{"id":1993,"date":"2022-05-30T10:02:28","date_gmt":"2022-05-30T13:02:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/?p=1993"},"modified":"2022-05-30T10:04:28","modified_gmt":"2022-05-30T13:04:28","slug":"entrevista-ifch-nao-a-universidade-nao-esta-nem-de-longe-preparada-para-o-mundo-digital-enfatiza-jonadas-techio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/entrevista-ifch-nao-a-universidade-nao-esta-nem-de-longe-preparada-para-o-mundo-digital-enfatiza-jonadas-techio\/","title":{"rendered":"Entrevista IFCH: \u201cN\u00c3O &#8211; a universidade n\u00e3o est\u00e1, nem de longe, preparada para o mundo digital\u201d enfatiza J\u00f4nadas Techio"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ifch\/_files\/view.php\/resize\/1920x1920\/blogpost\/1015\/62797d9edec3b.png\" alt=\"J\u00d4NADAS TECHIO ENTREVISTA\" width=\"810\" height=\"810\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Professor de Filosofia na UFRGS por mais de 11 anos, e agora arquiteto de solu\u00e7\u00f5es Blockchain, J\u00f4nadas Techio assumiu responsabilidades desde cedo, at\u00e9 com si pr\u00f3prio, correndo atr\u00e1s daquilo que o instigava. Como um bom jovem, apresentava uma postura questionadora que o levou a conhecer diversas ideias diferentes e a ficar de castigo na biblioteca. Foi l\u00e1, no entanto, que iniciou sua jornada pelo mundo da pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao declarar seu \u201coutro lado\u201d, Techio, em entrevista, conta a paix\u00e3o que vai al\u00e9m da reflex\u00e3o: as experimenta\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. E ao final, conduz um pensamento voltado para o olhar que os professores devem ter com seus estudantes em um mundo cada vez mais virtual, beirando ao Web3. Confira a conversa abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode nos contar um pouco sobre sua inf\u00e2ncia, onde cursou o ensino prim\u00e1rio e m\u00e9dio?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nasci em Casca, uma pequena cidade na serra ga\u00facha. Meus pais eram agricultores, mas logo depois que nasci passaram a trabalhar em um hotel e restaurante que servia viajantes e caminhoneiros, os quais trafegavam pela RS 324. Depois de muitos anos alugando o ponto, conseguiram compr\u00e1-lo. Desde muito cedo, eu ajudei nas tarefas do dia a dia do estabelecimento, que iam desde cultivo de alimentos e cria\u00e7\u00e3o de animais, at\u00e9 o preparo da comida e demais \u201cservi\u00e7os de hospitalidade\u201d .&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cursei o ensino prim\u00e1rio e m\u00e9dio em escolas p\u00fablicas locais. O ensino prim\u00e1rio foi numa escola pequena bem pr\u00f3xima de casa. Como a escola atendia a um povoado min\u00fasculo, os professores conheciam bem as fam\u00edlias dos alunos. Acredito que isso, junto com o esfor\u00e7o das professoras e professores, tenha sido um fator importante para que, apesar das dificuldades inerentes ao ensino p\u00fablico, tiv\u00e9ssemos uma educa\u00e7\u00e3o acima da m\u00e9dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o t\u00ednhamos livros em casa, foi fundamental para mim ter acesso \u00e0 biblioteca da escola. O acervo n\u00e3o era muito grande, mas acredito que li tudo que havia para ser lido l\u00e1 &#8211; desde literatura infanto-juvenil at\u00e9 enciclop\u00e9dias. Lembro que gostava particularmente de literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de textos t\u00e9cnicos sobre f\u00edsica nuclear e energia at\u00f4mica &#8211; acredito que se me perguntassem o que eu queria ser quando crescesse responderia algo como \u201ccientista\u201d (que na minha cabe\u00e7a era sin\u00f4nimo de f\u00edsico, naquela \u00e9poca).