O cerco da ciência às Fake News

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Pesquisadores desenvolvem plataformas tecnológicas para combater notícias falsas sobre a pandemia. 

Tanto quanto o Sars-Cov-2, as notícias falsas (“fake news”) sobre a pandemia do coronavírus encontraram no Brasil um ambiente propício para proliferação. O problema, no entanto, não é novo. Que o diga a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a mais respeitada instituição na área da pesquisa em saúde do País que, antes mesmo da covid-19 chegar, se viu na necessidade de criar uma frente de combate a notícias falsas na área da saúde.

Em fevereiro a fundação lançou um aplicativo para receber, filtrar e denunciar “fake news”, chamado “Eu Fiscalizo”. Quando foi idealizado no ano passado pelas pesquisadoras da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/ Fiocruz), Claudia Galhardi e Maria Cecília de Souza Minayo, o app tinha como alvo monitorar a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos inadequados veiculados nos meios de comunicação. Através do “Eu Fiscalizo”, os usuários podem apontar conteúdos que consideram impróprios veiculados pela TV aberta comercial, TV por assinatura, serviços de streaming, jogos eletrônicos, cinema, espetáculos, publicidades e mídias sociais.

O objetivo é combater uma fonte comprovadamente causadora de sérios problemas de saúde em crianças e adolescentes, como comportamento agressivo, medo, ansiedade, concepções errôneas sobre a violência real e sexualização precoce, explica Galhardi.

O projeto, entretanto, ganhou uma dimensão muito maior quando passou a monitorar a então recém-chegada covid-19. Além de riscos à saúde da população, as “fake news” passaram a ameaçar a credibilidade de instituições centenárias e sérias, como a própria Fiocruz, bem como todo o trabalho científico de décadas.

“Houve uma evolução das notícias falsas que acompanhamos”, define Claudia Galhardi. Em março, quando o monitoramento do “Eu Fiscalizo” começou a focar a covid-19, mais de 80% das denúncias recebidas através do aplicativo tratavam de métodos caseiros de cura e prevenção da doença; o restante eram golpes financeiros em arrecadação de recursos para supostos necessitados, doações e um pouco (5%) de conteúdo político. Com o passar das semanas e o agravamento da pandemia e o aumento do número de mortes, o conteúdo político foi ganhando mais espaço rapidamente.

“No fim de março, quando os estados passaram a implementar as medidas de isolamento social e o uso obrigatório de máscara, passamos a perceber que se tratava de uma estratégia política”, afirma Galhardi. A maior parte das denúncias que chegavam ao aplicativo eram vídeos de pessoas nos cemitérios mostrando covas e dizendo que não havia mortes, que quem apontava mortes queria derrubar o presidente da República, de pessoas que iam à porta dos hospitais para dizer que não havia pacientes e criticar as medidas de proteção implementadas pelos estados. “Concluímos que a agenda política tem força como fomentadora de fake news”, disse a pesquisadora.

No último levantamento divulgado – referente ao período de 17 de março a 5 de junho – os produtores de notícias falsas passaram a utilizar o nome das instituições de saúde para aumentar a “credibilidade” do conteúdo compartilhado pelas mídias sociais e a Fiocruz foi uma das vítimas. Entre as “fake news” relacionadas à instituição, 45,5% citavam-na como orientadora dos métodos caseiros para prevenir o contágio. Como vem sendo noticiado, boa parte das mentiras que circulam nas redes sociais – mais precisamente 18,4% – difamam a reputação da presidente da Fundação, caluniam a instituição (18%) e utilizam o nome da Fiocruz para arrecadações (9,1%).

 

Inteligência Artificial

O rastreamento de notícias falsas sobre a covid-19 é também o trabalho de uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Inteligência Computacional (Labic) do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos. Composta por quatro cientistas da computação, coordenados pela pesquisadora Solange Rezende, a equipe utilizou Inteligência Artificial (IA) para desenvolver uma ferramenta chamada Websensors.

A ferramenta foca a análise na evolução da pandemia de covid-19, extraindo dados de textos de notícias cuja fonte é plataforma GDELT da Google, muito utilizada no meio acadêmico, combinadas com os dados do repositório da Universidade John Hopkins. Uma rede neural recebe as informações, processa, enriquece com conhecimento obtido das fontes de entrada de notícias e estatísticas, elabora um histórico e gera previsões.

