Os cantos de angústia de Adalgisa Nery

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“Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar
Na tranquilidade dos que esqueceram a memória. ”

Adalgisa Nery nasceu em 29 de outubro de 1905, no Rio de Janeiro. Foi poetisa, romancista, contista e jornalista. Descrita como sensível e imaginativa desde a infância, a sensibilidade poética da autora é associada a alguns episódios marcantes, como a perda da mãe, aos oito anos de idade. O impacto desta perda foi registrado em alguns de seus escritos.

Aos 15 anos se apaixonou pelo pintor Ismael Nery (1900-1934), seu vizinho e um dos precursores do movimento modernista no Brasil. Aos 16 anos, em 1922, casou-se com Ismael e entrou em contato com a vida artística e intelectual brasileira. Viveram na Europa entre 1927 e 1929, o que a possibilitou conhecer diversos artistas internacionais de vanguarda e ter contato com diferentes manifestações culturais.

Se por um lado com o casamento a vida de Adalgisa teve um enriquecimento culturalmente falando, a vida com Ismael foi marcada por conflitos e sofrimento. Mesmo assim, o casamento durou até a morte do pintor, no ano de 1934.  O casal teve sete filhos homens, mas somente o mais velho, Ivan, e o caçula, Emmanuel, sobreviveram.

Após ficar viúva, trabalhou na Caixa Econômica e no Conselho de Comércio Exterior do Itamaraty. No ano de 1937, incentivada por amigos e, entre eles o poeta Murilo Mendes, Adalgisa publicou seu primeiro livro Poemas.

Mundos Oscilantes: poesia reunida é o sexto livro de poesia publicado pela autora. Trata-se de uma coletânea de cinco livros anteriores de poesia, escritos entre 1937 e 1952. Como temas principais destes poemas, estão a morte e a solidão. Entre estes, o belíssimo Poema da Incerteza:

O desespero estéril da indecisão
Cobre o ar frio como uma sombra glacial
Dispersando a humana compreensão
Sobre o objetivo e o vital.
Com a madrugada se vai também a solidão
A única e doce companheira
Para a irremediável e a completa aceitação.
O irresoluto afoga a verdade,
Caminha sobre o certo
Colocando trevas na humanidade
Já tão fria e tão sofrida
Para que a alma fique sempre acesa
Aos arrancos trágicos da vida
Onde germina a força e a beleza.

Em 1959, publicou A Imaginária, romance autobiográfico de grande sucesso editorial. Ao contar a história do alter ego Berenice, descreve a relação de amor com o marido Ismael, que com o tempo se transformou em terror devido a episódios de violência.

Em meados de 1940, Adalgisa casou-se novamente com o jornalista e advogado Lourival Fontes. Lourival se apaixonou por outra mulher e após 13 anos, separou-se de Adalgisa. Com o sofrimento causado pelo fim do casamento, somado ao não reconhecimento por seu valor literário por parte do público, a autora resolve renegar a própria obra. Adalgisa passou a trabalhar como jornalista e escreveu comentários políticos para o jornal ÚItima Hora.

Como jornalista critica e combativa, foi eleita deputada três vezes, a primeira em 1960, pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Com o golpe militar, sua coluna no jornal sofre censura. Adalgisa tem o último mandato e os direitos políticos cassados em 1969.

Sem recursos próprios e sem ter onde morar após ter doado em vida todos os bens aos filhos, em 1974 e 1975 viveu reclusa em uma casa do comunicador Flávio Cavalcanti, em Petrópolis, RJ. No ano de 1976, em maio, sem estar doente, Adalgisa se interna em uma casa de repouso geriátrica, onde reside até o fim da vida. Adalgisa morreu solitária, em 07 de junho de 1980.

Pelo teor erótico e libertário de sua obra, Adalgisa foi comparada por Manuel Bandeira à poetisa grega Safo de Lesbos. Como outras mulheres incríveis da história da arte e da literatura, deixou como legado além da própria obra, o fato de ter sido destemida e desbravadora, principalmente quanto à atuação no jornalismo político.

A Biblioteca Central da UFRGS tem alguns exemplares da obra desta autora tão interessante e peculiar. Quer conhecê-la? Coleção Eichenberg, Seção de Literatura Brasileira.

Para saber mais sobre vida e obra da autora, acesse as fontes consultadas: Enciclopédia Itaú Cultural e Letras In.Verso e Reverso

30 de outubro de 2019

Publicado por Zuleika Branco