Nosso trote diz muito sobre nós: que tipo de faculdade queremos ser?

Tradição. Do latim traditio, ou seja, entregar, transmitir. No bom e velho português, segundo dicionário informal: “hábito ratificado pela prática histórica. Passado que indica respeito. Ato contínuo validado por uma transmissão cultural”.

Entrar para uma Faculdade de Direito centenária como a da Universidade Federal do Rio Grande do Sul certamente fará com que você se depare com inúmeras tradições. Desde o prédio histórico, que dizem ser réplica de um castelo alemão, financiado pela maçonaria, até a biblioteca e seus infindáveis tomos escritos por Pontes de Miranda. Pelos corredores, quadros de antigas turmas formadas e algumas/uns de suas/eus ilustres alunas/os, e a Sala da Direção com os retratos de cada um daqueles que já dirigiram essa Unidade (sim, sem flexão de gênero aqui, pois todos, sem exceção, eram/são homens). Mas não, essa não será uma nota saudosista. Para além das histórias sobre o roubo do sino pela turma de 1968, e das muitas outras que você irá ouvir ao longo dos próximos cinco anos, as tradições do castelinho nem sempre devem ser motivo de orgulho.

Trote. Do verbo trotar. Substantivo masculino que, segundo dicionário Aurélio, significa “1. Andadura natural das cavalgaduras, entre o passo ordinário e o galope, a qual se caracteriza pelas batidas regularmente espaçadas, executadas alternadamente por cada par diagonal de patas. 2.Bras. Zombaria a que veteranos das escolas sujeitam os calouros; vaia, flauteio […]”. O termo trote, originário, portanto, do verbo trotar, utilizado para designar o “rito de passagem” aplicado pelas/os veteranas/os aos calouras/os, remete à domesticação deste por aquele, através de práticas, geralmente vexatórias, que a/o inferiorizem. Chamar a/o caloura/o de “bixo” e “bixete”, por exemplo, é sintomático da desumanização impingida tradicionalmente durante o trote.

A saber, o trote é uma tradição medieval, que remonta ao século XII, e, assim, aos primórdios da criação das primeiras Universidades europeias. Naquela época, os calouros (do sexo masculino, afinal as mulheres tiveram direito de acesso ao ensino superior apenas no século XIX) não podiam permanecer na mesma sala de aula que os seus veteranos. Eram também despidos e tinham seus cabelos raspados e roupas queimadas (no intuito de prevenir a proliferação de doenças). No Brasil, o trote foi internalizado como tradição nas Universidades por estudantes portugueses que cursavam, surpreendentemente (ou não), Direito. Inclusive, a primeira morte de um estudante, em decorrência da aplicação do trote, foi em uma Faculdade de Direito.

É sabido, também, tal qual ocorre nas Forças Armadas, que o trote se sustenta com base no sentimento de união despertado pelo sofrimento coletivo suportado pelas/os calouras/os, além, é claro, na possibilidade desta/e vingar, no ano seguinte, a humilhação sofrida, uma vez investido na condição de veterana/o.

Não se pode ignorar, entretanto, que, por vezes, a/o caloura/o anseia pelo trote, como quem anseia por “lavar a alma”, por descontrair, se divertir, após um ano de incansável dedicação aos estudos. É também uma forma de comemorar e integrar-se com as/os novas/os colegas e veteranas/os. Porém, a reflexão que queremos propor não diz respeito a ser a favor ou contra a aplicação do trote (porque esta é uma decisão autônoma da turma), mas sim da maneira como isso tradicionalmente acontece, não só na nossa Faculdade, mas nas Universidades Brasil afora.

A título exemplificativo, podemos falar sobre uma das “brincadeiras” comumente aplicadas durante os primeiros dias do trote, na qual se coloca uma camisinha em um salsicha (ou algo análogo, que faça às vezes de um pênis), com leite condensado na ponta, que as/os calouras/os são obrigados a pegar com a boca e repassar para a/o colega ao lado enquanto as/os veteranos assistem. Nos parece claro que a mulher que é assistida pelo veterano simulando sexo oral está sendo objetificada. Essa é justamente a “graça” da “brincadeira”: ver quem leva “mais jeito pra coisa”. Quanto aos homens, a mesma “brincadeira” oprime por outra via, a homofóbica, através da ridicularização daquele que é visto praticando do sexo oral em um órgão sexual masculino, como se isso ainda fosse algo “anormal” e “diferente”, “engraçado” e o que é pior, humilhante.

Há, ainda, a famosa “ola de bunda” (momento em que as mulheres deitam de bruços no chão e sucessivamente levantam o quadril, uma após a outra) e o da “moeda” (as meninas devem pegar a moeda do chão sem dobrar os joelhos, de costas para os veteranos). Aqui entendemos não ser necessário tecer comentários que evidenciem a existência do sexismo nas “brincadeiras”.

Ora, em tempos em que discussões sobre violações de Direitos Humanos, dentre elas a tortura, a violência contra a mulher e a trans/lesbo/homofobia ganham espaço no cenário social, e, como não poderia deixar de ser, no universo jurídico,entendemos incongruente a prática, por estudantes de Direito, em uma Universidade Pública, de um trote machista, racista, homofóbico e/ou violento. É preciso entender que a/o aluna/o que hoje usufrui de um ensino gratuito possui uma responsabilidade ainda maior para com a sociedade, que, ao fim e ao cabo, está custeando a sua formação. Não é coerente que uma/um estudante em vias de obter graduação em nível superior, perpetue práticas que vão de encontro a princípios que a Constituição Federal, última ratio do ordenamento jurídico brasileiro, preceitua, como o respeito à dignidade da pessoa humana.

Nesse sentido, o CAAR, através da sua atual gestão “Amanhã Será”, consoante decisão do Conselho Geral de Representantes (CGR) em 2012, vem, através desta nota, manifestar-se no sentido de garantir a autonomia das turmas na aplicação trote, bem como das/os calouras/os em participar ou não dele, sem sofrer qualquer tipo de coação, moral ou física, retaliação e opressão de gênero, social e/ou racial. Pedimos às turmas que pretendem aplicar o trote nesse início de semestre que reflitam acerca disso que está sendo colocado, para que esse ritual de iniciação seja se fato integrador, que propicie a interação saudável e responsável entre calouras/os e veteranas/os.

Não coadunemos com um trote que mais ressente do que integra, que mais humilha do que diverte, que é mais sádico do que receptivo. Sejamos, assim, na prática, aquilo que somos no discurso. Defendamos em todos os espaços e a todo o momento, e não só naqueles que nos são confortáveis, os ideais e o respeito que cultivamos pela/o outra/o.

20 pensamentos sobre “Nosso trote diz muito sobre nós: que tipo de faculdade queremos ser?”

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