O objetivo é traçar cenários antecipatórios capazes de apoiar políticas públicas de combate à doença, explica Rezende. Nas análises geradas até meados de junho, o Websensors já apontava que o Brasil estava lidando com a pandemia de acordo com os países europeus, mas a curva de contaminação se assemelhava mais à dos Estados Unidos. “O olhar da pesquisa permite uma avaliação do ponto de vista social e político, que não seria possível se utilizássemos apenas as estatísticas”, diz Rezende, lembrando que os dados oficiais do Ministério da Saúde estão subestimados pela falta de testes.

Resgate da confiança

A onda de “fake news” que invadiu a saúde pública com a pandemia vem da mesma fonte que trouxe à tona nos últimos anos teses absurdas como a Terra plana ou a vacina que mata. O físico e sociólogo Yurij Castelfranchi, professor associado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) e diretor de Divulgação Científica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Castelfranchi discorda, porém, que o fenômeno seja resultado da ignorância ou baixa formação científica.

“A ignorância é o produto, não a causa”, afirma. “É o efeito da crise de confiabilidade, que na verdade, não é só na ciência, mas em todas as instituições das democracias.” Para ele, campanhas financiadas por grupos poderosos nas últimas décadas, disseminando dúvidas no debate público, deram forte impulso para esta crise de confiança. Aconteceu nos anos 1960, quando surgiram evidências científicas de que o cigarro causava câncer e a indústria tabagista negava; e nos anos 1980, quando estudos comprovavam os efeitos da ação humana nas mudanças climáticas.

Castelfranchi defende, no entanto, uma abordagem mais compreensiva do fenômeno, deixando de lado as críticas às pessoas que acreditam em notícias falsas. Ao invés de fazer uma cruzada contra a anticiência, desmistificando e focando apenas nas notícias falsas, ele defende uma maior aproximação dos cientistas com a sociedade.

“Os sites de checagem de fatos são necessários, e os jornalistas já estão fazendo isso muito bem. Mas não é suficiente. Nosso papel como cientistas é sair do gabinete, sair do laboratório e fortalecer a confiança da sociedade”, afirma.

Castelfranchi acha que além da divulgação científica através da comunicação, os cientistas brasileiros têm que ampliar as atividades de extensão. “Muitas universidades e instituições científicas na Europa, Estados Unidos e Austrália estão juntando a comunicação com a extensão. Não é você transmitir conhecimento de cima para baixo, é sair da ‘torre de marfim’ da universidade, ampliando as atividades de extensão nos bairros, nas periferias, no campo.”

Outra experiência que o professor da UFMG indica é a construção de atividades lúdicas nas escolas, com jogos e brincadeiras para que as crianças e os jovens busquem eles mesmos as informações verdadeiras. “É preciso treinar os jovens a perceber o que está por trás das ‘fake news’ e propor a eles uma espécie de ‘caça ao tesouro’, um desafio, para que eles descubram todos os elementos e interesses envolvidos.”

Segundo Castelfranchi, essa abordagem ajuda as pessoas a criarem suas próprias ferramentas e dá melhor resultado do que a imposição pela autoridade de quem conhece. “Você veste um jaleco branco e acha que as pessoas têm que acreditar em você só porque é cientista? Não funciona mais assim. Essas manobras apenas criam hostilidade das pessoas frente às autoridades, às instituições, as pessoas não querem mais confiar em políticos, em juiz, em jornalistas”. Na visão dele, o que funciona melhor é dar os instrumentos para que os jovens construam seus próprios raciocínios e argumentos, caminhando lado a lado com os professores, orientadores e cientistas.

“Ver um cientista em ação, trabalhando em prol da comunidade e da sociedade é muito mais eficaz para conquistar a confiança do que fazer cartilhas tipo ‘os dez mitos e as dez verdades sobre as vacinas’”, ponderou.

Castelfranchi é otimista sobre a aplicação desta abordagem no Brasil. “Há uma janela aberta de possibilidades, porque, na verdade, a atitude fundamental do brasileiro sempre foi de curiosidade intelectual e entusiasmo com o progresso e o conhecimento”, opina. “O brasileiro é um dos povos do mundo mais fascinados com a tecnologia e o progresso, é um dos povos mais curiosos do mundo, quando chega uma nova tecnologia, ela se instala primeiro nos EUA, que é o país mais rico, mas logo depois no Brasil”, conclui.

Fonte: Texto de Janes Rocha para Jornal de Ciência

20 de agosto de 2020

Publicado por Priscila Jacobsen