{"id":1099,"date":"2021-02-26T18:36:01","date_gmt":"2021-02-26T21:36:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/?p=1099"},"modified":"2021-03-01T11:22:25","modified_gmt":"2021-03-01T14:22:25","slug":"doutoranda-do-ifch-conta-trajetoria-de-pesquisa-sobre-o-mercado-das-lutas-corporais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/doutoranda-do-ifch-conta-trajetoria-de-pesquisa-sobre-o-mercado-das-lutas-corporais\/","title":{"rendered":"Doutoranda do IFCH conta trajet\u00f3ria de pesquisa sobre o mercado das lutas corporais"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"824\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1-824x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1100\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1-824x1024.jpg 824w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1-241x300.jpg 241w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1-768x954.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1-483x600.jpg 483w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/diessica-1.jpg 1030w\" sizes=\"(max-width: 824px) 100vw, 824px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Di\u00e9ssica Shaiene Gaige ingressou no PPG em Antropologia Social em 2017. Sua proposta inicial consistia em compreender a produ\u00e7\u00e3o das feminilidades de lutadoras de artes marciais mistas, a partir de uma etnografia a ser realizada nas m\u00eddias sociais. Ao longo do trajeto, a pesquisa se modificou, devido a novas refer\u00eancias e \u00e0s experi\u00eancias no trabalho de campo. Atualmente, seu trabalho, com orienta\u00e7\u00e3o do Prof. Dr Arlei Sander Damo, objetiva compreender o mercado das lutas corporais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conhe\u00e7a mais sobre a pesquisa de Di\u00e9ssica na entrevista abaixo feita por Paola Pavezi, com colabora\u00e7\u00e3o de Laura Fassina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como foi o repensar metodol\u00f3gico da sua pesquisa, durante a pandemia? Pode me contar mais sobre sua atua\u00e7\u00e3o de pesquisa a partir das lives?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Acho que sem d\u00favida foi um grande desafio a todos n\u00f3s pesquisadores e pesquisadoras. Todo o planejamento do trabalho de campo foi literalmente afetado das mais diversas maneiras. Dependendo da \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, h\u00e1 investiga\u00e7\u00f5es que ficaram muito estagnadas. No meu caso, como eu j\u00e1 tinha uma rede anterior a pandemia devido a minha circula\u00e7\u00e3o em eventos de MMA desde 2017 e ter mantido o di\u00e1logo frequente em ambientes digitais como WhatsApp e Instagram como as pessoas que conheci neles, com o per\u00edodo de distanciamento social o contato se fortaleceu atrav\u00e9s do online e me trouxe outros nomes significativos para a pesquisa. Fiquei surpresa! A ideia da produ\u00e7\u00e3o de lives no Instagram se deu por meio de conversas com meus interlocutores, num contexto em que as academias estavam fechadas e eles tinham um pouco mais de tempo para estarem presentes nas m\u00eddias sociais, j\u00e1 que n\u00e3o podiam mais trabalhar presencialmente. Os atletas foram bem afetados, assim como outros profissionais. O ponto aqui \u00e9 que um lutador ou lutadora no Brasil n\u00e3o consegue viver apenas dos combates, logo, estavam com suas lutas canceladas e\/ou remarcadas, mas tamb\u00e9m sem poder dar aulas nas academias (local onde tiram seu sustento mais fixo mensalmente). Bom, com as lives, tive que me desafiar enquanto antrop\u00f3loga a falar constantemente em frente \u00e0s c\u00e2meras para centenas de pessoas n\u00e3o acad\u00eamicas e tamb\u00e9m a roteirizar e controlar o tempo (eu, \u00e0s vezes, falo demais [risos]) j\u00e1 que uma transmiss\u00e3o ao vivo tem dura\u00e7\u00e3o de 1h (hoje pode passar um pouco mais disso). Comecei transmitir as conversas, primeiramente, pelo meu perfil pessoal (o qual tive que tornar p\u00fablico) e, posteriormente, quando passei a colaborar com um site de m\u00eddia especializada em artes marciais mistas \u2013 o MMA Premium \u2013 iniciei as transmiss\u00f5es por l\u00e1 e permane\u00e7o at\u00e9 hoje. Fiz lives com muitos atletas, head coachs, promotores de eventos e empres\u00e1rios aqui do Rio Grande do Sul e atualmente com pessoas das mais diversas partes do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode me contar um pouco da tua tese de doutorado? Como foi realizar essa pesquisa (j\u00e1 existia bastante conhecimento produzido sobre o assunto?)