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ensino m\u00e9dio eu fui cursar \u201cna cidade\u201d. Apesar de ficar a apenas 13 Km de dist\u00e2ncia de casa, a viagem para a escola tinha que come\u00e7ar bem cedo, por volta das 6h da manh\u00e3, pois o \u00f4nibus escolar tinha que passar por todos os povoados do caminho para buscar os alunos. Tive \u00f3timas professoras e professores nessa escola tamb\u00e9m, mas, como bom adolescente, gostava de \u201cquestionar autoridades\u201d, e alguns(as) professores(as) acabavam sendo alvos mais \u00e0 m\u00e3o, particularmente quando tentavam ensinar coisas que claramente n\u00e3o compreendiam, ou pelas quais visivelmente n\u00e3o tinham nenhum interesse.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rias discuss\u00f5es acabaram terminando com o \u201ccastigo\u201d de ter que sair da sala e ir para a biblioteca &#8211; que era obviamente onde eu preferia estar. (N\u00e3o me orgulho dessa atitude,&nbsp;<em>mas<\/em>&nbsp;ela se originava de um&nbsp;<em>problema<\/em>&nbsp;real, e acredito que a experi\u00eancia tenha me ajudado a&nbsp;<em>tentar<\/em>&nbsp;ser um professor melhor, preparando as aulas da melhor maneira que podia e, tamb\u00e9m na medida do poss\u00edvel, optando por tratar de temas pelos quais eu tinha interesse genu\u00edno.) Tamb\u00e9m recordo de acaloradas, mas amistosas, discuss\u00f5es pol\u00edticas com colegas &#8211; sendo militante de esquerda no meio de uma enorme maioria de colegas de direita, era dif\u00edcil passar um dia sem encontrar um t\u00f3pico que pudesse gerar pol\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Como o senhor foi parar na Filosofia? O que te levou at\u00e9 esse campo do conhecimento?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil reconstruir o caminho que me levou at\u00e9 a Filosofia. N\u00e3o h\u00e1 nada relacionado \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o inicial que&nbsp;<em>obviamente<\/em>&nbsp;aponte nessa dire\u00e7\u00e3o. Meus pais n\u00e3o tinham sequer completado o ensino fundamental, e, como disse, n\u00e3o havia livros na nossa casa. Mas eles sempre me incentivaram a estudar, e eu sempre tive uma inclina\u00e7\u00e3o natural para refletir, questionar, e querer entender as coisas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 fui conhecer a \u201cFilosofia\u201d,&nbsp;<em>com esse nome<\/em>, quando cursei essa disciplina no ensino m\u00e9dio. Foi ent\u00e3o que descobri que as perguntas que me acometiam (e que pareciam n\u00e3o incomodar tanto meus colegas) j\u00e1 tinham sido investigadas por fil\u00f3sofos e fil\u00f3sofas ao longo da hist\u00f3ria. Mesmo que n\u00e3o houvesse respostas ou solu\u00e7\u00f5es universalmente aceitas, o fato de que seres humanos dedicaram tempo a refletir seriamente sobre essas quest\u00f5es era reconfortante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante essa descoberta, continuei interessado em muitas outras disciplinas, e at\u00e9 o momento em que tive que decidir o que colocar no meu formul\u00e1rio de inscri\u00e7\u00e3o no vestibular ainda estava indeciso entre um punhado de op\u00e7\u00f5es &#8211; dentre elas F\u00edsica, Inform\u00e1tica, Hist\u00f3ria, Literatura, e Filosofia. (Meus professores, por outro lado, diziam que eu devia fazer Direito &#8211; o que nunca passou pela minha cabe\u00e7a!). F\u00edsica possivelmente teria sido minha primeira op\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fosse pelo fato de que eu tinha um primo mais velho cursando F\u00edsica na UFRGS, e que me relatou que l\u00e1 faziam mais contas do que experimentos &#8211; em particular, que n\u00e3o faziam nenhum experimento envolvendo energia nuclear, o que, obviamente, me desanimou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;No fim das contas, decidi por Filosofia um tanto impulsivamente. A estrat\u00e9gia era simples: \u201cvou testar, e se n\u00e3o gostar fa\u00e7o outra coisa depois\u201d. Entrei no curso em 1999, e j\u00e1 se v\u00e3o mais de duas d\u00e9cadas intensamente dedicadas \u00e0 Filosofia. Mas durante todo esse per\u00edodo, continuei aplicando a mesma estrat\u00e9gia que havia usado no vestibular, a cada nova etapa &#8211; depois da gradua\u00e7\u00e3o vieram mestrado, doutorado, p\u00f3s-doutorado(s), e, finalmente, o magist\u00e9rio. Ali\u00e1s, pensando bem, foi justamente essa estrat\u00e9gia que me levou, finalmente, a sair da vida acad\u00eamica. N\u00e3o sei se a recomendaria para outras pessoas, mas me serviu bem.