Mulheres, literatura e libertação: por que ler Simone de Beauvoir?

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No último dia 04, a bibliotecária e diretora do Sistema de Bibliotecas da UFRGS, Leticia Strehl proferiu a palestra “Mulheres, literatura e libertação: por que ler Simone de Beauvoir?”, como atividade para o Março das Mulheres.

A seguir, o texto integral, para quem não pôde estar presente ou deseja maravilhar-se novamente com essa fala tão importante. Bom proveito!

Mulheres, literatura e libertação: por que ler Simone de Beauvoir?
Por Letícia Strehl

Quando a Andrea Loguercio do Escritório de Sustentabilidade da UFRGS me convidou para falar sobre a relação entre mulheres e livros, aceitei na hora por uma simples razão: a literatura escrita por mulheres é capaz de me fazer chegar aos lugares que preciso ir para encontrar minha paz. Não sou especialista em literatura e, certamente, não li um milésimo dos livros que teria que ter lido para falar sobre as mulheres e a literatura. Resolvi falar porque o que li transforma minha vida e consciência de forma determinante há décadas. 

“Orgulho e Preconceito” de Jane Austen, “Um Teto Todo Seu” de Virgínia Wolf, “A Casa dos Espíritos” de Isabel Allende e “A Tetralogia Napolitana” de Elena Ferrante estão entre meus livros prediletos. Nestes textos, não vemos apenas personagens femininos, mas mulheres independentes em situações muito reais e, frequentemente, limites de uma circunstância na qual a submissão tornaria suas vidas muito mais simples. Insubmissas, movidas por suas próprias razões, as personagens principais destas autoras seguem seu rumo. Os tempos e enredos são diversos, mas possuem um elemento comum: as dificuldades da vida de uma mulher livre.

Uma lista diferente de escritoras pode ser feita por cada um nesta sala por diferentes razões. Até E.L. James, autora da famosa série 50 tons de cinza, poderia ter seu espaço neste contexto. Um livro tão popular que, mesmo com a temática sadomasoquista e o texto ruim, motivou a conversa franca e aberta sobre sexo entre as mulheres nos meios que isso era ainda um tabu.

Contudo, é Simone de Beauvoir que, pessoalmente, considero incomparável. Sua vida e sua obra deixaram um legado atemporal que tem como referência o livro “O Segundo Sexo”, mas não apenas ele. 

O Segundo Sexo é uma Bíblia do Feminismo, resultado de uma extensa pesquisa e produto da capacidade ímpar de Simone de Beauvoir de articular um denso e diversificado conjunto de teses para produzir sua própria tese, absolutamente original, e “elucidar a situação da mulher” (BEAUVOIR, 2016a, p. 24).

O pensamento filosófico feminista de Simone foi desenvolvido a partir de um profundo diálogo com o existencialismo sartriano. Jean-Paul Sartre defendia a liberdade e a autenticidade de cada ser humano como essenciais. Simone trata dessa mesma liberdade num contexto humano mais desafiador: o da condição feminina.

Sartre foi seu companheiro intelectual e de vida. A importância de Simone é tal que, se não tivesse sido brilhante, teria se tornado conhecida como a companheira de Sartre. Mas Simone é A Simone de Beauvoir.

Simone não foi apenas uma grande intelectual que escrevia muito, mas também uma grande personalidade que se fez ouvir de diferentes formas. Ela disseminou seu pensamento filosófico pela utilização da ficção literária, da autobiografia, do rádio e da edição da revista “Les Temps Modernes”.

A filosofia e a literatura são indissociáveis na obra de Simone. A literatura é seu recurso de divulgação científica. Essa relação demonstra uma preocupação efetiva de transformação social, que muitos intelectuais não possuem, preferem desempenhar o papel de intelectual complexo que só é compreendido pela mais alta classe dos intelectuais. Assim, o texto denso de “O Segundo Sexo” foi disseminado por ela pela ficção em muitas de suas obras literárias. Os tipos “a narcisista”, “a apaixonada”, “a mística” e “a independente” descritos com o rigor filosófico e sociológico de “O Segundo Sexo”, tornam-se personagens muito humanos em “A Mulher Desiludida” (BEAUVOIR, 2003), por exemplo. E que personagens e que texto! Simone brinca com o texto, utiliza estilos narrativos diferentes para combinar com as personalidades de suas personagens em seus respectivos contextos sociais e econômicos. Os textos relativamente curtos são um soco no estômago, levam o leitor a sentir a dor da ruptura mãe-e-filho e a obsessão da esposa dona de casa dedicada ao marido, que descobre a traição. Talvez propositadamente, o único sentimento que é difícil de compartilhar é o da narcisista que perde sua filha; seu monólogo é tão egocêntrico que é capaz de minimizar nossa empatia frente a uma morte devastadora.

