Periódicos científicos e mídias sociais: a experiência da RBEFE

As mídias sociais têm se constituído assunto frequente no âmbito da comunicação científica. Termos e expressões como alcance, engajamento, influência e métricas alternativas tornam-se cada vez mais presentes na rotina das equipes editoriais de periódicos científicos e têm sido amplamente debatidos visando compreender fenômenos relacionados à visibilidade, mensuração e avaliação da informação científica no contexto da web.

É notável o crescimento do uso das mídias sociais por periódicos científicos nos últimos anos, dada a possibilidade de ampliação do escopo comunicacional das publicações. As mídias sociais fazem parte de um grupo de aplicações para internet – como redes sociais, blogs e wikis – e têm se configurado entre um dos principais mecanismos de divulgação científica. Contudo, observamos que ainda há muito a se discutir sobre o uso dessas ferramentas por periódicos científicos, bem como sobre o estabelecimento de critérios de avaliação e seus impactos nas métricas, sobretudo, de acesso e citação de artigos.

No Brasil, ainda são incipientes os estudos que visam compreender o impacto das mídias sociais no contexto da comunicação científica, mais especificamente, no contexto dos periódicos e sobre como esse ferramental tecnológico pode promover novas possibilidades de divulgação do conhecimento científico. Embora busquemos estabelecer espaços profícuos para discussão do fenômeno, os periódicos científicos adentram no universo das mídias sociais encarando muitos desafios, entre eles, as novas dinâmicas de comunicação e divulgação do conhecimento científico – dinâmicas essas marcadas pela multidirecionalidade e interatividade-, o monitoraramento e contextualização das métricas e a capacitação das equipes editoriais.

Para os periódicos, os desafios impostos são muitos, mas as oportunidades que emergem desse universo são múltiplas, cabendo às equipes editoriais o desenvolvimento de estratégias de comunicação e a adequação das práticas às novas demandas apresentadas pelos leitores que exibem hoje um comportamento de busca pela informação adaptado ao ecossitema tecnológico.

Foi nesse cenário multifacetado que a Revista Brasileira de Educação Física e Esporte (RBEFE), estimulada pela SciELO, deu início em 2012 à sua incursão no universo das mídias sociais e, desde então, tem obtido resultados positivos na divulgação de seus conteúdos.

A RBEFE e as mídias sociais

Como toda a atividade realizada no âmbito de uma equipe editorial, a entrada da RBEFE no universo das mídias sociais exigiu um planejamento detalhado e a definição de etapas de execução, a fim de não comprometer as atividades rotineiras desenvolvidas pela equipe.

Antes de iniciarmos nossa incursão, realizamos um estudo do perfil do público do periódico por meio de informações coletadas entre assinantes, autores e editores. Cabe ressaltar que no estudo foram levantados dados sobre as necessidades informacionais dos leitores, as expectativas em relação à divulgação do periódico e sobre as mídias sociais mais utilizadas pelo público consultado. Levando-se em consideração os resultados obtidos e as características principais das mídias sociais apontadas no levantamento, selecionamos aquelas que potencialmente poderiam contribuir para a divulgação do periódico, bem como facilitar o acesso do leitor à publicação. Assim, em 2012, lançamos os perfis no Facebook, LinkedIn, Twitter, SlideShare e Mendeley e criamos um blog. Concomitantemente, lançamos o manual Política de uso das mídias sociais da Revista Brasileira de Educação Física e Esporte1, cujo objetivo é estipular práticas e guiar a equipe editorial acerca da geração de conteúdo, na interação com os usuários e na atuação em caso de crise (SANTANA; FRANCO; MOREIRA, 2013). Após a execução das etapas iniciais, foram estabelecidas diretrizes para a elaboração de relatórios, visando o monitoramento das mídias e a geração de métricas e indicadores.

Estratégias de comunicação e monitoramento

Um dos principais desafios para a equipe editorial da RBEFE foi a elaboração de estratégias de comunicação e monitoramento. No tangente às estratégias de comunicação, uma das experiências mais interessantes é a divulgação de artigos publicados em edições passadas, as chamadas “Dicas de leitura”, postadas semanalmente. Outra experiência que cumpre destacar são as postagens temáticas relacionadas a eventos e acontecimentos da área de Educação Física e Esporte que reúnem em uma listagem artigos já publicados pela RBEFE. Ao realizarmos as postagens, é iniciado o monitoramento por meio de relatórios, nos quais acompanhamos o número de acessos aos artigos nos períodos subsequentes à divulgação. Nesse contexto, percebemos que as estratégias de comunicação devem estar atreladas ao monitoramento das mídias, sendo, cruciais o estabelecimento de uma metodologia e a elaboração periódica de relatórios a fim de mapear o desempenho das postagens e o impacto junto ao público.

Um dos resultados do monitoramento das mídias sociais foi o desenvolvimento de um aplicativo para celular com a finalidade de facilitar o acesso aos perfis da RBEFE. A proposta de criação do aplicativo surgiu da análise dos relatórios em que foi possível identificar que aproximadamente 20% dos acessos às mídias sociais ocorriam por meio de dispositivos móveis.

