{"id":2008,"date":"2022-06-14T14:45:43","date_gmt":"2022-06-14T17:45:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/?p=2008"},"modified":"2022-06-14T14:45:44","modified_gmt":"2022-06-14T17:45:44","slug":"entrevista-ifch-o-que-me-levou-ao-curso-e-a-necessidade-de-me-entender-com-o-mundo-la-fora-explica-denise-jardim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/entrevista-ifch-o-que-me-levou-ao-curso-e-a-necessidade-de-me-entender-com-o-mundo-la-fora-explica-denise-jardim\/","title":{"rendered":"Entrevista IFCH: \u201cO que me levou ao curso \u00e9 a necessidade de me entender com o mundo \u2018l\u00e1 fora\u2019\u201d, explica Denise Jardim"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ifch\/_files\/view.php\/resize\/1920x1920\/blogpost\/1030\/6297a3c813c47.png\" alt=\"entrevista ifch\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Autora do livro&nbsp; &#8221; Imigrantes ou Refugiados?&#8221; e professora do Departamento e PPG em Antropologia, Denise Fagundes Jardim completa 30 anos de UFRGS ano que vem, em entrevista, ela conta sobre sua atua\u00e7\u00e3o na Universidade. Ela remonta sua trajet\u00f3ria estudantil em meados dos anos 70 e como a m\u00fasica entrou em sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembra o que a fez buscar o curso de Antropologia e o que a motivou a continuar os estudos fora do pa\u00eds. Com o nascimento de seu filho , Jardim explica como a maternidade n\u00e3o impediu de aprofundar suas pesquisas acad\u00eamicas, escolheu o planejamento, pois seu interc\u00e2mbio cient\u00edfico tamb\u00e9m coincidia com as f\u00e9rias escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a entrevista abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode nos contar um pouco sobre sua inf\u00e2ncia, onde cursou o ensino prim\u00e1rio e m\u00e9dio?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu estudei em uma escola experimental privada, onde a professora Dirce Ferrari propunha a alfabetiza\u00e7\u00e3o precoce nos anos 70. Era uma unidade ligada a um col\u00e9gio privado, n\u00e3o me recordo qual era. Mas a unidade alcan\u00e7ava at\u00e9 a segunda s\u00e9rie e de l\u00e1, eu e meu irm\u00e3o mais velho, fomos para o Instituto educacional Jo\u00e3o XXIII, em 1975.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sou natural da cidade de Dom Pedrito e embora nunca tenha morado l\u00e1, meus pais tamb\u00e9m estudaram em col\u00e9gios privados. Minha m\u00e3e como bolsista de um col\u00e9gio de freiras e meu pai completando seus estudos em Porto Alegre no Anchieta e depois fazendo a Engenharia civil na UFRGS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de manifestarem taxativamente que n\u00e3o queriam para seus filhos a educa\u00e7\u00e3o confessional, mesmo que meu pai tivesse \u00f3timas lembran\u00e7as do seu col\u00e9gio pois era jogador de futebol destacado nessa \u00e9poca e durante a escola de engenharia na UFRGS.Minha m\u00e3e retomou seus estudos e iniciou o curso de psicologia na PUC, atividade que exerce at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O col\u00e9gio tinha um grande atrativo para mim, ensinavam m\u00fasica e a leitura de partituras com flauta doce, tendo acesso a outros instrumentos musicais. N\u00e3o era raro o aconselhamento escrito em meu boletim de desempenho que eu deveria ter o mesmo cuidado com os cadernos de outras mat\u00e9rias que eu tinha com os cadernos de m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a escola n\u00e3o tivesse banda, que era a experi\u00eancia de minha m\u00e3e em sua escola, a escola oferecia muitos est\u00edmulos criativos no prim\u00e1rio, mas depois era voltada no ensino secund\u00e1rio para as defini\u00e7\u00f5es profissionais, ou seja, visava preparar alunos para os vestibulares de universidades. Isso era assunto cotidiano e uma press\u00e3o constante indagando qual profiss\u00e3o escolheriam, como algo que obviamente fariam ap\u00f3s a conclus\u00e3o do ensino m\u00e9dio, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de minha trajet\u00f3ria escolar, \u00e9 poss\u00edvel compreender a centralidade do ensino superior para a manuten\u00e7\u00e3o de uma identidade de classe, baseada na ideia de sucesso individual e aut\u00f4nomo, mas pleno de press\u00f5es e hierarquias que escalonam a \u201cdistribui\u00e7\u00e3o\u201d da ideia de m\u00e9rito. Ao mesmo tempo, uma aten\u00e7\u00e3o escolar que reitera essa ideia de \u201cbolha\u201d. Hoje, em algumas escolas privadas \u00e9 poss\u00edvel encontrar os feitos dos alunos na entrada principal do col\u00e9gio. Alguns colocam na sala da secretaria os trof\u00e9us, placas comemorativas de feitos esportivos, ou desempenho em olimp\u00edadas matem\u00e1ticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum encontrar placas de egressos ao lado de cada nome ao qual o curso superior ingressaram como registro de um m\u00e9rito da escola e do aluno. Evidencia-se a\u00ed a centralidade da universidade no projeto familiar e, por certo, algo que revela em muito a estrat\u00e9gia brasileira de manuten\u00e7\u00e3o de uma ideia de destino de classe social. Da\u00ed para lutar pelo monop\u00f3lio do merecimento deste destino \u00e9 uma dist\u00e2ncia bem pequena, que explica o que chamamos de branquitude, e isso \u00e9 tamb\u00e9m uma escolha acr\u00edtica sobre a desigualdade no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, essa experi\u00eancia de \u201cpress\u00e3o\u201d durante o ensino m\u00e9dio n\u00e3o deixava entrever plenamente o privil\u00e9gio de ter uma dedica\u00e7\u00e3o na idade certa escolar e dedicar-me exclusivamente a estudar. A mensagem em casa e na escola era que dever\u00edamos sim escolher um curso superior e n\u00e3o havia de se esperar que fosse em universidades privadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como a senhora foi parar nas Ci\u00eancias Sociais? O que te levou at\u00e9 esse campo de conhecimento? Voc\u00ea cursou a gradua\u00e7\u00e3o entre 1985 e 1991 &#8211; como era o clima do curso? Quais os professores que te marcaram?