Simone não se restringiu à temática feminista. “Em Todos os Homens são Mortais” (BEAUVOIR, 1983), por exemplo, ela conta séculos da história dos regimes políticos e dos sistemas econômicos, tendo como narrador um nobre feudal que se tornou imortal após tomar uma poção mágica. A busca pelo bem estar social é o ponto que interliga a série de revoluções ocorridas nos diferentes tempos históricos e que tem em comum, unicamente, a incapacidade de encontrar exatamente o bem estar social. Do ponto de vista individual, há também a reflexão sobre o amor e a morte, que é tão presente no livro, quase se tornando um personagem. Nós mortais costumamos temer, às vezes quase obsessivamente, o fim de nossas vidas, um ser humano ficticiamente imortal vive como uma constante o sentimento de medo de perder a vida de quem ama. Não temos mais o sentido da vida pela vida, mas da vida pelo amor. Em “Todos os Homens são Mortais” ela trata dos mais complexos dilemas existenciais públicos e privados com um texto que a mim, particularmente, hipnotizou.

A seguir discutirei alguns aspectos da obra e da vida de Simone de Beauvoir, partindo de algumas de suas conhecidas citações, que tem sido cada vez mais disseminadas graças às redes sociais.

Assim, a primeira citação não poderia ser outra: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

As duas questões fundamentais de “O Segundo Sexo” são:

  •  “Em que o fato de sermos mulheres terá afetado nossa vida?”
  • “Quais oportunidades nos foram oferecidas, exatamente, e quais nos foram recusadas?”

No início disse que, como leitora, a literatura escrita por mulheres me ajuda muito. Assim, vou contar um pequena história pessoal. Eu era criança quando minha vó me contou em tom de brincadeira: “antes de tu nasceres, teu pai me disse que se tu fosses menina, ele te doaria para mim.” Aquela foi a coisa mais surpreendente que eu já tinha ouvido. Que diferença fazia ser menino ou menina? Eu era uma menina que gostava de bonecas e de bola, brincava com meninas e meninos. Aquilo que minha vó me contou não fazia o menor sentido. O que seria diferente se eu fosse menino? Eu não via os meninos e meninas de forma diferente.

Na adolescência, a diferença apareceu. Eu fui a primeira menina a ser presidenta do grêmio estudantil de minha escola. Eu tinha uma liderança que no grupo costumava ser exercida pelos meninos, mas, frequentemente, eu sentia que assustava os meninos. Eu fui, sem dúvida, no geral, uma menina mais solitária do que minhas colegas em se tratando de relacionamentos afetivos. A liderança para um menino aproxima as meninas, no meu caso, afastava. Uma noite, nesta mesma época, ouvi uma entrevista da Maria do Rosário na antiga rádio Pop Rock. Ela disse: “Ninguém tira a presidenta do grêmio estudantil para dançar.” Ao ouvi-la, sorri: pelo menos não sou só eu.

Me tornei mulher me sentindo frequentemente deslocada, mas sem nenhuma ideia de como ser diferente. Pensava em participar menos das discussões, talvez ser menos incisiva, mas não conseguia. Tão logo ouvisse algo sobre o que discordava, argumentava com aquela veemência terrível.

Na verdade, talvez eu nem precisasse ter contado toda essa história para ilustrar como muitas de nós sentimos o tratamento diferente que recebemos por sermos mulheres. Acho que bastaria que eu tivesse evocado em cada uma das mulheres nesta sala a recordação da experiência de chamar um eletricista para arrumar algo em nossas casas: sistematicamente somos tratadas como idiotas.

Esse meu dilema existencial é muito bem explicado por Simone quando fala da imanência e da transcendência, conceitos frequentemente tratados pela Filosofia. Simone diz que a primeira vocação da mulher será sempre a de agradar, essa é a sua imanência. Pensamos que essa é uma realidade que havia ficado para trás, mas, em pleno 2019, Máriam Martínez-Bascuñán para falar de Simone trata deste tipo de imanência feminina, mencionando um político espanhol que disse: “Eu gosto que a mulher seja mulher, mulher”. Para Martínez-Bascuñán (2019), “esse modelo ideal se conecta diretamente com as expectativas geradas em torno das mulheres, com os clichês sobre sua predisposição para cuidar dos outros e agradar, sobre seu gosto ao se vestir, sua capacidade de sedução e seu sorriso.” 