&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Claro! Meu interesse por estudar MMA surgiu ainda no mestrado quando comecei a praticar boxe em Santa Maria\/RS. Na \u00e9poca (2015), houve uma grande luta do MMA feminino entre a ex-pugilista Holly Holm e a judoca Ronda Rousey, na qual a primeira saiu vitoriosa e acabou com o reinado de sua advers\u00e1ria na categoria peso galo. S\u00f3 se falava disso na academia. Daquele momento em diante, fiquei fissurada em assistir UFC e nunca mais parei (risos). Ent\u00e3o, em 2016, realizei o processo de sele\u00e7\u00e3o de doutorado em Antropologia aqui da UFRGS, propondo um projeto sobre MMA feminino e passei. Ao longo do curso, o recorte foi mudando, algo que \u00e9 bem comum na pesquisa, ent\u00e3o comecei a focar no modo como funciona o mercado das lutas no Brasil, sob a orienta\u00e7\u00e3o do antrop\u00f3logo Arlei Sander Damo. Quando comecei a fazer o que chamamos de estado da arte, percebi que a nossa produ\u00e7\u00e3o nacional sobre o tema n\u00e3o \u00e9 muito grande, ainda mais na perspectiva das ci\u00eancias humanas, no \u00e2mbito internacional h\u00e1 mais trabalhos sobre a tem\u00e1tica, inclusive h\u00e1 um campo de estudos chamado Martial Arts Studies, mesmo assim, tudo muito recente. Eu e meu orientador, fomos percebendo que seria uma boa contribui\u00e7\u00e3o olhar para o meu universo de pesquisa atrav\u00e9s da perspectiva da antropologia econ\u00f4mica, j\u00e1 que a maioria dos pesquisas n\u00e3o tratam muito a fundo este tema. Acho que um dos principais desafios foi o fato de eu ser mulher tentando compreender uma modalidade esportiva predominantemente masculina. Circular pelos eventos de MMA aqui no Sul, pesagens e posteriormente produzir lives me levou a se relacionar com muitos mais homens (cis e trans) do que com mulheres. Mas aos poucos tamb\u00e9m fui me jogando nas conversas, me arriscando a analisar lutas e tinha uma pequena vantagem de ser do boxe. Conversa foi o que n\u00e3o faltou. Foram muitos aprendizados, inclusive tecnol\u00f3gicos. Outro desafio tamb\u00e9m foi a linguagem. Eu estava sempre acostumada a falar para um p\u00fablico acad\u00eamico, mesmo sendo um pouco jovem (risos), o modo como a gente se posiciona para falar, comunicar, difere de outros grupos. Aos poucos fui me inteirando um pouco mais de muitas express\u00f5es, n\u00e3o apenas g\u00edrias, mas tamb\u00e9m de mercado, marketing, golpes, etc. Por fim, ressalto que desde o in\u00edcio de minha pesquisa, circulei em ambientes on e off-line.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea alguma vez realizou o trabalho de campo fora do digital?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>S<\/strong>im, com certeza! N\u00e3o \u00e9 porque sempre realizei pesquisas na \u00e1rea de antropologia digital que isso significa que n\u00e3o fiz campo em ambientes off-line. Mas \u00e9 claro que isso depende muito do tipo de pesquisa que se faz e como tu vai estabelecendo rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a com teus interlocutores a ponto de te levarem para ambientes off-line. Quando trabalhei com idosos no mestrado, por exemplo, meu campo que inicialmente come\u00e7ou no online me direcionou para um curso de inform\u00e1tica para a Melhor Idade em Santa Maria\/RS, mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o permaneci no online, mas que circulei entre o curso e Facebook (principalmente) para entender qual era o uso que meus interlocutores davam a determinadas plataformas. E essa circula\u00e7\u00e3o on-off foi fundamental para a an\u00e1lise dos dados posteriormente, como por exemplo, muitos idosas e idosas frequentavam o curso para se sentirem \u201catualizados\u201d e cidad\u00e3os ativos em sociedade, para manter rela\u00e7\u00f5es com seus netos e netas (ou seja, conseguirem se sentir av\u00f4s presentes) apesar da dist\u00e2ncia ou mesmo para manter eles frequentando suas casas atrav\u00e9s da comprar de computadores ou notebooks destinado \u00e0 eles. Flutuar entre ambientes online e offline pode ser importante no contexto de m\u00eddias sociais que vivemos hoje, ou seja, de uma Internet E\u00b3 (Embedded, Embodied, Everyday \u2013 na tradu\u00e7\u00e3o livre, Incorporada, Corporificada e Cotidiana) como diz a Hine (2015), na qual o smartphone se tornou um dispositivo muito presente na vida das pessoas. Mas ressalto, h\u00e1 campos ainda como no caso dos games e Second Life (SL), que em grande parte n\u00e3o requerem do pesquisador ou pesquisadora, uma etnografia no off-line e digo isso porque j\u00e1 realizei pesquisa no SL e nunca conheci meus interlocutores fora do mundo, e nem por isso, a pesquisa deixou de ser relevante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode me contar mais, nas tuas palavras, algumas quest\u00f5es importantes que tu desvendou\/sondou com a sua pesquisa de doutorado?