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu vim parar nas Ci\u00eancias Sociais por v\u00e1rias raz\u00f5es. Era um momento de indaga\u00e7\u00f5es de uma jovem sobre o mundo. Um mundo que sempre foi muito encapsulado na vida escolar, a \u201cbolha\u201d protegida de uma classe m\u00e9dia branca. E aqui classe m\u00e9dia refiro n\u00e3o somente a uma quest\u00e3o financeira, que nem era t\u00e3o est\u00e1vel, mas pelas escolhas culturais que acompanham e permitem acessar oportunidades e privil\u00e9gios tidos e vistos como \u201cpr\u00f3prios\u201d da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escola, apesar da m\u00fasica n\u00e3o estar no ensino m\u00e9dio, eu tive bons professores de portugu\u00eas, literatura, matem\u00e1tica e uma aten\u00e7\u00e3o especial aos professores de hist\u00f3ria e OSPB-Organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do Brasil. Fui aluna de Willy Petersen em portugu\u00eas e literatura, Solon Viola em hist\u00f3ria geral e Maria da Gra\u00e7a Bulh\u00f5es em OSPB. Uma disciplina que era ministrada por uma soci\u00f3loga, na \u00e9poca eu nem sabia disso, mas anos depois me tornei colega dela no IFCH.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos professores nos provocavam a indagar sobre a hist\u00f3ria que l\u00edamos, e debater antes de escrevermos nossas compreens\u00f5es sobre uma leitura. Mesmo em matem\u00e1tica, al\u00e9m dos conte\u00fados e exerc\u00edcios, recordo de longas conversas da professora M\u00f4nica para entendermos em imagens o que seriam os logaritmos. Em casa, tive o privil\u00e9gio de ter meu pai buscando saber, se dispondo a explicar e indagar se sab\u00edamos extrair e deduzir f\u00f3rmulas matem\u00e1ticas e n\u00e3o simplesmente decorar a mat\u00e9ria. Claro que fug\u00edamos dele alegando j\u00e1 ter as \u201cboas notas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha \u201cescolha\u201d por um curso superior ia se colocando como um reconhecimento desse compromisso familiar. Embora como filha, mulher e ca\u00e7ula, minha escolha profissional n\u00e3o entrasse numa press\u00e3o sobre qual curso e se isso sustentaria uma fam\u00edlia.&nbsp; O final do ensino m\u00e9dio e a prepara\u00e7\u00e3o em cursinho coincidiu com a neve em Porto Alegre e com o ano das manifesta\u00e7\u00f5es de rua, que mais tarde inclusive renomearam a \u201cesquina democr\u00e1tica\u201d, um tradicional ponto de encontro da juventude negra em Porto Alegre, antes conhecida como \u201cesquina do Zaire\u201d. Apagamentos e paradoxos da tal democracia quando desconsidera a quest\u00e3o racial.<\/p>\n\n\n\n<p>Participava das manifesta\u00e7\u00f5es com minha m\u00e3e, eu j\u00e1 n\u00e3o estava no ensino m\u00e9dio. Batemos muita panela, lembro bem. Meu pai tinha tido uma vida p\u00fablica na cidade natal, junto ao seu pai, que fora prefeito da cidade e, nos anos da ditadura \u2013 como trabalhista. Mas na ditadura meu av\u00f4 fora conduzido coercitivamente a interrogat\u00f3rio. Portanto, \u201cn\u00e3o falar em pol\u00edtica\u201d era algo imposs\u00edvel, mas necess\u00e1rio. V\u00e1rias vezes, o debate finalizara com minha m\u00e3e fazendo suas recomenda\u00e7\u00f5es de que o que foi discutido em casa n\u00e3o poderia ser dito no col\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de viver com interesse a nossa primeira elei\u00e7\u00e3o\/decep\u00e7\u00e3o direta para governo do Estado em 1982, sou da gera\u00e7\u00e3o da \u201clei falc\u00e3o\u201d como modo de fazer a campanha pol\u00edtica na TV. No curso de Ci\u00eancias Sociais eu comecei com a pressa dos 17 anos. Sabia que tinha um tempo a meu favor, a juventude, e \u00e9 \u00f3bvio, o privil\u00e9gio que \u00e9 preciso reconhecer, de n\u00e3o ter a necessidade familiar de que eu viesse a trabalhar. Ali\u00e1s, bem enunciado como uma delicada forma de press\u00e3o para seguir os estudos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para decidir minha profissionaliza\u00e7\u00e3o, queria saber se as ci\u00eancias sociais era ou n\u00e3o o endere\u00e7o certo. Para isso, busquei ingressar em uma a\u00e7\u00e3o como extensionista e atuei por dois anos no projeto Itapu\u00e3. Tratava-se de um longevo projeto institucional e multidisciplinar na antropologia, sob coordena\u00e7\u00e3o de Daisy Barcellos. Nele, passaram muitos de meus colegas de ci\u00eancias sociais que hoje s\u00e3o professores ou vinculados a movimentos sociais como soci\u00f3logos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com certeza, essa oportunidade foi decisiva para definir pela minha perman\u00eancia no curso, e resultou em um envolvimento com atividades de campo e com um tema que dava sentido \u00e0s minhas escolhas de disciplinas eletivas, sem me ater a uma \u00fanica \u00e1rea de conhecimento.Tudo que discutiria o mundo rural, do ponto de vista hist\u00f3rico ou conceitual me interessava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A antropologia participou desse caminho, mas n\u00e3o significava uma especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de conhecimento. Havia um tema que me motivava a buscar debates e instrumentos anal\u00edticos, me entender com as ci\u00eancias sociais e suas potencialidades. Deve-se considerar que na \u00e9poca n\u00e3o havia uma oferta de bolsas como atualmente. O programa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e o pr\u00f3prio sal\u00e3o tiveram sua edi\u00e7\u00e3o quando curs\u00e1vamos as ci\u00eancias sociais e os alunos que participavam, tamb\u00e9m eram os que apresentavam seus trabalhos desenvolvidos sob orienta\u00e7\u00e3o de professores nas pr\u00f3prias disciplinas da gradua\u00e7\u00e3o. A bolsa de extens\u00e3o me colocava sob o compromisso de buscar resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me leva ao curso \u00e9 a necessidade de me entender com o mundo &#8220;l\u00e1 fora&#8221; (de minha bolha, de minha vida familiar, etc) e as Ci\u00eancias Sociais correspondiam a isso por me proporcionar um ambiente de debate cr\u00edtico, que para mim eram constitutivos tamb\u00e9m dos outros espa\u00e7os que eu tinha vivenciado. Podemos falar dos professores, mas tamb\u00e9m seria importante falar de encontros e de desencontros (a descoberta de afinidades e n\u00e3o afinidades) entre colegas estudantes que foram contempor\u00e2neos. Nas ci\u00eancias sociais, eu encontrei a \u201cminha turma\u201d e amigos que at\u00e9 hoje tenho como opini\u00f5es avalizadas, cr\u00edticos atentos e colaboradores no desenvolvimento de ideias, n\u00e3o s\u00f3 como \u201cgrupo de trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o curso, o mundo parecia ter nos isolado no campus do vale, o que n\u00e3o \u00e9 de todo um acaso. Isso era realmente um peso, o isolamento espacial no vale. E, ainda, aquilo que todos passamos, aquela pergunta persistente que indaga sobre sua profiss\u00e3o ainda marcada por of\u00edcios e expectativas tradicionais: \u201cah, mas d\u00e1 pra viver disso?\u201d Passei por todos esses coment\u00e1rios tamb\u00e9m. Tudo isso revela o quanto a antropologia era desconhecida ou associada a cultura geral, a erudi\u00e7\u00e3o, uma costela da cultura hegem\u00f4nica em um mundo distante. Ali\u00e1s, uma incompreens\u00e3o e algo bem estereotipado daquilo que j\u00e1 vinha constituindo a experi\u00eancia brasileira de antropologia como cr\u00edtica cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esses fragmentos de mem\u00f3ria ainda n\u00e3o d\u00e1 para entender o porqu\u00ea da escolha pela sociologia, ao inv\u00e9s da hist\u00f3ria e da arquitetura que estavam em meu horizonte de possibilidades. Tamb\u00e9m \u00e9 uma boa pista para a compreens\u00e3o da centralidade da universidade para os filhos e filhas brancos de classe m\u00e9dia! Exemplifica um modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o social das &#8220;bolhas&#8221; que configuram as refer\u00eancias do que podemos chamar de valores e trajet\u00f3rias que instauram a branquitude, sempre em torno de elementos de diferencia\u00e7\u00e3o para entesouramentos simb\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por certo, a &#8220;conquista&#8221; da vaga na universidade celebra o sucesso familiar, do individual em um conjunto de circunst\u00e2ncias que alavancam e preservam nichos e monop\u00f3lios. Sou, em parte, o resultado de uma sociedade que entendo que precisa repensar esses mecanismos escolares e produ\u00e7\u00f5es de monop\u00f3lios de oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Cursei Ci\u00eancias Sociais de 1985 a 1988, entre o in\u00edcio e o fim do governo Sarney. Formei junto com a promulga\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o que significa ter vivenciado o ano de 1996, que debatia e elegia os deputados da assembleia constituinte. Ingressei no mestrado quando o Collor de Melo chega \u00e0 presid\u00eancia confiscando as poupan\u00e7as e, \u00f3bvio, cortando bolsas de mestrado e verbas da educa\u00e7\u00e3o. Imposs\u00edvel n\u00e3o narrar a mim sem essas &#8220;co-incid\u00eancias&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Mas antes disso, a senhora tamb\u00e9m cursou Teoria Musical, entre 1976&nbsp; e 80. J\u00e1 era algo que estava previsto ou foi uma paix\u00e3o que foi acordada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica \u00e9 algo muito presente na minha fam\u00edlia paterna. Todos os irm\u00e3os e irm\u00e3s de meu pai, e ele mesmo, estudaram piano. A escola de m\u00fasica era de suas tias paternas na cidade natal. O Palestrina substitui essa potencial experi\u00eancia que meu pai teve na cidade natal e que foi buscada para mim. Foi uma escola que frequentei ainda na \u00e9poca do prim\u00e1rio \u2013 dos 9 aos 13 anos de idade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No curr\u00edculo, deixo ali a lembran\u00e7a de minha primeira formatura, em teoria musical, enquanto estudava piano, como professora. O final desse ciclo tamb\u00e9m coincide com o in\u00edcio do ensino m\u00e9dio. O c\u00e1lculo de minha escolaridade deve considerar que entrei na escola aos 4 anos de idade com a alfabetiza\u00e7\u00e3o aos 5 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas escolas, eu era sempre a ca\u00e7ula, acho at\u00e9 hoje que sofro de ca\u00e7ulismo, mesmo agora que sou quase decana de meu departamento. Hoje me considero uma colecionadora de instrumentos musicais e aprendizados. Curiosa, me aproximo de tudo que tem m\u00fasica e acho que a sensibilidade musical \u00e9 parte da humaniza\u00e7\u00e3o das pessoas. Vamos rir um pouco: talvez por isso eu n\u00e3o seja afeita ao \u201cbate-estaca\u201d, mas entendo o apelo corporal da batida.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 tive a oportunidade de orientar muitos alunos de mestrado que eram \u00f3timos musicistas em instrumentos de corda, viol\u00e3o, violino e berimbau. Pessoas que tem um bom &#8220;ouvido&#8221; para a polifonia e as disson\u00e2ncias constitutivas do mundo social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre a escolha de mestrado em Antropologia Social e sobre a escolha do objeto de pesquisa. Deu-se quando cursava o mestrado ou j\u00e1 pensava no tema durante a gradua\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fiz muitas disciplinas da gradua\u00e7\u00e3o buscando pensar nessa \u00e1rea de estudos rurais, como comentei, e depois fui bolsista de Sociologia nas pesquisas sobre quest\u00f5es rurais e de expans\u00e3o de fronteira agr\u00edcolas no Brasil. Esse avan\u00e7o sobre terras tradicionais no s\u00e9culo xx, a \u201cmarcha para o oeste\u201d, eram temas que fui me aproximando e depois \u201cabandonando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale dizer que a antropologia participava dessa grande preocupa\u00e7\u00e3o sobre uma transi\u00e7\u00e3o brasileira e populacional da \u00e1rea rural para o urbano nos anos 60 e 70, observando os impactos da industrializa\u00e7\u00e3o no campo. J\u00e1 nos anos 80, isso cedia espa\u00e7o para estudos sobre urbaniza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o e tinham como tema a proletariza\u00e7\u00e3o e o trabalho na informalidade. Da\u00ed desdobrando-se para pensar outras formas contra-hegem\u00f4nicas de habitar o mundo e de resistir aos \u201cdesenvolvimentismos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, nos anos 80 at\u00e9 90, os alunos, e eu mesma, fomos motivados a buscar campos de pesquisa na cidade, algo que veio a destacar a forma\u00e7\u00e3o de graduandos e mestrandos na antropologia da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<p>Importante dizer que meu radar estava ligado nas professoras mulheres. Eu fiz quest\u00e3o de contar essa hist\u00f3ria das mulheres em meu memorial pois foram elas &#8211; minhas professoras na \u00e9poca: Claudia, Noemi, Daisy e Ondina &#8211; que sinalizavam um caminho interessante na antropologia. Enfatizei no meu memorial, j\u00e1 que hist\u00f3rias oficiais posicionam os homens construtores das pol\u00edticas acad\u00eamicas.&nbsp; Ali\u00e1s, nos anos 80, Daisy Barcellos, Noemi Brito e Claudia Fonseca atuavam em bloco nas disciplinas que nos levam a campo j\u00e1 no in\u00edcio do curso e no qual me integrei quando me tornei professora.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o fosse isso, eu poderia ter mudado para o curso de Hist\u00f3ria. A professora Ema Julia Massera que retornou ao Uruguai com o final da ditadura, para l\u00e1 se tornar uma profissional de refer\u00eancias nas pol\u00edticas educacionais de seu pa\u00eds. No primeiro semestre encontrei Maria Luiza Martini nas aulas de Brasil. Tinha algo estranho naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os alunos queriam aprender hist\u00f3ria do Brasil que n\u00e3o tiveram nos seus bancos escolares e a professora queria nos provocar a pensar na constru\u00e7\u00e3o de narrativas e bases documentais da historiografia. Enquanto eles se entendiam, cancelei a disciplina e voltei s\u00f3 no ano seguinte, quando j\u00e1 tinha um tema rural em m\u00e3os e podia dialogar com Maria Luiza sob um interesse preciso. Foi um reencontro muito legal. Elas me chamavam aten\u00e7\u00e3o no primeiro semestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, se for listar professores que me marcaram, a lista teria mais mulheres que homens. Elas eram muito mais empolgadas em sala de aula. Suas abordagens em aula sobre an\u00e1lise de pressupostos dos autores e \u00eanfases na leitura cr\u00edtica estavam em continuidade ao que eu fui familiarizada no ensino m\u00e9dio. Mas, \u00e9 claro, o campo com gente contando suas hist\u00f3rias vividas \u00e9 sempre mais emocionante e eu fui olhando a hist\u00f3ria oral e compreendendo que na antropologia, nesse sentido, teria mais instrumentos e aventuras mais interessantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho na antropologia me veio atrav\u00e9s de outras professoras. Daisy Barcellos foi minha orientadora, mas nunca fui sua aluna em aula. Ela ofertava uma disciplina sobre desvio e trabalhava com institui\u00e7\u00f5es totais. A essa altura, voc\u00ea deve lembrar que minha m\u00e3e fez psicologia e tivera seus pr\u00f3prios est\u00e1gios em cl\u00ednicas privadas com pacientes que tinham cometido crimes e no Hospital psiqui\u00e1trico S\u00e3o Pedro. Desse campo, eu tinha uma respeitosa dist\u00e2ncia. Fui aluna de Noemi Brito, Claudia Fonseca e Ondina Leal e, em todas as ocasi\u00f5es, a pol\u00edtica da antropologia era de orientar trabalhos de campo no ex\u00edguo tempo de um curso de gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como estava imersa no Projeto Itapu\u00e3, fui escolhendo eletivas que tinham o \u201cmundo rural\u201d, te\u00f3rica e historiogr\u00e1fica no centro das aten\u00e7\u00f5es. No final da gradua\u00e7\u00e3o, eu tinha dois caminhos. Um interesse e forma\u00e7\u00e3o sobre coloniza\u00e7\u00e3o de novas terras e expans\u00e3o de fronteira e imigra\u00e7\u00e3o, como bolsista do soci\u00f3logo mais antrop\u00f3logo da \u00e9poca, o professor Jos\u00e9 Vicente dos Santos. Jos\u00e9 Vicente tinha uma intera\u00e7\u00e3o com os professores do Museu Nacional, de Afr\u00e2nio Garcia a Moacir Palmeira ou mesmo Ligia Sigaud que n\u00e3o faziam fronteiras entre sociologia e antropologia para pensar os movimentos sociais no campo.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Foi atrav\u00e9s do tema rural que me aproximei de Ondina. Ela estava em um momento de trabalho de campo do doutorado e me aproximo dela em aula, em aula ela tamb\u00e9m refere aos alunos sobre seus interesses de pesquisa e mobiliza meu interesse pelo pampa. Ali\u00e1s, uma \u00e1rea que \u00e9 fronteiri\u00e7a como minha cidade natal.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas ci\u00eancias sociais, eu seguia o caminho das mulheres que me inspiravam. Hoje vejo que professores empolgados s\u00e3o os que empolgam os alunos e, \u00e9 evidente, mais uma meia d\u00fazia de vari\u00e1veis n\u00e3o controladas.