No Brasil, estamos sendo bombardeados por esse tipo de campanha que busca enaltecer essa forma específica de ser mulher em detrimento de todas as outras formas possíveis de existir. Eu, pessoalmente, considero o marco mais ultrajante deste movimento a manchete  “Bela, Recatada e do Lar” estampada na capa da revista Veja no exato momento do impeachment da Presidenta Dilma Rousseff (LINHARES, 2016). Que forte mensagem nos passaram!

Dessa forma, a segunda citação não poderia deixar de ser: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.”

Em oposição a imanência da mulher, Simone destaca que a vocação do homem é a transcendência. Sua verdade “está nas casas que constrói, nas florestas que lavra, nas doenças que cura.” (BEAUVOIR, 2016a, p. 443)

Segundo uma moral existencialista, todo o sujeito apenas se coloca no mundo concretamente através de projetos com uma transcendência. Para Simone, todo o indivíduo que se preocupa em justificar sua existência sente-a como uma necessidade indefinida de se transcender (BEAUVOIR, 2016b, p. 30). A mulher, contudo, para transcender, precisa lutar contra a imanência que dela se espera. 

É nestas que o Segundo Sexo passou a ser meu livro de autoajuda. Aquela vontade de mudar as coisas, de discutir, a tal veemência terrível, passou a ser vista por mim como algo bom, inerente à transcendência.

A terceira citação utilizarei para falar da obra de Simone exatamente como projeto transcendente:  “As oportunidades do indivíduo não as definiremos em termos de felicidade, mas em termos de liberdade.”

Simone nos desafia a pensar sobre a relação oportunidade/felicidade/liberdade a partir de duas perguntas (BEAUVOIR, 2016b, p. 25):

  • as mulheres do harém não são mais felizes do que uma eleitora? 
  • não é a dona de casa mais feliz do que a operária?  

A estranha situação que se coloca é que muitas vezes há uma oposição entre a mulher livre e a mulher apaixonada, como se ambas não pudessem coexistir. Isso decorre da pressuposição de submissão para o amor, principalmente nas relações heterossexuais.

A publicação de algumas das cartas de Simone nos auxiliam a compreender como era sua rotina e como eram suas relações mais próximas. No Brasil, temos a publicação da correspondência dela para Nelson Algren, um escritor americano que foi seu amante por muitos anos (BEAUVOIR, 2000). Neste livro, vemos que ela tinha uma rotina pesada de leituras e escrita, vemos sua personalidade apaixonada por seu trabalho e por seus amantes e o papel da boemia em sua vida. Os cafés, restaurantes e boates de Paris eram seu espaço de ativismo e de articulação política quase sempre acompanhada de Sartre.

A Simone apaixonada disse a Algreen várias coisas, o livro todo é sobre elas, mas quero destacar dois trechos.

Na carta 34, ela diz: “As manhãs são difíceis, meu amor, abro os olhos e você não está aqui. No ano passado, minha vida era plena e rica.” (BEAUVOIR, 2000, p. 63)

Na carta 35, ela diz: “Uma vez você me perguntou se eu era do tipo mulher infantil ou do tipo mulher razoável. Não creio que eu seja pueril, mas estou certa de não ser muito razoável. Uma mulher razoável não sentiria tão aflitivamente a sua falta.” (BEAUVOIR, 2000, p. 65) 

O grande amor de Simone estava em Chicago, mas seu projeto transcendente estava em Paris. 