Por meio do monitoramento também identificamos o interesse dos leitores por informações relacionadas aos gerenciadores de referências, fato que nos motivou a elaborar tutoriais de ferramentas como Mendeley e Endnote Basic, disponibilizadas no blog.

Para o desenvolvimento de estratégias comunicacionais e de monitoramento, salientamos que foi preciso ter bem definidos quais os objetivos da presença do periódico nas mídias sociais. Araújo (2015) aponta que a escolha das estratégias de marketing científico digital precisa refletir o tipo de imagem que se quer transmitir, bem como atender ao perfil dos leitores que o periódico possui ou que se pretende alcançar.

Cumpre destacar ainda que as estratégias e ações devem ser continuamente avaliadas, revistas e repensadas a fim de atender às constantes demandas dos leitores e, sobretudo, alinhar-se à dinamicidade das mídias sociais.

Métricas alternativas, desafios e oportunidades

Durante um evento em que apresentávamos a experiência da RBEFE no uso das mídias sociais, diante das métricas apresentadas, uma participante nos questionou se estávamos otimistas com o desempenho do periódico nas redes socais e se nos considerávamos um exemplo de sucesso. Diante de tal questionamento, nos perguntamos o que poderíamos considerar um exemplo de sucesso. Número de compartilhamentos? Número de seguidores? Visualizações? Inegavelmente, em um primeiro momento, as métricas geradas pelas mídias sociais, mais especificamente, pelas redes sociais online, podem exercer um certo fascínio, contudo, é preciso tomá-las cautelosamente, contextualizando-as, tendo em vista a área de inserção da publicação, o perfil do público e fatores extrínsecos ao periódico, como os  algoritmos das mídias sociais, tendências de pesquisa, entre muitos outros fatores. Também é inegável que as mídias sociais têm repercussões importantes, que potencializam processos comunicativos, seja na produção quanto na circulação de informações. Nesse viés, parafraseando Ranganathan2, cânone da área da Ciência da Informação, um dos nossos principais objetivos  é oferecer a cada leitor seu artigo e a cada artigo seu leitor, emergindo daí nossa avaliação positiva acerca do desempenho da RBEFE nas mídias sociais bem como nossa preocupação em realizar continuamente a contextualização das métricas.

Há atualmente inúmeras discussões e estudos em curso sobre as métricas alternativas, as chamadas altmetrias, que visam a constituição de bases teóricas para que  sejam tomadas com maior credibilidade pela comunidade científica. Também se discute a relação das altmetrias com as métricas tradicionais, como o Fator de Impacto (FI). Tendo por base nossa experiência e leituras, consideramos que uma das questões a serem amplamente discutidas não seja a substituição de métricas tradicionais pelas altmetrias, mas sim de termos a possibilidade de elaboração de quadros mais amplos que reflitam o impacto dos periódicos e dos artigos científicos entre os leitores, tendo em vista as especificidades e dinâmicas das diferentes áreas do conhecimento. Thelwall e Kousha (2015) apontam que as altmetrias podem auxiliar estudiosos e acadêmicos a encontrar artigos científicos, bem como podem auxiliá-los a avaliar o impacto de seus próprios artigos, contudo, pontuam que as métricas disponibilizadas não propriamente reflitam a qualidade das pesquisas, nem seria esse o intuito, mas sim apontem a dinâmica de artigos e publicações entre a comunidade científica circunscrita no âmbito das mídias sociais. Nessa perspectiva, as altmetrias nos fornecem subsídios para avaliar e contextualizar a visibilidade e o alcance dos artigos e publicações.

Experiências, desafios e oportunidades

A inserção da RBEFE no ambiente das mídias sociais trouxe novas perspectivas para a ampliação do acesso à informação científica, uma vez que propiciou a abertura de novos espaços de interação e convergência entre autores, editores e leitores, contribuindo para a inserção de novos atores no fluxo comunicacional e promovendo a ampla utilização de resultados das pesquisas e estudos científicos publicados.

O trabalho com as mídias sociais exigiu uma mudança de percepção da equipe editorial, pois a ela são impostos constantes desafios, como a incorporação de novas atividades à rotina, a capacitação e atualização contínuas, a adaptação à dinamicidade das redes e à interatividade com o público.

Pautados nos objetivos traçados e nas demandas apresentadas por nosso público, estudamos futuramente a incursão em novos ambientes online, como ResearchGate, e a atualização e reformulação de nossa política de uso das mídias sociais. Tais ações exemplificam o caráter dinâmico das mídias atrelado ao planejamento da equipe editorial.

Por fim, cumpre salientar que os periódicos científicos têm hoje um cenário complexo e desafiador e devem assumir os riscos inerentes e analisar as oportunidades apresentadas pelas mídias sociais, já que a incursão dos periódicos nesse universo não se trata mais de uma opção, mas sim de uma necessidade.

Fonte: Texto de Solange Santana para ABEC Brasil

3 de fevereiro de 2016

Publicado por Priscila Jacobsen