<\/p>\n\n\n\n<p>O mestrado foi uma forma\u00e7\u00e3o em continuidade ao que conhecia na gradua\u00e7\u00e3o e pude resgatar meu interesse musical atrav\u00e9s da hist\u00f3ria da boemia na cidade inscrita na experi\u00eancia urbana e nas vozes masculinas. \u00c9 uma disserta\u00e7\u00e3o sobre masculinidade, orientada por Ondina. Afinal, sua imers\u00e3o entre pe\u00f5es de est\u00e2ncia acaba destacando os debates sobre g\u00eanero e masculinidade. Neste caminho, busquei ouvir hist\u00f3rias nos bares de frequ\u00eancia majorit\u00e1ria de homens, os botecos da cidade baixa que j\u00e1 nem existem mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, as territorialidades negras da cidade eram alcan\u00e7adas pela antropologia como experi\u00eancias culturais da identidade negra. Somente no final dos anos 90, a luta quilombola e as pr\u00f3prias territorialidades de comunidades negras foram consideradas e reconhecidas por mecanismos institucionais, inclusive para bloquear as desterritorializa\u00e7\u00f5es for\u00e7adas por esbulho ou do avan\u00e7o &#8220;desenvolvimentista&#8221; impetradas por institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O tema passa, atrav\u00e9s de Daisy Barcellos, a ser parte da forma\u00e7\u00e3o dos antrop\u00f3logos, com a realiza\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio de Morro Alto em Os\u00f3rio\/RS.&nbsp; Depois deste, outros relat\u00f3rios foram demandados para grupos de pesquisa diversos na UFRGS. Ainda que sobre uma suspei\u00e7\u00e3o entre os pares de que essa seria uma antropologia &#8220;meramente&#8221; aplicada. Essa tem\u00e1tica, junto com a pr\u00e1tica de per\u00edcia em terras p\u00fablicas para regulariza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ind\u00edgenas, mudaram a cena na antropologia brasileira nos anos 2000.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras d\u00e9cadas do nosso s\u00e9culo reposicionaram esses estudos sobre a experi\u00eancia de comunidades negras e a pr\u00f3pria antropologia brasileira. Isso se deve a uma intera\u00e7\u00e3o importante com os movimentos sociais e com setores da ci\u00eancia jur\u00eddica, na constitui\u00e7\u00e3o de 1988, e no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. Criado a partir de um corpo de juristas ligado \u00e0 advocacia da Uni\u00e3o, o MPF se encarrega da defesa constitucional do cidad\u00e3o sobre viola\u00e7\u00f5es impostas por institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que corporificam o estado. Ou seja, recruta em \u00f3rg\u00e3o de defesa do estado a primeira gera\u00e7\u00e3o que deveria fazer o inverso e abre concursos e cursos para que novos perfis de juristas possam atar em prol da promo\u00e7\u00e3o da cidadania, basicamente, buscando reparar as neglig\u00eancias e bloquear o ciclo permanente de viol\u00eancias cometidas sob o resguardo de l\u00f3gicas estatais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora no campo jur\u00eddico a tem\u00e1tica venha carregada de no\u00e7\u00f5es de \u201cdireitos de minorias\u201d, na antropologia passa a ser pensada como parte das pol\u00edticas de reconhecimento e repara\u00e7\u00f5es. Embora versando sobre um dado \u201csegmento\u201d da sociedade, revela-se uma experi\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 somente um eco do passado a ser tratado no presente, mas uma express\u00e3o do racismo institucional e estrutural presente na sociedade brasileira.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como a antropologia brasileira passa a interagir com demandas sociais formalizadas e previstas constitucionalmente, uma outra renova\u00e7\u00e3o na antropologia se dar\u00e1 a partir do debate e da implementa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es afirmativas. Tais movimentos v\u00eam transformando nossa compreens\u00e3o sobre a antropologia, potencializando novas abordagens e exigido um exerc\u00edcio de cr\u00edtica aos instrumentos de bordo dos\/das pesquisadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu me vejo privilegiada em poder testemunhar, nessa caminhada, tais transforma\u00e7\u00f5es que saem dos debates universit\u00e1rios e p\u00fablicos. Acredito que o interesse pela antropologia, e pelo que ela trazia de novo me envolveram na antropologia e, atualmente me animam a aprender sobre esses outros modos de pensar e atuar, a partir desse caminho trilhado.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong>Depois disso, a senhora foi para Europa, especificamente Madri e, mais tarde, Portugal para fazer seus dois p\u00f3s-doutorados. O que te levou para outro hemisf\u00e9rio, quais foram as tuas impress\u00f5es tanto do ensino quanto das duas sociedades e o que voc\u00ea trouxe para c\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br>Durante o doutorado eu fiz muitas coisas ao mesmo tempo: um casamento, uma tese e um filho, n\u00e3o necessariamente nessa ordem. Quando busco um p\u00f3s doc, j\u00e1 tinha 10 anos de UFRGS, havia retornado \u00e0 doc\u00eancia fazia 4 anos e tinha dois anos como doutora, iniciando meu v\u00ednculo ao PPGAS. Meu filho alcan\u00e7ava a idade escolar, pronto para iniciar a alfabetiza\u00e7\u00e3o e meu marido que ingressava no seu doutorado, com a perspectiva de trabalho de arquivo no exterior. Essa \u00e9 uma orquestra a considerar nessa composi\u00e7\u00e3o no mundo acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha necessidade e meta era a de intensificar alguns temas que eu havia desenvolvido no doutorado. Embora j\u00e1 houvesse o &#8220;doutorado sandu\u00edche&#8221; com est\u00e1gios no exterior durante o doutorado, eu segui o conselho de meu orientador e fiz uma imers\u00e3o em trabalho de campo. Al\u00e9m de curtas perman\u00eancias de pesquisa no exterior, basicamente nas f\u00e9rias para consulta bibliogr\u00e1fica. \u00d3bvio que muitas delas eram viagens em fam\u00edlia, quando o filho ainda n\u00e3o estava em idade escolar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta disso, sempre disse aos meus orientandos e orientandas que tem de pensar na vida familiar como parte de sua vida acad\u00eamica. Por experi\u00eancia. Inclusive quando as mulheres manifestam que querem planejar a gravidez depois de alguma etapa escolar, como se fosse condi\u00e7\u00e3o para fazer sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica no mestrado e doutorado. J\u00e1 tive alunas e alunos com filhos pequenos e com