristas. Bispo lembra que o Brasil tem como modelo os países do Norte, especialmente os Estados Unidos e Reino Unido (FARIA, 2011), onde se mede a quantidade de artigos publicados em periódicos científicos de alto impacto. Esse modelo gerou um grande número de periódicos brasileiros em Administração e, consequentemente, aumentou a demanda por revisores. Para garantir a qualidade do conteúdo publicado é preciso ter processos editoriais rigorosos (CHRISMAN; SHARMA; CHUA, 2017), por isso, ambos autores corroboram a carência de bons pareceristas. Para Bispo, é preciso que os cursos de pós-graduação abordem também o processo editorial, pois a ânsia por publicar artigos está transformando os cursos de mestrado e doutorado em laboratórios de produção de artigos, estimulando a busca por textos de trabalho final que possam ser publicados (BISPO; COSTA, 2016). Nesse sentido, Cabral afirma que autores que escrevem por escrever não merecem o esforço de editores e revisores que buscam melhorar os níveis do que é publicado (CABRAL; LAZZARINI, 2011).

Para Cabral, os bons resultados da tríade formada por autores, pareceristas e editores dependem do alinhamento de interesses das partes envolvidas, e o desequilíbrio em uma ponta compromete o conjunto. Visando garantir o rigor e a relevância do que é publicado, segundo Cabral é necessário combater a chamada “pesquisa salame”, aquela que divide os resultados em vários subprodutos para aumentar o número de publicações (DINIZ, 2018) e que os autores precisam se colocar no lugar dos revisores para compreender bem o processo de revisão. Bispo afirma que não é raro que o comprometimento dos pesquisadores, enquanto desempenham papel de revisores, seja menor do que quando são autores e assegura que para elevar a credibilidade do sistema, é preciso que o compromisso com as revisões seja de nível igual ou maior. Em tempos de produtivismo acadêmico (ALCADIPANI, 2011; FARIA, 2011; RIGO, 2017), Bispo alerta para o grande número de autores com artigos publicados, mas com poucas revisões registradas em seus currículos, o que denuncia a falta de comprometimento com a área e com os pares.

Confira no texto original os vídeos dos autores Cabral e Bispo com pontos de vista sobre o processo de revisão de artigos.

Fonte: Texto de Andréa Cerqueira Souza para Scielo em Perspectiva

15 de janeiro de 2019

Publicado por Priscila Jacobsen