{"id":924,"date":"2020-10-30T17:15:02","date_gmt":"2020-10-30T20:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/?p=924"},"modified":"2020-10-30T18:43:04","modified_gmt":"2020-10-30T21:43:04","slug":"nota-para-discussao-sem-agenda-imediata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/nota-para-discussao-sem-agenda-imediata\/","title":{"rendered":"Nota para discuss\u00e3o sem agenda imediata"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Silvia Altmann, professora do Departamento de Filosofia da UFRGS. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Como a cada quatro anos, nosso \u00faltimo per\u00edodo foi conturbado em torno de discuss\u00f5es sobre procedimentos de escolha de dirigentes em nossa Universidade. Eu, como h\u00e1 muito tempo, continuo sem opini\u00e3o clara sobre o assunto e, por essa raz\u00e3o, sobretudo agora que a quest\u00e3o deliberativa j\u00e1 est\u00e1 superada, gostaria de continuar o debate. E gostaria de fazer isso aproveitando os textos dos colegas <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/2020\/10\/30\/teoria-particular-do-elitismo-academico-equivocos-e-inverdades-em-uma-defesa-da-disparidade\/\">Fernando Nicolazzi<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/2020\/10\/29\/teoria-geral-da-reuniao-de-departamento-seguida-de-tres-razoes-contrarias-a-paridade\/\">Rog\u00e9rio Severo<\/a>, a quem agrade\u00e7o a disposi\u00e7\u00e3o e clareza na exposi\u00e7\u00e3o de suas posi\u00e7\u00f5es. Gostaria de continuar a conversa apresentando algumas discord\u00e2ncias ou antes hesita\u00e7\u00f5es quanto a alguns dos pontos de ambos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"494\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs-1024x494.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-925\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs-1024x494.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs-300x145.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs-768x371.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs-600x290.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/blogdoifch\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/conselhouiversitarioufrgs.jpg 1050w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Em primeiro lugar, vejo o debate por quest\u00f5es de princ\u00edpio de modo um pouco diferente de meu colega Rog\u00e9rio. No caso particular mencionado, das nossas discuss\u00f5es em torno da sucess\u00e3o para dire\u00e7\u00e3o, minha posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 de princ\u00edpio, por n\u00e3o considerar democraticamente justific\u00e1vel n\u00e3o seguirmos a lei em quest\u00e3o (sei que, como ressaltou o colega Fernando, pode haver controv\u00e9rsias de interpreta\u00e7\u00e3o, mas como esse n\u00e3o \u00e9 ponto que me interessa aqui, vou deixar isso de lado). \u00c9 bem verdade que essa posi\u00e7\u00e3o de, diante da possibilidade de controv\u00e9rsia, seguir a orienta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria procuradoria da UFRGS, foi refor\u00e7ada pelo receio de abrir brechas para questionamentos jur\u00eddicos em um momento de ataque \u00e0 Universidade. Ainda assim, pelo menos para mim a postura foi tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de princ\u00edpios democr\u00e1ticos dos quais acho que n\u00e3o devemos abrir m\u00e3o. Do mesmo modo, minha resist\u00eancia \u00e0 paridade tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o de princ\u00edpio, n\u00e3o uma quest\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o com efeitos imediatos, mas de preocupa\u00e7\u00e3o quanto aos princ\u00edpios no qual a proposta da paridade pretende se apoiar e de suas consequ\u00eancias a longo prazo para a vida universit\u00e1ria. Por serem para mim quest\u00f5es de princ\u00edpios (ainda que sujeitas a d\u00favidas), acho tamb\u00e9m natural que para muitos, ao contr\u00e1rio, a defesa da paridade seja um princ\u00edpio pelo qual vale a pena marcar posi\u00e7\u00e3o, ainda que muito provavelmente n\u00e3o fa\u00e7a diferen\u00e7a imediata no presente contexto. Assim, embora desgastantes, essas discuss\u00f5es s\u00e3o importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">No que diz respeito \u00e0 paridade ou voto universal, concordo que n\u00e3o podemos desconsiderar as diferentes contribui\u00e7\u00f5es dos diferentes setores que comp\u00f5em a Universidade e concordo tamb\u00e9m que h\u00e1 que se levar em conta que os professores s\u00e3o os mais diretamente ligados \u00e0 sua atividade fim de ensino, pesquisa e extens\u00e3o. No entanto, at\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o disso, muitas vezes h\u00e1 quest\u00f5es important\u00edssimas ao bom funcionamento na universidade \u00e0s quais n\u00e3o \u00e9 dada a devida aten\u00e7\u00e3o por docentes, mas que s\u00e3o vividas e acompanhadas de perto em especial por t\u00e9cnicos-administrativos; outras s\u00e3o vividas e percebidas em especial pelos discentes. Infelizmente n\u00e3o creio que possamos sempre contar com bom senso no sentido de levar em conta essas contribui\u00e7\u00f5es e por isso n\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que procedimentos como os de vota\u00e7\u00e3o sejam uma tentativa assegurar que diferentes vozes sejam ouvidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Do mesmo modo, embora eu tamb\u00e9m concorde que a principal contribui\u00e7\u00e3o social da Universidade s\u00e3o o ensino e a ci\u00eancia, n\u00e3o