suporte coletivo e reconhecimento institucional de suas din\u00e2micas de vida extremamente importantes e igualmente custosas, mas podem sinalizar alternativas mais complexas que ren\u00fancias a maternidade e paternidade. Se isso fosse a regra, a universidade seria um monast\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje temos tanta facilidade com peri\u00f3dicos on-line que esquecemos que o portal de peri\u00f3dicos da CAPES n\u00e3o alcan\u00e7ava os diversos centros de estudo na am\u00e9rica latina e mundo isl\u00e2mico como o faz a biblioteca em papel, dispon\u00edvel no AECI (Ag\u00eancia espanhola de coopera\u00e7\u00e3o internacional) em Madri. L\u00e1 temos uma vis\u00e3o privilegiada da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica atual na am\u00e9rica latina e caribe, e tamb\u00e9m dos pa\u00edses isl\u00e2micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Transformo ent\u00e3o minhas incurs\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o pontuais, realizadas durante o doutorado, junto a biblioteca do AECI e na sua biblioteca isl\u00e2mica, em um novo per\u00edodo de pesquisa. O que n\u00e3o prev\u00edamos \u00e9 que tudo ainda era muito caro. A Europa do Euro era cara, o real n\u00e3o era o mesmo que animara o turismo internacional nos anos 90. Ent\u00e3o, mesmo com a licen\u00e7a da universidade e planejamentos pr\u00e9vios, o tempo deveria ser aproveitado ao m\u00e1ximo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro p\u00f3s-doc desenvolvi um novo interesse de pesquisa. Pude delinear uma outra abordagem sobre a experi\u00eancia imigrat\u00f3ria contempor\u00e2nea a partir dos palestinos com trabalho de campo, estudos de fam\u00edlias e estrat\u00e9gias de imigra\u00e7\u00e3o transnacional por parte dos imigrantes. Desse modo, o p\u00f3s-doc me ajudou a delinear minha inser\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o nesse campo de estudos na antropologia das imigra\u00e7\u00f5es, pensando o que chamei de estudos sobre imigra\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Pude me distanciar de uma vertente da antropologia que pensara as imigra\u00e7\u00f5es a partir da forma\u00e7\u00e3o social e hist\u00f3rica do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo p\u00f3s-doc, de apenas 90 dias (em ano bissexto para aproveitar cada dia do recesso de ver\u00e3o!), foi pensado como um tempo para trabalho de campo em Madri. Planejado a partir de uma viagem de trabalho a Tel Aviv, constitui uma proposta para um p\u00f3s-doc que coletava informa\u00e7\u00f5es e entrevistas com imigrantes latino-americanos entre as mudan\u00e7as legais que incidiam sobre a gest\u00e3o estatal e da Uni\u00e3o Europeia na Espanha p\u00f3s Aznar.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas experi\u00eancias me permitiram criar novas possibilidades de pesquisa sobre como as leis imigrat\u00f3rias, as rotinas burocr\u00e1ticas da documenta\u00e7\u00e3o expressavam novas formas estatais de controle imigrat\u00f3rio a partir de um conjunto de tecnologias de governamentalidade das imigra\u00e7\u00f5es.&nbsp; A longo prazo, isso vai delineando meu livro autoral de 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro p\u00f3s-doc contou com o apoio das ag\u00eancias de fomento do Brasil e Portugal CAPES\/FNIS e foi coordenado por Helena Machado e Cl\u00e1udia Fonseca. Os p\u00f3s-docs t\u00eam uma face vis\u00edvel em nossos curr\u00edculos e publica\u00e7\u00f5es, inclusive na concentra\u00e7\u00e3o de nossa produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica nos anos seguintes. Por vezes s\u00e3o pontos de virada e por vezes uma concentra\u00e7\u00e3o mais duradoura nos estudos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe dizer, que nessas viagens o planejamento era composto de uma fam\u00edlia, um filho que iniciava a alfabetiza\u00e7\u00e3o, depois um momento em que meu campo coincide com todas as f\u00e9rias de ver\u00e3o dele (e nosso recesso acad\u00eamico) e, por fim, no terceiro p\u00f3s-doc, ele j\u00e1 estava maior de idade com suas prioridades. Mais do que resultados, aprendemos a \u201ccomo\u201d fazer dessas experi\u00eancias vividas novos aprendizados. Isso nos ajuda tamb\u00e9m a impulsionar alunos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o a se organizarem para trilhar caminhos acad\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Essa \u00e9 tend\u00eancia de meus colegas de departamento que, com certeza, n\u00e3o foram somente exemplos dessa busca de intera\u00e7\u00f5es internacionais mas tamb\u00e9m me deram suporte e seguem fazendo isso com os estudantes, para que possam ampliar suas refer\u00eancias na antropologia olhando para um mundo sempre mais amplo que possa atender \u00e0s suas inquieta\u00e7\u00f5es. No meu caso, o eixo principal foram percursos sempre entrela\u00e7ados com a vida familiar, viajando com esposo e filho, e centrando nas experi\u00eancias internacionais sul-americanas e caribenhas ou, se preferirem, ibero-americanas. E, isso tamb\u00e9m \u00e9 minha preocupa\u00e7\u00e3o quando os estudantes e as estudantes com fam\u00edlias considerem, como viv\u00ed, se vejam inclu\u00eddos nessas possibilidades de interc\u00e2mbios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sua pesquisa \u201c Imigrantes e refugiados no Brasil: interculturalidade e acesso ao ensino p\u00fablico brasileiro\u201d sofreu alguma influ\u00eancia dos seus p\u00f3s-docs? Como voc\u00ea chegou a esse tema e pode falar um pouco sobre esse trabalho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender o que me leva aos p\u00f3s-docs, com certeza \u00e9 preciso saber que n\u00e3o \u00e9 somente um &#8220;tema de pesquisa&#8221; trilhado na minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Se h\u00e1 const\u00e2ncia e longevidade na pesquisa \u00e9 porque, em geral, organizamos esses momentos, essas &#8220;\u00e1reas de recuo&#8221; no caminho, para garantir o f\u00f4lego e realizar o trabalho acad\u00eamico com a qualidade necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Como mencionei, foram os p\u00f3s-docs que me permitiram abrir um novo campo de investiga\u00e7\u00e3o sobre leis imigrat\u00f3rias e documenta\u00e7\u00e3o de imigrantes. Afinal, nas duas vezes que permaneci em Madrid esse era o tema central da Uni\u00e3o Europeia e da Espanha, em especial por ter uma conex\u00e3o, como imp\u00e9rio, com o Peru e Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivenciei as longas filas de regulariza\u00e7\u00e3o nas \u201ccomissarias da policia\u201d na Espanha. Filas que eram organizadas nas cal\u00e7adas, dobrando quadras, atravessando a rua, em torno do bairro. Depois, foram substitu\u00eddas por agendamentos eletr\u00f4nicos e fizeram a&nbsp; transposi\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o para bairros mais afastados. Isso provocou o desmembramento das filas entre os imigrantes da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, \u201cos comunit\u00e1rios\u201d (os romenos estavam dando muito o que falar) dos \u201cn\u00e3o comunit\u00e1rios\u201d (os sul americanos) atendidos em lugares diferentes da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, se no doutorado a tese sobre os palestinos no extremo sul do Brasil me ensinara sobre a vida familiar multilocal, tamb\u00e9m me deixaram in\u00fameras perguntas sobre suas rotas, impedimentos de travessias, documentos de tr\u00e2nsito, o que eu pude desdobrar como novas perguntas de trabalho de pesquisa anos depois com \u201clatino americanos\u201d, equatorianas na Espanha (em 2003 e 2007) e com as haitianas (em 2013) em Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, eu iniciei um percurso em Porto Alegre, junto a minhas orientandas. Nesse per\u00edodo, interagi com uma rede de acolhimento de imigrantes que se expandia a partir da hist\u00f3rica atua\u00e7\u00e3o das congrega\u00e7\u00f5es scalabrianas. Vou percorrendo essa rede e assumindo responsabilidades p\u00fablicas. Fui chamada a audi\u00eancias em Bras\u00edlia no minist\u00e9rio da justi\u00e7a (2013) para debater com a comiss\u00e3o de especialistas que constitu\u00eda as bases de uma nova lei imigrat\u00f3ria para substituir a lei do estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, fui representante da UFRGS na cria\u00e7\u00e3o do COMIRAT do RS e participei como delegada eleita na confer\u00eancia estadual para participar da primeira confer\u00eancia nacional chamada pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a \u2013 a COMIGRAR em S\u00e3o Paulo. Paralelo a isso, participava das a\u00e7\u00f5es de extens\u00e3o no bairro Sarandi organizadas pelo GAIRE\/SAJU da UFRGS, para ofertar aulas de portugu\u00eas para haitianos e haitianas no bairro. Foram dois anos intensos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Sarandi, eu come\u00e7o com o tema do acesso \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e a rede SUS para as haitianas. Estou muito preocupada com as dificuldades idiom\u00e1ticas que os servi\u00e7os brasileiros t\u00eam para entender outras culturas e idiomas. E percebi que, para al\u00e9m disso, a quest\u00e3o racial e pressupostos classistas permeavam o dif\u00edcil di\u00e1logo entre os servi\u00e7os e seus mais recentes usu\u00e1rios. Mas acho que nesse ponto \u201cainda estou devendo para a tabela\u201d, h\u00e1 muito a ser pensado.<\/p>\n\n\n\n<p>O tema da educa\u00e7\u00e3o surge em campo, e com minhas pr\u00f3prias orientandas e orientandos, muitos deles sulamericanos do Uruguai, Argentina, Col\u00f4mbia e Venezuela. Minha aproxima\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o decorre dessa reflex\u00e3o sobre l\u00f3gicas do Estado corporificadas em agentes e pr\u00e1ticas burocr\u00e1ticas. Atualmente, \u00e9 meu orientando da gradua\u00e7\u00e3o o aluno Horson, haitiano, acad\u00eamico de hist\u00f3ria e bolsista deste projeto de pesquisa, um dos ingressantes como acad\u00eamico refugiado, quem mais me ensina sobre o campo da burocracia na educa\u00e7\u00e3o e na pr\u00f3pria UFRGS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, seja na pesquisa, seja no monitoramento de pol\u00edticas de inclus\u00e3o, estou com as antenas ligadas para as pr\u00e1ticas institucionais e administrativas que atravessam o caminho de imigrantes. Isso me ajuda a pensar e buscar desmantelar armadilhas institucionais nos programas de inclus\u00e3o, observando como se realizam na pr\u00e1tica e nas vidas dos benefici\u00e1rios. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o do n\u00facleo de pesquisa (NACI) desde 2005, em diversos \u00e2mbitos e pesquisas etnogr\u00e1ficas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Atualmente, voc\u00ea est\u00e1 nos Estados Unidos pesquisando o acesso ao ensino p\u00fablico atrav\u00e9s de processo seletivos especiais e a\u00e7\u00f5es afirmativas, conhecendo as pol\u00edticas de Brown, Emory e William and Mary na Virginia. Gostaria de explicar esse projeto em andamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estou em um curto per\u00edodo de p\u00f3s-doc. Permane\u00e7o aqui por quatro meses para conhecer a Brown University em Providence (Rhode Island), a Emory (Atlanta) e William and Mary (Virginia). Tenho feito uma imers\u00e3o nos temas das pol\u00edticas antirracistas no \u00e2mbito educacional atenta aos desenhos institucionais adotados aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Com certeza, foi a passagem como coordenadora da CAF, ou antes na audi\u00eancia p\u00fablica de 2010 no Supremo Tribunal Federal, ou pelos relat\u00f3rios de quilombo em 2008 convergem para tratar das experi\u00eancias dos imigrantes com burocracias estatais. Foi o que me trouxe at\u00e9 esse ponto para um outro p\u00f3s-doc.