Todos os periódicos devem ter uma política que defina a autoria

Nos últimos anos, os trabalhos de pesquisa científica com longas listas de autores tornaram-se mais comuns, com alguns casos extremos de listas de autores aos milhares. Um bom exemplo é um artigo de física de duas equipes que trabalham com detectores no Large Hadron Collider no CERN, que estabeleceu um recorde para a maior lista de autores com mais de 5.000 autores. Trabalhos com centenas ou milhares de autores adicionam mais complexidade à revisão da lista de autores para periódicos e aumentam a probabilidade de disputas de autoria, o que pode prolongar o processo de publicação.

Felizmente para os editores de periódicos acadêmicos, esses extremos de lista de autores são raros, mas até mesmo o número médio de autores de artigos de biomédica no Medline chegou a 5,5, o que é suficiente para causar preocupação. É imperativo que os periódicos acadêmicos desenvolvam políticas de autoria para que tenham um processo de avaliação de longas listas de autores, bem como diretrizes para lidar com disputas de autoria.

A autoria é um fator principal no avanço da carreira dos pesquisadores, por isso é importante que os periódicos a levem a sério e apliquem padrões justos e consistentes a todos os trabalhos publicados. No Guide to Managing Authors1, um novo curso de treinamento gratuito da Scholastica, da American Journal Experts (AJE) e da Research Square, revisamos as principais áreas de gerenciamento de autor que todos os periódicos deveriam priorizar, sendo a autoria a principal delas. Abaixo segue um trecho do curso de melhores práticas que os periódicos podem seguir para definir autoria e comunicar os critérios de autoria aos pesquisadores.

Como definir autoria

O padrão prevalente para a definição de autoria na publicação científica vem do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE). Esses padrões são amplamente aplicáveis em periódicos de várias disciplinas e são um ótimo lugar para começar ao criar ou iterar em políticas de autoria de periódicos. De acordo com o ICMJE, um autor é alguém que atende a todos os seguintes critérios:

  • Contribuições substanciais para a concepção ou projeto do trabalho; ou a aquisição, análise ou interpretação de dados para o trabalho;
  • Elaboração de trabalho ou revisão crítica para conteúdo intelectual importante;
  • Aprovação final da versão a ser publicada;
  • Acordo para prestar contas de todos os aspectos do trabalho, assegurando que as questões relacionadas à precisão ou integridade de qualquer parte do trabalho sejam devidamente investigadas e resolvidas.

Em suma, cada autor deveria ter dado uma contribuição importante que permitisse que o estudo fosse concluído, estar ciente de como os resultados foram apresentados e estar disposto a defender o manuscrito final. Além de ter uma política de inclusão, também é uma boa prática para os periódicos indicarem práticas de autoria que são antiéticas, como:

  • Autoria convidada ou honorária: inclusão de alguém que não contribuiu, a fim de capitalizar sobre o reconhecimento de seu nome ou de um sentimento de obrigação;
  • Autoria fantasma: omissão de um autor legítimo da lista final.

A taxonomia CRediT (Contributor Roles Taxonomy), recentemente definida, tem sido usada por vários periódicos como uma forma de demonstrar claramente o papel de cada autor em um determinado artigo. Os periódicos podem apresentar os critérios de taxonomia CRediT (ou uma versão deles que seja apropriada para o periódico) de modo a fornecer uma visão clara dos critérios de autoria.

Ordem dos autores

Em um punhado de campos, os autores são listados alfabeticamente (estes são os mais fáceis!). No entanto, em muitos outros, a ordem em que os autores estão listados tem implicações para os autores. O primeiro autor é geralmente considerado o principal contribuinte, e o último autor pode ser visto como provendo supervisão geral e direção (como o chefe do laboratório, por exemplo). Os autores do meio contribuíram suficientemente para serem listados no artigo, mas talvez de formas mais limitadas do que os autores primários.

Para evitar o que pode ser uma disputa longa e prolongada, é melhor que os periódicos garantam que a ordem dos autores esteja correta quando eles receberem um manuscrito pela primeira vez. O ICMJE recomenda obter confirmação de todos os autores listados no artigo em que eles contribuíram, e concordancia com a ordem em que eles aparecem na lista de autores.

Contribuição

Pesquisadores, ou qualquer outra pessoa que tenha contribuído para um artigo de maneira significativa, que não atende aos requisitos de autoria ainda devem ser reconhecidos pelo seu trabalho, se possível. Muitas vezes, isso assume a forma de uma seção de “Agradecimentos”. Embora a contribuição não tenha as implicações de carreira que a autoria tem, ainda é um reconhecimento público do trabalho que os contribuintes irão apreciar e do qual poderão se beneficiar.

Alguns exemplos de contribuição incluem:

  • Supervisão geral de um grupo de pesquisa;
  • Suporte administrativo ou técnico;
  • Assessoria na redação e edição;
  • Assessoria na realização de pesquisas ou análise de dados, mas sem afetar substancialmente o projeto do estudo ou a interpretação (por exemplo, transcrever os resultados da pesquisa).

Resolução de disputas de autoria

A melhor salvaguarda contra disputas de autoria é garantir que os autores estejam cientes dos critérios de autoria do periódico e concordem com o seu lugar na ordem da lista de autores antes de seu artigo ser aceito e publicado. Se uma disputa de autoria surgir, é importante que os periódicos não tentem servir como um árbitro ou intermediário. Nos casos em que os autores não conseguem chegar a um consenso, os periódicos devem encaminhá-los para sua(s) instituição(ões). Não cabe ao periódico julgar quem está correto.

Garantir que todas as decisões de autoria sejam aprovadas pelo grupo

Trabalhar em um manuscrito com dois ou 20 autores, tentando se comunicar com vários autores ao mesmo tempo pode ser um desafio para os editores. Por esse motivo, é melhor que o editor e os autores envolvidos estabeleçam um “autor correspondente”. Os periódicos devem exigir que o autor correspondente verifique a lista de autores com todos os outros autores e sirva como o contato principal para todas as outras avaliações éticas. Políticas claras e estratégias de comunicação de autoria tornam o processo de submissão e publicação mais suave para todos os envolvidos.

Esta post de blog apresenta um trecho do Guide to Managing Authors1, um curso de treinamento gratuito para editores de periódicos sobre as melhores práticas para o gerenciamento de autores na revisão por pares e produção criado por Scholastica, American Journal Experts e Research Square.

Nota dos autores: Este artigo reflete as opiniões dos autores e não a posição do LSE Impact Blog, nem da London School of Economics. Por favor, reveja a nossa política de comentários2 se você tiver alguma dúvida ao postar um comentário.

Fonte: Texto de Danielle Padula, Theresa Somerville and Ben Mudrak para Scielo em Perspectiva

8 de janeiro de 2019

Publicado por Priscila Jacobsen