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor parte de um interesse filos\u00f3fico pela tecnologia, como ela muda nossas vidas, para um interesse mais direto sobre estas novas tecnologias, como o Blockchain. Poderia falar um pouco mais sobre esta mudan\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>Esse interesse pela tecnologia tem a ver com meu \u201coutro lado\u201d, por assim dizer. Al\u00e9m de sempre ter gostado de estudar e refletir, tamb\u00e9m sempre me interessei por atividades mais t\u00e9cnicas e pr\u00e1ticas. Por exemplo, desde muito cedo aprendi a trabalhar com madeira &#8211; tinha um tio que era carpinteiro, e outros dois tios que possu\u00edam uma f\u00e1brica de esquadrias, e por isso sempre havia servi\u00e7o dispon\u00edvel nos turnos em que n\u00e3o ia para a escola, nas f\u00e9rias, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m gostava de desmontar coisas, principalmente eletr\u00f4nicos. No final do ensino fundamental cheguei a fazer um curso de t\u00e9cnico em \u201celetr\u00f4nica de r\u00e1dio e TV\u201d, pelo Instituto Universal Brasileiro. Lembro at\u00e9 hoje daqueles livros em papel jornal que vinham pelo correio, cheios de esquemas de circuitos e com p\u00e1ginas de provas para destacar e enviar para avalia\u00e7\u00e3o. Esse interesse migrou para os computadores, assim que consegui colocar as m\u00e3os em um.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para isso, eu primeiro precisei juntar dinheiro, o que fiz com v\u00e1rios trabalhos de ajudante (de carpinteiro, pedreiro, pintor, eletricista, etc.). Acredito que foi no segundo ano do ensino m\u00e9dio que comprei meu primeiro computador. Era um XT usado e bastante defasado j\u00e1 naquela \u00e9poca, que rodava MS-DOS em \u201cfloppy discs\u201d enormes. Mas foi nele que aprendi a editar textos, jogar, programar (em linguagens como BASIC e depois COBOL), instalar e testar programas e sistemas operacionais, e a automatizar tarefas simples usando scripts. Por um tempo pensei em trabalhar como programador ap\u00f3s concluir o ensino m\u00e9dio, mas acabei n\u00e3o encontrando nenhuma oportunidade. (Talvez, se eu tivesse seguido esse caminho, hoje estivesse largando a profiss\u00e3o de programador e migrando para a Filosofia!)<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo para dizer que a tecnologia nunca esteve distante dos meus interesses. Pelo contr\u00e1rio, continuei apaixonado por computadores, sistemas operacionais, programa\u00e7\u00e3o e, posteriormente, pela internet pela vida toda. Conheci o Linux (que \u00e9 um sistema de c\u00f3digo aberto) quando entrei na UFRGS, e desde ent\u00e3o nunca mudei de sistema. Virei f\u00e3 incondicional de tudo que \u00e9 aberto e de livre acesso, e tamb\u00e9m, de modo mais geral, da cultura do opensource &#8211; lembro de repetir muitas vezes para mim mesmo, e depois para alguns de meus orientandos, o mantra \u201c<em>release early, release often<\/em>\u201d (algo como \u201cpublique cedo, pulique com frequ\u00eancia\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, um tema&nbsp;<em>filos\u00f3fico<\/em>&nbsp;que sempre me interessou foi o de nossa rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia. Acredito que \u00e9 justamente essa rela\u00e7\u00e3o que nos distingue de muitos outros seres vivos. Existem, claro, outros animais que usam ferramentas, mas as ferramentas que usamos alteram nossa forma de ver o mundo &#8211; nosso pr\u00f3prio ser &#8211; de um modo fundamental. Foi lendo Heidegger que aprendi a conceitualizar melhor esse ponto.