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, \u00e9 a oportunidade de viver um momento de &#8220;jogo de espelhos&#8221;, analisar melhor minha experi\u00eancia vivida atrav\u00e9s das experi\u00eancias de outros, e estruturar um livro autoral. Trata-se de refletir, mais uma vez, sobre a arena da burocracia nas pol\u00edticas de inclus\u00e3o. Mas, desta vez, olhando para o &#8220;lado de c\u00e1 do balc\u00e3o\u201d, examinando as l\u00f3gicas institucionais e jur\u00eddicas que pude acompanhar e que, ao meu ver, atravessam e tencionam as pol\u00edticas de inclus\u00e3o no ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Um p\u00f3s-doc \u00e9 uma necessidade de suspender o tempo para tal imers\u00e3o, pensar por outros caminhos, se repensar para poder oferecer novas reflex\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E por fim, qual a mensagem que a senhora acha importante deixar para os jovens soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos do Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que entrevistas como essa me fazem retomar as reflex\u00f5es que escrevi em 2018, quando da elabora\u00e7\u00e3o do memorial para progress\u00e3o como titular na carreira. L\u00e1 fui convocada a fazer uma autoan\u00e1lise sobre minha trajet\u00f3ria. Os memoriais est\u00e3o se tornando uma boa fonte de pesquisa sobre a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o a partir de relatos detalhados do envolvimento dos professores com ensino, pesquisa, extens\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o da universidade. Mas tamb\u00e9m uma boa exig\u00eancia de autoan\u00e1lise para professores que atingem muitos anos de UFRGS, no meu caso completarei em janeiro de 2023, 30 anos de doc\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao meu ver, ajuda a oferecer uma vis\u00e3o cr\u00edtica sobre n\u00f3s mesmos na vida institucional e uma autoan\u00e1lise que revisita como fomos feitos atrav\u00e9s das pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o disponibilizadas pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Olhando suas transforma\u00e7\u00f5es, nos transformamos. Nos anos do REUNI percebi um IFCH com novos professores, formados em outras universidades, um IFCH e uma UFRGS menos localista, recebendo professores concursados de outros estados da federa\u00e7\u00e3o e trazendo tamb\u00e9m experi\u00eancias institucionais de outros lugares. Essa \u00e9 uma mudan\u00e7a das vagas do REUNI, mas tamb\u00e9m me parece mostrar o qu\u00e3o atrativa a UFRGS se tornou no cen\u00e1rio nacional, com programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o destacados em todas as \u00e1reas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que n\u00e3o posso dar conselhos, eles n\u00e3o s\u00e3o \u00fateis a jovens, s\u00e3o apenas paliativos. Acho que se sei algo ainda sobre jovens, eles n\u00e3o gostam de conselhos. Preferem oportunidades para se experimentar. Mas ofere\u00e7o uma pondera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma mensagem. Julgo importante olhar com cuidado para n\u00e3o criarmos uma ideia de universidade como tendo um mundo \u201cde dentro\u201d e um mundo\u201c de fora\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A universidade p\u00fablica \u00e9 algo em disputa, sempre foi, de seus sentidos e miss\u00e3o. O tal \u201cmundo acad\u00eamico\u201d \u00e9 uma constela\u00e7\u00e3o e um campo de disputas, n\u00e3o \u00e9 um castelo murado. N\u00e3o podemos viver a ilus\u00e3o de que a universidade est\u00e1 fora da sociedade e sim que ela tem em si rela\u00e7\u00f5es parecidas com a sociedade brasileira, da qual se alimenta, \u00e9 utilizada mais por alguns segmentos que outros. Nesse sentido, isso merece ser transformado em prol de uma sociedade em busca de uma democratiza\u00e7\u00e3o de fato. Como se faz isso? Isso \u00e9 o nosso grande e bom enigma da luta cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>No que tange a antropologia, tudo o que eu posso dizer aos acad\u00eamicos seria preso ao &#8220;meu&#8221; percurso vivido e assim um tanto intranspon\u00edvel. O certo \u00e9 que aprendi que o mundo da antropologia \u00e9 mais vasto que o que nossa vista alcan\u00e7a durante as primeiras etapas da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Hoje, a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica parece estar mais sintonizada com as trajet\u00f3rias diversas dos alunos. Pelo menos, \u00e9 nisso que aposto como uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o nas formas de elabora\u00e7\u00e3o de conhecimento. Mas isso deve ser buscado. N\u00e3o chegar\u00e1 \u00e0 correio, nem pela rede social, nem pelas m\u00e3os de professores entusiastas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dito proverbial dos Tizangara tem me ajudado a pensar trajet\u00f3rias e a minha pr\u00f3pria atitude:<em>&nbsp;&#8220;O mundo n\u00e3o \u00e9 o que existe, mas o que acontece\u201d<\/em>. Ao inv\u00e9s de dar conselhos, os prov\u00e9rbios deixam mensagens enigm\u00e1ticas.&nbsp; Mas, para seguir esse caminho, s\u00e3o muitos os estudantes que me ajudam a pensar a universidade, a me posicionar e escutar as incompletudes de um percurso acad\u00eamico. \u00c9 tamb\u00e9m nesta intera\u00e7\u00e3o que eu resisto a ser uma mera expectadora do mundo e observo com entusiasmo suas transforma\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora do livro&nbsp; &#8221; Imigrantes ou Refugiados?&#8221; e professora do Departamento e PPG em Antropologia, Denise Fagundes Jardim completa 30 anos de UFRGS ano que vem, em entrevista, ela conta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0},"categories":[164],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2008"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2009,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008\/revisions\/2009"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}