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bom, acho que uma das primeiras coisas foi observar a complexidade do universo da lutas, principalmente no que concerne ao modo como o mercado se estrutura no Brasil. Se por um lado, vemos alguns atletas renomados constantemente na m\u00eddia, por outro, isso n\u00e3o significa que todos t\u00eam um capital financeiro est\u00e1vel, que conseguem viver apenas de lutas. V\u00e1rios deles t\u00eam profiss\u00f5es paralelas, as quais lhes permitem sobreviver cotidianamente, ter uma renda fixa. Dessa forma, os valores das bolsas que recebem para lutar em um evento de MMA torna-se um dinheiro extra, o plus. O discurso empreendedor \u00e9 algo muito forte no meio pesquisado, tanto entre atletas como entre os promotores e empres\u00e1rios. \u00c9 preciso um investimento significativo para permanecer ativo no mercado, seja como evento ou mesmo como atleta profissional. E no caso brasileiro, infelizmente, essa quest\u00e3o dos patrocinadores ainda \u00e9 escassa dependendo da regi\u00e3o. Contudo, mesmo havendo alguns desafios na produ\u00e7\u00e3o de eventos, foi poss\u00edvel observar a import\u00e2ncia do marketing para a consolida\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do MMA, n\u00e3o apenas no \u00e2mbito nacional como internacional. Saber \u201cse vender\u201d para uma luta \u00e9 fundamental para os atletas, desde a maneira como voc\u00ea mesmo cria seu perfil de lutador para m\u00eddia especializada at\u00e9 como voc\u00ea consegue engajar um bom p\u00fablico nas redes sociais digitais. S\u00e3o pontos bastante observados por parte de quem contrata um atleta para o show.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;O que mais te atrai dentro da antropologia digital? Por que essa \u00e1rea de interesse?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Eu sempre me interessei pela rela\u00e7\u00e3o entre humanos e tecnologias. Ainda mais porque sou de uma gera\u00e7\u00e3o bastante conectada. Meu celular, minha vida (risos). Ou melhor, agora smartphone. Cursar ci\u00eancias sociais me permitiu me aprofundar na compreens\u00e3o do significado que as pessoas d\u00e3o as tecnologias digitais em suas vidas<\/p>\n\n\n\n<p>. Mas a principal respons\u00e1vel para que eu seguisse na antropologia e me apaixonar profundamente pela \u00e1rea foi a antrop\u00f3loga D\u00e9bora Krischke Leit\u00e3o, minha eterna orientadora, hoje professora na UQAM (Universit\u00e9 du Qu\u00e9bec \u00e0 Montr\u00e9al). Foi com ela que comecei a focar minhas pesquisas na antropologia digital, l\u00e1 em 2013, quando realizei uma etnografia no mundo virtual 3D Second Life (SL).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Na \u00e9poca, meu foco era entender o processo de socializa\u00e7\u00e3o do noob\/newbie (novatos) no SL. Foi um per\u00edodo que me exigiu muito aprendizado, experi\u00eancias \u00fanicas, al\u00e9m de construir rela\u00e7\u00f5es com avatares de distintos pa\u00edses. Lembro at\u00e9 hoje de um interlocutor canadense que me levava para diversas ilhas para contar suas hist\u00f3rias ali no mundo, at\u00e9 disserta\u00e7\u00f5es do Canad\u00e1 ele chegou a me enviar para me ajudar na pesquisa. Um dos pontos mais interessantes foi observar como os avatares residentes (categoria nativa e que se refere aqueles com mais tempo de exist\u00eancia no mundo) constru\u00edam sua pr\u00f3pria historicidade dentro e fora do SL. Alguns eram conhecidos por suas marcas, constru\u00e7\u00f5es, enfim, giravam um capital financeiro que ia para al\u00e9m do mundo, mas que eram altamente reconhecidos ali dentro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da etnografia no mundo virtual, as tecnologias digitais nunca mais fugiram de mim como ambientes de pesquisas. Pude migrar de plataforma, mas o interesse etnogr\u00e1fico sempre est\u00e1 em mim, at\u00e9 porque gosto muito de observar os diferentes usos que as pessoas fazem delas. Isso me mostra a multiplicidade do que n\u00f3s somos e eu fico fascinada em compreender diferentes perspectivas de vida que muitas vezes diferem da minha. Fazer antropologia \u00e9 se desafiar diariamente, seja pelo familiar ou pelo ex\u00f3tico, e eu gosto muito de desafios<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e9ssica Shaiene Gaige ingressou no PPG em Antropologia Social em 2017. 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