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo me leva, por fim, ao blockchain. N\u00e3o vem ao caso aqui explicar o funcionamento dessa tecnologia, mas basta dizer que, na minha opini\u00e3o, essa ser\u00e1 a base de uma nova internet. E dado que passamos cada vez mais tempo trabalhando, estudando, nos comunicando, jogando &#8211; em suma, vivendo &#8211; na internet, essa poder\u00e1 ser uma daquelas grandes mudan\u00e7as em nossa exist\u00eancia provocada por uma nova tecnologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos termos que est\u00e1 em voga para descrever esse futuro \u00e9 o \u201cMetaverso\u201d &#8211; uma ideia na verdade j\u00e1 antiga, mas que ao que tudo indica finalmente vai virar realidade. O termo menos popular mas, a meu ver, mais adequado, \u00e9 \u201cWeb3\u201d. O termo obviamente sugere uma terceira gera\u00e7\u00e3o da web. Em sua primeira gera\u00e7\u00e3o, l\u00e1 pelos anos 1990, a internet era uma rede descentralizada em que a informa\u00e7\u00e3o ficava dispon\u00edvel de forma est\u00e1tica, para simples&nbsp;<em>consumo<\/em>. Com a Web2, que come\u00e7a nos anos 2000, as aplica\u00e7\u00f5es se tornaram mais din\u00e2micas e interativas, mas tamb\u00e9m mais centralizadas (controladas por grandes plataformas).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00f3s, usu\u00e1rios, passamos a ser simultaneamente consumidores e produtores de dados &#8211; dados estes que as plataformas colhem e monetizam, por exemplo, criando an\u00fancios personalizados. Essa \u00e9 a internet que todos conhecemos e ainda usamos. A promessa da Web3 \u00e9 permitir que retomemos o controle de nossos dados, e que fa\u00e7amos parte de uma rede mais descentralizada e menos dependente de servi\u00e7os de grandes corpora\u00e7\u00f5es (se o produto \u00e9 \u201cgratuito\u201d,&nbsp;<em>voc\u00ea<\/em>&nbsp;\u00e9 o produto!).<\/p>\n\n\n\n<p>Dado esse meu hist\u00f3rico, acredito que deve estar claro que migrar da filosofia para a tecnologia n\u00e3o foi t\u00e3o complicado para mim. Exigiu, claro, um esfor\u00e7o mais concentrado para me atualizar, aprender coisas novas, \u201cme reinventar\u201d, como se diz. Mas acredito que as habilidades que desenvolvi como pesquisador e professor de filosofia me ajudaram bastante nessa transi\u00e7\u00e3o, permitindo que eu compreendesse melhor os pressupostos e as poss\u00edveis consequ\u00eancias da tecnologia blockchain em nossas vidas. Essa compreens\u00e3o e a capacidade de articul\u00e1-la de forma clara para outras pessoas t\u00eam se mostrado bastante \u00fateis em minha nova profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O senhor optou por sair da universidade e buscar novos rumos profissionais. Poderia falar um pouco mais sobre estes novos caminhos e o que o levaram a isto?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que adiantei um pouco essa resposta, ou parte dela, ao falar sobre minhas expectativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia blockchain. Dadas essas expectativas, abracei sem pensar duas vezes a primeira oportunidade que encontrei para pesquisar esse assunto de forma mais sistem\u00e1tica. Essa oportunidade me foi dada pelo F\u00e1bio Ramos, CEO da Axur, uma empresa de ciberseguran\u00e7a. Conheci o F\u00e1bio em um almo\u00e7o no final do ano passado. Na ocasi\u00e3o percebemos que t\u00ednhamos muito em comum, incluindo esse interesse conjunto pela tecnologia (particularmente pelo blockchain e pela Web3) e pela filosofia e outras ci\u00eancias humanas. Como relatei que estava buscando novos desafios profissionais, o F\u00e1bio decidiu encomendar uma pesquisa que resultou em uma apresenta\u00e7\u00e3o que fiz no in\u00edcio de 2022 para v\u00e1rios funcion\u00e1rios da Axur, explicando o funcionamento do blockchain e sugerindo algumas possibilidades concretas de aplica\u00e7\u00e3o, tendo em vista o prospecto de oferecer novos produtos e servi\u00e7os pela empresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da apresenta\u00e7\u00e3o pude acompanhar de perto o desenvolvimento de alguns experimentos baseados nas indica\u00e7\u00f5es que fiz. Aprendi muito no processo e me convenci de que esse era um tipo de atividade para o