Tigres de papel

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Douglas McMillan e Rachel Bertol
O que vem acontecendo nas últimas semanas na internet faz pensar. Até recentemente, a idéia de que ela engoliria a imprensa e os livros era um senso comum muito repetido, pouco questionado e menos ainda fundamentado. Mas hoje, assistindo à briga de cachorros enormes do setor gastando milhões de dólares para pôr livros de uma forma ou de outra na rede, pode-se dizer com certeza: o futuro do mundo virtual está no papel impresso. Pelo menos até a semana que vem.
Google, a mais completa ferramenta de busca na internet; Amazon, a maior livraria digital; e uma parceria-monstro entre Microsoft e Yahoo! travam uma luta encarniçada entre si e com autores e editoras para pôr as maiores bibliotecas do mundo ao alcance do teclado. O tema é especialmente urgente nesse momento, quando 176 países acabam de se reunir na Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, realizada na Tunísia, para discutir como a internet pode se tornar menos comercial e mais democrática e educativa.
O Google Print (print.google.com), já em funcionamento, pretende digitalizar em seus primeiros
dez anos 15 milhões de livros das bibliotecas das universidades de Oxford, Harvard, Stanford e Michigan, além da biblioteca pública de Nova York. Tudo por US$ 200 milhões. Já a Amazon anunciou para o começo de 2006 dois serviços, o Pages e o Upgrade. Com o primeiro será possível comprar capítulos ou mesmo páginas individuais de livros. Com o segundo, compra-se o livro físico e sua versão digital. Por fim, Microsoft, Yahoo! e Internet Archive anunciaram o início de uma parceria para digitalizar dezenas de bibliotecas acadêmicas como as das universidades de
Columbia, Johns Hopkins, Califórnia e Toronto, além dos acervos do Museu Histórico de Londres e Instituto Smithsonian, entre outros. O nome da iniciativa é OCA, Open Content Alliance (Aliança para o Conteúdo Aberto). Apenas a empresa de Bill Gates deve investir US$ 2,5 milhões. Para se ter uma idéia da magnitude das empreitadas, o Projeto Gutenberg digitalizou em dez anos apenas 17 mil títulos.
Números à parte, cada empreitada tem um lado polêmico. A Google, por exemplo, já foi processada tanto pela Associação de Editores dos EUA quanto pela dos escritores. A acusação: violação em massa de direitos autorais. No site, somente é possível seguindo as regras visualizar na tela em torno de um quinto de um livro, mesmo aqueles que ainda não estão em domínio público, mas não imprimir ou salvar. A empresa compara isso a uma folheada num exemplar interessante em uma livraria. Não é difícil, contudo utilizando o próprio mecanismo de busca da empresa encontrar na internet diversas formas de driblar as barreiras do sistema para, sim, conseguir imprimir e salvar qualquer livro digitalizado. Uma mostra de como a informação na internet é indomável.
As barreiras da Google são ridículas afirma Jorge Lopes de Souza Leão, engenheiro da UFRJ que acaba de desenvolver um software para catalogação de bibliotecas. Qualquer hacker de meia tigela imprime e salva o que quiser no Google Print.
Polêmica com a Google mostra limites do direito autoral. A Google foi processada basicamente por proceder com os livros da mesma forma como catalogou bilhões de páginas na internet: tornando acessível informação sobre alguma coisa, e não a coisa em si. Mas, quando se trata de livros, essa é obviamente uma linha tênue: a imagem de cinco páginas de um conto de cinco páginas é o próprio conto. Apesar de a empresa retirar de seu índice qualquer autor que assim o queira e de disponibilizar links para bibliotecas onde pode ser lido e livrarias onde pode ser comprado legalmente, escritores e editores estão irados.
O copyright nunca funcionou assim, essa atitude irresponsável da Google abala uma das suas fundações. Não cabe aos escritores esquadrinhar a internet para saber quem está violando seus direitos disse ao GLOBO, por telefone, de Nova York, Paul Aiken, diretor executivo da Authors Guild, poderosa associação dos escritores dos EUA e uma das autoras do processo contra a Google. Esses livros não estão na internet e é por uma razão: sabemos que a rede é a maior
máquina copiadora do mundo. Se está em formato digital, está em risco.
O que é risco para alguns é oportunidade para outros. Isso é uma antevisão do impacto que os meios digitais terão no mundo editorial. Não adianta ser contra a evolução. Nada do que é digitalizável vai ficar de fora e tudo o que puder ser transformado em informação vai ser revolucionado. No mundo do livro, ainda não se sentiu impacto tão grande, porque ele tem um fator cultural forte e hoje ainda não há formatos práticos para se ler online. Mas eles vão existir afirma o professor da FGV André Kischinevsky, diretor do Instituto Infnet, um dos mais renomados do país na formação de profissionais na área de tecnologia.
Se a Google está apanhando por ter saído na frente e não ter consultado as editoras, Amazon e OCA, ainda que tenham se comportado bem, têm desafios à frente também.
Poucos duvidam do sucesso comercial dos dois serviços da Amazon, a exemplo do que aconteceu com o iTunes, da Apple, onde é possível fazer downloads legais, pagos, de música. Mas eles tornarão disponíveis milhões de livros em alta qualidade o que provavelmente abrirá as portas para um nível de pirataria que a indústria editorial ainda não viu, comparável apenas ao que já
acontece na música e no audiovisual. Já a crítica à OCA é mais filosófica: se a empresa seguir seu projeto inicial de escanear apenas textos em domínio público ou obras autorizadas pelos autores, a catalogação caminhará a passos lentos e o acervo seria muito mais pobre. No fundo, o que está em xeque é o conceito de copyright.
Fonte: O Globo 19/11/2005, suplemento Prosa e Verso http://oglobo.globo.com/jornal/Suplementos/ProsaeVerso/189210661.asp
22 de novembro de 2005

Publicado por Gabriela Marchioro