Na carta 33, ela diz: “Essa é, na verdade, a principal razão por que não quero ficar em Chicago: a necessidade que sempre tive de trabalhar, de dar um sentido à minha vida através do trabalho. Você também sente essa necessidade e é por isso que nos entendemos tão bem. Você quer escrever livros e, ao escrevê-los, ajudar o mundo a ser um pouquinho menos feio. Para mim é a mesma coisa. Quero comunicar às pessoas a minha maneira de pensar, que acredito ser verdadeira. Eu poderia renunciar às viagens, a todas as distrações, poderia abandonar meus amigos e deixar as doçuras de Paris para ficar para sempre com você, mas não poderia viver unicamente de felicidade e de amor, não poderia renunciar a escrever e a trabalhar no único lugar do mundo onde meus livros e meu trabalho têm um sentido. E é ainda mais penoso porque, já lhe disse, nosso trabalho aqui não é promissor, enquanto o amor e a felicidade são realidades palpáveis. No entanto, é preciso fazer alguma coisa contra as mentiras do comunismo e do anticomunismo, contra a falta de liberdade que castiga a França. Aqueles que se importam com a situação precisam fazer algo.” (BEAUVOIR, 2000, p. 61)

Simone e Sartre eram personagens ativos do debate político no período pós-segunda-guerra. Eles eram ouvidos e, frequentemente, criticados com violência.

Ainda na carta 33, Simone comemora: “Uma rádio concedeu à Temps Modernes uma hora inteira a cada semana para falarmos o que quisermos. Você sabe o que isso significa: a possibilidade de atingir milhares de pessoas, de tentar lhes transmitir o que acreditamos ser justo. Isso exige muito cuidado e, esta manhã, tivemos uma reunião a esse respeito. O Partido Socialista também quer discutir conosco a relação entre política e filosofia. As pessoas estão apenas começando a se conscientizar de que as ideias são uma realidade.”(BEAUVOIR, 2000, p. 61)

A tensão política da época era extrema. Ao ler as cartas senti a situação que ela descrevia como sendo muito semelhante a que vivemos hoje no Brasil: um acirramento violento dos ânimos e uma separação nítida de grupos que são incapazes de se comunicar. O trabalho deles era intenso na tentativa de buscar aproximações ideológicas, tendo como um grande projeto a derrocada do fascismo. 

Na carta 34, ela diz: “Almoçamos e discutimos com militantes jovens e velhos uma possível conexão entre existencialismo e socialismo.” (BEAUVOIR, 2000, p. 62)

Na carta 16, ela conta um episódio que seria engraçado caso não fosse tão tragicamente conhecido por nós. Simone trata sobre a mesma dificuldade que nós enfrentamos de articulação de diferentes segmentos que possuem pequenas divergências ideológicas e que são incapazes de superá-las para combater um grande mal político e social. Ela escreveu: “Alguns existencialistas vieram propor aos comunistas uma aliança temporária para cair de socos sobre os fascistas. Os comunistas recusaram e começaram a discutir asperamente com os existencialistas, cada um dos dois grupos agitando agressivamente ao vento sua bandeira. Depois os comunistas foram embora, para furor dos existencialistas, dentre os quais um avançou sobre um fascista, pisando-lhe o pé. Este último disse ‘você esmagou o meu pé’, e eles começaram a se insultar. (…) Todos saíram para brigar. As mulheres permaneceram no interior esperando e bocejando, porque eram quatro horas da manhã, até que os homens voltaram sem que nada tivesse acontecido. Esse tipo de incidente acontece todas as noites, disseram-me, nessa elegante cave intelectual.” (BEAUVOIR, 2000, p. 31)

A última citação que mencionarei tem como objetivo provocar uma discussão sobre a fase do feminismo que hoje nos cabe enfrentar. Essa fase eu considero como sendo a de ocupação dos espaços de ação. Assim, cito Simone: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”

Irene Frain escreveu uma biografia romanceada chamada “Beauvoir Apaixonada”. Sobre o livro, a revista “Isto É” publicou uma resenha intitulada “A Traição Consentida de Simone” (PINTO, 2013). O estranho título da resenha é acompanhado da seguinte descrição: “Biografia romanceada narra a paixão da filósofa Simone de Beauvoir por um escritor americano, sob total aprovação do marido, Jean-Paul Sartre. Ela queria apenas ser amada e submissa.” 

O primeiro parágrafo da resenha segue a mesma linha: “Uma mulher pedante, preocupada com esmaltes e batons, apavorada com o envelhecimento e ciumenta a ponto de não suportar a simples menção do nome da amante de seu marido – assim é pintada a musa do existencialismo (…). O retrato surpreende porque publicamente Simone sempre se mostrou uma feminista e escreveu uma das bíblias do feminismo, ‘O Segundo Sexo’.” (PINTO, 2013)

Como se não bastasse a existência dos anti-feministas, há, entre os opressores, as feministas vigilantes do feminismo alheio, como demonstra essa pérola que acabo de citar. Faço menção a este triste episódio porque ele me parece representar um problema mais amplo relacionado com a existência de um ativismo discursivo feroz oriundo muito frequentemente de quem se demonstra incapaz de realizações efetivas. Quando a resenha descreve:  “O retrato surpreende porque publicamente Simone sempre se mostrou uma feminista”, vemos aí um problema muito sério. Simone não tinha apenas um discurso público feminista, ela desenvolveu um projeto e deixou uma vasta obra que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do feminismo. Não existe interesse por esmalte que anule seu valor como feminista.

