Livro eletrônico ou de papel?

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Embora seja popular nos Estados Unidos, o Kindle não derrubou as vendas dos livros impressos por lá. E no Brasil, a procura por ele ainda é incipiente. Contrariando expectativas do mercado, as vendas de títulos impressos nas principais livrarias dos EUA, Reino Unido e Austrália subiram em 2014, segundo reportagem do Financial Times. Enquanto isso, o desempenho de publicações eletrônicas tem desapontado quem apostou que dispositivos como o Kindle substituiriam a mídia tradicional.

De acordo com especialistas ouvidos pelo FT, a tendência deve se manter nos próximos anos, já que a melhora no mercado de livros físicos tem sido influenciada fortemente pelo público mais jovem. As vendas de títulos de ficção para jovens adultos cresceram 12% em 2014, mais que os títulos voltados para adultos. Os destaques do segmento são títulos como a série Crepúsculo e o best-seller A Culpa é das Estrelas.

“Jornais impressos são resistentes entre aqueles que cresceram com jornais impressos. Livros impressos são resistentes entre todas as idades”, disse Paul Lee, analista da Deloitte, que projeta que 80% das vendas de livros em 2015 serão de cópias físicas.

Pesquisa recente da Nielsen também indica que a maioria dos adolescentes entre 13 e 17 anos prefere os livros de papel. O jornal não cita os percentuais do levantamento, mas a consultoria destaca que o resultado do estudo pode estar relacionado à falta de cartões de crédito entre os mais jovens. Mas também diz que a possibilidade de compartilhar os títulos preferidos conta pontos: é mais fácil compartilhar e emprestar livros impressos.

Levantamento da Nielsen BookScan, citado pelo jornal britânico, indicou que o número de livros físicos vendidos nos Estados Unidos subiu 2,4% no ano passado, alcançando 635 milhões. Já no Reino Unido, o setor encolheu 1,3%, mas a queda representa uma melhoria ante 2013, quando as vendas recuaram 6,5%. Mas o que se percebe é que os livros digitais dão sinais de perda de fôlego nos países desenvolvidos e ainda não têm relevância nos negócios das editoras brasileiras.

Por aqui, há quem ache que o brasileiro não se sinta atraído por um aparelho que oferece uma única função. O consumidor quer fazer mais tarefas com uma única tela. Isso fez com que as principais empresas do segmento, como Amazon e Kobo, passassem a investir na produção de tablets. Se nos países ricos os e-books patinam, no Brasil, eles nunca deixaram o gueto editorial. Apenas 2% dos R$ 5,3 bilhões faturados com livro no Brasil vêm de e-books, segundo levantamento da Fipe de 2013 (dado mais recente). A Biblioteca Nacional, por exemplo, expediu 16.564 ISBNs (código de identificação dos livros) para e-books no ano passado, apenas 1% a mais que no ano anterior.

O livro e sua alma
(por Pedro Hollanda)

Primeiro foram os discos, depois os filmes. Todos pensaram que as próximas vítimas, naturalmente, seriam os livros. Estes, assim como os CDs e DVDs, deixariam de ser produzidos em massa, e passariam a ser somente artigos destinados ao mercado de nicho — eles seriam todos substituídos, foi dito mais de uma vez, pelos leitores eletrônicos. Bom, não é bem isso o que está acontecendo, pelo menos por enquanto.

Parafraseando Walter Benjamin, vivemos hoje o que podemos chamar de “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade digital” — uma revolução sem precedentes na disponibilidade de fotos, textos, áudios e vídeos, que foram convertidos por sua vez em arquivos digitais, e que podem agora ser copiados — ao infinito. Eles deixaram seus corpos, e vivem livres somente em espírito, vagando na nuvem que hoje chamamos de internet. Foi-se com isso o tempo das “raridades”, porém, não sem a perda de certo romantismo que as envolvia; o prazer de se ter em mãos algo valioso.

Mas quanto aos livros, vejam só, contrariando as previsões, o mercado ainda está firme e forte, quiçá expandindo — a venda de e-books foi aumentando e aumentando, mas estacionou há algum tempo em 20% do bolo, sem previsão de crescimento. Então quem gosta de ler livros prefere o papel, podemos concluir. Bem, o que posso realmente afirmar é uma constatação no nível pessoal: eu, lendo e-books, me vejo diante de uma coisa fria, insípida, e algo que interfere diretamente no usufruto da arte em si, o que não acontece comigo quando assisto a um filme ou ouço música, por exemplo. Não estou certo se isso faz algum sentido ao leitor: é apenas uma experiência subjetiva minha.  

Há muita nostalgia rolando com o desaparecimento dos discos e filmes, e ainda certo temor de que os livros também sumam de vista, um dia. Da minha parte, creio que os leitores digitais não estão em oposição aos livros. Os e-books vieram para ampliar a disponibilidade de títulos e facilitar as coisas para muita gente. Uma criança que porventura não tenha acesso a livros pode ter uma Biblioteca de Alexandria portátil com um Kindle. Um médico, em vez de ter de se valer daqueles tijolões pesados na estante, pode facilmente consultar um tablet em seu consultório, ou mesmo durante um procedimento médico.

Fonte: Texto do Jornal A voz da Serra

10 de novembro de 2015

Publicado por Priscila Jacobsen