me parece descabido, como bem apontado pelo colega Fernando, dizer que certos outros princ\u00edpios norteadores de ordem social e pol\u00edtica devam tamb\u00e9m ser levados em conta na defini\u00e7\u00e3o de seus rumos e, mais uma vez, me parece desej\u00e1vel procurar que isso seja assegurado sem dependermos do bom senso dos docentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Por isso, n\u00e3o me parece que uma elei\u00e7\u00e3o entre docentes seja o melhor meio de escolha de dirigentes. \u00c9 bem verdade que 70% n\u00e3o \u00e9 100% e que, caso os docentes estejam divididos, t\u00e9cnicos e discentes \u00e9 que far\u00e3o a diferen\u00e7a. Mas, ainda assim, me parece muito estranho dizer: \u201ctudo bem, voc\u00eas podem votar, mas s\u00f3 vale 15%\u201d. Por isso, acho compreens\u00edvel que, como em consultas anteriores que simplesmente aplicavam a pondera\u00e7\u00e3o legal, t\u00e9cnicos e discentes tenham optado pela absten\u00e7\u00e3o. E, mais importante, acho desej\u00e1vel que a Universidade tenha espa\u00e7o assegurado para vozes distintas das dos professores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">N\u00e3o me parece, contudo, que paridade ou voto universal seja a solu\u00e7\u00e3o. Embora de fato haja muitos t\u00e9cnicos diretamente envolvidos com ensino e doc\u00eancia, tal envolvimento \u00e9 parte constitutiva da atividade docente e presente no pr\u00f3prio modo de sele\u00e7\u00e3o de docentes, o que n\u00e3o vale necessariamente para todas as atividades de t\u00e9cnicos administrativos. Isso n\u00e3o \u00e9 modo algum desmerecer a contribui\u00e7\u00e3o desse trabalho, mas levar em conta o envolvimento de car\u00e1ter distinto de diferentes contribui\u00e7\u00f5es. A situa\u00e7\u00e3o me parece ainda mais problem\u00e1tica no caso da participa\u00e7\u00e3o estudantil nos procedimentos decis\u00f3rios. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que discentes n\u00e3o tenham o h\u00e1bito de ocupar diversas esferas representativas que lhes est\u00e3o abertas, como a participa\u00e7\u00e3o em reuni\u00f5es de departamento e comiss\u00e3o de gradua\u00e7\u00e3o, por exemplo. Me parece natural que estudantes n\u00e3o se envolvam nesse dia a dia da universidade, e reconhecer isso n\u00e3o \u00e9 de modo algum minimizar a contribui\u00e7\u00e3o de discentes, seja na atividade propriamente discente quanto no seu papel enquanto agentes pol\u00edticos, mas \u00e9 um sinal do tipo de envolvimento que discentes t\u00eam com a universidade. Esferas de representa\u00e7\u00e3o em estratos superiores da administra\u00e7\u00e3o da universidade como o Consun s\u00e3o de fato ocupados por alguns discentes, mas com o foco em pautas que, embora absolutamente leg\u00edtimas e que devem ter seu espa\u00e7o assegurado na Universidade, quando combinadas com quest\u00f5es administrativas s\u00e3o bastante problem\u00e1ticas. Somente a t\u00edtulo de exemplo, me parece ineg\u00e1vel que a resist\u00eancia (absolutamente leg\u00edtima e desej\u00e1vel) \u00e0s pol\u00edticas do MEC contribuiu para a paralisia da UFRGS na ado\u00e7\u00e3o do ensino remoto e na defini\u00e7\u00e3o de nosso novo calend\u00e1rio. Nesse ponto, discordo de meu colega Fernando, que parece achar poss\u00edvel separar a esfera da atividade pol\u00edtica de mandat\u00e1rios de cargos de dire\u00e7\u00e3o da atividade administrativa desses cargos. Essas esferas n\u00e3o s\u00e3o de fato separadas e n\u00e3o sei se poderiam ser separadas no caso da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Qual seria, ent\u00e3o, a boa propor\u00e7\u00e3o em uma consulta \u00e0 comunidade? N\u00e3o fa\u00e7o ideia e gostaria de pelo menos colocar em discuss\u00e3o se deveria ser uma quest\u00e3o de propor\u00e7\u00e3o. J\u00e1 foi mencionado aqui que dever\u00edamos ver os exemplos de grandes universidades. N\u00e3o acho que devamos simplesmente adotar esses exemplos, pois eles podem ser adequados para elas e n\u00e3o para n\u00f3s e sobretudo porque s\u00f3 seguir exemplos pode fechar caminhos. Mas, ainda assim, acho que devemos olhar exemplos. At\u00e9 onde sei, em geral nas grandes universidades os dirigentes n\u00e3o s\u00e3o eleitos, nem pela comunidade nem por docentes. Ent\u00e3o talvez devamos considerar seriamente por que n\u00e3o e levar em conta essas raz\u00f5es na nossa reflex\u00e3o sobre o melhor modo de escolha de cargos diretivos em universidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">De que modo combinar os fins espec\u00edficos na universidade com o espa\u00e7o para as vozes de diferentes pap\u00e9is que contribuem para ela (o que, de resto, deveria tamb\u00e9m de algum modo incluir quem nos sustenta e n\u00e3o ficar restrito \u00e0 comunidade universit\u00e1ria), n\u00e3o sei. Minha pretens\u00e3o era s\u00f3 dar algumas raz\u00f5es para n\u00e3o estar confort\u00e1vel nem com a op\u00e7\u00e3o 70-15-15, nem com a paridade, nem com o voto universal e esperar que possamos continuar esse debate.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00edlvia Altmann, outubro de 2020<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sub>As opini\u00f5es emitidas nos artigos publicados neste espa\u00e7o de opini\u00e3o expressam a posi\u00e7\u00e3o de seu autor e n\u00e3o necessariamente representam o pensamento do IFCH.<\/sub><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Silvia Altmann, professora do Departamento de Filosofia da UFRGS. 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