Vemos ao nosso redor o empoderamento do discurso feminista. Contudo, não podemos perder a perspectiva de que o discurso é importante para conquistarmos o poder de ação. Existem pessoas que querem ter um protagonismo pelo ativismo discursivo e se colocam numa posição superior a dos demais como críticos. Contudo, não percebem que a posição de fiscalização da ação alheia não possui nada de superior caso não promova ações concretas. O que preocupa é que às vezes a incapacidade para construir possui uma grande capacidade de destruição.

Para além de Simone de Beauvoir, gostaria de finalizar com um destaque à obra de Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana de grande sucesso internacional e publicada no Brasil pela Companhia das Letras.

Conheci tardiamente a obra de Chimamanda e a considero verdadeiramente extraordinária por sua capacidade de abordar de modo denso e profundo temas socialmente relevantes num estilo de escrita poético e fluido. O livro de contos “No seu Pescoço” é para mim uma prova de sua genialidade (ADICHIE, 2017a).

Chimamanda possui ainda uma outra grande qualidade, sua capacidade de síntese. Ela escreveu uma Bíblia de bolso do feminismo chamada “Para educar crianças feministas” (ADICHIE, 2017b). Esse pequeno livrinho fornece praticamente uma check-list para garantir a igualdade de gênero. Até a vigilância em relação aos esmaltes está lá:

Chimamanda escreve: “Não pense que criá-la como feminista significa obrigá-la a rejeitar a feminilidade. Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes. (…) Um homem bem vestido não se preocupa que, por estar assim, possam em colocar em dúvida sua inteligência, sua seriedade ou sua capacidade.” (ADICHIE, 2017b, p. 55–56)

Um outro trecho que acho extremamente importante se refere à imanência da mulher. Chimamanda destaca que as mulheres são criadas para serem agradáveis quando deveriam ser ensinadas a serem honestas, bondosas e corajosas. Ela diz: “Incentive-a a expor suas opiniões, a dizer o que realmente sente, a falar com sinceridade. (…) Elogie principalmente quando ela tomar uma posição que é difícil ou impopular, mas que é sua posição sincera.” 

Esse aspecto referido por Chimamanda me fez perceber que este é realmente um dos grandes problemas que enfrentamos cotidianamente: a verdade é que é muito difícil que aceitem a sinceridade de uma mulher.

Dessa forma, termino meu depoimento pessoal sobre a importância da leitura de escritoras mulheres para meu autoconhecimento e para uma realização mais feliz do meu processo pessoal de me tornar mulher. Leiam mulheres, boas autoras, autoras feministas, elas são libertadoras! 

Muito obrigada. 

Referências

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 a. 

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 b. 

BEAUVOIR, Simone. Todos os homens são mortais. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

BEAUVOIR, Simone. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico: 1947-1964. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

BEAUVOIR, Simone. A mulher desiludida. Rio de Janeiro: o Globo, 2003. 

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. V.2, a experiência vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016 a. 

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. V.1, mitos e fatos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016 b. 

LINHARES, Juliana. Marcela Temer: bela, recatada e “do lar”. Veja, São Paulo, 2016. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/. Acesso em: 28 fev. 2020.

MARTÍNEZ-BASCUÑÁN, Máriam. O feminismo que nasceu com Simone de Beauvoir. El País, Madrid, 7 jul. 2019 Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/05/cultura/1562337766_757567.html. Acesso em: 18 fev. 2020.

PINTO, Aina. A traição consentida de Simone. Isto É Independente, São Paulo, 2013. Disponível em: https://istoe.com.br/292175_A+TRAICAO+CONSENTIDA+DE+SIMONE/. Acesso em: 3 fev. 2020.

Leticia Strehl no no Pes.to Café do Centro Cultural da UFRGS.

Palestra proferida no Evento “Março das Mulheres” em 3 de março de 2020 no Café do Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre-RS.

10 de março de 2020

Publicado por Zuleika Branco