qual minhas habilidades e interesses poderiam contribuir. Decidi ent\u00e3o sair do servi\u00e7o p\u00fablico para trilhar esse novo caminho, e fui contratado como arquiteto de solu\u00e7\u00f5es blockchain e evangelista da Web3 pela Axur. Embora eu j\u00e1 tivesse tomado a decis\u00e3o de sair da academia antes dessa oportunidade surgir, por raz\u00f5es que j\u00e1 passo a apresentar, se n\u00e3o fosse o incentivo do F\u00e1bio provavelmente a transi\u00e7\u00e3o teria sido muito mais dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso me leva a um outro aspecto da resposta \u00e0 sua pergunta, que \u00e9 mais negativo. Minha paix\u00e3o por tecnologia \u00e9 em boa parte uma paix\u00e3o por&nbsp;<em>efici\u00eancia<\/em>. Se posso automatizar uma tarefa que \u00e9 um mero&nbsp;<em>meio<\/em>, n\u00e3o um fim, ent\u00e3o acredito que essa tarefa deveria ser automatizada. O problema \u00e9 que no servi\u00e7o p\u00fablico h\u00e1 uma&nbsp;<em>infinidade<\/em>&nbsp;de tarefas que considero perfeitamente automatiz\u00e1veis (ou, simplesmente, que n\u00e3o deveriam sequer existir!), mas que acabam tomando uma parcela enorme do nosso tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perda de tempo e inefici\u00eancia s\u00e3o inerentes \u00e0 burocracia, e sempre me incomodaram profundamente. Para piorar, nesses mais de 11 anos em que trabalhei como professor, a burocracia s\u00f3 aumentou. Com a pandemia de Covid-19 essa situa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 estava ruim, piorou muito para todos n\u00f3s &#8211; professores, alunos, funcion\u00e1rios. Demandas de aten\u00e7\u00e3o explodiram, e ficou cada vez mais dif\u00edcil fazer o que eu realmente gostava de fazer, que era estudar, pesquisar, preparar aulas, lecionar, discutir e produzir filosofia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez disso, o dia a dia de um professor universit\u00e1rio passou a consistir basicamente em responder e-mails e outras mensagens, participar de reuni\u00f5es cada vez mais frequentes, de comiss\u00f5es cada vez mais numerosas, preencher formul\u00e1rios e relat\u00f3rios, fazer pareceres, etc., etc. Como se n\u00e3o bastasse a intermin\u00e1vel rotina, tudo passou a ser \u201curgente\u201d, \u201cpra ontem\u201d, \u201cem cima do la\u00e7o\u201d &#8211; o que, obviamente, significa que&nbsp;<em>nada mais \u00e9 urgente<\/em>, pois n\u00e3o h\u00e1 mais um contraste operando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Kierkegaard j\u00e1 apontava, l\u00e1 por meados do s\u00e9culo XIX, o \u201cnivelamento\u201d de nossa cultura, ou seja, o fato de que distin\u00e7\u00f5es e hierarquias de valores se desfazem, de modo que nada mais \u00e9 verdadeiramente importante. Infelizmente, creio que estamos vivendo o paroxismo dessa ideia, particularmente na academia. Ao me dar conta disso, depois de anos tentando me auto-enganar, e sem nenhuma perspectiva de que essa situa\u00e7\u00e3o mudaria (para melhor) no futuro pr\u00f3ximo, a conclus\u00e3o do racioc\u00ednio pr\u00e1tico ficou bastante \u00f3bvia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a Universidade p\u00fablica brasileira est\u00e1 preparada para para o novo mundo digital? O que ela tem a oferecer e onde ela deve mudar?<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do que acabei de dizer, n\u00e3o deve surpreender ningu\u00e9m que minha resposta seja categ\u00f3rica e enf\u00e1tica: N\u00c3O &#8211; a universidade n\u00e3o est\u00e1, nem de longe, preparada para o mundo digital. E n\u00e3o se trata apenas da universidade p\u00fablica, nem da universidade brasileira. O ensino, em geral, est\u00e1 sendo atropelado, no mundo todo, pelo ritmo das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que continuemos esperando que alunos fiquem horas quietinhos prestando aten\u00e7\u00e3o em uma aula quando o intervalo de aten\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o acostumados em seus dispositivos \u00e9 de alguns segundos, se tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um oceano de informa\u00e7\u00e3o de alt\u00edssima qualidade dispon\u00edvel de forma muitas vezes gratuita na internet. Por isso, no que toca especificamente ao ensino, acredito que o caminho \u00e9 nos tornarmos (n\u00f3s professores) cada vez menos&nbsp;<em>fontes de informa\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e mais instigadores. Isso pode acontecer de v\u00e1rias formas. Uma delas \u00e9 simples cont\u00e1gio: \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o se interessar por um tema pelo qual algu\u00e9m est\u00e1&nbsp;<em>visivelmente<\/em>&nbsp;apaixonado(a). E mesmo que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, pelo menos a paix\u00e3o, a seriedade e a profundidade com que tratamos de nossos assuntos preferidos podem servir de exemplo para que estudantes fa\u00e7am o mesmo com seus temas favoritos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, infelizmente, me parece que h\u00e1 cada vez menos espa\u00e7o para esse tipo de abordagem na engessada estrutura institucional acad\u00eamica. Um sintoma, de modo algum isolado, s\u00e3o nossos planos de ensino, que exigem cada vez mais informa\u00e7\u00f5es, precisam passar por mais an\u00e1lises em mais comiss\u00f5es, frequentemente retornando \u201cem dilig\u00eancia\u201d por que n\u00e3o cont\u00e9m essa ou aquela frase, essa ou aquela previs\u00e3o de atividade, etc., etc. Haja \u00e2nimo e paci\u00eancia para tentar encaixar sua paix\u00e3o nesses escaninhos! (E para&nbsp;<em>refazer tudo a cada ano ou semestre,<\/em>&nbsp;se voc\u00ea \u201cousar\u201d ir alguns graus para uma ou outra nova dire\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 certa: o desafio de nos prepararmos para esse novo mundo digital seria muito mais f\u00e1cil de encarar se n\u00e3o precis\u00e1ssemos perder tanto&nbsp;<em>tempo<\/em>&nbsp;(e \u00e2nimo!) com as tarefas burocr\u00e1ticas que mencionei. E o pior (ou o melhor, dependendo de como voc\u00ea olha para o proverbial copo d&#8217;\u00e1gua) \u00e9 que&nbsp;<em>n\u00e3o precisar\u00edamos perder esse tempo<\/em>, uma vez que j\u00e1 temos um substituto para tudo que \u00e9 mec\u00e2nico e repetitivo &#8211; justamente, a tecnologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a tecnologia\u00a0<em>em si mesma<\/em>\u00a0n\u00e3o soluciona nada &#8211; tudo depende de como ela \u00e9 aplicada. Mal aplicada, ela acaba apenas nos tornando mais \u201cmec\u00e2nicos\u201d &#8211; e \u00e9 majoritariamente isso que tem acontecido com os (t\u00edmidos) \u201cavan\u00e7os\u201d tecnol\u00f3gicos que experienciei ao longo de minha carreira de professor. Bem aplicada, ela permite que dediquemos mais tempo ao que\u00a0<em>realmente importa<\/em>\u00a0&#8211; \u00e0quilo que cada um(a) de n\u00f3s considera um fim em si mesmo, e que, pelo menos por enquanto, nenhuma m\u00e1quina \u00e9 capaz de fazer.Nesse sentido, respondendo sua \u00faltima pergunta diretamente: o melhor que a Universidade tem a oferecer s\u00e3o, sem d\u00favida, as\u00a0<em>pessoas<\/em>\u00a0que nela ingressam para aprender, ensinar, e servir. E onde ela deve mudar \u00e9 em todos os contextos em que pessoas estejam servindo mais como recursos (n\u00fameros, m\u00e1quinas, ferramentas) e menos como\u00a0<em>humanas<\/em>\u00a0(criativas, aut\u00f4nomas, questionadoras).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor de Filosofia na UFRGS por mais de 11 anos, e agora arquiteto de solu\u00e7\u00f5es Blockchain, J\u00f4nadas Techio assumiu responsabilidades desde cedo, at\u00e9 com si pr\u00f3prio, correndo atr\u00e1s daquilo que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0},"categories":[157],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1993"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1993"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1995,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1993\/revisions\/1995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}